{"id":49283,"date":"2022-06-13T08:20:00","date_gmt":"2022-06-13T11:20:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=49283"},"modified":"2022-06-13T10:30:56","modified_gmt":"2022-06-13T13:30:56","slug":"cultura-do-slam-proporciona-espaco-de-escuta-e-acolhimento-para-jovens-na-capital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/cultura-do-slam-proporciona-espaco-de-escuta-e-acolhimento-para-jovens-na-capital\/","title":{"rendered":"Cultura do slam proporciona espa\u00e7o de escuta e acolhimento para jovens da capital"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Arte | Poetas de diferentes regi\u00f5es da cidade encontram-se a c\u00e9u aberto e recitam poesias sobre situa\u00e7\u00f5es diversas, como racismo, homofobia e viol\u00eancia de g\u00eanero<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Foto: Fl\u00e1vio Dutra\/JU <\/em>&#8211; <em>Crua (E), Tiat\u00e3 (C) e Juliana Luise (D), do Slam das Minas,<br>um dos primeiros coletivos dessa modalidade no RS<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em uma pra\u00e7a de Porto Alegre, sob aplausos e gritos emocionados, uma roda de pessoas se forma. Um por vez, os poetas se preparam para receber notas dos jurados populares, que s\u00e3o retirados entre o p\u00fablico. Cada um com sua pr\u00f3pria viv\u00eancia, eles v\u00eam para contar por meio de versos suas identidades, subjetividades, desejos e ang\u00fastias. Assim se inicia o slam, um campeonato de poesia falada oriundo da cultura do Hip Hop, na d\u00e9cada de 1990 em Chicago, Estados Unidos, mas que chegou ao Brasil apenas 20 anos depois, em 2010.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na cena cultural porto-alegrense, os slams t\u00eam ganhado cada vez mais espa\u00e7o. De acordo com a jornalista, doutora em Educa\u00e7\u00e3o e pesquisadora do tema Li\u00e9ge Freitas Barbosa, a modalidade surgiu no Rio Grande do Sul em 2016 pela iniciativa de dois coletivos: o Slam das Minas RS e o Slam Peleia. A partir da\u00ed, vem crescendo consideravelmente. \u201cSe compararmos com o eixo Rio-S\u00e3o Paulo, o slam aqui no Rio Grande do Sul tem uma propor\u00e7\u00e3o menor, mas \u00e9 um movimento que tem muita pot\u00eancia\u201d, afirma. Assim, outros coletivos se espalharam pela cidade, sendo os mais famosos o Slam Chamego, Slam Poetas Vivos, Slam RS, Slam da Beira \u2013 al\u00e9m disso, h\u00e1 slams espec\u00edficos de bairros em que poetas e p\u00fablico podem encontrar um ref\u00fagio nas palavras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Li\u00e9ge conta que, durante a sua pesquisa, percebeu os encontros como um espa\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o de fala e tamb\u00e9m de escuta. \u201cO slam funciona para esses jovens quase como uma grande terapia coletiva, onde eles conseguem desabafar, dividir, compartilhar, levar as suas cargas, as suas mensagens\u201d, relata. Formados em sua grande maioria por jovens negros de periferia que trazem na bagagem uma trajet\u00f3ria repleta de desafios, os slams no Brasil t\u00eam um car\u00e1ter de protesto. \u201c[Os encontros] V\u00e3o ter temas dif\u00edceis justamente por esses jovens terem essa demanda, eles se apropriaram do formato do slam para poder manifestar as suas quest\u00f5es\u201d, ressalta a pesquisadora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Cena universit\u00e1ria<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201cSou da cor do barro amassado,<br>de pele queimada, da voz alta e rouca, filha da mata, sobrevivente da viol\u00eancia.\u00a0<br>N\u00e3o me julgue, n\u00e3o me compare, n\u00e3o me analise.\u00a0<br>N\u00e3o tente me alisar, me moldar,<br>Depois que fui parida, nunca mais fui de Ningu\u00e9m.<br>De tantas, de v\u00e1rias que sou<br>O que realmente sei \u00e9 o que n\u00e3o quero ser\u201d<\/em><br>Lella<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Oriunda das margens da sociedade, a cultura do slam se propagou e chegou at\u00e9 as universidades trazida por jovens perif\u00e9ricos que, a partir do movimento, ousaram acreditar que era poss\u00edvel ocupar esse espa\u00e7o de conhecimento durante muito tempo dominado pela elite. Na UFRGS, os slammers est\u00e3o presentes em diversos cursos, seja na gradua\u00e7\u00e3o ou na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. \u00c9 o caso da mestranda no Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Daniela Alves, conhecida no universo