{"id":50981,"date":"2022-07-28T09:10:00","date_gmt":"2022-07-28T12:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=50981"},"modified":"2022-07-28T14:19:28","modified_gmt":"2022-07-28T17:19:28","slug":"especies-do-roedor-tuco-tuco-exclusivo-da-america-do-sul-sao-ameacadas-pela-perda-de-habitat","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/especies-do-roedor-tuco-tuco-exclusivo-da-america-do-sul-sao-ameacadas-pela-perda-de-habitat\/","title":{"rendered":"Tuco-tuco, roedor exclusivo da Am\u00e9rica do Sul, tem esp\u00e9cies amea\u00e7adas pela perda de habitat"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Fauna em risco | Grupo de pesquisadores do Instituto de Bioci\u00eancias estuda os tuco-tucos no Rio Grande do Sul e, atrav\u00e9s da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, se mobiliza para a conserva\u00e7\u00e3o dos animais<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Foto: T\u00e2nia Carijio Zucchetti\/Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os campos arenosos e as dunas costeiras do litoral s\u00e3o moradias para diversas esp\u00e9cies de animais, inclusive sob a superf\u00edcie: \u00e9 onde vivem os tuco-tucos, mam\u00edferos roedores subterr\u00e2neos pertencentes ao grupo <em>Caviomorpha<\/em>, o mesmo das capivaras e das chinchilas. S\u00e3o encontradas 65 esp\u00e9cies na Am\u00e9rica do Sul, entre Brasil, Paraguai, Uruguai, Chile, Peru, Argentina e Bol\u00edvia. No Brasil, h\u00e1 oito esp\u00e9cies de tuco-tucos \u2013 destas, cinco vivem no Rio Grande do Sul, duas no Mato Grosso e uma em Rond\u00f4nia. Mesmo com o surgimento datado h\u00e1 milh\u00f5es de anos, esses animais ainda s\u00e3o pouco conhecidos, e algumas esp\u00e9cies est\u00e3o amea\u00e7adas pela a\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para tentar reverter esses danos, o Projeto Tuco-Tuco, do Departamento de Gen\u00e9tica da UFRGS, h\u00e1 mais de 20 anos realiza a\u00e7\u00f5es para a preserva\u00e7\u00e3o dos ambientes dos tuco-tucos e do cuidado com os animais, com foco em divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, ci\u00eancia cidad\u00e3 e educa\u00e7\u00e3o ambiental. Os integrantes \u2013 pesquisadores ligados aos programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Gen\u00e9tica, Biologia Animal e Ecologia \u2013 tamb\u00e9m desenvolvem projetos como o reconhecimento de dunas para a contagem de tamanho populacional das esp\u00e9cies.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA gente come\u00e7ou a pensar em a\u00e7\u00f5es para divulgar esses animais que s\u00e3o t\u00e3o pouco conhecidos, e de que as pessoas que moram na praia h\u00e1 anos nunca ouviram falar\u201d, conta Thamara de Almeida, mestre em Biologia Animal pela UFRGS. Atrav\u00e9s das redes sociais, como o<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/projetotucotuco\/\"> Instagram<\/a> e o <a href=\"https:\/\/pt-br.facebook.com\/projetotucotuco\/\">Facebook<\/a>, a equipe publica fotos que recebem dos tuco-tucos, o que tamb\u00e9m ajuda o grupo a ter uma dimens\u00e3o maior de onde eles est\u00e3o.&nbsp;&#8220;A gente vai montando a distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, que \u00e9 conhecida, confirmando os tucos em regi\u00f5es diferentes, e tamb\u00e9m faz com que as pessoas deem a informa\u00e7\u00e3o, e, se elas est\u00e3o dando a informa\u00e7\u00e3o, \u00e9 porque elas est\u00e3o interessadas nos bichos&#8221;, acrescenta o professor do departamento de Gen\u00e9tica da UFRGS Thales de Freitas, que pesquisa os tuco-tucos h\u00e1 mais de 30 anos \u2013 trajet\u00f3ria t\u00e3o reconhecida que levou <a href=\"http:\/\/Ctenomys thalesi\">cientistas argentinos e chilenos a batizarem uma esp\u00e9cie de tuco-tucos de <em>Ctenomys thalesi<\/em><\/a> em sua homenagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos eixos do projeto s\u00e3o as a\u00e7\u00f5es de ci\u00eancia cidad\u00e3, que, para Thamara, s\u00e3o fundamentais para conscientizar a popula\u00e7\u00e3o sobre a import\u00e2ncia desses animais. Ela conta que esses contatos faz com que \u201celes se engajem e se sintam parte da ci\u00eancia\u201d. Al\u00e9m disso, os pesquisadores veem como uma oportunidade para tirar d\u00favidas e curiosidades que se tem sobre os tuco-tucos mas, principalmente, esclarecer que eles n\u00e3o transmitem nenhuma doen\u00e7a, j\u00e1 que s\u00e3o bastante confundidos com ratos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>J\u00e1 tivemos retorno bem positivo de pessoas que, antes, tinham medo [dos tuco-tucos], mas que agora j\u00e1 entenderam que eles n\u00e3o causam mal nenhum.