{"id":47220,"date":"2022-04-28T08:40:00","date_gmt":"2022-04-28T11:40:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=47220"},"modified":"2022-04-28T08:52:54","modified_gmt":"2022-04-28T11:52:54","slug":"fabiana-magnabosco-e-a-causa-celiaca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/fabiana-magnabosco-e-a-causa-celiaca\/","title":{"rendered":"Fabiana Magnabosco e a causa cel\u00edaca"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Perfil | Mestranda do PPG Alimenta\u00e7\u00e3o, Nutri\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade conta como descobriu ser cel\u00edaca aos 28 anos e reflete sobre os impactos em sua vida e a mudan\u00e7a de carreira provocados pelo diagn\u00f3stico<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Foto: Fl\u00e1vio Dutra\/JU<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde a inf\u00e2ncia, Fabiana Magnabosco de Vargas sabia que havia algo de errado com sua sa\u00fade. Sofria com problemas gastrointestinais e, sobretudo, de anemia. Por, entretanto, n\u00e3o apresentar perfil cl\u00e1ssico de uma crian\u00e7a an\u00eamica, os m\u00e9dicos sempre apontaram sua m\u00e1 alimenta\u00e7\u00e3o como a culpada da hist\u00f3ria, o que deixava sua fam\u00edlia intrigada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2014, aos 28 anos, Fabiana passou a sofrer com infec\u00e7\u00f5es urin\u00e1rias, o que levou seu m\u00e9dico a receitar um tratamento mais longo, iniciado com mudan\u00e7as na alimenta\u00e7\u00e3o. Ela deixou de lado p\u00e3es e massas e, em uma semana, j\u00e1 sentia os efeitos positivos: \u201cEu comecei a me sentir superbem de outras coisas, de outros sintomas que pra mim j\u00e1 eram normais e que j\u00e1 faziam parte da minha vida. Foi uma semana em que eu dormi muito bem. Dormi bem, acordei bem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O m\u00e9dico estranhou os efeitos imediatos e, pela primeira vez, cogitou que Fabiana pudesse ter doen\u00e7a cel\u00edaca \u2013 condi\u00e7\u00e3o autoimune cujo tratamento \u00e9 a dieta livre de gl\u00faten, uma prote\u00edna presente no trigo, centeio e cevada \u2013, not\u00edcia recebida com susto pela paciente. A m\u00e3e de uma amiga sua tamb\u00e9m era cel\u00edaca, mas, fora isso, Fabiana conhecia muito pouco sobre a doen\u00e7a: \u201cEu at\u00e9 conhecia a doen\u00e7a cel\u00edaca. Sabia que era uma quest\u00e3o de n\u00e3o poder comer gl\u00faten, mas era o m\u00e1ximo que eu sabia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela passou, ent\u00e3o, a ir atr\u00e1s de informa\u00e7\u00f5es e, quanto mais pesquisava, mais tinha certeza de que era aquilo que a atormentou a vida inteira. Esbarrou, contudo, novamente no problema de n\u00e3o ter o perfil cl\u00e1ssico da doen\u00e7a. N\u00e3o apresentava perda de peso \u2013 um dos sintomas t\u00edpicos  \u2013, o que fez seu gastroenterologista resistir a fechar o diagn\u00f3stico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fabiana bateu o p\u00e9 e realizou exames que acabaram indicando que ela era, de fato, cel\u00edaca.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Quando veio a not\u00edcia, foi uma mistura de al\u00edvio, porque enfim eu descobri qual era o problema da minha vida toda, desde que eu me lembre de ficar doente, mas tamb\u00e9m bateu aquele p\u00e2nico de pensar \u2018t\u00e1, e agora?\u2019\u201d<\/p><cite>Fabiana Magnabosco de Vargas<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Num primeiro momento, Fabiana se sentiu desamparada. Ela relata que a falta de orienta\u00e7\u00f5es a levou a desenvolver outros tipos de problemas: \u201cNo in\u00edcio, como tudo parecia que me fazia muito mal, eu comecei a ficar com medo de comer, ent\u00e3o eu comia basicamente fruta e verdura, porque n\u00e3o eram industrializadas. Mas \u00f3bvio que isso n\u00e3o deu certo por muito tempo. Comecei a ter muita dor de cabe\u00e7a. E, \u00e0s vezes, eu tinha desmaios do nada\u201d. Foi ao neurologista entender o seu novo problema e descobriu que estava com a glicose baixa: n\u00e3o estava comendo o suficiente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi apenas quando encontrou grupos de apoio nas redes sociais que Fabiana recebeu suporte<strong>.