{"id":49489,"date":"2022-06-23T08:30:00","date_gmt":"2022-06-23T11:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=49489"},"modified":"2025-06-10T16:07:51","modified_gmt":"2025-06-10T19:07:51","slug":"a-atualidade-do-teatro-de-aristofanes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/a-atualidade-do-teatro-de-aristofanes\/","title":{"rendered":"A atualidade do teatro de Arist\u00f3fanes"},"content":{"rendered":"\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu respondo que n\u00e3o, pobre infeliz; N\u00e3o manter um di\u00e1logo conosco, n\u00e3o deixar que critic\u00e1ssemos resolu\u00e7\u00f5es suicidas pra todo o pa\u00eds, j\u00e1 era demasiado grave! Mas chegamos ao ponto em que n\u00e3o havia mais nenhum homem v\u00e1lido na cidade. Recrutadores perguntavam pelas ruas: &#8220;Mas n\u00e3o ficou nenhum homem em toda Atenas?&#8221; e recebiam a resposta tr\u00e1gica: &#8220;Nenhum. Nem um digno do nome&#8221;. Foi a\u00ed que decidimos que era chegada a hora, que a salva\u00e7\u00e3o da Gr\u00e9cia dependia agora das mulheres. Abram os ouvidos \u00e0 nossa sensatez, fechem as bocas que j\u00e1 usaram tanto e t\u00e3o inutilmente. Chegou a nossa vez de apontar o caminho.<\/p>\n<cite>Trecho de <em>Lis\u00edstrata<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Escrita por Arist\u00f3fanes em 411 a.C., <em>Lis\u00edstrata <\/em>\u00e9 uma obra que adquiriu novos sentidos com o passar dos s\u00e9culos. A trama conta a hist\u00f3ria de Lis\u00edstrata, uma ateniense que, cansada da aus\u00eancia dos homens da cidade por motivos de guerra, percebe que cabe \u00e0s mulheres o papel de intermediar o conflito pela paz. Para tanto, a sa\u00edda encontrada pela protagonista \u00e9 inusitada: uma greve de sexo! Seu plano era simples: at\u00e9 que a paz n\u00e3o fosse assinada, as mulheres da cidade deveriam se abster de fazer amor com os homens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pe\u00e7a, inicialmente exibida nas Leneias \u2013 festival em homenagem ao deus Dion\u00edsio \u2013, faz refer\u00eancia \u00e0 Guerra do Peloponeso (431 a.C.\u2013404 a.C.), conflito alimentado pela rivalidade entre Atenas e Esparta. \u201c<em>Lis\u00edstrata<\/em> se insere nesse contexto como um libelo ut\u00f3pico e fantasioso pelo fim dos conflitos, que s\u00f3 poderia ser articulado no mundo da com\u00e9dia, mas que tamb\u00e9m se coloca como um dos mais poderosos (e urgentes) apelos \u00e0 paz\u201d, explica Rafael Brunhara, professor de l\u00edngua grega do Instituto de Letras da UFRGS.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Ressignifica\u00e7\u00f5es<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O professor de Hist\u00f3ria da UFRGS Anderson Zalewski Vargas, especialista em Hist\u00f3ria Antiga, aprova que o vestibular esteja reconectando-se \u00e0s obras do Mundo Antigo e classifica a sele\u00e7\u00e3o de <em>Lis\u00edstrata <\/em>como promissora.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cSe eles [vestibulandos] conseguirem superar a barreira do estranhamento e se apropriar \u2013 e se apropriar significa encontrar sentidos contempor\u00e2neos \u2013, a experi\u00eancia ser\u00e1 muito recompensadora\u201d.<\/p>\n<cite>Anderson Zalewski Vargas<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando escreveu a pe\u00e7a, Arist\u00f3fanes tinha em mente criar uma hist\u00f3ria que soasse rid\u00edcula. Em Atenas, as mulheres n\u00e3o eram consideradas cidad\u00e3s, ent\u00e3o lhe pareceu que um enredo sobre revolta feminina cumpriria a demanda pelo rid\u00edculo. Jamais passara pela sua cabe\u00e7a que sua protagonista pudesse virar um \u00edcone da luta pela emancipa\u00e7\u00e3o feminina. \u201cSe eu for dar aula, eu vou dizer que n\u00e3o se pode falar de feminismo na Gr\u00e9cia Antiga [&#8230;] Isso \u00e9 uma coisa. Outra \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a que foi feita ao longo dos s\u00e9culos. Contemporaneamente, ela \u00e9 um \u00edcone feminista, independentemente de eu dizer que isso \u00e9 equ\u00edvoco ou n\u00e3o. E isso n\u00e3o \u00e9 errado. Porque essa \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea\u201d, sintetiza Anderson.