{"id":43947,"date":"2022-02-16T08:02:00","date_gmt":"2022-02-16T11:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=43947"},"modified":"2022-02-17T10:48:04","modified_gmt":"2022-02-17T13:48:04","slug":"produtivismo-e-disparidades-de-genero-e-raca-na-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/produtivismo-e-disparidades-de-genero-e-raca-na-ciencia\/","title":{"rendered":"Produtivismo e disparidades de g\u00eanero e ra\u00e7a nas Ci\u00eancias da Informa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\" id=\"artigo-bacharel-em-biblioteconomia-pela-ufrgs-leticia-pereira-de-souza-apresenta-percepcoes-de-pesquisadores-sobre-a-logica-produtivista-predominante-na-ciencia-e-seus-impactos-em-mulheres-e-em-pessoas-negras\">Artigo | Bacharel em Biblioteconomia pela UFRGS, Let\u00edcia Pereira de Souza apresenta percep\u00e7\u00f5es de pesquisadores sobre a l\u00f3gica produtivista predominante na ci\u00eancia e seus impactos em mulheres e em pessoas negras<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\">*<em>Por: Let\u00edcia Pereira de Souza<br>*Foto: Gustavo Diehl\/Secom<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m do pr\u00eamio Nobel, o mais famoso, existe uma vasta quantidade de pr\u00eamios destinados a cientistas que se destacam. Essas premia\u00e7\u00f5es est\u00e3o entre as recompensas acad\u00eamicas que visam retribuir os pesquisadores por seu trabalho e sua dedica\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento da ci\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 novidade, contudo, que as premia\u00e7\u00f5es por vezes s\u00e3o alvo de cr\u00edticas, e a falta de diversidade \u00e9 uma delas. Se pensarmos no Nobel, h\u00e1 uma t\u00edmida presen\u00e7a de mulheres (das 947 pessoas que receberam o pr\u00eamio, 58 s\u00e3o mulheres) e uma aus\u00eancia de negros entre os premiados, o que demonstra um grav\u00edssimo problema de diversidade nas vitrines da ci\u00eancia.<em>&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fora o \u00edmpeto pelo desenvolvimento cient\u00edfico no meio acad\u00eamico, essas recompensas atribuem reconhecimento ao pesquisador e s\u00e3o idealmente concedidas pelos pares. Entende-se por sistema de recompensas um conjunto de processos e a\u00e7\u00f5es concretas de avalia\u00e7\u00e3o do desempenho dos cientistas, que deve recompensar aqueles que se ajustam \u00e0s normas da institui\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O soci\u00f3logo Robert Merton elenca que as recompensas acad\u00eamicas podem ser premia\u00e7\u00f5es, cita\u00e7\u00f5es, elei\u00e7\u00e3o para sociedades cient\u00edficas honor\u00edficas, medalhas e pr\u00eamios de v\u00e1rios tipos, nome em c\u00e1tedras de institui\u00e7\u00f5es de ensino e pesquisa. Ainda, a mais difundida e completa forma de reconhecimento acad\u00eamico \u00e9 ter o pr\u00f3prio trabalho usado e explicitamente reconhecido por seus pares.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sistema de recompensa na ci\u00eancia possibilita que o pesquisador se destaque no campo cient\u00edfico. Tal sistema recebe, contudo, forte influ\u00eancia do produtivismo, conceito que surgiu nos Estados Unidos na d\u00e9cada de 1950, a partir da conhecida express\u00e3o &#8220;publicar ou perecer<em>&#8221; (publish or perish).<\/em> A cr\u00edtica ao produtivismo se d\u00e1 em fun\u00e7\u00e3o de o sistema de avalia\u00e7\u00e3o atual atribuir maior valor \u00e0 quantidade de publica\u00e7\u00f5es que \u00e0 qualidade, fazendo com que o pesquisador se submeta a cumprir metas de produ\u00e7\u00e3o com a finalidade de progredir na carreira acad\u00eamica, conseguir financiamento para futuras pesquisas, manter suas bolsas, alimentar o curr\u00edculo ou para obter maior visibilidade no meio acad\u00eamico.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Levando isso em conta e contextualizando com as desigualdades econ\u00f4mica, racial e de g\u00eanero encontradas no Brasil, como os pesquisadores se percebem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 logica produtivista e \u00e0 busca pelo reconhecimento? Pensando nisso, encaminhou-se um formul\u00e1rio com quest\u00f5es abertas e fechadas a todos os pesquisadores da Ci\u00eancia da Informa\u00e7\u00e3o no Brasil, incluindo mestrandos, doutorandos e docentes dos programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Retornaram 93 respostas.