{"id":55016,"date":"2022-11-17T08:22:00","date_gmt":"2022-11-17T11:22:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=55016"},"modified":"2023-04-20T12:16:39","modified_gmt":"2023-04-20T15:16:39","slug":"iniciativas-resgatam-o-legado-e-o-protagonismo-dos-lanceiros-negros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/iniciativas-resgatam-o-legado-e-o-protagonismo-dos-lanceiros-negros\/","title":{"rendered":"Iniciativas resgatam o legado e o protagonismo dos Lanceiros Negros"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Sociedade | Pesquisadores e representantes do movimento negro destacam o papel da ressignifica\u00e7\u00e3o de narrativas hist\u00f3ricas no enfrentamento ao racismo<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Imagem: Gustavo Assarian<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Revolta Farroupilha (1835-1845) \u00e9 o mais importante acontecimento do imagin\u00e1rio ga\u00facho. Comemorada anualmente com o Acampamento Farroupilha, al\u00e9m de desfiles e celebra\u00e7\u00f5es nos piquetes do Parque Harmonia, ela ensejou, no entanto, uma s\u00e9rie de conflitos que ceifaram a vida de centenas de escravizados, que tiveram importante papel naquele cen\u00e1rio. Quase 180 anos ap\u00f3s o final dos embates, o protagonismo dos Lanceiros Negros ainda suscita interpreta\u00e7\u00f5es diversas por parte de pesquisadores e \u00e9 lembrado apenas em algumas datas pontuais, como o 13 de maio e o 20 de novembro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A guerra iniciou em um contexto do Brasil oitocentista que permitia o rearranjo do poder com o fim do primeiro reinado do D. Pedro I e o in\u00edcio do per\u00edodo regencial. Os impostos cobrados sobre o charque \u2013 e sobre um insumo importante para a sua produ\u00e7\u00e3o, o sal \u2013 estavam altos, o que tornava o produto pouco lucrativo. Com a insatisfa\u00e7\u00e3o dos produtores, a janela estava aberta para se instalar uma rebeli\u00e3o. O governo da rec\u00e9m-declarada Rep\u00fablica Rio-Grandense, ent\u00e3o, emite decretos prometendo liberdade a todos os escravizados que fugissem de seus senhores e integrassem as tropas farroupilhas, al\u00e9m de uma indeniza\u00e7\u00e3o aos farroupilhas que libertassem seus escravos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os homens que se tornaram &#8216;lanceiros&#8217; foram recrutados entre as escravarias distribu\u00eddas pelo sul, sudeste e sudoeste da prov\u00edncia. \u201cA necessidade de homens nas tropas, bem como a experi\u00eancia e o conhecimento que possu\u00edam, tanto do territ\u00f3rio sulino como das lidas do homem do campo, necess\u00e1rias naquele contexto de guerra volante, foram fundamentais para a cria\u00e7\u00e3o de regimentos que os incorporassem ao ex\u00e9rcito farroupilha\u201d, explica Daniela Vallandro de Carvalho, professora do Departamento de Hist\u00f3ria da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro\/PR). <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo Daniela, \u00e9 poss\u00edvel que a ideia de prometer liberdade condicional aos escravos que lutassem ao lado dos rebeldes farroupilhas j\u00e1 circulasse entre as elites sul-rio-grandenses \u2013 mesmo que vagamente \u2013 desde o in\u00edcio do conflito. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201c\u00c0 medida que a guerra foi tomando contornos mais definidos e a necessidade de soldados se fez presente, somada \u00e0 presen\u00e7a de alguns deles j\u00e1 espalhados pelas tropas, a proposta de liberdade condicional tornou-se imperiosa\u201d, diz <\/p>\n<cite>Daniela de Carvalho<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cAprender a lida do campo, domar cavalos, costear gado, remontar cavalhadas, carnear, produzir charque, todas essas eram atividades feitas por escravos africanos e crioulos. S\u00e3o justamente esses homens que s\u00e3o buscados para compor esses corpos\u201d, complementa. Um dos chamamentos dizia: <em>\u201cHomens de cor, que estais entre o inimigo, abandonai-os e vindes se apresentar e sereis perdoado e Liberto! Aproveitai-vos.