{"id":55227,"date":"2022-10-27T07:40:00","date_gmt":"2022-10-27T10:40:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=55227"},"modified":"2022-10-27T11:59:58","modified_gmt":"2022-10-27T14:59:58","slug":"recordes-de-publico-do-futebol-feminino-exemplificam-avancos-da-modalidade-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/recordes-de-publico-do-futebol-feminino-exemplificam-avancos-da-modalidade-no-brasil\/","title":{"rendered":"Recordes de p\u00fablico do futebol feminino exemplificam avan\u00e7os da modalidade no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Esporte | Marcas estabelecidas nas finais do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino 2022 demonstram interesse do p\u00fablico nas partidas, mas pesquisadoras destacam a necessidade de pol\u00edticas p\u00fablicas de incentivo ao esporte e de diminui\u00e7\u00e3o da desigualdade<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Foto: Carol Annes\/Arquivo pessoal<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 18 de setembro, 36.330 torcedores acompanharam a partida entre Internacional e Corinthians no Est\u00e1dio Beira-Rio (Porto Alegre) \u2013 primeira da final do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino 2022. O p\u00fablico registrado era, at\u00e9 ent\u00e3o, o recorde em um jogo de futebol feminino no Brasil. No s\u00e1bado seguinte, dia do segundo confronto entre os mesmos times, na Neo Qu\u00edmica Arena (S\u00e3o Paulo), uma nova marca foi estabelecida: 41.070 presentes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O jogo em Porto Alegre terminou empatado, um gol para cada time. No est\u00e1dio, o entusiasmo dos torcedores mandantes e visitantes era evidente: vibraram com o gol da sua equipe intensamente, empolgavam-se com lances e cantavam m\u00fasicas de incentivo \u00e0s jogadoras. O p\u00fablico era diverso, com destaque para a presen\u00e7a significativa de mulheres nas arquibancadas.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Carolina Annes, publicit\u00e1ria de 25 anos, frequenta jogos do Internacional desde o in\u00edcio do ano, tanto de mulheres quanto de homens. Ela esteve na partida contra o Corinthians em Porto Alegre com um grupo de amigas. Para ela, o ambiente do futebol feminino \u00e9 \u201cmais amig\u00e1vel\u201d em compara\u00e7\u00e3o \u00e0 modalidade masculina: \u201cno feminino, o pensamento \u00e9 mais de que, independentemente de como estiver [o jogo], vamos estar ali apoiando as gurias, e eu gosto bastante disso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A publicit\u00e1ria destaca o trabalho de <em>marketing <\/em>e comunica\u00e7\u00e3o do Internacional para alcan\u00e7ar um maior n\u00famero de presentes no est\u00e1dio. Al\u00e9m disso, para ela, o valor do ingresso \u2013 um quilo de alimento n\u00e3o perec\u00edvel \u2013 fez com que mais pessoas fossem ao jogo. Segundo divulgado pelo Internacional, foram doadas 27 toneladas, maior montante j\u00e1 arrecadado pelo Banco de Alimentos do Rio Grande do Sul. Em S\u00e3o Paulo, os ingressos eram pagos e geraram uma renda de R$ 900.981,00, recorde de arrecada\u00e7\u00e3o da modalidade no Brasil e na Am\u00e9rica Latina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Taiane Lima, mestranda no Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e bolsista do Centro de Refer\u00eancia do Museu do Futebol, destaca a import\u00e2ncia das torcidas dos clubes nos recordes. Para ela, as rivalidades tradicionais do futebol masculino s\u00e3o transpostas para o feminino e trazem mais interesse aos jogos. Mesmo assim, a historiadora destaca que n\u00e3o se deve comparar as duas modalidades, pois elas possuem caracter\u00edsticas, contextos e hist\u00f3rias diferentes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Silvana Goellner, professora aposentada da Escola de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica, Fisioterapia e Dan\u00e7a (Esefid), diz que o p\u00fablico do futebol praticado por mulheres \u00e9 composto, primeiramente, pelos amantes do futebol em geral. Ela destaca a presen\u00e7a das torcidas organizadas tradicionais, que comparecem e chamam outros torcedores. Al\u00e9m disso, Taiane pontua o grande n\u00famero de crian\u00e7as nessas partidas e justifica que isso se deve \u00e0 maior seguran\u00e7a e menor incid\u00eancia de casos violentos nos jogos femininos em rela\u00e7\u00e3o aos masculinos, al\u00e9m do hor\u00e1rio \u2013 normalmente durante a tarde.