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O professor ainda projeta que a leitura possa gerar estranheza num primeiro momento: \u201cPara os alunos, pode ser chocante. Mas \u00e9 chocante porque eles desconhecem a presen\u00e7a da pe\u00e7a na hist\u00f3ria recente do Brasil\u201d. Em 1976, ainda durante o regime militar, Chico Buarque comp\u00f4s a m\u00fasica <em><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=jACu5KUWiXk\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mulheres de Atenas<\/a><\/em>, provando, novamente, o legado de <em>Lis\u00edstrata<\/em> na contemporaneidade. A m\u00fasica foi escrita para a pe\u00e7a <em>Lisa, a mulher libertadora<\/em>, de Augusto Boal, que jamais foi encenada no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Autor e personagem<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cArist\u00f3fanes \u00e9 um dos poetas gregos mais habilidosos que nos chegou: sua linguagem transita do vulgar para o l\u00edrico e do cotidiano para o fant\u00e1stico com extrema naturalidade e inven\u00e7\u00e3o\u201d, define Rafael. Al\u00e9m da utiliza\u00e7\u00e3o do fant\u00e1stico, Arist\u00f3fanes notabilizou-se pelas s\u00e1tiras sociais. Era comum que o autor utilizasse suas obras para tecer cr\u00edticas a personalidades e acontecimentos da \u00e9poca, jamais hesitando em utilizar uma linguagem obscena e repleta de refer\u00eancias a sexo, outra marca de seu trabalho. Al\u00e9m de <em>Lis\u00edstrata<\/em>, o autor foi o criador de outras pe\u00e7as ic\u00f4nicas da com\u00e9dia grega, como <em>As nuvens<\/em>,<em> As vespas<\/em>, <em>Assembleia de mulheres<\/em>, <em>Os p\u00e1ssaros <\/em>e <em>As r\u00e3s.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lis\u00edstrata \u2013 cujo nome significa \u201caquela que dissolve tropas\u201d \u2013 \u00e9 entendida por Anderson como \u201cestranha\u201d. Isso porque ela representa um tipo raro na Gr\u00e9cia Antiga: uma mulher instru\u00edda e capaz de se posicionar. Em Atenas, a educa\u00e7\u00e3o para as mulheres s\u00f3 era poss\u00edvel mediante autoriza\u00e7\u00e3o do marido e estava restrita \u00e0s fam\u00edlias capazes de arcar com os custos. Assim, tradicionalmente, o papel feminino se restringia \u00e0 gest\u00e3o dos lares. O professor ainda destaca que, apesar de agir revolucionariamente, Lis\u00edstrata n\u00e3o pode ser considerada uma revolucion\u00e1ria, pois ela luta pelo restabelecimento da ordem, e n\u00e3o pela constru\u00e7\u00e3o de uma nova.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rafael, por sua vez, enxerga rela\u00e7\u00e3o entre a personagem e uma figura conhecida da mitologia grega: \u201cEla \u00e9 r\u00edgida em seus prop\u00f3sitos e assume muitas das qualidades que a Antiguidade atribu\u00eda ao sexo masculino [&#8230;]. S\u00e3o esses atributos que a levar\u00e3o \u00e0 vit\u00f3ria e, talvez n\u00e3o por acaso, a aproximam muito da deusa padroeira da cidade, Atena\u201d.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/obra_lisistrata1_3-1024x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-50436\" width=\"1024\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/obra_lisistrata1_3-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/obra_lisistrata1_3-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/obra_lisistrata1_3-117x117.jpg 117w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/obra_lisistrata1_3-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/obra_lisistrata1_3-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/obra_lisistrata1_3-465x465.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/obra_lisistrata1_3-500x500.jpg 500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/obra_lisistrata1_3.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Arte: Guilherme Leon<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ededed\"><strong>Especial Leituras Obrigat\u00f3rias<\/strong><br>Com o objetivo de ampliar as experi\u00eancias de leitura, o JU produz, desde 2018, uma s\u00e9rie de reportagens em que especialistas destacam aspectos e fazem an\u00e1lises interpretativas das obras indicadas pela Universidade. Acompanha cada texto a cria\u00e7\u00e3o de artistas convidados que dialoga com a obra e a biografia de autoras e autores. Veja as reportagens <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/leituras-obrigatorias\/\">aqui<\/a>.<br><br><strong>Guilherme Leon <\/strong>\u00e9 bacharel em Artes Visuais e Ci\u00eancia da Computa\u00e7\u00e3o pela UFRGS e, como artista, trabalha com arte generativa e as intersec\u00e7\u00f5es entre os campos da arte e da computa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu respondo que n\u00e3o, pobre infeliz; N\u00e3o manter um di\u00e1logo conosco, n\u00e3o deixar que critic\u00e1ssemos resolu\u00e7\u00f5es suicidas pra todo o pa\u00eds, j\u00e1 era demasiado grave! Mas chegamos ao ponto em que n\u00e3o havia mais nenhum homem v\u00e1lido na cidade. 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