<\/p><cite>Thamara Almeida<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para auxiliar na conscientiza\u00e7\u00e3o das pessoas, o grupo colocou placas informativas nas regi\u00f5es das dunas no Litoral Norte \u2013 onde, pela intensa atividade tur\u00edstica de veraneio, aumentam o acesso de ve\u00edculos, a pr\u00e1tica de esportes e o descarte irregular de lixo nessa \u00e9poca. As placas, portanto, servem como uma advert\u00eancia \u00e0 popula\u00e7\u00e3o que circula pelas praias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m para mobilizar a popula\u00e7\u00e3o pela preserva\u00e7\u00e3o do tuco-tuco, o estudante de Medicina Veterin\u00e1ria da UFRGS Tiago Dominguez publica, na <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/qualeaboacapaodacanoa\/\">p\u00e1gina do Instagram &#8220;Qual \u00e9 a Boa, Cap\u00e3o?<\/a>&#8220;, fotos dos tuco-tucos recebidas de seguidores. \u201cFui pesquisar na internet, vi que [o tuco-tuco] estava em risco de extin\u00e7\u00e3o e quis alertar o pessoal da cidade, queria ajudar de alguma forma\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele relata que, com isso, as pessoas come\u00e7aram a compartilhar os conte\u00fados, a juntar o lixo da praia e auxiliar na produ\u00e7\u00e3o de placas de avisos para que se evite pisar nas dunas, agindo em prol da preserva\u00e7\u00e3o deles e das outras esp\u00e9cies que vivem no local. Na regi\u00e3o central de Cap\u00e3o da Canoa, Tiago diz que n\u00e3o existem mais tuco-tucos. Na parte mais afastada do centro, s\u00e3o poucos os registros. Ele lembra que as dunas s\u00e3o denominadas \u00c1rea de Preserva\u00e7\u00e3o Permanente (APP) e refor\u00e7a a necessidade de a comunidade dos munic\u00edpios litor\u00e2neos se voltar para a conserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cO simples fato de caminhar em cima das dunas coloca eles em perigo e isso mostra o quanto \u00e9 um ecossistema fr\u00e1gil.\u201d<\/p><cite>Tiago Dominguez<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Tuco-tuco, o rato de pentes<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Thales explica que a maioria das esp\u00e9cies s\u00e3o solit\u00e1rias, e a comunica\u00e7\u00e3o entre elas se d\u00e1 atrav\u00e9s do som \u2013 o nome popular \u201ctuco-tuco\u201d se deu pelo som \u2018tuku tuku\u2019 que os roedores emitem. Cientificamente, pertencem ao g\u00eanero <em>Ctenomys<\/em>, que significa &#8220;o rato dos pentes&#8221;, de acordo com Thales. \u201cNas patas traseiras, eles t\u00eam cerdas para aumentar a superf\u00edcie de contato para abrirem e fecharem as tocas, como se fosse um pente pequeno, levando a esse nome\u201d, complementa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em solo ga\u00facho, na primeira linha de dunas do litoral est\u00e1 o<em> Ctenomys flamarioni<\/em>, tamb\u00e9m conhecido como tuco-tuco das dunas. Com uma distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica de Arroio do Sal at\u00e9 o Chu\u00ed, s\u00f3 existe aqui no estado. O <em>Ctenomys minutus<\/em>, outra esp\u00e9cie, tamb\u00e9m ocupa esse espa\u00e7o mas se estende at\u00e9 o canal de Laguna, apesar de tamb\u00e9m ser encontrado em campos arenosos. Na plan\u00edcie costeira, o tuco-tuco do lami (<em>Ctenomys lami) <\/em>toma conta, enquanto na regi\u00e3o da Campanha se encontra o <em>Ctenomys torquatus<\/em>. Por fim, o <em>Ctenomys ibicuiensis<\/em> se distribui entre S\u00e3o Francisco de Assis e Manoel Viana, entre a regi\u00e3o das Miss\u00f5es e a Fronteira Oeste.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/38-foto-Tania-Carijio-Zucchetti-1500px.