&#8221;<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No ex\u00e9rcito farrapo liderado por Bento Gon\u00e7alves, havia dois corpos de lanceiros: a cavalaria e a infantaria (a p\u00e9). Os soldados eram armados com lan\u00e7as de madeira, a maioria delas feita pelos pr\u00f3prios escravizados. A cavalaria historicamente se constituiu em uma arma importante dentro do ex\u00e9rcito, sobretudo na regi\u00e3o sulina. Por isso, dentre os crit\u00e9rios seguidos, havia a prefer\u00eancia de homens mais habilidosos para os corpos de cavalaria em detrimento \u00e0 infantaria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Carla Menegat, historiadora e professora no Instituto Federal de Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia Sul-Rio-Grandense (IFSul), h\u00e1 despropor\u00e7\u00e3o ao colocar o corpo de infantaria (a p\u00e9) \u00e0 frente da cavalaria para fazer o primeiro ataque. Os chamados \u201cbucha de canh\u00e3o\u201d, por estarem \u00e0 frente, precisar\u00e3o atacar no corpo a corpo. Com as armas mais prec\u00e1rias e menos privilegiadas, as condi\u00e7\u00f5es de defesa s\u00e3o menos tranquilas \u2013 situa\u00e7\u00e3o vista em outras guerras, como a do Paraguai e de Secess\u00e3o nos EUA. \u201cUm comportamento claramente de limpeza \u00e9tnica\u201d, diz a historiadora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m dos lanceiros, outros grupos de negros escravizados participaram da guerra e foram t\u00e3o importantes quanto. Al\u00e9m dos recrutamentos compuls\u00f3rio e volunt\u00e1rio, havia ainda os escravos que seguiam seus senhores em uma rela\u00e7\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o, fidelidade e troca, lembra Daniela. \u201cO recrutamento acabava sendo muito do que entendemos como rela\u00e7\u00e3o de carisma pessoal, na l\u00f3gica do caudilhismo\u201d, complementa Carla. Tamb\u00e9m soldados negros escravizados de farroupilhas serviram sob o comando de seus propriet\u00e1rios ou das ordens de parentes deles. Esses homens, por\u00e9m, n\u00e3o eram t\u00e3o numerosos quanto os lanceiros.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>O Massacre de Porongos<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir de 1842, a minoria, grupo que buscava a pacifica\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio, toma a lideran\u00e7a dos farroupilhas e encaminha o processo de guerra para uma negocia\u00e7\u00e3o de paz. Mas o destino dos negros que pertenciam aos imperiais tornou-se um empecilho: o temor de uma rebeli\u00e3o por parte do grupo que contava com a alforria prometida permeava a decis\u00e3o. Para que a paz pudesse ser selada, um dos pontos era desmobilizar o corpo de lanceiros e impedir a sua liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de restarem d\u00favidas sobre a sua total veracidade, a famosa carta do general Canabarro ao bar\u00e3o de Caxias continha os detalhes para que o corpo de lanceiros fosse atacado de forma vulner\u00e1vel \u2013 desarmados e sem comandantes \u2013 e a localiza\u00e7\u00e3o do acampamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A data era 14 de novembro de 1844, madrugada no cerro dos Porongos, solo do atual munic\u00edpio de Pinheiro Machado. Os lanceiros nem imaginavam, mas a qualquer momento seriam surpreendidos pelas tropas imperiais sob o comando do coronel Francisco Pedro de Abreu, comandante da 8.\u00aa Brigada do Ex\u00e9rcito, que exterminaria pouco mais de centenas de lanceiros e parte da infantaria. