{"id":63948,"date":"2023-05-18T07:28:00","date_gmt":"2023-05-18T10:28:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=63948"},"modified":"2023-12-07T10:12:48","modified_gmt":"2023-12-07T13:12:48","slug":"pedagogias-nao-binarias-de-danca-de-salao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/pedagogias-nao-binarias-de-danca-de-salao\/","title":{"rendered":"Pedagogias n\u00e3o bin\u00e1rias de dan\u00e7a de sal\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Artigo | Robson Teixeira Porto, doutorando em Artes C\u00eanicas, prop\u00f5e uma ressignifica\u00e7\u00e3o dos pap\u00e9is desempenhados em dan\u00e7as de pares de modo que essas pr\u00e1ticas possam ser mais inclusivas <\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Por Robson Teixeira Porto<br>*Foto: Fl\u00e1vio Dutra\/Arquivo JU 12 jul. 2010<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A dan\u00e7a de sal\u00e3o \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o cultural que surgiu na Europa no s\u00e9culo XVI durante o per\u00edodo renascentista. No Brasil, chega em 1908 em consequ\u00eancia da coloniza\u00e7\u00e3o, como parte do processo de assimila\u00e7\u00e3o dos h\u00e1bitos e costumes europeus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro subg\u00eanero de dan\u00e7a de sal\u00e3o assimilado pela aristocracia brasileira foi a valsa, que logo se tornou uma componente essencial nos bailes da sociedade brasileira. Esse fato contribuiu para a cria\u00e7\u00e3o de salas de m\u00fasica e dan\u00e7a, que consistiam em espa\u00e7os destinados ao ensino dessas linguagens art\u00edsticas. A partir disso, come\u00e7aram a chegar os primeiros mestres de dan\u00e7a ao Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os mestres de dan\u00e7a eram artistas europeus que vinham para c\u00e1 para ensinar a dan\u00e7a de sal\u00e3o europeia, sobretudo para as mulheres, pois a habilidade de dan\u00e7ar era considerada um s\u00edmbolo de educa\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m da doc\u00eancia, esses mestres tinham, inclusive, a fun\u00e7\u00e3o de apresent\u00e1-las \u00e0 sociedade, uma vez que a fun\u00e7\u00e3o dos bailes era a integra\u00e7\u00e3o social dessas mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cabe destacar que al\u00e9m dos saberes hegem\u00f4nicos supracitados, os saberes subalternos, oriundos dos povos origin\u00e1rios e da di\u00e1spora africana no Brasil, tamb\u00e9m constituem a matriz identit\u00e1ria da dan\u00e7a de sal\u00e3o brasileira. A mistura cultural entre europeus, africanos e ind\u00edgenas propiciou, tamb\u00e9m, a forma\u00e7\u00e3o de uma cultura brasileira geral, especialmente da dan\u00e7a e da m\u00fasica. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tendo em vista o apagamento dos saberes culturais dos povos negros e ind\u00edgenas, lamenta-se a quantidade \u00ednfima de registros acerca dessas dan\u00e7as. Cita-se, entretanto, o maxixe, uma dan\u00e7a que surgiu nos sub\u00farbios e nas casas de dan\u00e7a afrodescendentes no Rio de Janeiro. Com a sua populariza\u00e7\u00e3o, conquistou a elite carioca e se consagrou como um dos principais precursores do samba, considerado um dos s\u00edmbolos da cultura brasileira.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As vis\u00f5es tradicionais da dan\u00e7a de sal\u00e3o no Brasil reproduzem valores de uma sociedade cis-heteropatriarcal. Essas concep\u00e7\u00f5es s\u00e3o problem\u00e1ticas, pois desconsideram as dissid\u00eancias de g\u00eanero e sexualidade, bem como reproduzem valores machistas.&nbsp;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A dan\u00e7a de sal\u00e3o tradicional concebe apenas uma configura\u00e7\u00e3o de dupla, denominada \u201ccasal\u201d, que \u00e9, necessariamente, constitu\u00edda por um homem \u201ccavalheiro\u201d e uma mulher \u201cdama\u201d. A forma de intera\u00e7\u00e3o entre a dupla \u00e9 preestabelecida: aos homens cabe pensar e conduzir; e \u00e0s mulheres, seguir e enfeitar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de muitas pessoas se identificarem com a configura\u00e7\u00e3o tradicional da dan\u00e7a de sal\u00e3o, h\u00e1 uma parcela significativa de pessoas que s\u00e3o exclu\u00eddas dessa cultura por conta dessas imposi\u00e7\u00f5es. Logo, nessa configura\u00e7\u00e3o, n\u00e3o est\u00e3o inclu\u00eddas as pessoas que gostam de compartilhar a condu\u00e7\u00e3o nem as mulheres que gostam de conduzir e os homens que preferem se deixar conduzir. Al\u00e9m disso, s\u00e3o desconsideradas as pessoas que gostam de dan\u00e7ar com pessoas do mesmo g\u00eanero, assim como homens e mulheres cuja corporalidade n\u00e3o corresponde ao que a norma determina para o seu sexo biol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A falta de correspond\u00eancia entre as transforma\u00e7\u00f5es sociais que ocorreram no Brasil, principalmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres e aos LGBTs, e a