{"id":46758,"date":"2022-05-05T09:10:00","date_gmt":"2022-05-05T12:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=46758"},"modified":"2022-05-05T17:15:36","modified_gmt":"2022-05-05T20:15:36","slug":"repensar-as-margens-redefinir-os-centros-o-modernismo-visto-do-rio-grande-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/repensar-as-margens-redefinir-os-centros-o-modernismo-visto-do-rio-grande-do-sul\/","title":{"rendered":"Repensar as margens, redefinir os centros: o Modernismo visto do Rio Grande do Sul"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Cultura | No ano em que S\u00e3o Paulo celebra o centen\u00e1rio da Semana de Arte Moderna, pesquisadores refor\u00e7am a exist\u00eancia de muitos modernismos e de v\u00e1rias leituras e no\u00e7\u00f5es da arte moderna para al\u00e9m daquela atrelada a um protagonismo paulistano<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Foto: Autor desconhecido<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Semana de Arte Moderna completa 100 anos em 2022. Considerado &#8220;o marco&#8221; dos modernismos brasileiros, o evento realizado no Theatro Municipal de S\u00e3o Paulo entre os dias 13 a 18 de fevereiro de 1922 \u00e9 visto ainda hoje como o ponto de partida para a apresenta\u00e7\u00e3o de uma revis\u00e3o em formas de express\u00e3o art\u00edstica e para a valoriza\u00e7\u00e3o de uma arte &#8220;tipicamente&#8221; brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre vaias e aplausos, a Semana arregimentou artistas das mais diversas \u00e1reas e que mais tarde se tornariam figuras canonizadas do campo art\u00edstico-cultural nacional, entre eles os escritores M\u00e1rio de Andrade, Manuel Bandeira e Oswald de Andrade, os artistas visuais Anita Malfatti, Emiliano Di Cavalcanti e Candido Portinari e o compositor e maestro Heitor Villa-Lobos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para alguns cr\u00edticos, como Lourival Gomes Machado em seu <em>Retrato da arte moderna do Brasil<\/em>, a manifesta\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos momentos mais significativos da cultura e da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica nacional no \u00faltimo s\u00e9culo. Para outros, esconde &#8220;uma disputa geopol\u00edtica de elites nacionais&#8221;, como defendeu recentemente Aldrin Figueiredo, professor da Faculdade de Hist\u00f3ria da Universidade Federal do Par\u00e1 (UFPA), em entrevista \u00e0 <a href=\"https:\/\/amazonialatitude.com\/2022\/03\/11\/amazonia-nao-foi-esquecida-no-modernismo-criou-se-um-lugar-para-ela-diz-historiador\/#\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Amaz\u00f4nia Latitude Review<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um s\u00e9culo depois, permanecem as pol\u00eamicas e os debates em torno da Semana de 22, um dos principais elementos formadores de uma pretensa &#8220;nacionalidade brasileira&#8221;. Pesquisadores de v\u00e1rias universidades convidam a deslocar o olhar para outras margens e outros centros e prop\u00f5em novas vis\u00f5es que questionam a narrativa un\u00edvoca constru\u00edda sobre a <em>g\u00eanesis<\/em>&nbsp;do Modernismo pelos paulistas ou do \u00eaxodo&nbsp;de ideias de S\u00e3o Paulo para os recantos mais long\u00ednquos do Brasil. O legado da Semana de Arte Moderna \u00e9 rediscutido na celebra\u00e7\u00e3o de seu centen\u00e1rio, e os modernismos est\u00e3o novamente em pauta.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">O resgate dos esquecidos: da reinven\u00e7\u00e3o dos modernos paulistas ao mito da Semana de 1922<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria, na maioria das sociedades humanas, foi escrita pelos vencedores. Ou, mais adequadamente, por aqueles com condi\u00e7\u00f5es (e n\u00e3o apenas capacidade) de fabricar tradi\u00e7\u00f5es, hegemonias nacionais e reproduzir o pensamento \u00fanico at\u00e9 que alcance o senso comum \u00e0 maioria das pessoas. Da pol\u00edtica \u00e0s artes, o que se acomete a outras narrativas segue uma l\u00f3gica que dificilmente destoa dessa estrutura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No debate a respeito da Semana de 1922 h\u00e1 certo consenso de que suas repercuss\u00f5es foram, \u00e0 \u00e9poca, p\u00edfias. &#8220;A Semana n\u00e3o teve o impacto que n\u00f3s achamos que ela teve&#8221;, indica a professora do <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/institutodeartes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Instituto de Artes da UFRGS<\/a> Paula Ramos. Em terras ga\u00fachas, a movimenta\u00e7\u00e3o dos jovens inquietos de S\u00e3o Paulo n\u00e3o passou despercebida. Em texto publicado no <em>Correio do Povo<\/em> em 1922 sobre a ent\u00e3o recente Semana, Moys\u00e9s Vellinho, &#8220;um cr\u00edtico de pressupostos modernistas&#8221;, nas palavras do professor do <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/colegiodeaplicacao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Col\u00e9gio de Aplica\u00e7\u00e3o da UFRGS<\/a> Jocelito Zalla, chegou at\u00e9 a saudar o \u201cfiasco\u201d do evento e a \u201cbendita vaia\u201d da sociedade paulista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa leitura indica que o lugar de destaque &#8220;reservado&#8221; ao evento na hist\u00f3ria, na verdade, foi meticulosamente constru\u00eddo por um projeto pol\u00edtico anos mais tarde, respons\u00e1vel pelo resgate de sua mem\u00f3ria. \u00c9 o que mostram in\u00fameras pesquisas que contradizem o protagonismo paulista e reescrevem as genealogias da arte moderna no Brasil, algumas delas desenvolvidas por pesquisadores e professores da UFRGS.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Paula Ramos, existe uma ampla mitologia constru\u00edda e desconstru\u00edda ao redor desse totem nacional apresentado como parte da cria\u00e7\u00e3o de uma identidade brasileira. &#8220;Estaria relacionado a esse movimento um de matriz paulistana, o desenvolvimento do Modernismo no singular e de uma arte &#8216;genuinamente brasileira&#8217;. Este \u00e9 um dos mitos relacionados, inclusive, \u00e0 Semana de Arte Moderna de 1922&#8221;, aponta. Para ela, a maioria das refer\u00eancias na literatura especializada que aborda esse assunto, pelo menos as mais consagradas, v\u00e3o refor\u00e7ar o argumento da identidade nacional.