{"id":51194,"date":"2022-08-18T08:00:00","date_gmt":"2022-08-18T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=51194"},"modified":"2022-08-18T16:02:22","modified_gmt":"2022-08-18T19:02:22","slug":"o-desafio-invisibilizado-da-maternidade-solo-na-academia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/o-desafio-invisibilizado-da-maternidade-solo-na-academia\/","title":{"rendered":"O desafio invisibilizado da maternidade solo na academia"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | Ta\u00eds Ferreira, docente da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, questiona a aus\u00eancia, em recenseamentos realizados na Universidade, das figuras de servidoras e estudantes que criam seus filhos sozinhas e como isso impacta nas pol\u00edticas de assist\u00eancia<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Por: Ta\u00eds Ferreira<br>*Foto: Fl\u00e1vio Dutra\/JU<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Instigada pelo artigo <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/ress\/a\/c7TkCBBBsYtF7nhnsDmZ83n\/?lang=pt\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u201cParentalidade e carreira cient\u00edfica: o impacto n\u00e3o \u00e9 o mesmo para todos\u201d<\/a>, rec\u00e9m-lan\u00e7ado pelas colegas do movimento <em>Parent in Science<\/em>, que v\u00eam fazendo um trabalho de grande relev\u00e2ncia no levantamento de dados relativos \u00e0 maternidade e \u00e0 vida acad\u00eamica de estudantes, professoras e pesquisadoras brasileiras, decido parar por algumas horas a \u201croda viva\u201d de atividades laborais na Universidade e fun\u00e7\u00f5es maternas para dar voz a um lugar de extrema invisibiliza\u00e7\u00e3o no meio acad\u00eamico: a maternidade solo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 necess\u00e1rio conceituar, ainda que brevemente, o que se convencionou chamar por \u201cmaternidade solo\u201d, termo que substitui aquele carregado de sexismo e que vinculava a maternidade ao estado civil das m\u00e3es: \u201cm\u00e3e solteira\u201d. Uma m\u00e3e solo \u00e9 aquela que \u00e9 respons\u00e1vel, se n\u00e3o de forma absoluta, quase em sua totalidade, pelos cuidados di\u00e1rios, pela cria\u00e7\u00e3o psicof\u00edsica e pelo provimento (afetivo e financeiro) de seus filhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo dados (j\u00e1 defasados) do IBGE, estima-se que, no Brasil, haja mais de 11 milh\u00f5es de m\u00e3es solo, de lares chefiados e conduzidos por mulheres inteiramente respons\u00e1veis, em sua maioria negras. Outro dado que n\u00e3o pode ser jamais esquecido \u00e9 o de que mais de 5 milh\u00f5es de crian\u00e7as sequer t\u00eam o nome de seus genitores no registro de nascimento, cabendo \u00e0s m\u00e3es, inclusive legalmente, a totalidade de responsabilidades para com as crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Urge desnaturalizar esses \u00edndices e perguntar: onde est\u00e3o esses homens que impunemente se furtam, todos os dias, de suas obriga\u00e7\u00f5es parentais? Por que naturalizamos que mulheres sejam oneradas dessa forma em nossas estruturas sociais e renegamos as especificidades das rela\u00e7\u00f5es afetivas, laborais, ps\u00edquicas de uma m\u00e3e submetida a esse tipo de maternidade? E uso aqui propositalmente o termo \u201csubmetida\u201d, porque s\u00e3o rar\u00edssimos os casos em que uma maternidade solo \u00e9 uma escolha feminina: no geral, a maternidade solo \u00e9 fruto do mais perverso abandono paterno, aquele que segue a um rompimento afetivo entre os adultos ou a uma gravidez n\u00e3o planejada. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Quantos homens conhecemos que n\u00e3o se relacionam ou cuidam de seus filhos por \u201cop\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201cporque precisam se dedicar \u00e0s suas carreiras\u201d? Inclu\u00eddos aqui muitos de nossos pr\u00f3prios colegas pesquisadores e professores universit\u00e1rios, n\u00e3o esque\u00e7amos. <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Socialmente essa \u201cop\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o \u00e9 dada a uma mulher, seja ela uma empregada dom\u00e9stica, uma profissional liberal, uma estudante ou uma professora universit\u00e1ria: &#8220;quem pariu