{"id":54664,"date":"2022-10-13T07:32:00","date_gmt":"2022-10-13T10:32:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=54664"},"modified":"2022-10-13T08:46:24","modified_gmt":"2022-10-13T11:46:24","slug":"aprendendo-a-ser-professor-de-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/aprendendo-a-ser-professor-de-historia\/","title":{"rendered":"Aprendendo a ser professor de Hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | Docente da Faced, Nilton Mullet Pereira reflete sobre as trajet\u00f3rias constitutivas dentro e fora da sala de aula ao longo de sua carreira \u00e0s voltas com o tempo e a alteridade<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Por: Nilton Mullet Pereira<br>*Foto: Fl\u00e1vio Dutra\/JU<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando imaginei escrever sobre a apresenta\u00e7\u00e3o do memorial da minha vida acad\u00eamica para progress\u00e3o na carreira, pensei no tempo como uma grande senhora. Imaginei uma grande m\u00e3e, envolvente, origin\u00e1ria, que faz reluzir, mas que nunca se deixa apagar. Dona de uma pot\u00eancia que se reparte, se modifica e se diferencia, mas que nunca diminui, tal como a Dona Margarida, minha m\u00e3e, que sempre espalhou amor \u2013 e quando sup\u00fanhamos que aquele amor havia acabado, ela vinha com muito mais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O tempo, por mais que tentemos a disciplin\u00e1-lo, amorda\u00e7\u00e1-lo, par\u00e1-lo, ultrapass\u00e1-lo, demarc\u00e1-lo, alinh\u00e1-lo, nunca se deixa capturar; sempre recuado, \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para o pensamento e a imagina\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bem, foi o tempo que me perseguiu, essa Senhora da vida. Foi ele (ela) que me fez perguntar como cheguei at\u00e9 aqui, depois de ter entrado na UFRGS em 1988. Agora refa\u00e7o a pergunta: <a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/comportamento\/noticia\/2019\/11\/aula-de-historia-por-nilton-pereira-como-chegamos-ate-aqui-ck2xkay8r013v01phuolw0wmt.html#:~:text=%E2%80%9CComo%20chegamos%20at%C3%A9%20aqui%E2%80%9D%20se,poss%C3%ADvel%20a%20publica%C3%A7%C3%A3o%20deste%20texto.\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">como n\u00f3s chegamos at\u00e9 aqui?<\/a>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Chegamos at\u00e9 aqui porque nos permitimos imaginar, artistar, viver, reviver, resistir, alegrar, sofrer, sim, mas tamb\u00e9m amar. N\u00e3o foi por substantivos ou adjetivos, mas por verbos que produziram encontros que encheram a vida com mais vida. Soubemos criar e inventar mundos n\u00e3o supostos pelas garras afiadas do presente-pris\u00e3o, do presente-contexto, do presente eterno (ladr\u00e3o do passado e do futuro).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>E chegamos at\u00e9 aqui por aprender, a duras penas, \u00e9 verdade, que aprender hist\u00f3ria \u00e9 um pouco viver no plano de uma po\u00e9tica e de uma paix\u00e3o que nos disp\u00f5e a, de uma s\u00f3 vez, silenciar o car\u00e1ter universal de nossas cren\u00e7as e fazer cessar, por alguns momentos, o rugido da pris\u00e3o do presente.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois de muito tempo, me dei conta de que cheguei at\u00e9 aqui por um movimento de encontros, parcerias, compartilhamentos, misturas de vida, de trabalho, de cria\u00e7\u00e3o, de problematiza\u00e7\u00f5es, de perdas, de sofrimentos, de erros, de equ\u00edvocos, de imensas dificuldades, de tristezas, mas tamb\u00e9m de alegrias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com este texto, homenageio as incr\u00edveis parcerias que me fizeram acreditar que aprender, conhecer, criar, escrever, ensinar, orientar n\u00e3o s\u00e3o pr\u00e1ticas solit\u00e1rias nem produtos de uma arrog\u00e2ncia e de uma prepot\u00eancia acad\u00eamicas, mas s\u00e3o formas de vida, modos de vida que fazem aparecer ideias, conceitos, aulas de Hist\u00f3ria, no mundo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pude, depois de me tornar capaz de escutar, talvez nem tanto quanto deveria, derrubar as pesadas estruturas da solid\u00e3o (acad\u00eamica, neste caso, mas de outras tamb\u00e9m) e saborear a leveza da cria\u00e7\u00e3o \u201ccom\u201d, \u201cjunto\u201d, \u201camigavelmente\u201d, \u201calegremente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os artigos, os livros que escrevi, as aulas que dei, as homenagens que recebi s\u00e3o efeitos desses compartilhamentos, dessas amizades, desses modos de vida constru\u00eddos por um caminho de encontros, efetivamente, alegres.