{"id":48709,"date":"2022-06-02T07:31:00","date_gmt":"2022-06-02T10:31:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=48709"},"modified":"2022-06-02T08:55:50","modified_gmt":"2022-06-02T11:55:50","slug":"arts-crafts-quando-a-arte-ousou-ser-util","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/arts-crafts-quando-a-arte-ousou-ser-util\/","title":{"rendered":"Arts &#038; Crafts: quando a arte ousou ser \u00fatil"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | Doutorando em Artes Visuais, Andr\u00e9 Winter Noble apresenta o movimento Arts &amp; Crafts, impulsionado por William Morris, e seus reflexos na cidade de Pelotas<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Por: Andr\u00e9 Winter Noble<br>*Foto: DANIEL ACOSTA, Elementos Ornamentais Aut\u00f4nomos, 1993: 30 x 70cm \/ 50 x 30 x 20cm \/ 40 x 80 x 25cm \/ Gesso. Fonte: ACOSTA, Daniel. Daniel Acosta. Rio de Janeiro: Circuito, 2018.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Arte deve servir a um fim externo ou deve preservar seu valor intr\u00ednseco, distanciando-se de qualquer v\u00ednculo suspeito com a utilidade? Sem resposta definitiva, essa \u00e9 uma pergunta que perpassa a Hist\u00f3ria da Arte e ainda suscita infinitos debates. Na verdade, durante muito tempo, a arte sempre foi \u201cservil\u201d, mas os desdobramentos te\u00f3ricos modernos tornaram quase um tabu se falar em \u201cfun\u00e7\u00e3o da arte\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, sempre h\u00e1 rebeldes. Uma figura que defendeu explicitamente a utilidade da arte \u00e9 o brit\u00e2nico William Morris, pai da escola <em>Arts and Crafts<\/em>, a qual deixaria suas marcas profundas no outro lado do mundo, na cidade de Pelotas. A express\u00e3o em ingl\u00eas corresponde a &#8220;Artes e Of\u00edcios&#8221; em nossa l\u00edngua. Trata-se de uma concep\u00e7\u00e3o de fazer arte inspirada na ideia grega da <em>techn\u00e9<\/em>, do saber fazer, que perdurou at\u00e9 o per\u00edodo medieval com as guildas, nas quais art\u00edfices trabalhavam em uma esp\u00e9cie de cooperativa. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O surgimento desse movimento corresponde \u00e0 \u00e9poca de erup\u00e7\u00e3o do capitalismo em decorr\u00eancia da emerg\u00eancia e consolida\u00e7\u00e3o de uma burguesia fabril. A Revolu\u00e7\u00e3o Industrial que se afirmava h\u00e1 mais de um s\u00e9culo como a grande locomotiva econ\u00f4mica europeia tornava os objetos cotidianos cada vez mais padronizados e eivados do gosto de uma classe atenta apenas \u00e0 maximiza\u00e7\u00e3o do lucro com a produ\u00e7\u00e3o seriada, o que aprofundou o abismo social entre burguesia e classe oper\u00e1ria. Nesse momento, destacaram-se figuras como John Ruskin (1819\u20131900) e William Morris (1834\u20131896): o primeiro, grande cr\u00edtico do processo de industrializa\u00e7\u00e3o; o segundo, grande nome que impulsionou o movimento <em>Arts and Crafts<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao criticar os m\u00e9todos de produ\u00e7\u00e3o, assim como a falsa sensa\u00e7\u00e3o de progresso e os processos de aliena\u00e7\u00e3o gerados pela rotina de trabalho na cadeia produtiva, Ruskin abre caminho para que Morris proponha a recupera\u00e7\u00e3o da artesania caracter\u00edstica do per\u00edodo medieval, em que os artes\u00e3os tinham total conhecimento dos materiais e modos de produ\u00e7\u00e3o dos seus objetos. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Foi promovido, assim, um modelo educacional que se destacava como uma sa\u00edda \u00e0 crescente industrializa\u00e7\u00e3o, propondo uma alternativa para a mecaniza\u00e7\u00e3o que, al\u00e9m de alienar os produtores, colocava no mundo objetos totalmente desprovidos de identidade pr\u00f3pria e sem preocupa\u00e7\u00e3o com o conforto no uso. <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Morris, o ornamento era algo necess\u00e1rio e deveria ser acessado por todos e dispon\u00edvel em todos os momentos, inclusive no cotidiano dom\u00e9stico, decorando n\u00e3o apenas igrejas, mas tamb\u00e9m o interior das resid\u00eancias, acompanhando a vida de maneira geral. Conforme escreve Florence Boos em &#8220;The Routledge Companion to William Morris&#8221;, sua concep\u00e7\u00e3o de arte era de que ela deveria ser \u00fatil em todos os sentidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O leitor impaciente talvez queira me perguntar, agora, como \u00e9 