{"id":6065,"date":"2020-03-02T07:30:00","date_gmt":"2020-03-02T10:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=6065"},"modified":"2020-11-04T12:11:03","modified_gmt":"2020-11-04T15:11:03","slug":"isonomia-a-mais-doce-palavra-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/isonomia-a-mais-doce-palavra-2\/","title":{"rendered":"Isonomia, a mais doce palavra"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">* Publicado na Edi\u00e7\u00e3o 230 do JU<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/blade-runner-11-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6066\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/blade-runner-11-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/blade-runner-11-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/blade-runner-11-175x98.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/blade-runner-11-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/blade-runner-11-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/blade-runner-11-500x281.jpg 500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/blade-runner-11-800x450.jpg 800w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/blade-runner-11-1280x720.jpg 1280w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/blade-runner-11-170x96.jpg 170w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/blade-runner-11-740x416.jpg 740w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/blade-runner-11-1031x580.jpg 1031w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/blade-runner-11.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Cena do filme Blade Runner, de Rydley Scott &#8211; 1982 (Warner Bros.\/Divulga\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A frase \u00e9 de Her\u00f3doto e foi escrita h\u00e1 2.560 anos para elogiar o que chamamos de democracia. O nome original era isonomia e significa o regime em que h\u00e1 regras que equalizam a sociedade. A palavra democracia foi usada s\u00f3 84 anos ap\u00f3s o surgimento da isonomia, em Atenas, em 508 a.C.; ela significa soberania popular, e esta \u00e9 a melhor fonte pol\u00edtica da isonomia. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o primado da soberania popular, o exerc\u00edcio do poder ganha a for\u00e7a da legitimidade, a experi\u00eancia e o conhecimento depuram as op\u00e7\u00f5es, o di\u00e1logo torna-se imperativo, educam-se os cidad\u00e3os para as escolhas e assegura-se o predom\u00ednio do bem comum. Este \u00e9 produzido a partir das condi\u00e7\u00f5es de igualdade jur\u00eddica em uma comunidade, com consequ\u00eancias culturais, sociais, econ\u00f4micas e pol\u00edticas, e leva a melhoras nas condi\u00e7\u00f5es de vida da maioria ou mesmo de todos. Entre os gregos, na p\u00f3lis; em nosso caso, na Universidade.  <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conv\u00edvio na Universidade \u00e9 perturbado h\u00e1 anos por um desconforto que deve ser solucionado. O cerne do problema \u00e9 a perpetua\u00e7\u00e3o de assimetrias ileg\u00edtimas dividindo a comunidade acad\u00eamica. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;A diferen\u00e7a pol\u00edtica vigente entre docentes, t\u00e9cnicos e estudantes parte de p\u00e9ssimos fundamentos e reproduz viola\u00e7\u00f5es que geram mal-estar e minam a fortaleza da institui\u00e7\u00e3o. &#8220;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Injuriados com esta viol\u00eancia, v\u00e1rios setores e vozes da Universidade clamam por paridade, por meio de uma f\u00f3rmula de partilha eleitoral que amplie a participa\u00e7\u00e3o dos hoje minorit\u00e1rios t\u00e9cnicos e discentes. A finalidade desta plataforma \u00e9 correta e ben\u00e9fica; a palavra paridade, todavia, perpetua o problema mais grave, a distin\u00e7\u00e3o qualitativa no cerne da comunidade, atribuindo valores maiores e menores aos sujeitos pol\u00edticos, sem justificativa aceit\u00e1vel. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 preciso, antes de mais nada, enfrentar e eliminar a base cultural e pol\u00edtica que estabeleceu essas diferen\u00e7as na comunidade, e ent\u00e3o avan\u00e7ar para as solu\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas compat\u00edveis, que devem repercutir primeiramente na quest\u00e3o eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O quadro reverbera Blade Runner, de Ridley Scott (1982), filme em que se confrontam humanos e androides, os replicantes. A obra demonstra a viol\u00eancia e a hipocrisia dessa distin\u00e7\u00e3o, quando um replicante salva por compaix\u00e3o a vida do protagonista humano, que o perseguia, e o amor floresce entre o ca\u00e7ador humano e uma androide. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 assim na UFRGS, quando professores consideram-se cultural e politicamente superiores. Esse narcisismo n\u00e3o tem o menor fundamento, e sua pr\u00e1tica \u00e9 um insulto aos colegas t\u00e9cnico-administrativos. O argumento pr\u00f3-docente \u00e9 um platonismo t\u00edpico: os professores cultuam imagem em que se equiparam ao rei fil\u00f3sofo, superior em virtudes devido \u00e0 excel\u00eancia de seu saber. S\u00e3o, pela ci\u00eancia e por suas qualidades culturais, permanentes, em contraste com os que, consideram os docentes, possuem menos saber e s\u00e3o transit\u00f3rios. Logo, uns valem mais; outros, menos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A perten\u00e7a a um dos grupos funcionais automaticamente implica ju\u00edzos morais e pol\u00edticos em que o estamento prevalente sai fortalecido, \u00e0 