Mateus que o embale\u201d, n\u00e3o \u00e9 este o ditado nefasto que tira da coletividade qualquer obriga\u00e7\u00e3o com nossas crian\u00e7as, ou seja, com a constru\u00e7\u00e3o das sociedades e do pr\u00f3prio mundo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As colegas autoras do artigo ao qual me refiro no in\u00edcio deste texto levantam dados sobre as dificuldades e os entraves enfrentados por n\u00f3s, acad\u00eamicas, no seguimento de nossas carreiras ap\u00f3s a maternidade. Apresentam, de modo muito pertinente, tamb\u00e9m fatores de interseccionalidade, quais sejam: ra\u00e7a\/cor, m\u00e3es com defici\u00eancia, m\u00e3es de pessoas com defici\u00eancia, m\u00e3es LGBTQIA+ e classe social. Obviamente que do lugar que ocupo, de uma m\u00e3e solo acad\u00eamica, professora e pesquisadora h\u00e1 18 anos em IFES, percebo que a especificidade de minha condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 aqui nomeada na lista. Como uma m\u00e3e 100% solo, que cria uma menina sozinha h\u00e1 4 anos e viveu uma gravidez tamb\u00e9m sozinha, trabalhando em ensino, pesquisa e extens\u00e3o at\u00e9 5 dias antes do parto, que orquestra sua vida laboral e dom\u00e9stica de modo a dar conta das demandas todas e ainda ter alguma sanidade psicof\u00edsica e vida social, n\u00e3o pude deixar de notificar as colegas sobre a aus\u00eancia da \u201ccategoria m\u00e3e solo\u201d nos fatores mencionados. Evoquei <a href=\"https:\/\/periodicos.ufmg.br\/index.php\/revistapos\/article\/view\/33103\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">tamb\u00e9m os meses fat\u00eddicos de isolamento social pand\u00eamico em 2020, em que trabalhei acompanhada de um beb\u00ea de 1 ano e quatro meses 24 horas por dia, processo apresentado em artigo j\u00e1 publicado em peri\u00f3dico acad\u00eamico.<\/a><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Este pode parecer um questionamento de ordem subjetiva, e certamente o \u00e9, mas sei que n\u00e3o estou sozinha. N\u00e3o sei, no entanto, quem s\u00e3o (nominal ou numericamente) as m\u00e3es solo na minha sala de aula, nos grupos de pesquisa que frequento, nos projetos de extens\u00e3o que coordeno, nas bancas de trabalhos acad\u00eamicos, nas reuni\u00f5es de conselhos e comiss\u00f5es. Quem s\u00e3o elas? Quem somos n\u00f3s? Onde est\u00e3o as m\u00e3es solo (estudantes, servidoras, bolsistas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, professoras) na Universidade?<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Posso inferir que estejam invisibilizadas, que cumprem suas tarefas, que n\u00e3o reclamam e torcem para n\u00e3o serem acusadas de prejudicar o \u201cbom andamento da m\u00e1quina acad\u00eamica\u201d com suas \u201cdemandas menores\u201d, pois, afinal de contas, os cuidados parentais n\u00e3o s\u00e3o um problema ou uma quest\u00e3o que deva vir \u00e0 baila no debate p\u00fablico acad\u00eamico: nosso ethos n\u00e3o comporta a exist\u00eancia de crian\u00e7as, qui\u00e7\u00e1 a exist\u00eancia de mulheres que ocupam postos dentro da universidade e criam filhos sozinhas (no m\u00ednimo uma \u201cousadia\u201d para a conjuntura patriarcal).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cumpre notar que falamos aqui de uma maioria branca (portanto portadora de privil\u00e9gios oriundos da branquitute) de servidoras p\u00fablicas, ou de assalariadas de institui\u00e7\u00f5es privadas de ensino, por vezes de bolsistas dos diversos n\u00edveis de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Isso por si s\u00f3 j\u00e1 colocaria essas maternidades em um lugar n\u00e3o s\u00f3 de privil\u00e9gio, como de possibilidade de constru\u00e7\u00e3o de redes de apoio pagas (cuidadoras e escolas de educa\u00e7\u00e3o infantil privadas). N\u00e3o esque\u00e7amos das m\u00e3es ind\u00edgenas, negras, pobres e em situa\u00e7\u00e3o de extremo risco social que sequer conseguem acessar a universidade ou se manter nela, caso ingressem (reitero aqui a necessidade&nbsp;da manuten\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de cotas e a\u00e7\u00f5es afirmativas e de assist\u00eancia estudantil).