{"id":54003,"date":"2022-09-22T07:20:00","date_gmt":"2022-09-22T10:20:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=54003"},"modified":"2022-09-22T09:11:25","modified_gmt":"2022-09-22T12:11:25","slug":"o-sexo-nas-artes-entre-o-erotico-e-o-pornografico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/o-sexo-nas-artes-entre-o-erotico-e-o-pornografico\/","title":{"rendered":"O sexo nas artes: entre o er\u00f3tico e o pornogr\u00e1fico"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | Vit\u00f3ria Ravazio Pais, mestranda no PPG em Letras, discute acerca das representa\u00e7\u00f5es sociais hegem\u00f4nicas em torno dos dois conceitos a partir da recep\u00e7\u00e3o do filme &#8220;O Imp\u00e9rio dos Sentidos&#8221;<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Por: Vit\u00f3ria Ravazio Pais<br>*Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Amazon Prime Video<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste artigo exponho sinteticamente os resultados obtidos em meu TCC em Sociologia,&nbsp;que teve como tema a fronteira entre \u201cerotismo\u201d e \u201cpornografia\u201d. Mais precisamente, detive-me nas diferen\u00e7as socialmente percebidas entre os dois conceitos, ou seja, nas representa\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas em torno deles. Se me refiro \u00e0 <em>percep\u00e7\u00e3o<\/em> das diferen\u00e7as \u00e9 por saber que, essencialmente, pornografia e erotismo, por si s\u00f3s termos de dif\u00edcil defini\u00e7\u00e3o, se tornam na pr\u00e1tica ainda mais dif\u00edceis de precisar quando contrapostos. Entre os que estudam a fundo esse assunto, sabe-se que s\u00e3o fr\u00e1geis e em grande medida arbitr\u00e1rios os limites que separam um do outro. Popularmente cultiva-se a ideia de que a pornografia seria aquela em que o sexo \u00e9 expl\u00edcito, e o erotismo, aquele em que o sexo \u00e9 velado. No entanto, h\u00e1 uma s\u00e9rie de obras de arte que mostram o sexo de forma expl\u00edcita e n\u00e3o s\u00e3o consideradas pornogr\u00e1ficas, como veremos adiante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitos s\u00e3o os pesquisadores que tentam definir pornografia pelo aspecto mercadol\u00f3gico. Assim, todo produto cultural produzido visando obter lucro econ\u00f4mico por meio da excita\u00e7\u00e3o de seu p\u00fablico consumidor seria pornogr\u00e1fico. Essa defini\u00e7\u00e3o seria plenamente satisfat\u00f3ria n\u00e3o fosse o fato de que n\u00e3o raras vezes pe\u00e7as de arte que n\u00e3o integram um mercado espec\u00edfico s\u00e3o acusadas de pornogr\u00e1ficas. Lembremos, por exemplo, de casos ocorridos no Brasil, como o fechamento da exposi\u00e7\u00e3o Queer Museum, em Porto Alegre, o estabelecimento de censura et\u00e1ria numa exposi\u00e7\u00e3o do Museu de Arte de S\u00e3o Paulo, em 2017, ou a retirada de livros da Bienal do Rio de Janeiro, em 2019. H\u00e1, por um lado, aqueles que detratam as obras, alegando, entre outras coisas, que s\u00e3o pornogr\u00e1ficas, e por outro, os que negam esse fato veementemente.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Portanto, ao que tudo indica, \u201cpornografia\u201d n\u00e3o se refere unicamente a um tipo de mercadoria distribu\u00edda a um nicho; na verdade, ela \u00e9 utilizada como uma categoria mais ou menos aberta e manipulada por diferentes agentes sociais e pol\u00edticos em favor de interesses ideol\u00f3gicos<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;No in\u00edcio de minha monografia, procurei evidenciar esse campo de imprecis\u00f5es conceituais, apresentando m\u00faltiplas defini\u00e7\u00f5es que convivem no campo te\u00f3rico, demonstrando dessa forma a aus\u00eancia de consenso sobre o assunto. Isso feito, dediquei-me a um estudo de caso capaz de revelar quais aspectos de fato costumam estar em jogo quando um produto cultural \u00e9 tachado de er\u00f3tico ou pornogr\u00e1fico. Para tanto, foi escolhida, em conjunto com meu orientador Enio Passiani, uma obra paradigm\u00e1tica: <em>O Imp\u00e9rio dos Sentidos<\/em> (1976), do diretor japon\u00eas Nagisa Oshima. Esse foi o primeiro filme de arte da hist\u00f3ria do cinema a apresentar cenas de sexo realmente praticado pelos atores, sem qualquer t\u00e9cnica de trucagem. Apesar do realismo e da centralidade dessas cenas, ele foi amplamente recebido pela cr\u00edtica e pelo p\u00fablico como um filme er\u00f3tico, e n\u00e3o pornogr\u00e1fico (apesar da manifesta inten\u00e7\u00e3o do diretor de que ele assim o fosse). A partir dessa constata\u00e7\u00e3o pr\u00e9via, a pergunta que orientou a an\u00e1lise do <em>corpus<\/em> de pesquisa foi&nbsp;\u201cpor quais motivos?