custa de um insulto inaceit\u00e1vel. A diferen\u00e7a ontol\u00f3gica entre docente e t\u00e9cnico \u00e9 uma fal\u00e1cia que deve ser denunciada e superada; vale o mesmo para o caso dos estudantes. \u00c9 uma prepot\u00eancia narc\u00edsica a reserva de poder exercida por docentes, fundada em bases \u00e9ticas indefens\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m do fundamento humano e pol\u00edtico, essa cis\u00e3o n\u00e3o resiste \u00e0 an\u00e1lise hist\u00f3rica. Os fatos mostram que nas elei\u00e7\u00f5es muitos docentes votam movidos por conchavos, apoio a amigos, cupidez de cargos e honras ou por motiva\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas nem sempre adequadas para o meio acad\u00eamico. Nada assegura a virtude inata dos atos pol\u00edticos de docentes, muito pelo contr\u00e1rio. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na outra face do desd\u00e9m pela qualidade do pessoal administrativo desta Universidade, est\u00e1 a insensibilidade diante da qualidade e realiza\u00e7\u00f5es admir\u00e1veis de muitos expoentes desse quadro funcional. A t\u00edtulo de exemplo e s\u00edmbolo, lembremos o papel extraordin\u00e1rio de Marininha Aranha Rocha, estruturando a inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica desta UFRGS, desenvolvendo com enorme qualidade o que \u00e9 hoje nosso principal evento, o Sal\u00e3o de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica, \u00e2ncora de nossa semana acad\u00eamica. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Marininha foi uma das principais autoras do desenvolvimento cient\u00edfico recente desta Universidade, sempre integrada \u00e0s melhores metas, sens\u00edvel ao belo potencial dos novos quadros de pesquisadores, l\u00edder com a qualidade de estimular equipes e agraciar nobres finalidades. Marininha \u00e9 aqui citada como s\u00edmbolo de uma qualidade que se evidencia em numerosos t\u00e9cnicos de alt\u00edssimo n\u00edvel, muitos ocupando cargos superiores em pr\u00f3-reitorias, para nosso alento e orgulho, e que n\u00e3o podem, de forma alguma, ser desdenhados como se fossem androides replicantes a servi\u00e7o de sua alteza, os humanos plat\u00f4nicos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1, naturalmente, \u00f3timos e p\u00e9ssimos exemplos entre docentes e t\u00e9cnicos, pois n\u00e3o \u00e9 o pertencimento a uma ou outra categoria funcional que determina o quadro de virtudes e cacoetes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso discente \u00e9 um pouco mais complexo, mas n\u00e3o pode ser subtra\u00eddo desse cen\u00e1rio. Nossos acad\u00eamicos n\u00e3o s\u00e3o crian\u00e7as ing\u00eanuas, mas a elite da juventude atual. Em sua maioria, possuem pot\u00eancia pol\u00edtica moderna, forte motiva\u00e7\u00e3o e herdam a mem\u00f3ria do movimento estudantil, o que lhes assegura qualidade valiosa para a mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na Universidade. Sua voz tem que ser reconhecida e ampliada sua participa\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es, com pleno esp\u00edrito ison\u00f4mico e democr\u00e1tico. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O reconhecimento desse valor requer dos docentes o abandono dos cacoetes plat\u00f4nicos de se acharem melhores, mais preparados, permanentes e universais, e reconhecer que a democracia \u00e9 realizada com a harmonia de disson\u00e2ncias. A reserva de inova\u00e7\u00e3o dos jovens \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o passional e pulsante da Universidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em qualquer cen\u00e1rio, ser\u00e1 imperativo desmontar o mito plat\u00f4nico que sustenta o privil\u00e9gio docente e caminhar para a constru\u00e7\u00e3o efetiva de uma comunidade, capaz de se reconhecer sem melindres e de cooperar para a realiza\u00e7\u00e3o do bem comum. Para isso, precisamos abandonar comportamentos e vocabul\u00e1rios viciados, incluindo-se a luta por paridade, termo que preserva a distin\u00e7\u00e3o injustific\u00e1vel entre humanos e androides, fazendo do c\u00e2mpus pol\u00edtico um cen\u00e1rio pior que o de uma fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica antiga \u2013 a imagem de um mito arcaico, aristocr\u00e1tico. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A palavra \u00e9 isonomia, e com ela entendemos que \u00e9 preciso revolucionar para produzirmos um ganho substantivo para n\u00f3s e para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es. \u00c9 certo que um dia ter\u00e1 fim o atual necrogoverno, com sua voracidade antidemocr\u00e1tica, e que reconstruiremos os caminhos da liberdade, da participa\u00e7\u00e3o e da dial\u00e9tica. \u00c9 essa rota desafiadora e fecunda que devemos examinar para construir os novos tempos com a paz e a soma de todas as pot\u00eancias de nossa comunidade.  <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em termos pr\u00e1ticos: docentes e t\u00e9cnicos integrados em um mesmo col\u00e9gio, com 70% dos votos, estudantes com os demais 30%.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ebebeb\"><a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4763606A0\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Francisco Marshall<\/a> \u00e9 professor do Departamento de Hist\u00f3ria da UFRGS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A frase \u00e9 de Her\u00f3doto e foi escrita h\u00e1 2.560 anos para elogiar o que chamamos de democracia. 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