{"id":63238,"date":"2023-04-27T07:28:00","date_gmt":"2023-04-27T10:28:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=63238"},"modified":"2023-04-27T10:43:51","modified_gmt":"2023-04-27T13:43:51","slug":"compor-mundos-em-territorios-de-coexistencia-multiespecie","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/compor-mundos-em-territorios-de-coexistencia-multiespecie\/","title":{"rendered":"Compor mundos em territ\u00f3rios de (co)exist\u00eancia multiesp\u00e9cie\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | Luis Miguel Barboza Arias, doutorando em Desenvolvimento Rural, apresenta elementos de pesquisa de campo realizada em San Gerardo de Oreamuno, na regi\u00e3o central da Costa Rica, para analisar a rela\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o com a fauna local<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Por Luis Miguel Barboza Arias<br>*Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tese em andamento, intitulada <em>Devir territ\u00f3rio de (co)exist\u00eancia: pr\u00e1ticas sociomateriais e relacionamentos multiesp\u00e9cie na comunidade de San Gerardo de Oreamuno (Costa Rica)<\/em>, analisa os modos em que intera\u00e7\u00f5es cotidianas entre pessoas e fauna silvestre (re)configuram as din\u00e2micas locais do territ\u00f3rio, por meio de pr\u00e1ticas e valores espec\u00edficos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A paisagem da zona de San Gerardo de Oreamuno, na regi\u00e3o central da Costa Rica, \u00e9 influenciada pela presen\u00e7a de dois vulc\u00f5es, cada um deles pertencente \u00e0s \u00e1reas protegidas dos Parques Nacionais Vulc\u00e3o Iraz\u00fa e Vulc\u00e3o Turrialba. Esse aspecto \u00e9 determinante para entender o que se pode chamar de \u201cecologias de proximidade\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto \u00e9, momentos e\/ou situa\u00e7\u00f5es de contato contingente e quase \u00edntimo que s\u00e3o condicionadas pela presen\u00e7a ativa de vitalidades-outras e n\u00e3o humanas, que (co)habitam o mesmo territ\u00f3rio com humanos e fazem dele o seu espa\u00e7o experiencial, (re)significando os sentidos do local.&nbsp;&nbsp;Um argumento central \u00e9 que as \u00e1reas protegidas n\u00e3o s\u00e3o unidades geogr\u00e1ficas discretas, que cont\u00eam formas de natureza imaculada dentro de limites fixos. Esses ambientes est\u00e3o destinados \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o a partir da permeabilidade e a porosidade que apresentam.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pesquisa foca em tr\u00eas esp\u00e9cies de mam\u00edferos. Um deles \u00e9 o coiote, que se desloca entre os parques nacionais, atrav\u00e9s das florestas e das propriedades agr\u00edcolas\/pecu\u00e1rias de San Gerardo. Na Costa Rica, esse can\u00eddeo \u00e9 considerado uma esp\u00e9cie invasora e oportunista pela legisla\u00e7\u00e3o ambiental.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As outras esp\u00e9cies envolvidas na pesquisa s\u00e3o guaxinins e um roedor de h\u00e1bitos fossoriais, chamado no pa\u00eds centro-americano de \u201ctaltuza\u201d (um parente distante do tuco-tuco), e tamb\u00e9m est\u00e3o categorizadas como esp\u00e9cies daninhas. A taltuza, por exemplo, \u00e9 considerada uma praga vertebrada que afeta principalmente a produ\u00e7\u00e3o de hortali\u00e7as, que \u00e9 uma das atividades agroprodutivas mais importantes no territ\u00f3rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Indo al\u00e9m das dimens\u00f5es problem\u00e1ticas ou conflitivas dos relacionamentos, estou interessado na emerg\u00eancia de ecologias afetivas e na constru\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as \u00e9ticas que tornem poss\u00edvel processos de desenvolvimento.&nbsp;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No desdobramento emp\u00edrico da pesquisa, colaboro com atores da comunidade na identifica\u00e7\u00e3o de iniciativas que consideram a participa\u00e7\u00e3o dessas esp\u00e9cies de diferentes formas. Segundo suas palavras, o trabalho com animais pouco carism\u00e1ticos abre possibilidades para explorar \u201cmundos de vida\u201d que costumam passar despercebidos pelos gestores da conserva\u00e7\u00e3o e burocratas encarregados dos programas p\u00fablicos de desenvolvimento.&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Arquivo-Pessoal-4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-63406\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Arquivo-Pessoal-4.jpg 1000w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Arquivo-Pessoal-4-300x135.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Arquivo-Pessoal-4-175x79.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Arquivo-Pessoal-4-768x346.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Arquivo-Pessoal-4-465x209.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Arquivo-Pessoal-4-695x313.