<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Aprioristicamente, de maneira naturalizada, parte-se do pressuposto de que a parentalidade \u00e9 exercida por uma dupla (composta por um homem e uma mulher, ou por duas mulheres ou dois homens). Ainda que tudo aquilo que acompanho publicado sobre o tema explicite que a mulher da d\u00edade \u00e9 aquela que carrega um maior peso ao arcar com mais responsabilidades nos cuidados com a vida dom\u00e9stica e os filhos, mesmo que tenha uma carreira bem-sucedida e rede de apoio, n\u00e3o podemos mais silenciar a exist\u00eancia de mulheres que criam seus filhos sozinhas, muitas vezes amparadas por outras mulheres (tias, av\u00f3s, vizinhas) que tamb\u00e9m criaram os seus, perpetuando o ciclo de abandono parental, de descaso coletivo e alijamento dessas fam\u00edlias do ensino superior, da forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e da carreira cient\u00edfica.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, de que modo espec\u00edfico a maternidade solo impactaria a carreira acad\u00eamica de uma profissional e\/ou a possibilidade de constru\u00e7\u00e3o de uma trajet\u00f3ria na universidade por uma estudante? Respondo lan\u00e7ando perguntas, j\u00e1 que ainda n\u00e3o dispomos de dados, mas contamos com a observa\u00e7\u00e3o emp\u00edrica dos nossos contextos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os hor\u00e1rios da universidade est\u00e3o adaptados aos hor\u00e1rios das escolas de educa\u00e7\u00e3o infantil e do ensino regular? H\u00e1 flexibilidade de gestores e coordenadores para adapta\u00e7\u00e3o desses hor\u00e1rios em virtude das necessidades\/realidades das m\u00e3es? Crian\u00e7as s\u00e3o bem-vindas nos ambientes da universidade no caso de n\u00e3o haver com quem deixar a crian\u00e7a? H\u00e1 bolsas espec\u00edficas ou cotas para m\u00e3es solo nos sistemas de ingresso e de concess\u00e3o de bolsas? Mulheres m\u00e3es solo s\u00e3o acolhidas (ou julgadas e em seguida exclu\u00eddas) quando crian\u00e7as adoecem e elas s\u00e3o as \u00fanicas respons\u00e1veis, tendo que remarcar compromissos, bancas, compensar aulas, ter algum prazo estendido, etc.? E o que acontece quando essa mulher, m\u00e3e solo, adoece? Quem cuida da m\u00e3e que cuida sozinha? Como incentivar m\u00e3es solo a participar de eventos acad\u00eamicos, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 com quem deixar as crian\u00e7as? Como validar a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de m\u00e3es solo, impossibilitadas de realizar fun\u00e7\u00f5es fora dos hor\u00e1rios restritos de trabalho diurno nos quais as crian\u00e7as est\u00e3o na escola ou com cuidadoras?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por fim, e n\u00e3o menos importante: existem creches universit\u00e1rias? O silenciado fechamento arbitr\u00e1rio da Creche da UFRGS neste ano de 2022, seu\u00a0anterior gradual sucateamento e o uso das demandas leg\u00edtimas da comunidade ind\u00edgena (que foi realocada no pr\u00e9dio que abrigava a creche) como fator de \u201cabafamento\u201d de qualquer reivindica\u00e7\u00e3o pela reativa\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o\/unidade s\u00e3o reveladores do lugar que m\u00e3es (estudantes, servidoras e professoras), notadamente aquelas que exercem uma maternidade solo e, portanto, necessitam de rede de apoio, ocupam nas hierarquias universit\u00e1rias.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"665\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Fla\u0301vio-Dutra-1321.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-52554\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Fla\u0301vio-Dutra-1321.jpg 1000w, 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UFRGS.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-black-color has-text-color wp-block-paragraph\" style=\"font-size:12px\"><em>&#8220;As manifesta\u00e7\u00f5es expressas neste ve\u00edculo n\u00e3o representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo | Ta\u00eds Ferreira, docente da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, questiona a aus\u00eancia, em recenseamentos realizados na Universidade, da figura das servidoras e estudantes que criam seus filhos sozinhas e como isso impacta nas pol\u00edticas de assist\u00eancia<span class=\"more-link\"><a 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