{"id":49461,"date":"2022-06-23T08:33:00","date_gmt":"2022-06-23T11:33:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=49461"},"modified":"2025-06-10T16:05:17","modified_gmt":"2025-06-10T19:05:17","slug":"julia-lopes-de-almeida-e-a-falencia-da-sociedade-desigual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/julia-lopes-de-almeida-e-a-falencia-da-sociedade-desigual\/","title":{"rendered":"A fal\u00eancia da sociedade desigual em J\u00falia Lopes de Almeida"},"content":{"rendered":"\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em que fizera ele at\u00e9 ent\u00e3o consistir a felicidade e o seu merecimento aos olhos dela? No dinheiro, s\u00f3 no dinheiro. Ele era bom porque sabia cavar a fortuna, encher a casa de joias, de fartura e de conforto. Ele era bom, porque, tendo partido de coisa nenhuma, chegara a tudo, visto que o dinheiro \u00e9 o dominador do mundo e ele tinha dinheiro.<\/p>\n<cite>Trecho de <em>A fal\u00eancia<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rio de Janeiro, capital da recente Rep\u00fablica brasileira, dezembro de 1891: na rua de S\u00e3o Bento, um torvelinho de gente, carro\u00e7as e sacas de caf\u00e9 fervilha sob sol escaldante. Em frente \u00e0 escrivaninha de seu escrit\u00f3rio, o portugu\u00eas Francisco Teodoro repousa altivo, remexendo as chaves e os r\u00e9is no bolso da cal\u00e7a. O suor reluzia seu \u201cbelo ar de burgu\u00eas satisfeito\u201d, que, tendo chegado ao Brasil \u201cmal vestido e mal alimentado\u201d, via agora o dinheiro correr ininterruptamente para a entrada de seus cofres.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contrastando com o frenesi das ruas do cais do porto, o ambiente no palacete de Francisco Teodoro, na praia de Botafogo, \u00e9 pacato e luxuoso. L\u00e1 se resguarda Camila, jovem desposada pelo portugu\u00eas, vinda de fam\u00edlia pobre mas \u201ctalhada para rainha\u201d. Ela alheia aos neg\u00f3cios, ele alheio ao lar e \u00e0 fam\u00edlia, a vida transcorre at\u00e9 que um incidente acaba por levar Francisco Teodoro \u00e0 fal\u00eancia, solapando sua vaidade e seus ideais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O romance de J\u00falia Lopes de Almeida \u00e9 uma das quatro novas obras da lista de leituras obrigat\u00f3rias do vestibular. Publicado originalmente em 1901, <em>A fal\u00eancia<\/em> retrata a forma\u00e7\u00e3o de uma elite urbana marcada pelo enriquecimento vindo da exporta\u00e7\u00e3o de caf\u00e9, ao mesmo tempo que exp\u00f5e as falhas e hipocrisias de uma jovem Rep\u00fablica que, apesar de fundada sobre ideais positivistas de liberdade e igualdade, parece nascer falida em desigualdades sociais j\u00e1 seculares.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">A fic\u00e7\u00e3o forte de J\u00falia<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Rita Terezinha Schmidt, docente no Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Letras que estuda h\u00e1 mais de 30 anos a literatura de autoria de mulheres, J\u00falia Lopes de Almeida foi uma das mais prol\u00edficas escritoras brasileiras. Junto a in\u00fameras outras mulheres que empunharam a pena, especialmente no s\u00e9culo XIX, ela, todavia, foi desconsiderada na historiografia liter\u00e1ria nacional. \u201cQuando muito, uma ou outra \u00e9 mencionada em nota de rodap\u00e9\u201d, observa.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO c\u00e2none liter\u00e1rio brasileiro n\u00e3o inclui as obras das mulheres. Dentro de um sistema patriarcal, a mulher &#8216;n\u00e3o diz nada que presta&#8217;\u201d<\/p>\n<cite>Rita Terezinha Schmidt<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contempor\u00e2nea de Machado de Assis e Alu\u00edsio de Azevedo, J\u00falia, ao longo de 45 anos, publicou romances, contos, cr\u00f4nicas, pe\u00e7as de teatro, ensaios e livros did\u00e1ticos para crian\u00e7as \u2013 j\u00e1 30 anos antes de outro de seus contempor\u00e2neos, Monteiro Lobato, voltar-se \u00e0 literatura infantil. Em sua obra, ela evidencia uma vis\u00e3o pol\u00edtica alinhada ao abolicionismo, feminismo e pacifismo, contribui\u00e7\u00e3o que, para Rita, \u201cn\u00e3o se encontra em romances de autoria dos homens da \u00e9poca\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas nem por isso o trabalho de Julia era benquisto. \u201cEles tomavam os textos dela como \u2018sorriso da sociedade\u2019: uma fic\u00e7\u00e3o fraca. Quando, na verdade, ela estava colocando o dedo na ferida e levantando muitas quest\u00f5es. A obra dela traz muito \u00e0 luz a preocupa\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica, em um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira, de uma sociedade escravocrata para uma sociedade capitalista, que, com seu sistema de explora\u00e7\u00e3o do trabalho, resultou em transforma\u00e7\u00f5es de valores e costumes\u201d, diz Rita.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pela qualidade de sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e por ter integrado o grupo que constituiu a Academia Brasileira de Letras (ABL), J\u00falia teve o nome inclu\u00eddo na primeira lista de imortais da institui\u00e7\u00e3o. Mas ela n\u00e3o chegou a tomar posse: na sess\u00e3o solene de funda\u00e7\u00e3o da Academia, em julho de 1897, sua cadeira foi para o portugu\u00eas Filinto de Almeida, seu marido. A libera\u00e7\u00e3o \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de mulheres na ABL viria 80 anos depois, com a elei\u00e7\u00e3o de Rachel de Queiroz, em 1977.