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Esse \u00e9 um mito muito complicado, porque a\u00ed v\u00eam as perguntas: o que seria genuinamente brasileiro, para come\u00e7ar? A produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica do s\u00e9culo XIX n\u00e3o seria genuinamente brasileira? A produ\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XVIII n\u00e3o seria genuinamente brasileira? [&#8230;] N\u00f3s aprendemos na historiografia que o &#8216;nosso&#8217; Modernismo criou a &#8216;verdadeira&#8217; arte brasileira, mas temos que esquecer isso. At\u00e9 porque h\u00e1 artistas que n\u00e3o entraram nesse discurso de uma arte nacional, de uma arte regional&#8221;<\/p><cite>Paula Ramos<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora essas quest\u00f5es estabele\u00e7am alguns problemas, a Semana de 1922, na opini\u00e3o da professora, n\u00e3o deixa de ser efetivamente um marco e, portanto, precisa ser discutida, celebrada e revisitada criticamente. &#8220;N\u00f3s precisamos entender o que foi o movimento, o que foi a Semana, se quisermos partir dessa data, em que contexto ela foi pensada e produzida, a quem ela falava naquele momento e quais os seus frutos&#8221;, finaliza. Para compreender o discurso de reelabora\u00e7\u00e3o do evento, \u00e9 preciso observar as manobras pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas em seu contexto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1922, o Brasil se preparava para festejar o centen\u00e1rio da Independ\u00eancia. \u00c0 \u00e9poca, o Rio de Janeiro, ent\u00e3o capital do pa\u00eds, seria o centro de todas as aten\u00e7\u00f5es com a Exposi\u00e7\u00e3o Internacional do Centen\u00e1rio da Independ\u00eancia, ocorrida em setembro daquele ano. Naquele momento, a ind\u00fastria cafeeira paulista j\u00e1 dava significativos sinais de transforma\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo em um expoente econ\u00f4mico. Se erguia ali um expressivo polo econ\u00f4mico e cultural pronto para rivalizar com Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Sul. O capital acumulado permitiu que a elite paulista forjasse uma gera\u00e7\u00e3o intelectual que representaria os seus interesses e se envolveria, ent\u00e3o, em uma disputa pelo protagonismo com a capital federal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse per\u00edodo, a professora do Instituto de Artes da UFRGS lembra, S\u00e3o Paulo possu\u00eda um campo art\u00edstico em pleno desenvolvimento. Certa estrutura tamb\u00e9m emergia com a cria\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es e mecanismos pr\u00f3prios voltados a promover a independ\u00eancia cultural de interesse das elites locais, entre elas o Liceu de Artes e Of\u00edcios de S\u00e3o Paulo, o Museu Paulista, a Pinacoteca do Estado de S\u00e3o Paulo e o Pensionato Art\u00edstico do Estado de S\u00e3o Paulo, respectivamente criados em 1873, 1895, 1905 e 1912.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Semana surgiu, nesse contexto, como uma iniciativa organizada por uma elite em torno de uma disputa geopol\u00edtica nacional. &#8220;Esse evento foi pensado, assim, dentro de um contexto de disputas simb\u00f3licas, de protagonismo entre S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, que \u00e9 um aspecto que n\u00f3s nunca podemos esquecer&#8221;, comenta Paula.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro elemento importante a ser considerado, segundo a docente, \u00e9 a presen\u00e7a de muitos cariocas, entre eles Emiliano Di Cavalcanti, respons\u00e1vel pela capa do cat\u00e1logo, pelo convite e um dos principais mentores do evento. A ele se soma o tamb\u00e9m carioca Heitor Villa-Lobos, na m\u00fasica, e o pernambucano Manuel Bandeira, na poesia. Em<em> Metr\u00f3pole \u00e0 beira-mar<\/em>, publicado pela Companhia das Letras em 2019, o escritor Ruy Castro descreve um Rio de Janeiro cosmopolita e moderno nas ideias e na forma muito antes de 1922. Segundo ele, S\u00e3o Paulo precisava ser moderna, n\u00e3o a capital fluminense.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o passar dos anos at\u00e9 o final dos idos de 1930, a ideia mais popular era de que a Semana havia fracassado \u2013 ou de que sua relev\u00e2ncia havia sido t\u00e3o somente relativa. Nos anos 1940 uma renova\u00e7\u00e3o importante no campo art\u00edstico brasileiro j\u00e1 estava em curso e bem consolidada, n\u00e3o apenas na literatura, mas tamb\u00e9m nas artes visuais, no teatro e na m\u00fasica, esclarece Paula. Dentro desse cen\u00e1rio, &#8220;a Semana, em si, estava \u00e0 margem e quase esquecida&#8221;, completa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No final dos anos 1930, ao longo dos anos 1940 e no in\u00edcio de 1950 \u00e9 justamente o per\u00edodo em que se observa uma conjuntura pol\u00edtica de valoriza\u00e7\u00e3o, desenvolvimento e refor\u00e7o da ideia de S\u00e3o Paulo como estado locomotiva econ\u00f4mica e social do pa\u00eds. Em <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/ea\/a\/Cm4BLN6hXMvwJjrpK9WY8YL\/?lang=pt#\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>A reinven\u00e7\u00e3o da Semana e o mito da descoberta do Brasil<\/em><\/a>, Rafael Cardoso, historiador da arte brasileira e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), recupera os debates historiogr\u00e1ficos desse per\u00edodo e analisa como se deu a reinven\u00e7\u00e3o discursiva da grande valoriza\u00e7\u00e3o do evento. Em entrevista ao <a href=\"https:\/\/www.em.com.br\/app\/noticia\/cultura\/2022\/02\/07\/interna_cultura,1342979\/legado-da-semana-de-arte-moderna-de-22-e-rediscutido-em-seu-centenario.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Estado de Minas<\/a>, Cardoso comenta que &#8220;as pessoas passaram a tratar a Semana como o fen\u00f4meno que transformou a hist\u00f3ria do Brasil. Mas ela mal repercutiu na imprensa fora de S\u00e3o Paulo, n\u00e3o teve o impacto que a historiografia lhe atribui&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Semana, com todo esse alarde, come\u00e7a a ser efetivamente lembrada, discutida e festejada enquanto o grande evento da cultura brasileira de todos os tempos, principalmente na segunda metade da d\u00e9cada de 1940 e in\u00edcio dos anos 1950, afirma Paula Ramos. Esse per\u00edodo \u00e9 marcado pela cria\u00e7\u00e3o do Museu de Arte de S\u00e3o Paulo Assis Chateaubriand (MASP), de 1947, do Museu de Arte Moderna de S\u00e3o Paulo (MAM), de 1948, e, em seguida, da Bienal Internacional de S\u00e3o Paulo, de 1951.