&nbsp;Os resultados apontam a predomin\u00e2ncia de pessoas brancas no \u00e2mbito da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancia da Informa\u00e7\u00e3o (58%), e, em rela\u00e7\u00e3o ao g\u00eanero, as mulheres configuram maioria (71%).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando perguntados sobre como, em sua percep\u00e7\u00e3o, a l\u00f3gica produtivista na ci\u00eancia se articula ao sistema de recompensa na ci\u00eancia, a maior parte dos pesquisadores respondeu que acredita na exist\u00eancia de uma rela\u00e7\u00e3o direta entre produzir e ser recompensado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A express\u00e3o que melhor representa essas ocorr\u00eancias \u00e9 a seguinte: <em>\u201c<\/em>A l\u00f3gica produtivista na ci\u00eancia e a recompensa acad\u00eamica sustentam o formato atual que mant\u00e9m uma elite de cientistas, ou seja, quanto mais cita\u00e7\u00f5es e mais publica\u00e7\u00f5es, maior ser\u00e1 o reconhecimento. E as pessoas que mais publicam e consequentemente s\u00e3o mais citadas s\u00e3o, tamb\u00e9m, as que possuem maior &#8216;patroc\u00ednio&#8217; ou t\u00eam condi\u00e7\u00f5es financeiras\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ademais, alguns cientistas percebem que a l\u00f3gica produtivista, ainda que possa recompensar os pesquisadores de alguma forma, possui impactos negativos na sa\u00fade f\u00edsica e mental. Fatores como press\u00e3o, sobrecarga, neurose para produzir, estresse, necessidade de trabalhar incansavelmente em n\u00edveis sobre-humanos e baixa valoriza\u00e7\u00e3o do profissional\/estudante fazem parte das respostas desse grupo de pesquisadores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir de uma estrutura de avalia\u00e7\u00e3o pautada na quantidade de produ\u00e7\u00e3o dos pesquisadores, autoras como Bayer, Astin e Elena Orozco afirmam que pesquisadoras do sexo feminino teriam desvantagem nesse sistema, uma vez que \u00e0s mulheres s\u00e3o atribu\u00eddos diversos pap\u00e9is e tarefas que n\u00e3o s\u00e3o designadas aos homens, muitas delas advindas da estrutura machista da nossa sociedade. Indo ao encontro dessa ideia, 51% dos pesquisadores respondentes percebe que existe disparidade em rela\u00e7\u00e3o a homens e mulheres por conta do ac\u00famulo de fun\u00e7\u00f5es e da maternidade. A seguir est\u00e1 elencada a resposta que melhor representa essa ideia: \u201cAinda h\u00e1 desigualdade entre as tarefas dom\u00e9sticas e o cuidado com a prole entre fam\u00edlias com g\u00eaneros distintos, e, em geral, essa disparidade faz com que mulheres tenham uma carga maior de trabalho (interno e externo ao lar). Como ser produtivo academicamente de modo igual se nossas atividades s\u00e3o maiores?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>A respeito dos fatores que interv\u00eam na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e se referem a g\u00eanero e ra\u00e7a, os pesquisadores percebem que maternidade, dupla jornada, preconceito racial, preconceito de g\u00eanero, racismo estrutural e quest\u00f5es socioecon\u00f4micas se constituem os principais intervenientes. Para al\u00e9m disso, a palavra \u201cpreconceito\u201d aparece em muitas das respostas, de modo que representa o fato de que mulheres negras enfrentam os maiores desafios atrelados aos preconceitos de g\u00eanero e racial, atuando simultaneamente na manuten\u00e7\u00e3o das disparidades no meio acad\u00eamico.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com isso, conclu\u00edmos que o atual sistema de avalia\u00e7\u00e3o na ci\u00eancia privilegia determinado grupo de cientistas que domina o campo cient\u00edfico e dita as regras do meio acad\u00eamico, preservando certas tradi\u00e7\u00f5es na ci\u00eancia. Por isso, \u00e9 urgente pensar a respeito de mudan\u00e7as que permitam modificar esse cen\u00e1rio e romper com a perpetua\u00e7\u00e3o de um <em>modus operandi<\/em> que perpassa gera\u00e7\u00f5es de cientistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ebebeb\"><strong><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/1872733281003557\">Let\u00edcia Pereira de Souza<\/a><\/strong> \u00e9 bacharel em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. <\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-black-color has-text-color wp-block-paragraph\" style=\"font-size:12px\"><em>&#8220;As manifesta\u00e7\u00f5es expressas neste ve\u00edculo n\u00e3o representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" 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