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Do individual ao coletivo<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <em>A fal\u00eancia<\/em>, J\u00falia retruca seus pares do campo liter\u00e1rio \u2013 quase todos homens \u2013 ao n\u00e3o castigar, na narrativa, a ad\u00faltera Camila. Por meio da personagem, ela denuncia uma moral de dois pesos e duas medidas, que faz sofrer mulheres enquanto isenta homens pelos mesmos atos. Ao longo do romance, tensiona a misoginia e, de maneira \u00e1cida, faz um retrato de sua pr\u00f3pria realidade. \u201cS\u00f3 se fala por a\u00ed em emancipa\u00e7\u00e3o e outras patranhas\u2026 a mulher nasceu para ser m\u00e3e de fam\u00edlia. O lar \u00e9 o seu altar; deslocada dele n\u00e3o vale nada!\u201d, diz Francisco Teodoro em dado momento da narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rita observa que, no contexto da produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de J\u00falia, o est\u00e9tico e o pol\u00edtico n\u00e3o podem ser dissociados: \u201c\u00c9 justamente essa jun\u00e7\u00e3o a condi\u00e7\u00e3o <em>sine qua non<\/em> para a gente analisar e compreender o sentido e a fun\u00e7\u00e3o da literatura escrita por ela\u201d. E conclui: \u201c\u00c9 uma literatura que inscreve a potencialidade de todo fazer liter\u00e1rio, que \u00e9 a de interpelar os leitores, a partir de um registro muito individual e pessoal, sobre a experi\u00eancia do coletivo\u201d.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/afalencia-CMYK-1024x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-50403\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/afalencia-CMYK-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/afalencia-CMYK-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/afalencia-CMYK-117x117.jpg 117w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/afalencia-CMYK-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/afalencia-CMYK-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/afalencia-CMYK-465x465.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/afalencia-CMYK-500x500.jpg 500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/afalencia-CMYK.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Arte: Marina Prud\u00eancio<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-background-color has-background wp-block-paragraph\"><strong>Especial Leituras Obrigat\u00f3rias<\/strong><br>Com o objetivo de ampliar as experi\u00eancias de leitura, o JU produz, desde 2018, uma s\u00e9rie de reportagens em que especialistas destacam aspectos e fazem an\u00e1lises interpretativas das obras indicadas pela Universidade. Acompanha cada texto a cria\u00e7\u00e3o de artistas convidados que dialoga com a obra e a biografia de autoras e autores. Veja as reportagens <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/leituras-obrigatorias\/\">aqui<\/a>.<br><br><strong>Marina Prud\u00eancio<\/strong> \u00e9 bacharel em Artes Visuais pela UFRGS e trabalha com pintura em tinta acr\u00edlica, desenho, fotografia e aquarela.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#9b51e04f\"><strong>:: Saiba mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O podcast <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/luminapodcasts\/site\/index\/da-estante\">Da Estante<\/a>, da R\u00e1dio da Universidade, destaca obras completas, lidas por cap\u00edtulos&nbsp;\u2013&nbsp;ideia inspirada nos antigos folhetins radiof\u00f4nicos. A apresenta\u00e7\u00e3o do programa \u00e9 de Liz De Bortoli. <br>Ou\u00e7a os epis\u00f3dios de<strong> A Fal\u00eancia<\/strong>:<\/p>\n\n\n\n<iframe src=\"https:\/\/anchor.fm\/radioufrgs\/embed\/episodes\/Da-Estante-t02e08--A-Falncia-e1nuopp\/a-a8hot7b\" height=\"102px\" width=\"400px\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe>\n\n\n\n<iframe src=\"https:\/\/anchor.fm\/radioufrgs\/embed\/episodes\/Da-Estante-t02e07--A-Falncia-e1njp2l\/a-a8gj98q\" height=\"102px\" width=\"400px\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe>\n\n\n\n<iframe src=\"https:\/\/anchor.fm\/radioufrgs\/embed\/episodes\/Da-Estante-t02e06--A-Falncia-e1naipl\/a-a8fiq24\" height=\"102px\" width=\"400px\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe>\n\n\n\n<iframe src=\"https:\/\/anchor.fm\/radioufrgs\/embed\/episodes\/Da-Estante-t02e05--A-Falncia-e1mvas1\/a-a8ebpfo\" height=\"102px\" width=\"400px\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe>\n\n\n\n<iframe src=\"https:\/\/anchor.fm\/radioufrgs\/embed\/episodes\/Da-Estante-t02e04--A-Falncia-e1mnhan\/a-a8dsm43\" height=\"102px\" width=\"400px\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe>\n\n\n\n<iframe src=\"https:\/\/anchor.fm\/radioufrgs\/embed\/episodes\/Da-Estante-t02e03--A-Falncia-e1mebir\/a-a8ch875\" height=\"102px\" width=\"400px\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe>\n\n\n\n<iframe src=\"https:\/\/anchor.fm\/radioufrgs\/embed\/episodes\/Da-Estante-t02e08--A-Falncia-e1nuopp\/a-a8hot7b\" height=\"102px\" width=\"400px\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe>\n\n\n\n<iframe src=\"https:\/\/anchor.fm\/radioufrgs\/embed\/episodes\/Da-Estante-t02e01--A-Falncia-e1ls371\/a-a8alqcb\" height=\"102px\" width=\"400px\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em que fizera ele at\u00e9 ent\u00e3o consistir a felicidade e o seu merecimento aos olhos dela? 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