da poesia como Lella. Integrante do <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/slamdasminasrs\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Slam das Minas RS<\/a>, ela diz que sua rela\u00e7\u00e3o com o movimento iniciou em 2016, ano em que foi criado o grupo. \u201cO nosso coletivo \u00e9 totalmente aut\u00f4nomo, autogestion\u00e1vel, ent\u00e3o a gente se organiza como a gente consegue\u201d, declara. \u201cCom o tempo fomos agregando outras mulheres produtoras culturais, poetas para fazer parte dessa organiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Potencializando a presen\u00e7a do slam dentro da Universidade est\u00e1 a cantora e estudante de Publicidade e Propaganda Ari\u00e1dne Teixeira, conhecida no mundo slammer como Dadi. Precursora, juntamente com outras mulheres, da modalidade no Rio Grande do Sul, Dadi diz que sua rela\u00e7\u00e3o com o movimento teve in\u00edcio em 2017. \u201cO meu envolvimento com a poesia falada come\u00e7ou no <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/slampeleia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Slam Peleia<\/a> [&#8230;]; j\u00e1 no in\u00edcio eu participei de algumas competi\u00e7\u00f5es e ganhei\u201d, diz. No come\u00e7o, a poeta era apenas uma agregada do grupo, mas com o tempo aprofundou, ainda mais, sua rela\u00e7\u00e3o, tornando-se uma das organizadoras do projeto cultural. \u201cEu exer\u00e7o todas as fun\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, das ideias at\u00e9 a finaliza\u00e7\u00e3o, de tudo um pouco\u201d, relata. \u201cCada um dentro do projeto faz um pouquinho de cada coisa, ningu\u00e9m tem uma \u00e1rea espec\u00edfica.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sempre muito fechada para falar sobre os seus sentimentos, Dadi conta que foi a partir da sua rela\u00e7\u00e3o com o slam que conseguiu ser quem \u00e9. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cNa primeira vez que eu participei de um slam, recitei uma poesia que falava s\u00f3 de mim, de algumas dores que eu tinha, e as pessoas acolheram a minha dor, me ouviram\u201d<\/p><cite>Dadi<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA partir da\u00ed eu entendi quem eu era e qual era o meu prop\u00f3sito. E me tornei a artista que eu sou\u201d, relata. Suas maiores inspira\u00e7\u00f5es quando escreve s\u00e3o as quest\u00f5es que envolvem a vida, principalmente o sofrimento. \u201cEu sou conhecida como sad girl, tanto no slam como na m\u00fasica, porque as coisas deprimentes me excitam e me instigam mais\u201d, diverte-se.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi em 2016, durante as ocupa\u00e7\u00f5es nos c\u00e2mpus da UFRGS, que Nat\u00e1lia Pagot teve seu primeiro contato com a cultura do slam. Natural de Bento Gon\u00e7alves, na Serra Ga\u00facha, a bi\u00f3loga e mestranda em Educa\u00e7\u00e3o sempre foi pr\u00f3xima \u00e0 literatura, mas nunca havia tido contato com saraus e poesias faladas at\u00e9 ent\u00e3o. Ali, Nat\u00e1lia conheceu o trabalho de Mel Duarte \u2013 primeira mulher a vencer o Rio Poetry Slam (campeonato internacional de poesia falada) \u2013, e achou o trabalho da artista incr\u00edvel. \u201cA partir da\u00ed eu descobri que existiam outros poetas. Os poetas que estavam ali n\u00e3o eram mortos ou brancos\u201d, conta. \u201cEu comecei a resgatar as minhas escritas, comecei a perceber que o que eu escrevia tamb\u00e9m era poesia, que aqueles corpos negros tamb\u00e9m eram poetas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante o fim da sua gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas na UFRGS, Nat\u00e1lia foi convidada a integrar o coletivo <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/poetasvivxs\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Poetas Vivos<\/a>, criado a partir dos grupos existentes no Rio de Janeiro. Por trabalhar desde 2014 com educa\u00e7\u00e3o antirracista, a mestranda viu no grupo uma chance para ampliar seu conhecimento. \u201cEu entrei no coletivo para expandir as possibilidades enquanto educadora e as possibilidades que a arte tem enquanto educa\u00e7\u00e3o antirracista, enquanto educa\u00e7\u00e3o transformadora\u201d, afirma. O Poetas Vivos \u00e9 uma iniciativa cultural, ou seja, outras atividades acontecem al\u00e9m do slam, entre elas est\u00e3o oficinas de m\u00fasica, forma\u00e7\u00f5es, palestras e afroempreendedorismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-2 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1080\" height=\"719\" data-id=\"50161\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Fla\u0301vio-Dutra-9669.