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Temos, assim, tr\u00eas grandes institui\u00e7\u00f5es que s\u00e3o criadas no final dos anos 1940 e in\u00edcio dos anos 1950. E \u00e9 justamente nesse momento de afirma\u00e7\u00e3o por meio dessas iniciativas, por exemplo, que n\u00f3s temos um refor\u00e7o da intelectualidade paulistana&#8221;<\/p><cite>Paula Ramos<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1945, a morte de M\u00e1rio de Andrade, um dos mentores da manifesta\u00e7\u00e3o que tomou de assalto a Paulic\u00e9ia \u2013 como o escritor se referia \u00e0 cidade \u2013, foi o gatilho necess\u00e1rio para uma mobiliza\u00e7\u00e3o voltada a erguer a Semana de Arte Moderna ao imagin\u00e1rio nacional e institucionaliz\u00e1-la na hist\u00f3ria da arte brasileira. Antes disso ela jamais recebeu o status de &#8220;marco&#8221;. De assalto tamb\u00e9m foram igualmente tomados todos os contempor\u00e2neos ao evento que tiveram suas ideias e express\u00f5es art\u00edsticas, sem a menor cerim\u00f4nia, sintetizadas como meras repercuss\u00f5es do que viria a ser a Semana de 1922.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Intelectuais que est\u00e3o por tr\u00e1s da revista <em>Clima<\/em>, produzida por jovens formados na Universidade de S\u00e3o Paulo. S\u00e3o capitaneados por Lourival Gomes Machado e v\u00e3o fazer esse projeto de refor\u00e7ar o protagonismo e o pioneirismo de S\u00e3o Paulo nos debates sobre modernidade no Brasil, n\u00e3o necessariamente os pr\u00f3prios modernistas. Eles, ent\u00e3o, v\u00e3o recuperar a Semana como grande evento, o marco. A partir desse momento dos anos 1950, n\u00f3s temos uma enxurrada de publica\u00e7\u00f5es que v\u00e3o festejar esse marco e que v\u00e3o consagrar, na historiografia da arte e da cultura brasileira, a Semana como o &#8216;grande evento&#8217;. E essa literatura vai acabar esquecendo ou, inclusive por quest\u00f5es de interesse pol\u00edtico e ideol\u00f3gico, deixando \u00e0 margem as outras produ\u00e7\u00f5es&#8221;<\/p><cite>Paula Ramos<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O resultado desse projeto respinga at\u00e9 hoje: quando se narra a hist\u00f3ria do Brasil nos \u00faltimos 100 anos, o pa\u00eds \u00e9, basicamente, resumido ao atraso. Com alguma sorte nossa, um grupo formado por alguns sujeitos de S\u00e3o Paulo, \u00e0 frente do seu tempo, surgiu para &#8220;salvar&#8221; o pa\u00eds e moderniz\u00e1-lo. Nessa hist\u00f3ria de poucos her\u00f3is nem mesmo o Rio de Janeiro saiu ileso \u2013 a narrativa paulista, verdade incontest\u00e1vel at\u00e9 alguns anos atr\u00e1s, varreu praticamente todos para baixo do tapete e se projetou como totem nacional. Essa impress\u00e3o persiste at\u00e9 os dias atuais, embora menos por a\u00e7\u00e3o dos modernistas paulistas que participaram da Semana de 1922. Quando se desloca o olhar do Modernismo de S\u00e3o Paulo para outras regi\u00f5es do Brasil, uma certa centralidade paulistana costuma predominar na maioria dos trabalhos sobre o tema. \u00c9 o epicentro de uma hist\u00f3ria de renova\u00e7\u00e3o art\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fala-se com frequ\u00eancia das influ\u00eancias da Semana de 22 nos quatro cantos do pa\u00eds, dos seus \u201cecos\u201d, que se seguem por in\u00fameros outros termos an\u00e1logos como &#8220;repercuss\u00f5es&#8221;, &#8220;desdobramentos&#8221;, &#8220;rastros&#8221;, &#8220;sopros&#8221;, &#8220;reflexos&#8221;, &#8220;reverbera\u00e7\u00f5es&#8221; e at\u00e9 mesmo &#8220;barulhos, ru\u00eddos e rumores&#8221;. Todos eles refor\u00e7am a narrativa de um Modernismo uno \u00e0 procura da identidade brasileira que, antes de tudo, teria come\u00e7ado em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Professora de Literatura Brasileira na Universidade Livre de Berlim e uma das primeiras pesquisadoras a estudar o Modernismo no Rio Grande do Sul, Ligia Chiappini aponta o exagero e a parcialidade no que define como &#8220;cr\u00edtica simplificada do suposto bairrismo paulista&#8221;. Defendendo esse argumento, a professora destaca dois pontos que corroboram o di\u00e1logo entre a diversidade de modernismos: os artistas cariocas participantes da Semana e a correspond\u00eancia entre M\u00e1rio de Andrade e escritores como o pernambucano Manuel Bandeira, o ga\u00facho Augusto Meyer e v\u00e1rios outros de diferentes Brasis.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Nem um, nem poucos: os (muitos) modernismos pelo Brasil<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para jovens artistas contempor\u00e2neos da Semana de 22, por\u00e9m, o Modernismo brasileiro jamais come\u00e7ou ou sequer tomou forma em S\u00e3o Paulo para de l\u00e1 pautar o restante do pa\u00eds. Aldrin Figueiredo fala, em entrevista \u00e0 Amaz\u00f4nia Latitude Review, por exemplo, na exist\u00eancia n\u00e3o de apenas um lugar, mas de lugares do Modernismo. Da mesma forma, existem modernismos. O movimento de renova\u00e7\u00e3o na arte, embora em alguns locais se limite a uma a\u00e7\u00e3o solit\u00e1ria, repercute no mundo inteiro como um projeto globalizado que se expande da Europa at\u00e9 os Estados Unidos, do Oriente M\u00e9dio at\u00e9 o Sudeste da \u00c1sia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para o professor do Col\u00e9gio de Aplica\u00e7\u00e3o da UFRGS Jocelito Zalla, \u00e9 poss\u00edvel identificar uma sensibilidade modernista compartilhada pela gera\u00e7\u00e3o de 1920 em diversas capitais brasileiras. Em estados como Par\u00e1, Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro e o pr\u00f3prio Rio Grande do Sul havia toda uma constela\u00e7\u00e3o de artistas modernistas que vinculavam as tradi\u00e7\u00f5es locais com a experimenta\u00e7\u00e3o est\u00e9tica. &#8220;Alguns desses intelectuais constru\u00edam redes inter-regionais que podiam ou n\u00e3o incluir a elite letrada paulista. Muitos deles rejeitavam, inclusive, as estrat\u00e9gias de combate e de inser\u00e7\u00e3o no campo cultural do grupo da Semana sem deixar de se guiarem por preceitos de vanguarda&#8221;, argumenta.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Muito da centralidade da Semana no discurso dos\/sobre os modernismos brasileiros \u00e9 fun\u00e7\u00e3o da geopol\u00edtica nacional, pois coloca a vers\u00e3o paulista, estado que paulatinamente se torna hegem\u00f4nico no s\u00e9culo 20, em posi\u00e7\u00e3o dominante&#8221;<\/p><cite>Jocelito Zalla<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Paula Ramos refor\u00e7a que o campo art\u00edstico presente em S\u00e3o Paulo nos anos que antecederam a Semana de Arte Moderna j\u00e1 existia, por exemplo, tamb\u00e9m em cidades como Bel\u00e9m, Recife e Porto Alegre. &#8220;Mas em cada lugar com suas dimens\u00f5es locais, evidentemente&#8221;, pondera. A pr\u00f3pria narrativa paulista consolidada \u00e9 relativizada quando consideramos, por exemplo, o importante di\u00e1logo com outras elites art\u00edsticas regionais e a efetiva participa\u00e7\u00e3o de atores n\u00e3o paulistas at\u00e9 mesmo nas atividades e proposi\u00e7\u00f5es do grupo, sobretudo cariocas, explica Jocelito Zalla.