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Na imagem de capa e acima, paisagens da regi\u00e3o dos Parques Nacionais de Vulc\u00e3o Iraz\u00fa e Turrialba, em San Gerardo de Oreamuno, na Costa Rica<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma iniciativa \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de um museu de hist\u00f3ria natural dedicado \u00e0 biografia do coiote e \u00e0 sua rela\u00e7\u00e3o com a comunidade, que ser\u00e1 constru\u00eddo no segundo andar do \u00fanico restaurante de San Gerardo. Destaca-se no projeto a inclus\u00e3o de fragmentos de relatos dos pr\u00f3prios moradores, assim como fotografias e grava\u00e7\u00f5es de vocaliza\u00e7\u00f5es do animal feitas por eles mesmos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Narrar a hist\u00f3ria de San Gerardo, na perspectiva da (co)exist\u00eancia humanos-coiotes, pode contribuir para impulsionar o potencial enotur\u00edstico da regi\u00e3o. Nesse esfor\u00e7o, tamb\u00e9m participo o Comit\u00e9 do Esporte e da Recrea\u00e7\u00e3o, uma organiza\u00e7\u00e3o da comunidade integrada inteiramente por jovens, que trabalha na demarca\u00e7\u00e3o de rotas agroecotur\u00edsticas, baseadas na identifica\u00e7\u00e3o de vest\u00edgios do animal e em experi\u00eancias de observa\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um elemento inovador da pesquisa \u00e9 a incorpora\u00e7\u00e3o da \u201cetnografia multiesp\u00e9cie\u201d, uma metodologia popularizada em 2010 ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de um artigo na revista <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/j.1548-1360.2010.01069.x\"><em>Cultural Anthropology<\/em><\/a>. \u201cHabitar um territ\u00f3rio \u00e9 sempre uma quest\u00e3o relacional. \u00c9 poss\u00edvel acreditar que a (co)habitabilidade com animais altamente estigmatizados desperte suspic\u00e1cia humana e gere relacionamentos ambivalentes\u201d, sublinho naquele texto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As taltuzas se encontram entre os mam\u00edferos mais estigmatizados da Costa Rica. Elas foram objeto de uma pol\u00edtica de extermina\u00e7\u00e3o desde o in\u00edcio do s\u00e9culo anterior. Em San Gerardo, o aniquilamento do bicho, famoso por construir sistemas complexos de t\u00faneis para ingressar nas hortali\u00e7as e se alimentar das ra\u00edzes de br\u00f3colis e couve-flor, deu lugar ao surgimento dos \u201ctaltuceros\u201d, pessoas que se dedicam \u00e0 instala\u00e7\u00e3o de armadilhas mec\u00e2nicas, conhecidas popularmente como \u201ctaltuceras\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s d\u00e9cadas de a\u00e7\u00f5es de controle infrutuosas para lidar com o problema da taltuza-praga, como o uso de agrot\u00f3xicos e alternativas biol\u00f3gicas, as armadilhas demostraram ser o meio mais efetivo. Acompanho os taltuceros em suas atividades cotidianas, para compreender os afetos envolvidos nesse relacionamento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ca\u00e7a de taltuzas constitui mais do que uma economia informal, das muitas que emergem no territ\u00f3rio. Ela contorna uma pr\u00e1tica cultural que tem lugar em ambientes ecol\u00f3gicos inst\u00e1veis. H\u00e1 riscos, como a presen\u00e7a de serpentes venenosas e outros mam\u00edferos agressivos, que aguardam nos t\u00faneis para se alimentar do bicho.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos aspectos que mais me interessa \u00e9 a forma como os taltuceros aprendem a \u201cpensar como uma taltuza\u201d, para adiantar-se a seus deslocamentos e identificar os lugares do t\u00fanel que podem ser mais favor\u00e1veis ao prop\u00f3sito da captura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Considera-se que pesquisas desse tipo s\u00e3o relevantes porque ajudam a questionar tipos de racionalidade antropoc\u00eantrica que ainda prevalecem nas an\u00e1lises sociol\u00f3gicas e pol\u00edticas, e nas ci\u00eancias sociais em geral. A incorpora\u00e7\u00e3o das capacidades performativas e agenciamentos dos n\u00e3o humanos \u00e9 uma lente \u00fatil para entender a (re)composi\u00e7\u00e3o de ensamblagens ecossist\u00eamicas complexas, sem cair na armadilha da idealiza\u00e7\u00e3o da natureza.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-accent-background-color has-background wp-block-paragraph\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/3448013481548289\">Luis Miguel Barboza Arias<\/a> \u00e9 doutorando pelo Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Desenvolvimento Rural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PGDR-UFRGS). Tem orienta\u00e7\u00e3o da professora <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/9010752835148401\">Fl\u00e1via Char\u00e3o Marques<\/a> e integra o <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/grist\/\">Grupo de Pesquisa Inova\u00e7\u00e3o, Sociedade e Ecoterritorialidades<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-black-color has-text-color wp-block-paragraph\" style=\"font-size:12px\"><em>&#8220;As manifesta\u00e7\u00f5es expressas neste ve\u00edculo n\u00e3o representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luis Miguel Barboza Arias, doutorando em Desenvolvimento Rural, apresenta elementos de pesquisa de campo realizada em San Gerardo de Oreamuno, na 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