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Foi de fato uma trai\u00e7\u00e3o e um massacre\u201d, diz Daniela. Considerada a \u00faltima batalha da guerra, a trai\u00e7\u00e3o de Porongos foi um combinado que deveria ter ficado em segredo entre tr\u00eas partes: o general farroupilha David Canabarro, o ent\u00e3o bar\u00e3o de Caxias (l\u00edder das tropas imperiais) e Ant\u00f4nio Vicente da Fontoura, chefe da minoria dos farroupilhas, explica Carla.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os poucos lanceiros sobreviventes foram aprisionados: primeiramente, deslocados at\u00e9 Rio Grande; ap\u00f3s, de navio, desembarcaram no Rio de Janeiro para trabalhar no arsenal de guerra. Passaram, ent\u00e3o, a ser tratados como \u2018escravos da na\u00e7\u00e3o\u2019 \u2013 mantinham-se libertos, mas faziam os piores trabalhos.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>A hist\u00f3ria esquecida<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Daniela salienta que h\u00e1, fundamentalmente, no seio do gauchismo, uma concep\u00e7\u00e3o equivocada tanto de hist\u00f3ria como de cultura ga\u00facha, al\u00e9m da forma de enxerg\u00e1-las atrav\u00e9s da mitifica\u00e7\u00e3o da guerra e de seus personagens. \u201cA nega\u00e7\u00e3o e o apagamento dessas hist\u00f3rias negras t\u00eam impacto direto em quest\u00f5es contempor\u00e2neas da vida dessas popula\u00e7\u00f5es. Quando falamos que o gauchismo \u00e9 conservador, e ele \u00e9, estamos falando de conservar uma narrativa sobre o passado, e essa narrativa n\u00e3o contempla a popula\u00e7\u00e3o negra como personagens hist\u00f3ricos, tampouco como protagonistas\u201d, acrescenta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a pesquisadora, esses exemplos mostram o resultado dos apagamentos hist\u00f3ricos que t\u00eam impactado a vida das popula\u00e7\u00f5es afrodescendentes, com nega\u00e7\u00e3o do conhecimento da pr\u00f3pria hist\u00f3ria e do reconhecimento das suas a\u00e7\u00f5es na constru\u00e7\u00e3o do estado. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cSe essa popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o faz parte da hist\u00f3ria do Estado, ela n\u00e3o \u00e9 significativa; e n\u00e3o sendo parte, em termos de pol\u00edticas p\u00fablicas contempor\u00e2neas, n\u00e3o t\u00eam porque ser prioridade. A quest\u00e3o do apagamento do passado vai se desdobrando numa espiral cont\u00ednua de nega\u00e7\u00f5es no presente, grande parte delas intencionais&#8221;<\/p>\n<cite>Daniela de Carvalho<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Carla lembra que, at\u00e9 os anos 1970, se desconhecia a exist\u00eancia da escravid\u00e3o no estado ou se defendia que era branda. Ela refor\u00e7a que, at\u00e9 hoje, cantam-se versos do Hino Rio-Grandense que devem ser contestados. O trecho \u201cSirvam nossas fa\u00e7anhas de modelo a toda a terra\u201d, para Carla, traz a arrog\u00e2ncia e a percep\u00e7\u00e3o de se colocar numa disputa global entre liberais e conservadores. \u201cMas que fa\u00e7anhas s\u00e3o essas?\u201d, questiona. \u201cMas n\u00e3o basta, pra ser livre, ser forte, aguerrido e bravo; povo que n\u00e3o tem virtude acaba por ser escravo\u201d \u00e9 outro trecho apontado por Carla considerado racista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A historiadora lembra que o apagamento da presen\u00e7a negra na hist\u00f3ria e na cultura do RS cria uma ideia de que toda a popula\u00e7\u00e3o descende dos imigrantes que vieram da Europa no fim do s\u00e9culo 19, como se nada existisse antes disso. Jos\u00e9 Ant\u00f4nio dos Santos, diretor do Departamento de Educa\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Social (DEDS) da UFRGS e pesquisador de hist\u00f3ria e cultura negras, complementa: \u201cA gente acha que a popula\u00e7\u00e3o