<\/strong> Ela se engajou na <mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-black-color\">Associa\u00e7\u00e3o dos Cel\u00edacos do Brasil (Acelbra)<\/mark> logo de cara e passou a entender melhor o que \u00e9 ser cel\u00edaco. Na verdade, Fabiana mergulhou de cabe\u00e7a na causa e, ainda em 2014, entrou para a dire\u00e7\u00e3o da Acelbra no Rio Grande do Sul. Pouco tempo depois, viria a assumir a presid\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cEu quis entrar pra esse mundo. J\u00e1 que eu j\u00e1 estava nele e n\u00e3o poderia sair dele mesmo, pensei \u2018vou fazer alguma coisa de \u00fatil\u2019. Queria ajudar outras pessoas de alguma forma. N\u00e3o queria que sofressem 28 anos pra ter um diagn\u00f3stico de uma coisa que \u00e9 muito simples. Apesar de dif\u00edcil, [&#8230;] \u00e9 uma doen\u00e7a simples de tratar. O tratamento \u00e9 alimentar, tirar o agressor [gl\u00faten] e cuidar da contamina\u00e7\u00e3o cruzada\u201d<\/p><cite>Fabiana Magnabosco de Vargas<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atuando \u00e0 frente da associa\u00e7\u00e3o, Fabiana conseguiu aumentar a visibilidade para a causa, criando la\u00e7os com pol\u00edticos porto-alegrenses, propondo leis municipais e organizando eventos, como, por exemplo, a terceira edi\u00e7\u00e3o do RS Sem Gl\u00faten, feira ocorrida na Usina do Gas\u00f4metro em 2015.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Mudan\u00e7a de \u00e1rea<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2016, Fabiana mudou a dire\u00e7\u00e3o de sua vida profissional. Matriculou-se na Unilasalle \u2013 universidade pela qual j\u00e1 havia se graduado em Qu\u00edmica \u2013 para cursar Nutri\u00e7\u00e3o, curso que sempre tivera o desejo de seguir e que agora encontrara o motivo ideal para fazer. Seus objetivos, contudo, n\u00e3o se limitavam aos estudos. Ela queria plantar uma semente, montar oficinas, criar v\u00ednculos entre a universidade e a causa cel\u00edaca. E teve sucesso na empreitada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEles n\u00e3o falavam muito sobre doen\u00e7a cel\u00edaca, j\u00e1 eu colocava doen\u00e7a cel\u00edaca em todos os t\u00f3picos. Sempre que tinha uma oportunidade, eu falava sobre doen\u00e7a cel\u00edaca. O legal \u00e9 que todo mundo hoje me conhece dentro da universidade\u201d, explica, rindo. No fim, sua insist\u00eancia acabou fazendo com que seus professores adicionassem o tema aos planos de ensino das disciplinas. \u201cPelo menos aquela turma de nutricionistas, quando receber um paciente cel\u00edaco, vai saber o que fazer. Vai saber o que \u00e9 a doen\u00e7a.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No TCC, Fabiana quebrou a cabe\u00e7a para encontrar um tema que dialogasse com a causa. Junto com sua colega na gest\u00e3o da Acelbra RS, Ester Benatti, decidiu estudar a <strong>efic\u00e1cia da tripla lavagem<\/strong>, uma t\u00e9cnica utilizada para a descontamina\u00e7\u00e3o de gl\u00faten, uma prote\u00edna extremamente contaminante. A t\u00e9cnica utiliza detergente, uma solu\u00e7\u00e3o de vinagre e sal e \u00e1lcool 70% para quebrar as fra\u00e7\u00f5es da mol\u00e9cula.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O resultado do estudo chamou a aten\u00e7\u00e3o de Viviani Ruffo, professora do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Alimenta\u00e7\u00e3o, Nutri\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade da UFRGS, que convidou Fabiana a seguir com seu projeto como mestranda na institui\u00e7\u00e3o. Agora, a ideia do atual projeto \u00e9 testar a limpeza com novos produtos em outros materiais e em cozinhas industriais, a fim de criar um manual de boas pr\u00e1ticas na descontamina\u00e7\u00e3o de gl\u00faten que possa ser aplicado em cozinhas de restaurantes.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cSe a gente tiver procedimentos, \u00e9 poss\u00edvel que um lugar que produza com gl\u00faten possa produzir sem gl\u00faten tamb\u00e9m, com cuidados, obviamente. S\u00f3 que pra ter cuidados, as pessoas precisam conhecer. E as pessoas n\u00e3o conhecem sobre a doen\u00e7a, elas n\u00e3o sabem o que \u00e9 a doen\u00e7a cel\u00edaca&#8221; <\/p><cite>Fabiana Magnabosco de Vargas<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para ela, o setor gastron\u00f4mico precisa ter conhecimento do assunto: <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;O dono, quem abre o restaurante, que t\u00e1 trabalhando com comida, precisa entender que existem alimentos que podem causar problemas para as pessoas. Assim como ele sabe que existe contamina\u00e7\u00e3o microbiol\u00f3gica, ele tamb\u00e9m tem que saber que a restri\u00e7\u00e3o alimentar tamb\u00e9m \u00e9 um problema. Se ele n\u00e3o quiser aplicar, ok. Nenhum restaurante \u00e9 obrigado a atender a todos os p\u00fablicos que existam no planeta, mas \u00e9 importante que ele saiba que \u00e9 uma doen\u00e7a s\u00e9ria, que \u00e9 uma doen\u00e7a que, se n\u00e3o tratada, pode levar \u00e0 morte\u201d<\/p><cite>Fabiana Magnabosco de Vargas<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m de mestranda, Fabiana tamb\u00e9m trabalha como qu\u00edmica na CMPC Celulose Riograndense e como nutricionista, com foco no atendimento a cel\u00edacos. Como nutricionista, Fabiana entende que o melhor que pode fazer pelo paciente \u00e9 informar. Sua busca \u00e9 por dar <strong>autonomia<\/strong> ao paciente.