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Al\u00e9m disso, as ideias de modernidade e de moderniza\u00e7\u00e3o cultural no Brasil s\u00e3o muito anteriores ao evento. Podemos notar em anos antes uma busca de sintonia com o que se considerava moderno e avan\u00e7ado nos pa\u00edses capitalistas industrializados, principalmente no periodismo e nas artes gr\u00e1ficas&#8221;<\/p><cite>Jocelito Zalla<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Longe de diminuir a contribui\u00e7\u00e3o do Modernismo de matriz paulista, que soube se projetar como uma hegemonia nacional a partir de trabalhos acad\u00eamicos variados, \u00e9 preciso tamb\u00e9m reconhecer que &#8220;muitos artistas e literatos tamb\u00e9m j\u00e1 travavam, anteriormente, contato com movimentos estrangeiros e colocavam em marcha projetos pessoais de inova\u00e7\u00e3o art\u00edstica em diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds&#8221;, ressalta Jocelito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Porto Alegre, especificamente, havia um campo cultural com muitos escritores e intelectuais, consequ\u00eancia direta dos fluxos migrat\u00f3rios decorrentes da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), aponta Paula. Havia tamb\u00e9m um campo art\u00edstico visual que come\u00e7ava a se estruturar, embora ainda sem a mesma for\u00e7a quando comparado ao de outras capitais pelo pa\u00eds. N\u00e3o existiam pol\u00edticas art\u00edstico-culturais de subs\u00eddios estatais, como bolsas de estudos, apenas encomendas governamentais de obras art\u00edsticas para ornamentar os espa\u00e7os p\u00fablicos. Tamb\u00e9m n\u00e3o havia ambientes para a exposi\u00e7\u00e3o de obras art\u00edsticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Os artistas expunham na entrada de lojas, no hall da <a href=\"https:\/\/www.palaciopiratini.rs.gov.br\/familia-jamardo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">casa Jamardo<\/a>, no hall da casa das Molduras, por exemplo. Era assim. Havia compradores ocasionais de arte, mas n\u00e3o uma tradi\u00e7\u00e3o&#8221;, contextualiza Paula Ramos. Quando n\u00e3o h\u00e1 um campo art\u00edstico visual consolidado, um mercado fortalecido e uma circula\u00e7\u00e3o efetiva, existe uma maior dificuldade, mas isso n\u00e3o significa que a cidade estava alheia ou atrasada em rela\u00e7\u00e3o aos debates da \u00e9poca nessa \u00e1rea.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">O Modernismo a partir do Rio Grande do Sul<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se as hist\u00f3rias precisam de um come\u00e7o, o ano de 1925 est\u00e1 para o Rio Grande do Sul assim como 1922 est\u00e1 para S\u00e3o Paulo. Esse \u00e9 um per\u00edodo, de acordo com a professora do Instituto de Artes, de grande efervesc\u00eancia cultural no estado. O ano \u00e9 marcado por uma s\u00e9rie de lan\u00e7amentos liter\u00e1rios da Livraria do Globo, debates importantes s\u00e3o sediados em Porto Alegre e atividades art\u00edsticas ganham f\u00f4lego na capital ga\u00facha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No campo das artes visuais, por exemplo, temos em maio de 1925 a organiza\u00e7\u00e3o do Sal\u00e3o de Outono, evento inaugurado no Pa\u00e7o Municipal de Porto Alegre, e uma importante exposi\u00e7\u00e3o para apresentar o que se produzia na cidade de forma panor\u00e2mica. &#8220;At\u00e9 ent\u00e3o os artistas faziam, quando conseguiam, uma exposi\u00e7\u00e3o individual, mas ali foi uma possibilidade de ver de modo amplo&#8221;, comenta Paula Ramos. A exposi\u00e7\u00e3o agregou aproximadamente 300 obras de cerca de 60 artistas, reunindo desde aqueles mais consagrados e conhecidos, como Pedro Weing\u00e4rtner, Afonso Silva e Augusto Lu\u00eds de Freitas, at\u00e9 artistas jovens que estavam se inserindo na cena, entre eles Francis Pelichek, Jo\u00e3o Fahrion, Fernando Corona, Lutzenberger, Judith Fortes e Jos\u00e9 Rasgado Filho.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1080\" height=\"801\" data-id=\"47607\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/DSC05094.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-47607\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/DSC05094.jpg 1080w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/DSC05094-300x223.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/DSC05094-158x117.jpg 158w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/DSC05094-768x570.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/DSC05094-465x345.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/DSC05094-674x500.jpg 674w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/DSC05094-150x111.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 1080px) 100vw, 1080px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1080\" height=\"798\" data-id=\"47606\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/DSC05091.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-47606\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/DSC05091.jpg 1080w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/DSC05091-300x222.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/DSC05091-158x117.jpg 158w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/DSC05091-768x567.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/DSC05091-465x344.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/DSC05091-677x500.jpg 677w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/DSC05091-150x111.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 1080px) 100vw, 1080px\" \/><\/figure>\n<figcaption class=\"blocks-gallery-caption\">Acima e na capa, artistas no ambiente expositivo do Sal\u00e3o de Outono, de 1925, no \u201cSal\u00e3o Nobre da Intend\u00eancia Municipal\u201d, de acordo com o cat\u00e1logo da mostra (Fotos: Autor desconhecido)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse mesmo ano a presen\u00e7a de dois conferencistas em Porto Alegre demonstra que as novas formas liter\u00e1rias e art\u00edsticas, bem como as novas vis\u00f5es de mundo, j\u00e1 estavam em discuss\u00e3o na cidade. Em setembro de 1925, Guilherme de Almeida, escritor paulista e um dos participantes da Semana de 1922, viaja at\u00e9 a capital do estado a convite do escritor Augusto Meyer, \u00e0 \u00e9poca com 23 anos. Na cidade ele profere a confer\u00eancia &#8220;Revela\u00e7\u00e3o do Brasil pela Poesia Moderna&#8221; no Theatro S\u00e3o Pedro e no Clube Jocot\u00f3, uma entidade cultural importante que inicia reuni\u00f5es liter\u00e1rias em Porto Alegre \u2013 chamadas de &#8220;Horas de Arte&#8221;. &#8220;O  objetivo de Guilherme de Almeida era difundir as ideias do movimento modernista de matriz paulistana&#8221;, explica Paula.