negra chegou ontem no nosso estado. Desde o processo de ocupa\u00e7\u00e3o do que foi se constituindo como territ\u00f3rio do Rio Grande do Sul, na capitania da prov\u00edncia, j\u00e1 havia a participa\u00e7\u00e3o de negros e negras\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para ele, h\u00e1 uma s\u00e9rie de aspectos que demonstram a proximidade \u2013 n\u00e3o reconhecida \u2013 das culturas africana e ga\u00facha. Um deles \u00e9 o trato com o gado, principal imagem que se tem do ga\u00facho, atividade desenvolvida pelos africanos e escravizados h\u00e1 milhares de anos. Os povos do norte do continente africano usavam vestimentas que remetiam \u00e0 conhecida bombacha, completa o docente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Lei n.\u00ba 10.639, de 2003, estabelece as diretrizes e bases da educa\u00e7\u00e3o nacional para incluir no curr\u00edculo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da tem\u00e1tica &#8220;Hist\u00f3ria e Cultura Afro-Brasileira&#8221;. Para Jos\u00e9 Ant\u00f4nio, a divulga\u00e7\u00e3o e o trabalho nas escolas desses materiais did\u00e1ticos \u00e9 um processo muito recente e escasso. &#8220;H\u00e1 um desconhecimento dos professores que trabalham nas escolas, ou certa desconsidera\u00e7\u00e3o da sua import\u00e2ncia, do que seja o pr\u00f3prio racismo. N\u00f3s, como sociedade, ainda vivemos imersos numa ideia de democracia racial, de que somos todos iguais, de que n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre as pessoas.&#8221; Para ele, enquanto se estiver submerso nesse imagin\u00e1rio, n\u00e3o ser\u00e1 dado o devido grau de import\u00e2ncia a essas tem\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Luiz Augusto Lacerda, artista visual e pesquisador da cultura negra, a figura dos Lanceiros Negros \u00e9 esquecida na hist\u00f3ria do Rio Grande do Sul. Ele lembra a aus\u00eancia da cita\u00e7\u00e3o nos livros did\u00e1ticos e o esquecimento da cultura afro-ga\u00facha pelo tradicionalismo. \u201cN\u00e3o se fala da contribui\u00e7\u00e3o do negro nas charqueadas, enquanto religiosos, lanceiros, cozinheiros e costureiros. Isso tudo \u00e9 apagado.\u201d Sempre estudando em escola particular, com poucos professores negros, ele ouvia que o negro no Brasil era apenas escravizado. Na escola, tornou-se uma \u201cpedra no cal\u00e7ado dos professores\u201d, como diz, questionando as demais contribui\u00e7\u00f5es. Ele defende que a hist\u00f3ria precisa ser contada na sua realidade e ess\u00eancia. &#8220;Promover toda e qualquer a\u00e7\u00e3o da cultura afro-ga\u00facha \u00e9 dif\u00edcil e, quando se consegue realizar, n\u00f3s entendemos que \u00e9 resist\u00eancia\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2018, Edjana Deodoro teve a ideia de vestir seu filho Caio, de tr\u00eas anos, de lanceiro negro para o baile farroupilha da escola. N\u00e3o se sentia confort\u00e1vel para vesti-lo com os trajes tradicionais ga\u00fachos, conhecendo toda a hist\u00f3ria por tr\u00e1s da vestimenta. Explicou-lhe brevemente a hist\u00f3ria dos lanceiros de forma que ele pudesse entender. \u201cFalei que eles ajudaram na Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha, e que ele n\u00e3o estaria vestido de ga\u00facho, mas de her\u00f3i\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao deixar o filho na porta da escola, uma surpresa: a professora de Caio n\u00e3o compreendeu do que ele estava vestido. \u201cEu fiquei muito frustrada, porque sabia que, das crian\u00e7as, at\u00e9 podia vir esse estranhamento e o n\u00e3o conhecimento. Mas nunca pensei que a professora e a coordena\u00e7\u00e3o da escola n\u00e3o conhecessem os Lanceiros Negros\u201d, desabafa. Compartilhou a frustra\u00e7\u00e3o nas redes sociais e teve grande repercuss\u00e3o. No ano seguinte, decidiu, junto com sua m\u00e3e, Iara Deodoro, confeccionar roupas de lanceiros para mais crian\u00e7as pretas. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Chega de as nossas crian\u00e7as estarem vestidas dos opressores e homenagearem her\u00f3is que massacraram a nossa ancestralidade&#8221;<\/p>\n<cite>Edjana Deodoro<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Reencontro ancestral<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A perpetua\u00e7\u00e3o da cultura afro-ga\u00facha \u00e9 o que o Instituto Sociocultural Afro-Sul Odomod\u00ea, espa\u00e7o de promo\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o das ra\u00edzes da arte e da cultura afro-brasileira, busca h\u00e1 mais de 40 anos. No dia 11 de setembro, o Instituto promoveu o segundo Acampamento dos Lanceirinhos Negros. Ocorrida em Nova Santa Rita, em meio \u00e0 natureza, o objetivo da atividade era oferecer \u00e0s crian\u00e7as, principalmente negras, a viv\u00eancia da hist\u00f3ria dos lanceiros negros e de elementos culturais por meio da conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias, oficinas de culin\u00e1ria e de instrumentos musicais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Aqui tem uma hist\u00f3ria que voc\u00eas nunca mais v\u00e3o esquecer&#8221;, anunciou Lu\u00edsa Oliveira, apontando para um pergaminho em suas m\u00e3os. Na frente dela, havia cerca de cinquenta crian\u00e7as sentadas no ch\u00e3o com olhares curiosos e ouvidos atentos. Vestida da cabe\u00e7a aos p\u00e9s com o traje de lanceira, a dan\u00e7arina e integrante do Afro-Sul come\u00e7ou a contar a hist\u00f3ria dos lanceiros negros na Revolta Farroupilha. De forma l\u00fadica, ela perpassou todos os pontos daqueles dez anos de guerra, n\u00e3o escondendo o tr\u00e1gico fim dos guerreiros sacrificados no Massacre de Porongos. \u201cA gente conta a hist\u00f3ria que a Hist\u00f3ria n\u00e3o costuma nos contar. Ent\u00e3o me preocupei muito em criar uma narrativa que pudesse, em resumo, mostrar aos nossos pares que estavam ali a trajet\u00f3ria, a hist\u00f3ria e o protagonismo dos negros na Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha\u201d, diz Lu\u00edsa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao final da hist\u00f3ria, com o bra\u00e7o erguido e o punho cerrado, as crian\u00e7as repetiam em coro as palavras ordenadas pela lanceira: &#8220;N\u00f3s nunca vamos esquecer dos nossos her\u00f3is Lanceiros Negros. Existem v\u00e1rias partes da hist\u00f3ria que n\u00e3o s\u00e3o contadas para a gente. E n\u00f3s vamos, cada vez mais, descobrir os nossos her\u00f3is, os nossos territ\u00f3rios e os nossos pares. E n\u00f3s temos orgulho disso&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Adriana Centeno, advogada e servidora p\u00fablica, levou ao Acampamento sua filha L\u00eamba Nyanga, de quatro anos, para que a menina tivesse uma viv\u00eancia de representatividade, aprendendo com seus semelhantes. \u201cEu acredito na import\u00e2ncia de ela viver sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria se enxergando na figura de quem est\u00e1 contando essa hist\u00f3ria. Uma hist\u00f3ria que \u00e9 subtra\u00edda dos livros de hist\u00f3ria e que, aqui, ela tem a oportunidade de ressignificar\u201d, diz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para ela, as crian\u00e7as s\u00e3o como sementes plantadas para levar o legado dessa hist\u00f3ria adiante. \u201cAcredito que esses momentos que elas est\u00e3o tendo, essa viv\u00eancia com os seus, v\u00e3o levar para o futuro na forma de pot\u00eancia, de autoestima, colocando essa quest\u00e3o do her\u00f3i negro em diferentes momentos das suas vidas para enfrentar esse mundo racista que a gente tem agora\u201d. Luiz Augusto concorda: \u201cAs crian\u00e7as s\u00e3o nosso futuro