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-51907\" width=\"617\" height=\"411\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/38-foto-Tania-Carijio-Zucchetti-1500px.jpg 627w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/38-foto-Tania-Carijio-Zucchetti-1500px-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/38-foto-Tania-Carijio-Zucchetti-1500px-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/38-foto-Tania-Carijio-Zucchetti-1500px-465x310.jpg 465w\" sizes=\"(max-width: 617px) 100vw, 617px\" \/><figcaption>Tuco-tuco tem cerdas nas patas traseiras para abrir e fechar as dunas (Foto: T\u00e2nia Carijio Zucchetti\/Divulga\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Herb\u00edvoros, os tuco-tucos se alimentam de ra\u00edzes, sementes e grama, como capim e ervas. Ao montar suas galerias, eles t\u00eam um importante papel ecol\u00f3gico por trazer os nutrientes que ficam no fundo das tocas \u00e0 superf\u00edcie, para serem utilizados pela vegeta\u00e7\u00e3o. Por causa dessa atividade, h\u00e1 um aumento da disponibilidade de alguns nutrientes perto das trocas, causando uma altera\u00e7\u00e3o positiva na din\u00e2mica da vegeta\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o, pontua o professor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) e integrante do projeto Daniel Galiano. &#8220;S\u00e3o chamados de esp\u00e9cies engenheiras por esse trabalho\u201c, diz Thales.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar da relev\u00e2ncia ecol\u00f3gica, Thales pontua que os tuco-tucos sofrem amea\u00e7as antr\u00f3picas \u2013 ou seja, provocadas pela a\u00e7\u00e3o humana. No sul, a planta\u00e7\u00e3o de soja, de pinus e a silvicultura levam ao alto risco de extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies locais. \u201cAo mesmo tempo, a constru\u00e7\u00e3o das casas no litoral norte afeta os <em>Ctenomys minutus<\/em>, mas principalmente os <em>Ctenomys flamarioni<\/em>\u201d. A presen\u00e7a da fauna antr\u00f3pica, como cachorros e gatos, tamb\u00e9m impacta na popula\u00e7\u00e3o dos tuco-tucos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As categorias de amea\u00e7a aos tuco-tucos, de acordo com Daniel, foram adotadas pelas mesmas regras da Uni\u00e3o Internacional para Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza (IUCN), organiza\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o de risco de extin\u00e7\u00e3o de animais. Na Lista Vermelha (<a href=\"https:\/\/www.iucnredlist.org\/search?query=ctenomys&amp;searchType=species\">Red List<\/a>), no Rio Grande do Sul, h\u00e1 tr\u00eas amea\u00e7adas \u2013 tuco-tuco das dunas (<a href=\"https:\/\/www.iucnredlist.org\/species\/136464\/22196926\"><em>Ctenomys flamarioni<\/em><\/a>), <a href=\"https:\/\/www.iucnredlist.org\/species\/45958852\/45973126\"><em>Ctenomys ibicuiensis<\/em> <\/a>e o tuco-tuco do lami (<a href=\"https:\/\/www.iucnredlist.org\/species\/136567\/22196245\"><em>Ctenomys lami<\/em><\/a>). Essas tamb\u00e9m s\u00e3o consideradas esp\u00e9cies end\u00eamicas, por serem exclusivas do estado e, por isso, o risco \u00e9 maior.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A principal amea\u00e7a para a fauna \u00e9 a perda de habitat, segundo o bi\u00f3logo. Para o <em>Ctenomys flamarioni<\/em>, a diminui\u00e7\u00e3o das dunas e a urbaniza\u00e7\u00e3o, al\u00e9m da constru\u00e7\u00e3o dos condom\u00ednios, \u00e9 um agravante, principalmente na \u00e9poca de veraneio. Ele explica que os impactos fisiol\u00f3gicos podem n\u00e3o ser vis\u00edveis, principalmente para o p\u00fablico leigo. No Sul de forma geral, os tuco-tucos s\u00e3o mais conhecidos; j\u00e1 em Mato Grosso e Rond\u00f4nia, s\u00e3o menos, segundo Daniel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Thales refor\u00e7a que, atualmente, h\u00e1 legisla\u00e7\u00e3o que pro\u00edbe o desenvolvimento de cal\u00e7ad\u00f5es nas dunas, visto que elas atuam tamb\u00e9m como barreira para o alto n\u00edvel do mar. No entanto, isso \u00e9 negligenciado. \u201cO pessoal, se pudesse, tirava as dunas da beira de praia, sendo que elas s\u00e3o importantes at\u00e9 para a sobreviv\u00eancia da pr\u00f3pria praia\u201d, diz. O pesquisador defende que \u00e9 necess\u00e1rio, primeiramente, que se aprenda a conviver com os tuco-tucos, e que seja desmistificada a ideia de que sejam pragas, que trazem algum tipo de perigo ou que transmitam alguma doen\u00e7a \u2013 sendo que, at\u00e9 o momento, n\u00e3o foi detectada nenhuma zoonose nos animais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fauna em risco | Grupo de pesquisadores do Instituto de Bioci\u00eancias estuda os tuco-tucos no Rio Grande do Sul e, atrav\u00e9s da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, se mobilizam para a conserva\u00e7\u00e3o dos animais<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/especies-do-roedor-tuco-tuco-exclusivo-da-america-do-sul-sao-ameacadas-pela-perda-de-habitat\/\">Leia 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