&nbsp;A professora entende que esses recordes de p\u00fablico consecutivos demonstram que h\u00e1 interesse do p\u00fablico na modalidade. \u201cEles desconstru\u00edram um discurso que era muito comum de que o futebol de mulheres n\u00e3o interessava, \u00e9 feio, lento e que ningu\u00e9m gosta de ver ou jogar\u201d, comenta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cFutebol <em>de mulheres<\/em>\u201d, ali\u00e1s, \u00e9 como Silvana chama a modalidade. Ela explica que as quest\u00f5es de g\u00eanero n\u00e3o est\u00e3o, necessariamente, vinculadas aos corpos biol\u00f3gicos e exemplifica, falando de mulheres e homens trans: \u201cS\u00e3o pessoas que t\u00eam uma caracter\u00edstica de g\u00eanero que n\u00e3o \u00e9 aquela que se identifica no sexo de nascen\u00e7a. Nesse sentido, <em>feminino<\/em> n\u00e3o est\u00e1 vinculado s\u00f3 \u00e0s mulheres; podemos ter caracter\u00edsticas culturais femininas em corpos de homens\u201d. Segundo a professora, a express\u00e3o usada [<em>de mulheres<\/em>] confere maior protagonismo a todas as mulheres do esporte, al\u00e9m de servir para descolar da representa\u00e7\u00e3o de que <em>feminino<\/em> est\u00e1 associado a uma &#8220;feminilidade bela e maternal\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cExistem m\u00faltiplas formas de ser mulher, ent\u00e3o quando eu uso a express\u00e3o &#8216;futebol de mulheres&#8217; \u00e9 exatamente para ressaltar o protagonismo, que s\u00e3o mulheres que est\u00e3o fazendo o futebol acontecer\u201d <\/p><cite>Silvana Goellner<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Silvana, \u201co que faltava para o futebol de mulheres era oportunidade, ent\u00e3o, \u00e0 medida que elas come\u00e7aram a jogar nos grandes est\u00e1dios, estamos vendo os recordes acontecerem\u201d. \u00c9 que muitas partidas da modalidade n\u00e3o s\u00e3o disputadas nos grandes est\u00e1dios, e, sim, em outros locais, como os centros de treinamento, o que muitas vezes dificulta o deslocamento dos torcedores. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 o caso de Marina da Rosa Staudt, jornalista e administradora do perfil no Instagram <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/gremioffeminino\/\">@gremioffeminino<\/a>. Frequentadora de jogos de futebol feminino do Gr\u00eamio desde 2018, Marina conta que, ultimamente, tem comparecido \u00e0s partidas com menor regularidade, pois seu clube do cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 jogando no Est\u00e1dio Vieir\u00e3o, em Gravata\u00ed \u2013 localizado a cerca de 25 quil\u00f4metros da Arena.&nbsp;&nbsp;Al\u00e9m da dist\u00e2ncia, o hor\u00e1rio tamb\u00e9m dificulta a presen\u00e7a da torcedora, j\u00e1 que as partidas normalmente ocorrem em dias de semana, \u00e0 tarde.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-2 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arquivo-Pessoal-Carol-Annes-6483441.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"743\" data-id=\"55624\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arquivo-Pessoal-Carol-Annes-6483441.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-55624\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arquivo-Pessoal-Carol-Annes-6483441.jpg 1000w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arquivo-Pessoal-Carol-Annes-6483441-300x223.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arquivo-Pessoal-Carol-Annes-6483441-157x117.jpg 157w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arquivo-Pessoal-Carol-Annes-6483441-768x571.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arquivo-Pessoal-Carol-Annes-6483441-465x345.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arquivo-Pessoal-Carol-Annes-6483441-673x500.jpg 673w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arquivo-Pessoal_Marina-Staudt-2471.jpg\"><img decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"667\" data-id=\"55621\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arquivo-Pessoal_Marina-Staudt-2471.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-55621\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arquivo-Pessoal_Marina-Staudt-2471.jpg 1000w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arquivo-Pessoal_Marina-Staudt-2471-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arquivo-Pessoal_Marina-Staudt-2471-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arquivo-Pessoal_Marina-Staudt-2471-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arquivo-Pessoal_Marina-Staudt-2471-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arquivo-Pessoal_Marina-Staudt-2471-695x464.