e elas que v\u00e3o levar adiante esse legado de resist\u00eancia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Anfitri\u00e3 do Afro-Sul, Iara Deodoro diz que os lanceirinhos representam para a institui\u00e7\u00e3o um compromisso com a inf\u00e2ncia e a juventude negra de trazer \u00e0 tona a hist\u00f3ria os verdadeiros her\u00f3is da Revolta Farroupilha \u2013 her\u00f3is sempre invisibilizados e hist\u00f3ria sempre distorcida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;\u00c9 de fundamental import\u00e2ncia que crian\u00e7as negras conhe\u00e7am a sua hist\u00f3ria e cultura ancestral, que sejam desmitificadas as hist\u00f3rias contadas nas escolas e nos livros, mostrando-se a elas a pot\u00eancia dos saberes ancestrais. Que esses conhecimentos as empoderem para que sejam agentes multiplicadores e guardi\u00f5es dessa cultura&#8221;<\/p>\n<cite>Iara Deodoro<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Forma\u00e7\u00e3o de agentes culturais<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEles combinaram de nos matar; n\u00f3s combinamos de n\u00e3o morrer.\u201d De autoria da escritora Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, a frase foi a escolhida como tema-enredo da Escola de Samba Sociedade Beneficente Cultural Realeza, que venceu a s\u00e9rie Prata do Carnaval de Porto Alegre deste ano. Escrito por Pedro Linhares, o <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=S1zi6mRhNf4\">samba-enredo<\/a> homenageou os lanceiros negros. Luiz Augusto, que preparou o organograma do desfile, criou as fantasias e montou o corpo de uma escola, com personalidades negras como M\u00e1rcio Chagas e Marcelo Carvalho. Ele acredita que o t\u00edtulo conquistado devolve \u00e0 comunidade uma vontade muito grande de fazer carnaval e cultivar nas crian\u00e7as o pertencimento. \u201cFoi um trabalho \u00e1rduo, mas satisfat\u00f3rio, prazeroso. A sensa\u00e7\u00e3o de dever cumprido se tornou muito clara, nos saciou\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">[...]\nO brilho da aurora reluzia\nFindando a sombria madrugada\nA liberdade se esvaia\nAo p\u00e9 do cerro a trai\u00e7\u00e3o se confirmava\n\nSeguindo a marcha do poder e ambi\u00e7\u00e3o\nDa \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d surge um novo coronel\nRetalhos da hist\u00f3ria s\u00e3o jogados pelo ch\u00e3o\nNa ilus\u00e3o de um novo porvir\n\nEnquanto o bra\u00e7o forte resistia\nO mal imperava por ali\n\nQuanto sangue derramado\nNosso irm\u00e3o eternizado\nBrota do ch\u00e3o a raiz da resist\u00eancia\n\u00c9 negritude em sua ess\u00eancia\n\nNo remanso da dor\nLanceiro negro eu sou\n[...]\n\n<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=S1zi6mRhNf4\">Samba-enredo da Escola de Samba Realeza para o Carnaval 2022<\/a><\/pre>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Concei\u00e7\u00e3o Evaristo tamb\u00e9m foi uma das homenageadas no Pr\u00eamio Lanceiros Negros, que aconteceu n\u00e3o em solo ga\u00facho, mas no Rio de Janeiro. O evento foi promovido em setembro no Museu da Hist\u00f3ria e Cultura Afro-Brasileira, localizado na capital fluminense, pelo Movimento Negro Unificado (MNU). F\u00e1tima Monteiro, coordenadora do MNU do Rio de Janeiro, lembra que, nos demais estados do Brasil, \u00e9 estudada superficialmente a hist\u00f3ria da Guerra dos Farrapos, n\u00e3o se alcan\u00e7ando a dos lanceiros negros. Por isso era significativo trazer \u00e0 tona a hist\u00f3ria desses her\u00f3is que lutaram por liberdade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cFoi muito importante a gente fazer essa homenagem aos lanceiros da atualidade, que s\u00e3o pessoas que hoje tamb\u00e9m se colocam, tanto na arte quanto na sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e pol\u00edtica, \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para poder lutar e ter esse enfrentamento entre as desigualdades.