que Pelotas entrou nessa hist\u00f3ria toda. Pois bem, hoje mais conhecida pelos doces que produz, Pelotas j\u00e1 teve suas \u00e9pocas mais glamourosas. No seu passado glorioso, a cidade viu inaugurar a escola de agronomia, em 1883, uma das primeiras do pa\u00eds, que, em 1887,&nbsp;responderia pelo nome de Escola de Agronomia, Artes e Of\u00edcios. Chamada de \u201ca Paris dos pampas\u201d, Pelotas recebera esse apelido por manter um intenso interc\u00e2mbio com a Europa no s\u00e9culo XIX, trazendo n\u00e3o apenas costumes e vestimentas ao gosto europeu, mas tamb\u00e9m o estilo Artes e Of\u00edcios, o que ajudou a dar fei\u00e7\u00e3o aos ornamentos arquitet\u00f4nicos, inicialmente importados e logo produzidos na cidade. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitos desses elementos ornamentais passariam a enfeitar a arquitetura pelotense, cujos muros eram inicialmente levantados com m\u00e3o de obra cativa e logo teriam projetos assinados por imigrantes europeus, que buscavam na cidade um nicho sedento por cultura e costumes do velho continente. Segundo o historiador M\u00e1rio Os\u00f3rio Magalh\u00e3es, tal movimenta\u00e7\u00e3o foi decisiva para que, em maio de 1882, fosse levada a p\u00fablico a proposta de constru\u00e7\u00e3o daquele que seria o Liceu de Artes e Of\u00edcios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Infelizmente, assim como a cidade de Pelotas testemunhou a sucessiva perda do seu poderio econ\u00f4mico, o movimento <em>Arts and Crafts<\/em> tamb\u00e9m se viu entrar na fila dos que \u201cn\u00e3o deram muito certo\u201d. O movimento surgiu como uma oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o e \u00e0 explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. No entanto, devido ao modo de trabalho artesanal muito custoso, o qual replicava as guildas medievais, produzindo objetos \u00fanicos ou com s\u00e9ries limitadas em materiais diferenciados, os produtos acabaram sendo acessados apenas por uma classe seleta, que viu naqueles elementos \u00fanicos uma forma de se destacar da multid\u00e3o indistinta. Assim, o movimento inicialmente dirigido \u00e0 classe trabalhadora acabou sendo rapidamente apropriado pelo capitalismo. O ant\u00eddoto tornou-se veneno.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Engana-se, no entanto, quem julga que a arte se intimida com o fracasso e a cidade se afunda no esquecimento. <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eis que um artista quase pelotense cruzou com leveza e eleg\u00e2ncia o campo minado da arte \u00fatil <em>versus<\/em> arte in\u00fatil. Falo do artista rio-grandino Daniel Acosta, que h\u00e1 muito reside em Pelotas. Entre a vasta produ\u00e7\u00e3o do artista, encontra-se uma s\u00e9rie de obras que parte da reprodu\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica empregada pelos art\u00edfices do final do s\u00e9culo XIX. A \u00e9poca de produ\u00e7\u00e3o dessas obras coincide com as grandes demoli\u00e7\u00f5es das casas e palacetes hist\u00f3ricos da cidade de Pelotas, o que motivou uma s\u00e9rie de pol\u00edticas p\u00fablicas locais para tentar frear as demoli\u00e7\u00f5es e preservar os pr\u00e9dios hist\u00f3ricos restantes, os quais, doravante, deixariam de ser apenas moradias e adquiririam um sentido monumental, testemunhando o passado opulento da cidade. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ser\u00e1 que o gesto do artista de recuperar a t\u00e9cnica antiga da extinta escola Arte e Of\u00edcio pode indicar um sutil aceno \u00e0quele projeto grandioso de William Morris, coroando a arte com um papel emancipat\u00f3rio? Essa \u00e9 uma pergunta que cabe ao pr\u00f3prio leitor buscar a resposta, indo conhecer ele mesmo as obras maravilhosas de Daniel Acosta.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ebebeb\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/9795045085259879\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Andr\u00e9 Winter Noble<\/a> \u00e9 doutorando no PPG em Artes Visuais da UFRGS.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-black-color has-text-color wp-block-paragraph\" style=\"font-size:12px\"><em>&#8220;As manifesta\u00e7\u00f5es expressas neste ve\u00edculo n\u00e3o representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo | Doutorando em Artes Visuais, Andr\u00e9 Winter Noble apresenta o movimento Arts &#038; 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