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/a><\/figure>\n<figcaption class=\"blocks-gallery-caption\">A colorada Carol Annes (com a camisa vermelha do Internacional) e a gremista Marina Staudt em seus est\u00e1dios para partidas dos times femininos de seus clubes <br>(Fotos: Carol Annes; Marina Staudt\/ Arquivo pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Hist\u00f3rico do futebol feminino no Brasil<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEu acho que estamos dando os primeiros passos para uma estrutura\u00e7\u00e3o mais efetiva do futebol de mulheres\u201d, diz Silvana. A modalidade foi proibida no Brasil pelo artigo 54 do D<a href=\"https:\/\/www2.camara.leg.br\/legin\/fed\/declei\/1940-1949\/decreto-lei-3199-14-abril-1941-413238-publicacaooriginal-1-pe.html\">ecreto-lei n.\u00ba 3.199<\/a> de 1941: \u201c\u00c0s mulheres n\u00e3o se permitir\u00e1 a pr\u00e1tica de desportos incompat\u00edveis com as condi\u00e7\u00f5es de sua natureza [&#8230;]\u201d. A regulamenta\u00e7\u00e3o ocorreu somente 42 anos depois, ent\u00e3o, a pesquisadora explica que a modalidade, legalmente, possui uma hist\u00f3ria recente no pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cO futebol de mulheres foi regulamentado no Brasil em 1983, mas ele vive altos e baixos. Ent\u00e3o, em \u00e9poca de grandes eventos, como Copa do Mundo e Jogos Ol\u00edmpicos, h\u00e1 um pouco mais de visibilidade, um pouco mais investimento, muito atrelado ao sucesso da sele\u00e7\u00e3o\u201d <\/p><cite>Silvana Goellner<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Silvana entende decis\u00f5es recentes da Federa\u00e7\u00e3o Internacional de Futebol Associado (Fifa), da Confedera\u00e7\u00e3o Sul-americana de Futebol (Conmebol) e da Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Futebol (CBF) como \u201cpol\u00edticas indutoras\u201d. Em 2016, a Fifa incluiu a palavra g\u00eanero em seus estatutos e come\u00e7ou a pensar em pol\u00edticas de diminui\u00e7\u00e3o da desigualdade. No mesmo ano, a entidade sul-americana determinou que, a partir de 2019, para participarem de competi\u00e7\u00f5es continentais masculinas, os clubes devem ter uma equipe feminina. A mesma decis\u00e3o foi tomada pela CBF em rela\u00e7\u00e3o aos clubes da S\u00e9rie A do Brasileir\u00e3o masculino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atualmente os campeonatos promovidos pela CBF s\u00e3o: Brasileiro Feminino s\u00e9rie A1, Brasileiro Feminino s\u00e9rie A2 e os Brasileiros de categorias de base: sub-16, sub-17, sub-18 e sub-20. As federa\u00e7\u00f5es estaduais promovem competi\u00e7\u00f5es nos estados, como o Campeonato Ga\u00facho de Futebol Feminino, organizado pela Federa\u00e7\u00e3o Ga\u00facha de Futebol. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m h\u00e1 competi\u00e7\u00f5es continentais promovidas pela Conmebol, como a Libertadores Feminina e a Copa Am\u00e9rica Feminina, e mundiais, organizadas pela Fifa, como a Copa do Mundo Feminina. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para que o esporte continue avan\u00e7ando, Silvana diz que pol\u00edticas p\u00fablicas de fomento, incentivo dos clubes \u00e0s categorias de base e estabelecimento de departamentos espec\u00edficos para o futebol de mulheres em confedera\u00e7\u00f5es e federa\u00e7\u00f5es s\u00e3o fundamentais. Al\u00e9m disso, destaca a import\u00e2ncia da representatividade de mulheres em outros cargos que envolvem a modalidade, como na imprensa e na arbitragem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"667\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arquivo-Pessoal-Carol-Annes-5.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-55623\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arquivo-Pessoal-Carol-Annes-5.jpg 1000w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arquivo-Pessoal-Carol-Annes-5-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arquivo-Pessoal-Carol-Annes-5-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arquivo-Pessoal-Carol-Annes-5-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Arquivo-Pessoal-Carol-Annes-5-465x310.jpg 465w, 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