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para chegar \u00e0 resposta, foram selecionadas 10 cr\u00edticas de jornais e revistas de grande circula\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e9poca do lan\u00e7amento do filme no Brasil, interpretadas por meio de an\u00e1lise de conte\u00fado. Dentre todos os resultados obtidos pelos mecanismos de busca dos arquivos digitais desses jornais, foram escolhidos aqueles que apresentavam mais claramente a dicotomia erotismo x pornografia. Apesar de crit\u00e9rios est\u00e9ticos tamb\u00e9m se fazerem presentes nas cr\u00edticas (afinal, <em>O Imp\u00e9rio dos Sentidos<\/em> \u00e9 um filme primorosamente produzido), constatou-se que a defesa do car\u00e1ter er\u00f3tico do filme tendia muito mais para o \u00e2mbito da moral do que da est\u00e9tica. Para qualificar o filme e diferenci\u00e1-lo da massa de filmes pornogr\u00e1ficos produzidos naquela \u00e9poca (o per\u00edodo \u00e1ureo do cinema porn\u00f4), os cr\u00edticos extensivamente fizeram uso de termos como \u201camor puro\u201d, \u201camor absoluto\u201d, \u201cbusca do absoluto\u201d, \u201cexperi\u00eancia m\u00edstica\u201d e \u201csacraliza\u00e7\u00e3o do amor\u201d para descrever a rela\u00e7\u00e3o entre os protagonistas Sada e Kichizo (que fazem sexo durante quase todo o filme).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O que a pesquisa demonstra, portanto, \u00e9 que o erotismo \u00e9 definido como uma forma de representa\u00e7\u00e3o onde o sexo serve a um prop\u00f3sito maior que ele mesmo (express\u00e3o do amor, do belo, do sagrado). Pornografia, por outro lado, \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o puramente carnal do sexo, sem amor.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, n\u00e3o seria exagero afirmar que o erotismo nada mais \u00e9 do que uma forma de pornografia revalorizada em fun\u00e7\u00e3o de certos princ\u00edpios e preceitos sociais. Sob esse ponto de vista, pr\u00e1ticas sexuais n\u00e3o hegem\u00f4nicas, como aquelas envolvendo <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/BDSM\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">BDSM<\/a> (conjunto de pr\u00e1ticas consensuais envolvendo bondade e disciplina, domina\u00e7\u00e3o e submiss\u00e3o, sadomasoquismo), s\u00e3o aceit\u00e1veis apenas quando apresentadas de forma palat\u00e1vel, n\u00e3o agressiva ao p\u00fablico, e preferencialmente carregadas de clich\u00eas de g\u00eanero e de romantismo comercial, como, por exemplo, no filme <em>50 tons de cinza<\/em>. Al\u00e9m disso, lembremos que boa parte dos casos de censura envolvendo a arte no Brasil atingiram obras que discutiam quest\u00f5es LGBTQIA+, ou seja, obras que d\u00e3o visibilidade a corpos, rela\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas n\u00e3o normativas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda que o escopo de meu trabalho tenha se limitado \u00e0 an\u00e1lise de um \u00fanico filme, acredito que sua contribui\u00e7\u00e3o possa ser estendida a todas as formas de representa\u00e7\u00e3o do sexo nas artes. Ao que parece, o adjetivo \u201cpornogr\u00e1fico\u201d sempre ser\u00e1 utilizado para atacar obras que desafiem o que dada sociedade ou parte dela considera aceit\u00e1vel. Por outro lado, \u201cer\u00f3ticas\u201d ser\u00e3o as obras que n\u00e3o agridam a moralidade do espectador. Afinal, como postula o famoso bord\u00e3o,&nbsp; \u201ca pornografia \u00e9 o erotismo dos outros\u201d.