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitos gritaram para que eu escutasse, e seus gritos me abriram mais para a escuta, para poder captar os murm\u00farios de quem gritava e n\u00e3o era ouvido, de quem nunca teve permitida sequer a fala (inclusive em minha sala de aula). N\u00e3o sei se ainda escuto todos os seus murm\u00farios, mas hesito e, ao hesitar, posso escutar mais.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Foi com essa abertura de escuta, que implicou certo sil\u00eancio das coisas todas que nos fazem (que me fazem) orgulhosos de sermos identificados como \u201cn\u00f3s mesmos\u201d, que pudemos pensar que as aulas de Hist\u00f3ria desequilibram as formas cristalizadas de pensamento; t\u00eam enfrentado os universalismos; t\u00eam resistido \u00e0s tentativas de silenciamento dos seres e dos modos de vida.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O tempo n\u00e3o \u00e9 linha. <a href=\"https:\/\/lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/188771\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O tempo n\u00e3o \u00e9 cronologia<\/a>. O tempo n\u00e3o \u00e9 nada do que dele podemos dizer e, ao mesmo tempo, \u00e9 tudo. Tudo se passa como se o tempo se desse todo de uma vez e, de pronto, recuasse. Essa sensa\u00e7\u00e3o que temos de que o tempo \u00e9 o que dele dizemos ou como o vivemos em um determinado momento nos d\u00e1 a arrog\u00e2ncia de querer supor que ele \u00e9 o modo como se expressa pra n\u00f3s, e n\u00e3o uma multiplicidade, uma infinita abertura de possibilidades de experi\u00eancias temporais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, meu tempo nesta universidade, a UFRGS, me fez tentar transpor muros dif\u00edceis, muros que insistem e que persistem em se colocar cada vez mais altos. O muro da minha <a href=\"https:\/\/portaldobicentenario.org.br\/timeline\/professores-falam-sobre-independencias-no-brasil-branquitude-e-educacao-para-relacoes-etnico-raciais-aula-7\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">branquitude<\/a>; o muro da minha arrog\u00e2ncia; o muro do sonho vanguardista que acredita que o mundo s\u00f3 ser\u00e1 salvo se as pessoas me escutarem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas viver \u00e9 um acontecimento. E o acontecer independe da minha identidade ou da minha lei. A vida n\u00e3o acontece pelo grito fr\u00edvolo e inf\u00e9rtil de diagramatizantes, instituidoras e colonizadoras vozes, que outro dia chamei de metralhadoras, essas vozes que instituem, que moralizam, que silenciam. A vida acontece pela simplicidade das exist\u00eancias, que insistem em aparecer reluzentes, como efeitos sonoros, musicais, corporais, como vozes-vida, perseverando na absoluta pot\u00eancia da natureza. O acontecimento nunca cessa de cruzar o tempo, ziguezagueando entre o presente, o passado e o futuro, feito verbo a apresentar o ato mesmo de resistir. O verbo \u00e9 o ser do acontecimento. A resist\u00eancia \u00e9 a subst\u00e2ncia da vida. E a diferen\u00e7a \u00e9 o tempo\/natureza a se desdobrar em m\u00faltiplos modos de ser e de existir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por que as aulas de Hist\u00f3ria deveriam apresentar apenas uma determinada experi\u00eancia temporal? Apenas um modo de medir e de representar o tempo?