{"id":45482,"date":"2022-03-31T09:00:00","date_gmt":"2022-03-31T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=45482"},"modified":"2022-03-31T10:50:06","modified_gmt":"2022-03-31T13:50:06","slug":"porto-alegre-em-mapas-de-uma-literatura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/porto-alegre-em-mapas-de-uma-literatura\/","title":{"rendered":"Porto Alegre em mapas de uma literatura"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | \u00c2ngelo Chemello Pereira discute as representa\u00e7\u00f5es da cidade na literatura e como elas derivam do contexto social em que estamos inseridos<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Por: \u00c2ngelo Chemello Pereira<br>*Foto: Fl\u00e1vio Dutra\/Arquivo JU 22 abr. 2012<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cidade de Porto Alegre acontece na literatura de maneira recorrente nos dias de hoje, mas esse lugar elaborado se deu por consequ\u00eancias concretas, movimentos de transforma\u00e7\u00e3o muito influenciados pela pol\u00edtica de urbaniza\u00e7\u00e3o, pelos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos e pelo aumento populacional. Ent\u00e3o, para fazer uma pesquisa que ajude a entender o que temos hoje, fica necess\u00e1rio avaliar crit\u00e9rios anteriores e deles extrair poss\u00edveis evid\u00eancias do objeto \u2014 neste caso, Porto Alegre \u2014 que proporcionem an\u00e1lises capazes de entend\u00ea-lo. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>A literatura, quando trata da cidade, acaba se tornando material produzido pelo seu pr\u00f3prio contexto social, sendo por isso consequ\u00eancia dessa teia de rela\u00e7\u00f5es complexas.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No caso dessa Porto Alegre urbana, o ano de 1935 salienta-se no sentido liter\u00e1rio, e muito disso se d\u00e1 porque no pano de fundo est\u00e3o os anos do desenvolvimentismo da Era Vargas (Segunda Rep\u00fablica) aliado \u00e0s reformas decididas pelas administra\u00e7\u00f5es municipais daquele momento. O estudo de Cl\u00e1udio Cruz, por exemplo, <em>Literatura e Cidade Moderna <\/em>(1994), elegeu 1935 para esmiu\u00e7ar os detalhes da cidade a partir de tr\u00eas autores: Erico Verissimo, Reynaldo Moura e Dyonelio Machado. As obras foram, respectivamente: <em>Caminhos cruzados<\/em>, <em>A ronda dos anjos sensuais<\/em> e <em>Os ratos.<\/em>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na an\u00e1lise de Cruz, em um determinado momento a leitura da cidade se transforma em mapa. E esse esbo\u00e7o gr\u00e1fico tra\u00e7a o percurso de Naziazeno, em <em>Os ratos, <\/em>dando conta de todos os passos que o personagem faz enquanto passa seu dia atr\u00e1s do dinheiro que precisa pagar ao leiteiro. Na esteira desse lampejo anal\u00edtico nasceu o interesse de continuar essa cidade mapeada, de descobrir o que os mapas podem proporcionar em termos de estudo liter\u00e1rio. E uma constata\u00e7\u00e3o dos estudos se relaciona \u00e0 perspectiva. Porto Alegre na literatura de 1935, j\u00e1 que esse \u00e9 nosso assunto aqui, \u00e9 uma cidade que me parece depender de dois aspectos naquilo que nos interessa \u2014 um: o que observamos; dois: atrav\u00e9s de quem observamos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o que isso quer dizer?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quer dizer que, ao escolher um elemento liter\u00e1rio comum \u00e0s obras (por exemplo: o bonde), podemos observ\u00e1-lo no mapa da cidade. Ou seja, o bonde \u00e9 <em>o que observamos<\/em> como leitores. E esse bonde pode estar no Centro, no seu entorno ou em um arrabalde, o que j\u00e1 nos aponta um ponto de an\u00e1lise bem interessante. S\u00f3 que, al\u00e9m disso, nos importa tamb\u00e9m <em>atrav\u00e9s de quem observamos<\/em>. Ou seja, o narrador e\/ou o personagem capazes de nos colocar em contato com esse mesmo bonde.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que temos ent\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Temos a perspectiva do pesquisador que observa de maneira distanciada o plano urbano da cidade, podendo se situar (e situar os leitores) em termos de geografia. Mas tamb\u00e9m temos a angula\u00e7\u00e3o proporcionada pelo personagem, que oferece uma outra percep\u00e7\u00e3o a respeito do bonde.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E chegamos em que lugar fazendo isso?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bem, nesse caso vale exemplificar, mesmo que aqui n\u00e3o tenhamos um mapa referencial que ajude a conceber o que observamos. Para isso, vamos imagin\u00e1-lo nos apoiando em cenas de dois personagens das obras j\u00e1 citadas. Personagens que est\u00e3o, ambos, no Centro de Porto Alegre.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um deles \u00e9 Salustiano vendo o bonde de um apartamento. Ao nos aproveitarmos de Salu, de <em>Caminhos cruzados<\/em>, vamos enxergar, junto com ele, o bonde a partir do d\u00e9cimo andar de um arranha-c\u00e9u (lembrando que naqueles anos arranha-c\u00e9us tinham em torno de dez andares). O bonde para Salu \u00e9 um elemento distante, um ponto visto do alto, um objeto que se percebe como um pequeno sinal na superf\u00edcie das ruas. Os bondes <em>\u201cde capota parda; chatos e rastejantes, parecem escaravelhos\u201d<\/em>, escreve Erico. Salu rec\u00e9m pagou pelo sexo que fez com Calcilda na noite anterior e a dispensou dizendo \u201cagora vai dando o forinha, sim?