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fla\u0301vio-Dutra-27.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-54070\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fla\u0301vio-Dutra-27.jpg 1000w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fla\u0301vio-Dutra-27-300x180.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fla\u0301vio-Dutra-27-175x105.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fla\u0301vio-Dutra-27-768x461.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fla\u0301vio-Dutra-27-200x120.jpg 200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fla\u0301vio-Dutra-27-465x279.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fla\u0301vio-Dutra-27-695x417.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"606\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fla\u0301vio-Dutra-16.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-54068\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fla\u0301vio-Dutra-16.jpg 1000w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fla\u0301vio-Dutra-16-300x182.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fla\u0301vio-Dutra-16-175x106.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fla\u0301vio-Dutra-16-768x465.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fla\u0301vio-Dutra-16-200x121.jpg 200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fla\u0301vio-Dutra-16-465x282.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fla\u0301vio-Dutra-16-695x421.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"598\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fla\u0301vio-Dutra-15.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-54067\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fla\u0301vio-Dutra-15.jpg 1000w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fla\u0301vio-Dutra-15-300x179.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fla\u0301vio-Dutra-15-175x105.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fla\u0301vio-Dutra-15-768x459.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fla\u0301vio-Dutra-15-200x120.jpg 200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fla\u0301vio-Dutra-15-465x278.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Fla\u0301vio-Dutra-15-695x416.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption>Frames do filme O Imperio dos Sentidos, de Nagisa Oshima (1976). Nas cenas acima e na capa, o ator Tatsuya Fuji e a atriz Eiko Matsuda (Reprodu\u00e7\u00e3o\/Amazon Prime Video)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ebebeb\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/7220046447882657\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Vit\u00f3ria Ravazio Pais<\/a> \u00e9 bacharel em Ci\u00eancias Sociais pela UFRGS e mestranda em Letras na linha de pesquisa Teoria, Cr\u00edtica e Comparatismo pela mesma universidade.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-black-color has-text-color wp-block-paragraph\" style=\"font-size:12px\"><em>&#8220;As manifesta\u00e7\u00f5es expressas neste ve\u00edculo n\u00e3o representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo | Vit\u00f3ria Ravazio Pais, mestranda no PPG em Letras, discute acerca das representa\u00e7\u00f5es sociais hegem\u00f4nicas em torno dos dois conceitos a partir da recep\u00e7\u00e3o do filme &#8220;O Imp\u00e9rio dos Sentidos&#8221;<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/o-sexo-nas-artes-entre-o-erotico-e-o-pornografico\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":54069,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[53],"tags":[271,291,3479,3767,104,3766,3768,3770],"ppma_author":[2938],"class_list":["entry","author-gerente","has-excerpt","post-54003","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-artigo","tag-arte","tag-cinema","tag-erotismo","tag-imperio-dos-sentidos","tag-pesquisa","tag-pornografia","tag-representacoes","tag-sexo"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.8 - 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