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-50161\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Fla\u0301vio-Dutra-9669.jpg 1080w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Fla\u0301vio-Dutra-9669-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Fla\u0301vio-Dutra-9669-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Fla\u0301vio-Dutra-9669-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Fla\u0301vio-Dutra-9669-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Fla\u0301vio-Dutra-9669-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1080px) 100vw, 1080px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1080\" height=\"719\" data-id=\"50162\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Fla\u0301vio-Dutra-9681.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-50162\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Fla\u0301vio-Dutra-9681.jpg 1080w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Fla\u0301vio-Dutra-9681-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Fla\u0301vio-Dutra-9681-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Fla\u0301vio-Dutra-9681-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Fla\u0301vio-Dutra-9681-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Fla\u0301vio-Dutra-9681-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1080px) 100vw, 1080px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1080\" height=\"719\" data-id=\"50163\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Fla\u0301vio-Dutra-9692.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-50163\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Fla\u0301vio-Dutra-9692.jpg 1080w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Fla\u0301vio-Dutra-9692-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Fla\u0301vio-Dutra-9692-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Fla\u0301vio-Dutra-9692-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Fla\u0301vio-Dutra-9692-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Fla\u0301vio-Dutra-9692-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1080px) 100vw, 1080px\" \/><\/figure>\n<figcaption class=\"blocks-gallery-caption\">Slam das Minas participou da Edi\u00e7\u00e3o 2022 da Noite dos Museus de Porto Alegre (Fotos: Fl\u00e1vio Dutra\/JU)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Ferramenta de transforma\u00e7\u00e3o<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O slam, segundo Li\u00e9ge, \u00e9 uma porta de entrada para a arte, e a academia deveria voltar mais os olhos para isso. Seguidamente silenciados, invisibilizados e exclu\u00eddos, foi a partir dessa cultura que muitos jovens conquistaram espa\u00e7o e autoestima para expressar suas viv\u00eancias atrav\u00e9s da poesia. \u201cA gente tem uma vis\u00e3o da academia como algo muito fechado, com um espa\u00e7o muito restrito, de acesso limitado\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cEu acho que \u00e9 importante a academia olhar para esses movimentos que est\u00e3o acontecendo na rua, porque a maioria desses jovens que est\u00e3o fazendo slam, que est\u00e3o levando para as rodas a sua poesia s\u00e3o os jovens do ensino m\u00e9dio que est\u00e3o entrando na Universidade\u201d<\/p><cite>Li\u00e9ge Freitas Barbosa<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, a cultura do slam apresenta uma possibilidade de carreira para a juventude da periferia. \u00c9 o que diz a mestranda Nat\u00e1lia Pagot. \u201cPara a juventude preta perif\u00e9rica sem estudo, sem qualifica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, na maioria das vezes, sem perspectiva, \u00e0s vezes faltando comida, \u00e9 uma mudan\u00e7a de vida, \u00e9 uma possibilidade de ver o mundo diferente\u201d, conclui.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Arte | Poetas de diferentes regi\u00f5es da cidade encontram-se a c\u00e9u aberto e recitam poesias sobre situa\u00e7\u00f5es diversas, como racismo, homofobia e viol\u00eancia de g\u00eanero<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/cultura-do-slam-proporciona-espaco-de-escuta-e-acolhimento-para-jovens-na-capital\/\">Leia 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