\u201d. Na rela\u00e7\u00e3o bonde-Salu existe uma dist\u00e2ncia da percep\u00e7\u00e3o desse personagem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade do que habita o transporte coletivo. Ele o v\u00ea como um inseto min\u00fasculo dada a dist\u00e2ncia que se faz notar no texto. Bonde e personagem, no Centro, quase num mesmo ponto geogr\u00e1fico. Bonde e personagem distantes no plano vertical. O bonde visto de cima rasteja aos olhos de quem pode subir \u2014 nesse caso, de elevador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo personagem \u00e9 Neli, a Miss Futebol, em deslocamento parcial para o Centro. Se observarmos a personagem Neli, de <em>A ronda dos anjos sensuais<\/em>, praticamente embarcamos com ela no transporte p\u00fablico, estamos juntos na superf\u00edcie da cidade. A narra\u00e7\u00e3o de Reynaldo Moura \u00e9 assim: &#8220;durante o trajeto do bonde, pensou que talvez fosse melhor ir at\u00e9 o seu destino misterioso dessa tarde, sem autom\u00f3vel. Assim n\u00e3o chamaria aten\u00e7\u00e3o&#8221;. O destino misterioso \u00e9 a cl\u00ednica de aborto no Menino Deus, para onde Neli seguir\u00e1 depois de sair do bonde. A ideia sobre o Menino Deus, destino final de Neli, aparece da seguinte forma: &#8220;Deve ser com certeza uma rua de gente pobre, que vive a espiar pelas janelas os pequenos acontecimentos do bairro&#8221;. Acompanhamos como leitores essa ida e estamos pr\u00f3ximos de ambos (da personagem e do transporte). H\u00e1 uma angula\u00e7\u00e3o na qual percebemos a tens\u00e3o do deslocamento de Neli. O percurso que ela tra\u00e7a no bonde vai da Independ\u00eancia ao Centro. Ela que pertence a uma elite e tem toda a preocupa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ser vista por quem faz parte de seus c\u00edrculos sociais mal sabe o tr\u00e1gico fim que a espera nessa cidade grande (nem t\u00e3o grande, como bem sabemos).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A conclus\u00e3o nos leva a entender o qu\u00ea?<em>&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De forma bem simplificada, podemos dizer que o bonde nos transporta (sem perd\u00e3o pelo trocadilho) a compreens\u00f5es sobre classe social, sobre quest\u00f5es de g\u00eanero, sobre percep\u00e7\u00f5es de mundo que diferenciam aqueles que sofrem com a urg\u00eancia e os que n\u00e3o sofrem. Um ensaio que at\u00e9 o momento aponta o quanto Porto Alegre \u00e9 uma cidade que merece ser pesquisada, sim, com mais literatura. E por mais que os mapas sejam uma escolha particular, outro elemento se torna cada vez mais indispens\u00e1vel aos estudos: o espa\u00e7o para diferentes perspectivas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1080\" height=\"719\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Fla\u0301vio-Dutra-6871.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-46042\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Fla\u0301vio-Dutra-6871.jpg 1080w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Fla\u0301vio-Dutra-6871-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Fla\u0301vio-Dutra-6871-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Fla\u0301vio-Dutra-6871-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Fla\u0301vio-Dutra-6871-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Fla\u0301vio-Dutra-6871-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1080px) 100vw, 1080px\" \/><figcaption>Acima e na capa, cenas da montagem de Incidente em Antares, produzida pelo Grupo Cerco e dirigida por In\u00eas Marocco, a partir de texto de Erico Verissimo (Foto: Fl\u00e1vio Dutra\/JU)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ebebeb\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/2244774887162736\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u00c2ngelo Chemello Pereira<\/a> \u00e9 mestrando em literatura pela UFRGS e editor na revista digital Par\u00eantese.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-black-color has-text-color wp-block-paragraph\" style=\"font-size:12px\"><em>&#8220;As manifesta\u00e7\u00f5es expressas neste ve\u00edculo n\u00e3o representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo | \u00c2ngelo Chemello Pereira discute as representa\u00e7\u00f5es da cidade na literatura e como elas derivam do contexto social em que estamos inseridos<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/porto-alegre-em-mapas-de-uma-literatura\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":46041,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[53],"tags":[3029,3032,1227,522,3031,3030,69],"ppma_author":[2938],"class_list":["entry","author-gerente","has-excerpt","post-45482","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-artigo","tag-3029","tag-anos-30","tag-cidade","tag-literatura","tag-literatura-urbana","tag-mapas-literarios","tag-porto-alegre"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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