{"id":62589,"date":"2023-04-20T07:31:00","date_gmt":"2023-04-20T10:31:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=62589"},"modified":"2023-04-20T09:35:46","modified_gmt":"2023-04-20T12:35:46","slug":"o-jogo-e-jongo-da-literatura-negra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/o-jogo-e-jongo-da-literatura-negra\/","title":{"rendered":"O jogo e jongo da literatura negra"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Artigo | Ronald Augusto, mestre em Letras: Teoria, Cr\u00edtica e Comparatismo, estabelece uma rela\u00e7\u00e3o entre a escrita de Machado de Assis e aspectos da cultura afrodiasp\u00f3rica brasileira<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Por Ronald Augusto<br>*Imagem: Dan\u00e7a de Negros, 1846-1849, de Eduard Hildebrandt\/Acervo Instituto Moreira Salles\/Dom\u00ednio P\u00fablico. <\/em><br><em>Litografia, l\u00e1pis de cor e aquarela sobre papel. Dimens\u00f5es: 13,2 x 13 cm, impressa pela Ludwig &amp; Briggs Lithographers, no Rio de Janeiro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A prop\u00f3sito de um dos tra\u00e7os do estilo de Machado de Assis, isto \u00e9, a escrita da dissimula\u00e7\u00e3o, Luiz Costa Lima, h\u00e1 quase trinta anos, prop\u00f4s uma nova perspectiva de interpreta\u00e7\u00e3o a respeito do nosso maior escritor. Segundo o cr\u00edtico, a escrita da dissimula\u00e7\u00e3o de Machado pode ser explicada como a transfigura\u00e7\u00e3o de um particular modo negro-brasileiro de ser-no-mundo, a saber, o jogo da capoeira enquanto forma de filosofia pr\u00e1tica: a ginga que se resolve em pensamento puro. Ao analisar a aparente frivolidade, as nega\u00e7as e a ironia das cr\u00f4nicas escritas por Machado de Assis (1872-1879) para a <em>Gazeta de Not\u00edcias<\/em>, Costa Lima se refere ao autor de <em>Dom Casmurro<\/em> como \u201cmestre de capoeira\u201d. Ao reconstituir fatos ocorridos ao longo de uma semana, Machado de Assis se comportava menos como documentalista do que como escritor. A mem\u00f3ria de uma semana recebia os golpes transfiguradores de sua ginga, \u201ca capoeira da palavra\u201d, segundo o te\u00f3rico. As cr\u00f4nicas do Machado capoeirista, no que toca ao problema da fidelidade ao real, seguem de perto a percep\u00e7\u00e3o nietzschiana segundo a qual a hist\u00f3ria sobrecarrega a mem\u00f3ria, fazendo lerda a intelig\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas em que termos poderia se dar essa est\u00e9tica, seja alusiva ao jogo da capoeira, seja alusiva ao jongo e mesmo ao terreiro a que se relacionam po\u00e9ticas e filosofias espec\u00edficas da di\u00e1spora? E o que \u00e9, por exemplo, o jongo? Antes de prosseguir nesse t\u00f3pico, abordarei as ideias de Henrique Freitas sobre o conceito de <em>literatura-terreiro<\/em>. O Machado mestre do jogo de capoeira, como met\u00e1fora de um jogo de corpo que dissimula suas inten\u00e7\u00f5es, a fala po\u00e9tica do sotaque jongueiro, elis\u00e3o e rasura de significados. Tudo se relaciona ao pensamento vivo do corpo negro e suas estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia por meio de uma est\u00e9tica e de uma eticidade radicalmente pansemi\u00f3ticas e conviviais. Para Henrique Freitas, a no\u00e7\u00e3o de dissimula\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo estruturante das formas de vida e de pensamento do negro no Brasil. De acordo com o professor e cr\u00edtico baiano, a dissimula\u00e7\u00e3o \u201ccomo resposta ao panoptismo colonial j\u00e1 estava tamb\u00e9m na forma como a cosmogonia africana encontrou para sobreviver ao racismo epist\u00eamico no Brasil, seja na capoeira, seja na feijoada ou, ainda, na abordagem encruzilhada dos orix\u00e1s com os santos cat\u00f3licos\u201d (FREITAS, 2016, p. 44). Dial\u00e9tica da simula\u00e7\u00e3o e da dissimula\u00e7\u00e3o como forma de conviv\u00eancia ou de resist\u00eancia ao controle ou, como prefere Freitas, resist\u00eancia ao panoptismo.&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse jogo de risco requerido pela sobreviv\u00eancia frente \u00e0 viol\u00eancia colonial, as formas de vida e os estados mentais negros esposam o compromisso de fazer a media\u00e7\u00e3o entre a sua cultura estilha\u00e7ada e a cultura europeia e suas expropria\u00e7\u00f5es materiais e espirituais. A dissimula\u00e7\u00e3o exerce seu jogo tanto no espa\u00e7o p\u00fablico como no privado; seu discurso negaceia afirma\u00e7\u00f5es e contraditas que se fazem acompanhar da marca\u00e7\u00e3o de uma piscadela de olhos aos iguais, senha de uma metalinguagem a assinalar que suas palavras n\u00e3o devem ser levadas a s\u00e9rio, quando, na verdade, se trata do contr\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Volto ao jogo de dissimula\u00e7\u00e3o