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Aprendi, tamb\u00e9m a duras penas, a tentar acalentar o sonho de hesitar como um modo de estilha\u00e7ar o EU, um \u201csi mesmo\u201d imponente, prepotente, que sempre quer apagar a multiplicidade. Quisera j\u00e1, a esta altura, pensar em termos de multiplicidade e n\u00e3o mais de uma rela\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica EU &#8211; OUTRO. Paci\u00eancia, o trabalho \u00e9 longo e demorado. Mas a hesita\u00e7\u00e3o me fez inici\u00e1-lo.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o 16 anos na UFRGS trabalhando com as turmas de est\u00e1gio de doc\u00eancia em Hist\u00f3ria e com as Ci\u00eancias S\u00f3cio-hist\u00f3ricas, da Pedagogia. Demorei, mas me dei conta de que quem entra em aula n\u00e3o \u00e9 simplesmente um professor de Hist\u00f3ria, mas \u00e9 um homem, heterossexual, cis e branco. Me dei conta disso menos pela teoria e mais pela presen\u00e7a e o constante e precioso questionamento das estudantes do Semin\u00e1rio no PPGEDU da UFSC, em 2017; das e dos estudantes das cadeiras de est\u00e1gio, na UFRGS; e do Caio, com quem aprendi muito em um evento do <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/close\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Close<\/a>, em 2019.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acredito no paradoxo que me joga ao mesmo tempo nessa atualidade inescap\u00e1vel e na virtualidade das for\u00e7as que me possibilitam criar outras rela\u00e7\u00f5es, aprender outras rela\u00e7\u00f5es. Esse paradoxo me tornou um professor mais aberto \u00e0 aprendizagem com as estudantes e os estudantes, n\u00e3o como uma afirma\u00e7\u00e3o f\u00e1cil e ao vento, mas como uma pr\u00e1tica de um aprender que ultrapassa os limites disciplinares e dos saberes acad\u00eamicos, que n\u00e3o produz hierarquias, mas que promove di\u00e1logos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse era o ponto aonde queria chegar. Tem um ar de procura, de investiga\u00e7\u00e3o, de abertura, de amplia\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, de amar. Tudo parece ter um gosto diferente: seja das Madeleines, seja do \u201cpuxa-puxa e torrada quente de manteiga\u201d. Um gosto de mais vida, de mais pot\u00eancia, de mais perfei\u00e7\u00e3o. De repente tudo foi parceria. Criar s\u00f3 n\u00e3o foi mais uma alternativa, ainda que a solid\u00e3o das imagens criadas d\u00ea a falsa impress\u00e3o de que sou eu quem cria. Mas n\u00e3o, criamos eu e minhas parceiras e meus parceiros de jornada. Na pesquisa, no ensino, na extens\u00e3o, na gest\u00e3o, na vida.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ebebeb\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/2674881975631801\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Nilton Mullet Pereira<\/a> \u00e9 professor da \u00e1rea de ensino de Hist\u00f3ria da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o e do mestrado profissional em ensino de Hist\u00f3ria da UFRGS.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-black-color has-text-color wp-block-paragraph\" style=\"font-size:12px\"><em>&#8220;As manifesta\u00e7\u00f5es expressas neste ve\u00edculo n\u00e3o representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo | Docente da Faced, Nilton Mullet Pereira reflete sobre as trajet\u00f3rias constitutivas dentro e fora da sala de aula ao longo de sua carreira \u00e0s voltas com o tempo e a alteridade<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/aprendendo-a-ser-professor-de-historia\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":55051,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[53,382],"tags":[772,1980,1885,3825,1022,1118],"ppma_author":[2938],"class_list":["entry","author-gerente","has-excerpt","post-54664","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-artigo","category-uncategorized","tag-aprendizagem","tag-ensino-de-historia","tag-escuta","tag-multiplicidade","tag-professor","tag-tempo"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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