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em carta escrita a M\u00e1rio de Andrade em 7 de agosto de 1925, Guilherme de Almeida revelava seu interesse em vir ao Sul fazer uma &#8220;coisa barulhenta&#8221; e, em suas pr\u00f3prias palavras, &#8220;chocar a prov\u00edncia&#8221;. O tiro, por\u00e9m, saiu pela culatra. Ap\u00f3s sua experi\u00eancia na capital ga\u00facha, ainda em Porto Alegre o escritor relatou ao autor de <em>Macuna\u00edma<\/em> (1928) em telegrama de 20 de setembro daquele ano que, antes, ele sa\u00edra daqui chocado. Nem em seus sonhos mais otimistas imaginava encontrar na prov\u00edncia pessoas atualizadas com os mais ricos debates liter\u00e1rios n\u00e3o apenas de S\u00e3o Paulo e do Rio, mas da pr\u00f3pria Fran\u00e7a e Alemanha. Ligia Chiappini comenta que, em encontros como esse, os artistas, ainda que considerassem levar o &#8220;novo&#8221;, &#8220;acabavam aprendendo com as puras misturas dos &#8216;velhos'&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um m\u00eas depois, em outubro de 1925, \u00c2ngelo Guido, pintor e cr\u00edtico de arte, vem \u00e0 capital do Rio Grande do Sul para uma confer\u00eancia na reuni\u00e3o liter\u00e1ria do Clube Jocot\u00f3, cujo t\u00edtulo era &#8220;Arte Moderna&#8221;. Sua postura, por\u00e9m, era contr\u00e1ria ao movimento modernista de matriz paulistana. &#8220;Ele dizia que aquilo era uma &#8216;concha de \u00edsmos&#8217;, uma mescla de futurismo, com cubismo, com ultra\u00edsmo, com dada\u00edsmo, mas que n\u00e3o tinha nada a ver com o Brasil&#8221;, descreve a professora do Instituto de Artes da UFRGS. A partir de 1928, comenta a docente, Guido se transfere para o Rio Grande do Sul e se torna um dos mais importantes cr\u00edticos de arte no estado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No campo liter\u00e1rio, ainda sob os embalos de 1925, Augusto Meyer, Theodemiro Tostes e Ruy Cirne Lima, entre tantos outros, lan\u00e7aram seus livros pela Livraria do Globo. Eles tamb\u00e9m formaram um grupo respons\u00e1vel por encampar a revista dos modernistas no estado, a <em>Madrugada<\/em>, juntamente com Sot\u00e9ro C\u00f3sme, Jo\u00e3o Santana, Miranda Netto, J. M. de Azevedo Cavalcanti, Vargas Neto e Jo\u00e3o Fahrion. A publica\u00e7\u00e3o circulou apenas em cinco n\u00fameros, de setembro a dezembro de 1926, embora tenha se tornado &#8220;um marco da organiza\u00e7\u00e3o da cultura impressa local&#8221;, nas palavras do professor do Col\u00e9gio de Aplica\u00e7\u00e3o da UFRGS.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-2 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"798\" height=\"1080\" data-id=\"47602\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/041004_190231.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-47602\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/041004_190231.jpg 798w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/041004_190231-222x300.jpg 222w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/041004_190231-757x1024.jpg 757w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/041004_190231-86x117.jpg 86w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/041004_190231-768x1039.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/041004_190231-406x550.jpg 406w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/041004_190231-369x500.jpg 369w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/041004_190231-150x203.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 798px) 100vw, 798px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"798\" height=\"1080\" data-id=\"47603\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/041004_193607.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-47603\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/041004_193607.jpg 798w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/041004_193607-222x300.jpg 222w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/041004_193607-757x1024.jpg 757w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/041004_193607-86x117.jpg 86w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/041004_193607-768x1039.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/041004_193607-406x550.jpg 406w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/041004_193607-369x500.jpg 369w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/041004_193607-150x203.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 798px) 100vw, 798px\" \/><\/figure>\n<figcaption class=\"blocks-gallery-caption\">Capas de Sotero Cosme para a primeira e terceira edi\u00e7\u00f5es da revista &#8220;Madrugada&#8221;, publicadas em 1926. A publica\u00e7\u00e3o \u00e9 considera um marco da produ\u00e7\u00e3o modernista ga\u00facha e a revista dos modernistas no Estado<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;A inviabilidade econ\u00f4mica do projeto n\u00e3o impediu a articula\u00e7\u00e3o de uma rede intelectual modernista, que renderia inclusive novos frutos editoriais, como uma se\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria no <em>Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/em>, em 1927, e a famosa <em>Revista do Globo<\/em>, a partir de 1929&#8243;<\/p><cite>Jocelito Zalla<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com Paula, <em>Madrugada<\/em> n\u00e3o se diferenciava das revistas mundanas que eram publicadas no estado. Havia nela uma mistura de notas sociais, esportes, cinema, moda e literatura, mas o diferencial, para a professora, foi ter sido concebida por jovens autores \u2013 tinham entre 24 e 25 anos \u2013 articulados em torno do Modernismo. Impressa nas oficinas da antiga Escola de Engenharia, a revista se consagrou com o arrojado projeto gr\u00e1fico. &#8220;Cada local tem seu quadro modernista, o nosso teve essas figuras no campo das artes visuais que foram extremamente audaciosas nos anos 1920&#8221;, destaca Paula Ramos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A publica\u00e7\u00e3o de <em>Madrugada <\/em>significou um marco da produ\u00e7\u00e3o modernista ga\u00facha, na opini\u00e3o de Jocelito. &#8220;Foi a partir da revista que novos poetas relevantes se lan\u00e7aram, e \u00e0 sua edi\u00e7\u00e3o se seguiram os livros mais importantes em est\u00e9tica vanguardista, com verso livre e tem\u00e1rio popular&#8221;, completa. Nesse per\u00edodo muitos artistas conseguiam espa\u00e7os para divulgar suas obras na imprensa \u2013 por vezes um dos \u00fanicos meios naquele per\u00edodo, dada a falta de uma pol\u00edtica estatal mais ampla. Paula aponta a import\u00e2ncia de se observar o papel das revistas ilustradas desde a d\u00e9cada de 1910, como a <em>Kodak <\/em>e <em>Mascara<\/em>, depois a <em>Revista do Globo<\/em>, a partir de 1929, como uma oportunidade de divulgar trabalhos visuais e liter\u00e1rios. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Jocelito e Paula, a imprensa foi uma aliada relevante para os movimentos de renova\u00e7\u00e3o cultural ao redor do pa\u00eds e no mundo. Especificamente em Porto Alegre, sua import\u00e2ncia foi decisiva para a circula\u00e7\u00e3o de ideias, obras e artistas, na medida em que o estado n\u00e3o dispunha de muitos ambientes para exposi\u00e7\u00e3o. A imprensa, portanto, assumiu esse espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma caracter\u00edstica geral do Modernismo no Rio Grande do Sul pode ser enquadrada a partir de sua configura\u00e7\u00e3o conciliat\u00f3ria. Esse tom, comenta Paula, reflete a pr\u00f3pria dificuldade da elite letrada da capital de romper com a tradi\u00e7\u00e3o consolidada. Assim, um modernismo mais ao Sul do pa\u00eds se desenvolveu na fronteira entre a moderniza\u00e7\u00e3o e a preserva\u00e7\u00e3o de valores e pr\u00e1ticas j\u00e1 estabelecidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Produ\u00e7\u00f5es como a pr\u00f3pria <em>Madrugada<\/em> expressavam esse tom refrat\u00e1rio e menos radical que o movimento modernista assumiu no estado, n\u00e3o por isso considerado menor ou menos moderno em rela\u00e7\u00e3o aos outros modernismos espalhados pelo pa\u00eds. &#8220;Era o moderno poss\u00edvel&#8221;, diz Paula Ramos, e cada contexto deve ser pensado e levado em considera\u00e7\u00e3o no entendimento do quebra-cabe\u00e7a que forma a arte moderna no Brasil \u2013 suas especificidades e manifesta\u00e7\u00f5es particulares em cada parte de nosso imenso territ\u00f3rio. Esse modelo de concilia\u00e7\u00e3o entre tradi\u00e7\u00f5es, por exemplo, \u00e9 frequente na hist\u00f3ria do Rio Grande do Sul. &#8220;Aqui foram feitas muitas concilia\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o essa \u00e9 uma pr\u00e1tica recorrente&#8221;, destaca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Simplesmente, como diz Jocelito Zalla, &#8220;n\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es objetivas para uma ret\u00f3rica de ruptura na cena letrada de Porto Alegre&#8221;. Parte dessa caracter\u00edstica \u00e9 fruto da pr\u00f3pria configura\u00e7\u00e3o social da \u00e9poca: havia poucas condi\u00e7\u00f5es para exercer uma pr\u00e1tica liter\u00e1ria aut\u00f4noma em rela\u00e7\u00e3o ao campo pol\u00edtico. As rela\u00e7\u00f5es entre a dimens\u00e3o pol\u00edtica e a vida liter\u00e1ria, portanto, eram muitas e estreitas, de tal forma que a pr\u00f3pria inser\u00e7\u00e3o de ideias modernistas na produ\u00e7\u00e3o local tamb\u00e9m dependia consideravelmente das concilia\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas e de arranjos pol\u00edticos e geracionais.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Tanto que, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de Vellinho, os principais nomes da nova gera\u00e7\u00e3o costumavam render tributos aos intelectuais consagrados, mesmo que cr\u00edticos ao Modernismo, como no caso de Roque Callage. Produzindo incialmente poesia sob pressupostos novos, buscaram apoio da gera\u00e7\u00e3o anterior [&#8230;]. Na aus\u00eancia de p\u00fablico leitor e de mercado livreiro capazes de sustentar carreiras liter\u00e1rias, a pr\u00e1tica da literatura era quase um trunfo para galgar postos p\u00fablicos e receber vantagens. Um livro bem-recebido pela cr\u00edtica (de vi\u00e9s) oficial abria as portas do governo e do aparelho de cultura&#8221;<\/p><cite>Jocelito Zalla<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma nota importante a ser feita \u00e9 que muitas das revis\u00f5es que v\u00eam sendo produzidas na historiografia da arte brasileira s\u00e3o poss\u00edveis, segundo Paula, devido a dois fatores particulares. De um lado, o crescimento dos programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, que t\u00eam fomentado pesquisas em todo pa\u00eds, e, de outro, os novos cursos de <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/institutodeartes\/index.php\/graduacao-bacharelado-em-historia-da-arte\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">bacharelado em Hist\u00f3ria da Arte<\/a>, que surgiram no Brasil, principalmente na d\u00e9cada de 2010 \u2013 um deles na UFRGS, no Instituto de Artes.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;N\u00f3s precisamos ter coragem de abrir os ba\u00fas, de abrir os acervos para olhar esses eventos. N\u00e3o d\u00e1 para ficarmos s\u00f3 com aquilo que est\u00e1 consagrado. [&#8230;] Os trabalhos produzidos pelos alunos t\u00eam ajudado a desmontar hist\u00f3rias e vers\u00f5es que, at\u00e9 ent\u00e3o, eram verdades inquestion\u00e1veis&#8221;<\/p><cite>Paula Ramos<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Querelas esquecidas do Sul: Jo\u00e3o Sim\u00f5es Lopes Neto, o moderno antes dos modernos entre o esquecimento e o resgate<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A redefini\u00e7\u00e3o da narrativa em prol da diversidade dos modernismos brasileiros tem permitido que outras experi\u00eancias de moderniza\u00e7\u00e3o e populariza\u00e7\u00e3o da literatura sejam, hoje, resgatadas e reconhecidas em suas particularidades. No Rio Grande do Sul, a obra do escritor pelotense Jo\u00e3o Sim\u00f5es Lopes Neto tem sido recuperada para compor o mosaico de ideias que d\u00e3o forma aos modernismos no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho de Sim\u00f5es foi tema da <a href=\"https:\/\/professor.ufrgs.br\/jocelitozalla\/publications\/inven%C3%A7%C3%A3o-de-sim%C3%B5es-lopes-neto-literatura-e-mem%C3%B3ria-hist%C3%B3rica-no-sul-do-br\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">tese de doutorado<\/a> em Hist\u00f3ria Social do professor do Col\u00e9gio de Aplica\u00e7\u00e3o da UFRGS Jocelito Zalla, defendida em 2018 na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). &#8220;Antenado a movimentos de literatura internacionais, mas tamb\u00e9m \u00e0 produ\u00e7\u00e3o folclorista, Sim\u00f5es conseguiu desviar esteticamente das conven\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas mais consolidadas, al\u00e9m do uso da norma culta do portugu\u00eas brasileiro&#8221;, destaca. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O professor comenta ainda que o autor inovou ao construir um estilo peculiar, a partir da importa\u00e7\u00e3o do g\u00eanero gauchesco da Argentina e do Uruguai, que posteriormente seria apropriado por modernistas n\u00e3o apenas ga\u00fachos. Paula Ramos, para quem &#8220;Sim\u00f5es Lopes Neto foi um grande renovador da linguagem&#8221;, corrobora com essa leitura. &#8220;<em>Lendas do Sul<\/em>, por exemplo, de 1913, \u00e9 uma compila\u00e7\u00e3o de lendas do Rio Grande do Sul e \u00e9 espetacular, porque nesse livro o narrador \u00e9 um homem simples, um ga\u00facho do campo&#8221;, completa. Sim\u00f5es vem sendo resgatado, ent\u00e3o, como uma fonte liter\u00e1ria local essencial para a nova produ\u00e7\u00e3o de literatura e um precursor do movimento modernista liter\u00e1rio no estado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a professora de Literatura Brasileira na Universidade Livre de Berlim, por\u00e9m, embora Sim\u00f5es Lopes Neto seja, em certo sentido, um pioneiro, \u00e9 tamb\u00e9m &#8220;um continuador da tradi\u00e7\u00e3o regionalista, que misturou simbolismo e naturalismo com a inven\u00e7\u00e3o de uma linguagem regional-nacional que, sendo fict\u00edcia, \u00e9 verdadeira, porque expressa o ga\u00facho pobre na sua plena humanidade&#8221;, salienta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <em>Lendas do Sul<\/em>, seu texto, quase como se fosse falado, antev\u00ea duas caracter\u00edsticas pelas quais o escritor Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa viria a ser conhecido anos mais tarde com a publica\u00e7\u00e3o de sua principal obra, <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>, de 1956: o experimentalismo lingu\u00edstico e a tem\u00e1tica regionalista. &#8220;Essa linguagem constr\u00f3i a personagem, seu espa\u00e7o e seu tempo, antecipando Guimar\u00e3es Rosa e concretizando, a seu modo, o que M\u00e1rio de Andrade propunha como l\u00edngua brasileira&#8221;, corrobora Ligia Chiappini. &#8220;Ele faz isso em 1913, mas quem \u00e9 que conhece Sim\u00f5es Lopes Neto? Poucas pessoas conhecem ou falam. Ou seja, o que ele fez aqui \u00e9 regional, \u00e9 classificado como literatura regionalista, mas Guimar\u00e3es Rosa \u00e9 universal. Isso \u00e9 um grande preconceito&#8221;, desabafa Paula Ramos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A morte de Sim\u00f5es Lopes Neto, em 1916, fez com que seus livros desaparecessem da cena temporariamente, embora o autor tivesse um reconhecimento p\u00fablico regional no dec\u00eanio de 1910, assinala Jocelito. \u00c9 apenas uma d\u00e9cada depois, em 1926 \u2013 com a aquisi\u00e7\u00e3o dos direitos autorais de <em>Contos Gauchescos<\/em> (1912) e <em>Lendas do Sul<\/em> (1913) pela Livraria do Globo, que lan\u00e7a naquele ano os dois t\u00edtulos em apenas um \u00fanico volume \u2013, que o autor \u00e9 resgatado por seus conterr\u00e2neos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jovens modernistas ga\u00fachos como Augusto Meyer e Darcy Azambuja exaltaram a nova edi\u00e7\u00e3o em cr\u00edticas publicadas em jornais de1926, explica Jocelito. A revista <em>Madrugada<\/em> transcreveria de pronto alguns trechos da obra. A partir desse momento, &#8220;Sim\u00f5es acabaria por inaugurar a genealogia moderna\/modernista na tradi\u00e7\u00e3o letrada ga\u00facha&#8221;, comenta o professor do Col\u00e9gio de Aplica\u00e7\u00e3o da UFRGS.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Nos anos 1940, modernistas ga\u00fachos hist\u00f3ricos, como Augusto Meyer, lembrariam dessa d\u00edvida ao colocar a obra em circula\u00e7\u00e3o nacional. Tudo se passava como se, no momento em que a corrente modernista j\u00e1 se encontrava estabelecida no pa\u00eds, os escritores do Rio Grande do Sul lembrassem que antes de M\u00e1rio de Andrade, Oswald de Andrade e da Semana da Arte Moderna houve um ga\u00facho tamb\u00e9m moderno, outro marco das transforma\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias que o Brasil vivenciou no s\u00e9culo 20&#8221;<\/p><cite>Jocelito Zalla<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os pormenores dessa hist\u00f3ria e os detalhes em torno do impacto de Sim\u00f5es Lopes Neto na gera\u00e7\u00e3o modernista ga\u00facha s\u00e3o analisados detalhadamente por Jocelito Zalla no livro <em>Sim\u00f5es Lopes Neto modernista: o campo liter\u00e1rio e a inven\u00e7\u00e3o do autor<\/em>, com previs\u00e3o de lan\u00e7amento neste ano pela editora Letra e Voz. O trabalho, uma adapta\u00e7\u00e3o da segunda parte de sua tese em Hist\u00f3ria Social, discute o momento em que a &#8220;est\u00e9tica do desvio&#8221; do intelectual pelotense se encontra com a sensibilidade modernista em plena forma\u00e7\u00e3o durante a d\u00e9cada de 1920.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Em destaque, a diversidade da arte moderna brasileira<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gradativamente, as revis\u00f5es da historiografia sobre os modernismos brasileiros mostram que a Semana de 1922 n\u00e3o ilustra nem o princ\u00edpio muito menos o apogeu de uma renova\u00e7\u00e3o que cruzou d\u00e9cadas e at\u00e9 hoje suscita ecos. Cada lugar tem o seu quadro e o importante \u00e9 observar justamente a riqueza e a diversidade dos modernismos no Brasil. Em 2022, dezenas de atividades com este objetivo, entre exposi\u00e7\u00f5es, artigos, dossi\u00eas, debates e livros, buscam ajudar a montar o grande mosaico da arte moderna em um pa\u00eds de dimens\u00e3o continental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma delas \u00e9 a exposi\u00e7\u00e3o <em><a href=\"https:\/\/www.sescsp.org.br\/programacao\/raio-que-o-parta-ficcoes-do-moderno-no-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Raio-que-o-parta: fic\u00e7\u00f5es do moderno no Brasil<\/a><\/em>, inaugurada no dia 16 de fevereiro no Sesc 24 de Maio, em S\u00e3o Paulo. A mostra possui sete curadores de v\u00e1rias regi\u00f5es do pa\u00eds, entre eles a professora Paula