do texto-jongueiro. O jongo tem sua origem na regi\u00e3o africana do Congo-Angola. O ritmo, que tamb\u00e9m deriva em dan\u00e7a, chegou ao Brasil trazido pelos negros escravizados. A festa dos jongueiros n\u00e3o \u00e9 restritamente religiosa. O ponto ou a cantiga \u00e9 uma adivinha em versos que o advers\u00e1rio precisa desatar ou desamarrar. Os jongueiros procuram vencer um ao outro atrav\u00e9s dos pontos enunciados aos integrantes da roda. Os pontos s\u00e3o todos enigm\u00e1ticos e metaf\u00f3ricos, e imp\u00f5em grandes dificuldades \u00e0 sua decifra\u00e7\u00e3o. A linguagem cifrada se estrutura em torno de formula\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas detonadoras da muta\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica das palavras. Os jongueiros trocam os sentidos, criando um espa\u00e7o de deriva sem\u00e2ntica. Esse procedimento de linguagem se enra\u00edza nas conting\u00eancias hist\u00f3ricas em que se formou a cultura dos negros escravizados. Foi uma das muitas formas encontradas para conversar e conspirar de modo a burlar a vigil\u00e2ncia da capatazia. Por meio dessas senhas musicais, mensagens importantes se refugiavam por detr\u00e1s do sentido literal de enunciados insuspeitos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O jongueiro \u00e9 um esteta, uma fic\u00e7\u00e3o dan\u00e7ante, um pensador que domina a arte da capoeira. Do ponto de vista do controle branco, esse performer alcoviteiro se refugia na displic\u00eancia da malandragem. Met\u00e1fora da arte que sobrevive ao controle, que se aproveita de um cochilo ou outro do sistema e dissimula aquilo que \u00e9. Dissimula\u00e7\u00e3o sup\u00f5e a habilidade de n\u00e3o fazer ver as coisas como s\u00e3o. Sugerir e dissimular s\u00e3o termos dessa estrat\u00e9gia de sacrif\u00edcio a que se dedica cotidianamente com o prop\u00f3sito mais secreto de confrontar-se com a ordena\u00e7\u00e3o social opressiva. Determinado a fazer falar lateralmente o sil\u00eancio da supress\u00e3o e da autossupress\u00e3o, presume em perspectiva que o estilo da perda converte-se em estilo da revanche. O poeta transnegreiro, o sambista, o autor da literatura-terreiro, o capoeira Machado de Assis, todos empenhados numa estrat\u00e9gia b\u00e1sica e, a partir da qual, enveredam por distintas propostas: simula-se aquilo que n\u00e3o \u00e9, dissimula-se aquilo que \u00e9.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A literatura negra, enquanto entrecruzamento de linguagens, jongueira e capoeirista, \u00e9 fen\u00f4meno cont\u00edguo \u00e0 literatura-terreiro, \u00e0 medida que conquista reconhecimento, abre espa\u00e7o para o redimensionamento do c\u00e2none da literatura proclamada universal. Subjacente \u00e0 obra tanto em prosa como em versos, de v\u00e1rios escritores negros, pode-se notar uma interpreta\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria do ocidente que naturaliza sua branquitude. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa perspectiva, podemos dizer que a escrita negra ainda cont\u00e9m em si as val\u00eancias de um corpo entranho, ou seja, seus objetos de linguagem parecem se estabelecer de modo indevido dentro do sistema liter\u00e1rio tal como \u00e9 conhecido.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-accent-background-color has-background wp-block-paragraph\">&nbsp;<a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/7943735703517511\">Ronald Augusto<\/a>&nbsp;\u00e9 licenciado em Filosofia e mestre em Letras: Teoria, Cr\u00edtica e Comparatismo, ambos pela UFRGS. \u00c9 poeta, ensa\u00edsta, cr\u00edtico de poesia.  <\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-black-color has-text-color wp-block-paragraph\" style=\"font-size:12px\"><em>&#8220;As manifesta\u00e7\u00f5es expressas neste ve\u00edculo n\u00e3o representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ronald Augusto, mestre em Letras: Teoria, Cr\u00edtica e Comparatismo, estabelece uma rela\u00e7\u00e3o entre a escrita de Machado de Assis e aspectos da cultura afrodiasp\u00f3rica brasileira<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/o-jogo-e-jongo-da-literatura-negra\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":63109,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[53],"tags":[4443,4442,1908,4441,295,4262,522,1260,1676],"ppma_author":[2938],"class_list":["entry","author-gerente","has-excerpt","post-62589","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-artigo","tag-afrobrasileiro","tag-autores-negros","tag-cultura-popular","tag-escrita-negra","tag-jogo","tag-jongo","tag-literatura","tag-machado-de-assis","tag-negritude"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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