\u201d Com feira cultural, debates e, ao fim, a premia\u00e7\u00e3o, personalidades com hist\u00f3rico de luta \u2013 seja no meio art\u00edstico ou na academia \u2013 foram homenageadas. O objetivo \u00e9 que, daqui para frente, a homenagem seja anual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Coincidentemente, o MNU, com 44 anos de a\u00e7\u00f5es voltadas \u00e0 luta contra o racismo, tem o s\u00edmbolo de uma m\u00e3o segurando uma lan\u00e7a. Para F\u00e1tima, \u00e9 um sinal de movimento de resist\u00eancia. \u201cNossos passos e da nossa ancestralidade v\u00eam de longe, e foi com muito esfor\u00e7o. A hist\u00f3ria do nosso pa\u00eds \u00e9 constru\u00edda pelo sangue de pessoas negras\u201d, diz F\u00e1tima. <\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<section id=\"section-a516d900-bb73-481d-852b-c151c92cb939\" class=\"wp-block-gutentor-author-profile alignwide gutentor-section  gutentor-author author-profile-template1 has-gutentor-block-shape-top gutentor-tshape-fv\"><div class=\"gutentor-block-shape-top\"><span><svg width=\"100%\" height=\"100px\" viewBox=\"0 0 1280 140\" preserveAspectRatio=\"none\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\"><path d=\"M0 140h1280C573.08 140 0 0 0 0z\" fill-opacity=\".3\" style=\"fill-rule:evenodd; transform: rotate(180deg); transform-origin:50% 50%;\"\/><path d=\"M0 140h1280C573.08 140 0 30 0 30z\" fill-opacity=\".5\" style=\"fill-rule:evenodd; transform: rotate(180deg); transform-origin:50% 50%;\"\/><path d=\"M0 140h1280C573.08 140 0 60 0 60z\" style=\"fill-rule:evenodd; transform: rotate(180deg); transform-origin:50% 50%;\"\/><\/svg><\/span><\/div><div class=\"grid-container\"><div class=\"gutentor-block-header\"><div class=\"gutentor-section-title text-center\"><h2 class=\"gutentor-title\">Especial Novembro Negro 2022<\/h2><\/div><\/div><div class=\"gutentor-grid-item-wrap wow animated undefined\"><div class=\"gutentor-single-item\"><div class=\"gutentor-single-item-content\"><div class=\"gutentor-single-item-image-box\"><div class=\"gutentor-image-thumb\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"normal-image\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/Arte-Gustavo-Assarian_LING-Full-2-1-e1668607564596.jpg\" alt=\"\" height=\"183\" width=\"350\"\/><\/div><\/div><div class=\"gutentor-author-content\"><div class=\"gutentor-author-detail\"><\/div><div class=\"gutentor-single-item-desc\"><p class=\"gutentor-single-item-desc\">Nesta edi\u00e7\u00e3o especial alusiva ao Novembro Negro \u2013 s\u00e9rie de eventos organizados pela comunidade universit\u00e1ria em fun\u00e7\u00e3o do Dia da Consci\u00eancia Negra, celebrado em 20 de novembro \u2013 o JU traz para reflex\u00e3o diferentes aspectos sobre apagamento, resist\u00eancia e mem\u00f3ria do povo negro. Acesse todo material da edi\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/novembro-negro-2022\/\">aqui.<\/a><br><br>Para ilustrar as mat\u00e9rias desse especial, apresentamos a obra do artista visual Gustavo Assarian, que utiliza o desenho como contraponto \u00e0 impot\u00eancia do ser humano diante do caos cotidiano. Acesse <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/ensaio-gustavo-assarian\/\">aqui <\/a>o ensaio com as obras do artista.<\/p><\/div><\/div><\/div><\/div><\/div><\/div><\/section>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sociedade | Pesquisadores e representantes do movimento negro destacam o papel da ressignifica\u00e7\u00e3o de narrativas hist\u00f3ricas no enfrentamento ao racismo<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/iniciativas-resgatam-o-legado-e-o-protagonismo-dos-lanceiros-negros\/\">Leia 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