cultura da dan\u00e7a de sal\u00e3o tradicional, acarretam a exclus\u00e3o de muitas pessoas dessa cultura, bem como limitam as formas de comunica\u00e7\u00e3o e express\u00e3o dos dan\u00e7arinos que a integram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em contrapartida, h\u00e1 um movimento de artistas, professores, pesquisadores, entre outros profissionais da dan\u00e7a de sal\u00e3o, que busca ressignificar os bailes e o aprendizado da dan\u00e7a nos espa\u00e7os n\u00e3o formais de ensino, uma vez que esses lugares n\u00e3o apenas contribuem para a manuten\u00e7\u00e3o dessa cultura excludente como tamb\u00e9m t\u00eam potencial para ressignificar pr\u00e1ticas machistas e LGBTf\u00f3bicas que acontecem na comunidade da dan\u00e7a de sal\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dessa forma, esta proposta, cujo intuito \u00e9 contribuir para tornar a comunidade da Dan\u00e7a de Sal\u00e3o mais inclusiva, compreende o \u201cato de conduzir\u201d como um \u201cconvite\u201d. Ou seja, quando um agente da dupla prop\u00f5e um movimento, o outro pode aceitar ou rejeitar a proposta. Nesse sentido, n\u00e3o se tem um condutor que prop\u00f5e e um conduzido que apenas segue de forma passiva, mas ambos t\u00eam papel ativo na constru\u00e7\u00e3o da dan\u00e7a a dois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda nessa abordagem, n\u00e3o \u00e9 preciso que cada agente da dupla se limite a uma \u00fanica a\u00e7\u00e3o (conduzir ou deixar-se conduzir), pois a dan\u00e7a acontece como se fosse um di\u00e1logo, ambos podem falar e ouvir, de modo que as a\u00e7\u00f5es de conduzir e deixar-se conduzir podem ser revezadas entre a dupla. Se for, contudo, o desejo dos dan\u00e7arinos, cada agente pode desempenhar uma a\u00e7\u00e3o espec\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em oposi\u00e7\u00e3o ao monop\u00f3lio da condu\u00e7\u00e3o pelos homens, como acontece na dan\u00e7a de sal\u00e3o tradicional, a proposta n\u00e3o atribui uma correspond\u00eancia de g\u00eanero \u00e0s a\u00e7\u00f5es de conduzir e deixar-se conduzir. Assim, independentemente do g\u00eanero que performam, os agentes podem assumir determinada a\u00e7\u00e3o ou compartilhar ambas as a\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ademais, as movimenta\u00e7\u00f5es das mulheres e dos homens n\u00e3o s\u00e3o moldadas a partir dos estere\u00f3tipos de g\u00eanero, como acontece na dan\u00e7a de sal\u00e3o tradicional. Pelo contr\u00e1rio, a inten\u00e7\u00e3o de propor pedagogias n\u00e3o bin\u00e1rias de dan\u00e7a de sal\u00e3o \u00e9 para permitir que as pessoas possam dan\u00e7ar com quem desejarem, assim como se expressarem a partir das suas corporalidades e subjetividades, sem ficarem limitadas aos padr\u00f5es estabelecidos pela norma.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por fim, a proposta de pensar a dan\u00e7a de sal\u00e3o de forma n\u00e3o bin\u00e1ria n\u00e3o t\u00eam o intuito de romper com a l\u00f3gica convencional dessa pr\u00e1tica art\u00edstica, mas de possibilitar que a comunidade da dan\u00e7a de sal\u00e3o se torne mais diversa e plural. Ressignificar os modos de comunica\u00e7\u00e3o, express\u00e3o e ensino desse g\u00eanero de dan\u00e7a contribui n\u00e3o apenas para inclus\u00e3o de novas pessoas, mas tamb\u00e9m amplia a capacidade de intera\u00e7\u00e3o entre as pessoas que j\u00e1 fazem parte dessa comunidade.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-accent-background-color has-background wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/lattes.cnpq.br\/3910450685905975\">Robson Teixeira Porto<\/a> \u00e9 doutorando em Artes C\u00eanicas (UFRGS), mestre em Educa\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias (FURG), especialista em Artes (UFPEL), licenciado em Dan\u00e7a (UFPel) e licenciado em Matem\u00e1tica (FURG). Atualmente, atua como professor substituto no Curso Dan\u00e7a &#8211; Licenciatura da UFPEL e como tutor EaD no Curso de especializa\u00e7\u00e3o em Artes EaD da mesma universidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Robson Teixeira Porto, doutorando em Artes C\u00eanicas, prop\u00f5e uma ressignifica\u00e7\u00e3o dos pap\u00e9is desempenhados em dan\u00e7as de pares de modo que essas pr\u00e1ticas possam ser mais inclusivas <span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/pedagogias-nao-binarias-de-danca-de-salao\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":63600,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[53],"tags":[4501,4504,4503,4502,1845],"ppma_author":[2938],"class_list":["entry","author-gerente","has-excerpt","post-63948","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-artigo","tag-danca-de-salao","tag-danca-de-salao-nao-binaria","tag-genero-e-sexualidade-na-danca","tag-historia-da-danca-de-salao","tag-pedagogia-da-danca"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.8 - 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