Ramos, do Instituto de Artes da UFRGS, que responde pelo Rio Grande do Sul. &#8220;Essa \u00e9 uma exposi\u00e7\u00e3o que tem a ambi\u00e7\u00e3o de tentar lan\u00e7ar luz sobre esses v\u00e1rios modernismos. \u00c9 por isso que n\u00e3o d\u00e1 para se falar em &#8216;Modernismo&#8217; no Brasil. Temos sempre que chamar a aten\u00e7\u00e3o para isso, pois s\u00e3o modernismos diferentes. Cada local tem o seu&#8221;, sinaliza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com curadoria-geral de Raphael Fonseca, aproximadamente 600 obras de 200 artistas s\u00e3o colocadas em di\u00e1logo para refletir sobre a no\u00e7\u00e3o de &#8220;arte moderna&#8221; brasileira. A proposta \u00e9 ir muito al\u00e9m da d\u00e9cada de 1920 e do protagonismo que a hist\u00f3ria da arte atribuiu a S\u00e3o Paulo. O arco temporal da mostra, dividida em quatro n\u00facleos considerados mais instigantes pelos curadores, contempla o final do s\u00e9culo XIX at\u00e9 meados do s\u00e9culo XX, incorporando a presen\u00e7a de artistas que constru\u00edram suas pesquisas em diferentes estados do pa\u00eds. Algumas das obras expostas nunca sequer sa\u00edram de seus museus regionais e de suas cidades, destaca Paula Ramos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;O objetivo n\u00e3o \u00e9 contemplar tudo, por quest\u00f5es de espa\u00e7o e recorte curatorial, mas ela tem uma dilata\u00e7\u00e3o temporal que consideramos importante, justamente porque os modernismos n\u00e3o s\u00e3o iguais, eles n\u00e3o acontecem todos nos anos 1920 e 1930. T\u00eam lugares que s\u00e3o mais fortes nos anos 1940, por exemplo. Com isso, quisemos abrir para contemplar essa diversidade&#8221;<\/p><cite>Paula Ramos<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mostra \u00e9 parte do projeto <em>Diversos 22<\/em>, idealizado pelo Sesc S\u00e3o Paulo, e integra as comemora\u00e7\u00f5es do centen\u00e1rio da Semana de Arte Moderna e o bicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia. A exposi\u00e7\u00e3o segue com entrada gratuita at\u00e9 o dia 7 de agosto de 2022.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-3 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"699\" height=\"1080\" data-id=\"47608\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Fernando-Corona-1924.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-47608\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Fernando-Corona-1924.jpg 699w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Fernando-Corona-1924-194x300.jpg 194w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Fernando-Corona-1924-663x1024.jpg 663w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Fernando-Corona-1924-76x117.jpg 76w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Fernando-Corona-1924-356x550.jpg 356w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Fernando-Corona-1924-324x500.jpg 324w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Fernando-Corona-1924-150x232.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 699px) 100vw, 699px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"717\" height=\"1080\" data-id=\"47605\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Corona-Fernando-1924-b.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-47605\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Corona-Fernando-1924-b.jpg 717w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Corona-Fernando-1924-b-199x300.jpg 199w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Corona-Fernando-1924-b-680x1024.jpg 680w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Corona-Fernando-1924-b-78x117.jpg 78w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Corona-Fernando-1924-b-365x550.jpg 365w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Corona-Fernando-1924-b-332x500.jpg 332w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Corona-Fernando-1924-b-150x226.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 717px) 100vw, 717px\" \/><\/figure>\n<figcaption class=\"blocks-gallery-caption\">M\u00e1scara cubista de Borges de Medeiros, 1924. Escultura em gesso, 34 \u00d7 21 \u00d7 20 cm<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-4 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" data-id=\"47609\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Joa\u0303o-Fahrion-1924_.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-47609\"\/><\/figure>\n<figcaption class=\"blocks-gallery-caption\">Pra\u00e7a da Alf\u00e2ndega, 1924. \u00d3leo sobre tela, 64 \u00d7 57 cm<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-5 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"705\" height=\"1080\" data-id=\"47610\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Catalogo-Sala\u0303o-de-Outono_capa.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-47610\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Catalogo-Sala\u0303o-de-Outono_capa.jpg 705w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Catalogo-Sala\u0303o-de-Outono_capa-196x300.jpg 196w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Catalogo-Sala\u0303o-de-Outono_capa-668x1024.jpg 668w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Catalogo-Sala\u0303o-de-Outono_capa-76x117.jpg 76w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Catalogo-Sala\u0303o-de-Outono_capa-359x550.jpg 359w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Catalogo-Sala\u0303o-de-Outono_capa-326x500.jpg 326w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Catalogo-Sala\u0303o-de-Outono_capa-150x230.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 705px) 100vw, 705px\" \/><\/figure>\n<figcaption class=\"blocks-gallery-caption\">&nbsp;Acima, capa do cat\u00e1logo do Sal\u00e3o de Outono. Antes, obras de Fernando Corona e de Jo\u00e3o Fahrion, artistas referenciais de uma modernidade sulina. As pe\u00e7as fazem parte do acervo da Pinacoteca Bar\u00e3o de Santo \u00c2ngelo, do Instituto de Artes da UFRGS<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cultura | No ano em que S\u00e3o Paulo celebra o centen\u00e1rio da Semana de Arte Moderna, pesquisadores refor\u00e7am a exist\u00eancia de muitos modernismos e de v\u00e1rias leituras e no\u00e7\u00f5es da arte moderna para al\u00e9m daquela atrelada a um protagonismo paulistano *Foto: Autor desconhecido A Semana de Arte Moderna completa 100<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/repensar-as-margens-redefinir-os-centros-o-modernismo-visto-do-rio-grande-do-sul\/\">Leia 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