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cO que eu posso fazer pelo meu paciente? Eu n\u00e3o posso dizer pra ele \u2018faz isso\u2019, \u2018faz aquilo\u2019. Eu tenho que orient\u00e1-lo, e ele, dentro das suas possibilidades, vai descobrir a melhor forma. Eu tenho que dar autonomia ao paciente [&#8230;], eu tenho que dar informa\u00e7\u00e3o pra ele ganhar autonomia, pra ele saber como ele vai gerenciar essa vida. [&#8230;] \u00c9 um gerenciamento de risco constante e, para gerenciar, precisa conhecer onde est\u00e3o os riscos, quais s\u00e3o os riscos\u201d<\/p><cite>Fabiana Magnabosco de Vargas<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fabiana tamb\u00e9m denuncia a quantidade de informa\u00e7\u00f5es incorretas que circulam, sobretudo pela internet. Ela defende que as pessoas busquem informa\u00e7\u00e3o nos locais certos e n\u00e3o caiam no que chama de \u201cterrorismo\u201d \u2013 ideias ainda muito difundidas de que os cel\u00edacos precisam se privar de parte de seus direitos para viver com seguran\u00e7a. Fabiana discorda e, novamente, bate na tecla de que o paciente precisa conhecer a doen\u00e7a a fundo para entender os seus limites.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A nutricionista defende que as informa\u00e7\u00f5es corretas devem romper a bolha da comunidade cel\u00edaca e chegar a toda a popula\u00e7\u00e3o. E o primeiro passo nesse processo \u00e9 deixar o senso comum para tr\u00e1s, a come\u00e7ar pela confus\u00e3o entre doen\u00e7a autoimune e intoler\u00e2ncia. Fabiana explica que cel\u00edacos n\u00e3o s\u00e3o intolerantes ao gl\u00faten: o que acontece \u00e9 que o organismo do cel\u00edaco interpreta o gl\u00faten como um agente estranho, e o sistema imunol\u00f3gico se mobiliza para eliminar as mol\u00e9culas \u2018inimigas\u2019 \u2013 comportamento t\u00edpico de uma doen\u00e7a autoimune.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fabiana, contudo, reconhece que h\u00e1 um longo caminho a ser trilhado. Afinal, na pr\u00f3pria \u00e1rea m\u00e9dica ainda existem obst\u00e1culos a serem superados: \u201cA gente tem muito m\u00e9dico que n\u00e3o acredita na contamina\u00e7\u00e3o cruzada. A gente tem muito m\u00e9dico que n\u00e3o acredita que exista a sensibilidade ao gl\u00faten, que \u00e9 aquele paciente que fica no limbo, que os exames d\u00e3o negativo [para doen\u00e7a cel\u00edaca], mas tem muitos sintomas [quando ingere gl\u00faten]\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela tamb\u00e9m admite a dificuldade de viver em um mundo no qual o gl\u00faten parece estar em todo lugar, mas, olhando para a sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria, sabe que \u00e9 um caminho vi\u00e1vel: \u201cQuando algu\u00e9m me pergunta como \u00e9 viver sem gl\u00faten, eu digo que acho \u00f3timo, porque eu sofri muito. Foram muitos anos de sofrimento, e quando eu descobri que era \u2018s\u00f3\u2019 isso, eu quase n\u00e3o acreditei. Depois eu entendi que n\u00e3o era t\u00e3o f\u00e1cil assim, mas\u2026 \u00e9 s\u00f3 tirar o gl\u00faten. Ok. \u00c9 s\u00f3 fazer um ajuste na minha alimenta\u00e7\u00e3o. [&#8230;] \u00c9 dif\u00edcil, mas poss\u00edvel\u201d.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Perfil | Mestranda do PPG Alimenta\u00e7\u00e3o, Nutri\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade conta como descobriu ser cel\u00edaca aos 28 anos e reflete sobre os impactos em sua vida e a mudan\u00e7a de carreira provocados pelo diagn\u00f3stico<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/fabiana-magnabosco-e-a-causa-celiaca\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":186,"featured_media":47344,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[124],"tags":[3158,1748,418,3156,3157,92,872,267,3159,848,58],"ppma_author":[2945],"class_list":["entry","author-angelorockenbach","has-excerpt","post-47220","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-perfil","tag-acelbra","tag-direito-humano-a-alimentacao-adequada","tag-direitos-humanos","tag-doenca-celiaca","tag-gluten","tag-inclusao","tag-nutricao","tag-perfil","tag-restricoes-alimentares","tag-seguranca-alimentar","tag-ufrgs"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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