{"id":66769,"date":"2023-09-14T07:50:00","date_gmt":"2023-09-14T10:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=66769"},"modified":"2023-09-13T15:02:50","modified_gmt":"2023-09-13T18:02:50","slug":"tecnicas-de-reproducao-humana-viabilizam-que-casais-homoafetivos-tenham-filhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/tecnicas-de-reproducao-humana-viabilizam-que-casais-homoafetivos-tenham-filhos\/","title":{"rendered":"T\u00e9cnicas de reprodu\u00e7\u00e3o humana viabilizam que casais homoafetivos tenham filhos"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Direitos reprodutivos | Com o avan\u00e7o na \u00e1rea de Reprodu\u00e7\u00e3o Humana, h\u00e1 uma d\u00e9cada o Conselho Federal de Medicina (CFM) estabelece regulamenta\u00e7\u00f5es que viabilizam que casais homoafetivos tenham filhos por fertiliza\u00e7\u00e3o in vitro e gesta\u00e7\u00e3o por substitui\u00e7\u00e3o<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Foto: <a href=\"https:\/\/www.freepik.com\">Designed by Freepik<\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No \u00faltimo m\u00eas de julho, quando se celebra o Orgulho LGBTQIAP+, os papais Manoel e Marcelo comemoraram o primeiro ano de vida das g\u00eameas Laira e Kaila. As mam\u00e3es Jana\u00edna e Valessa, de modo semelhante, viveram os primeiros dias com a filha Eduarda nos bra\u00e7os. As hist\u00f3rias dos casais se conectam n\u00e3o apenas pela atual viv\u00eancia da parentalidade, mas pelo semelhante caminho que percorreram para realizar o desejo de ter filhos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 dez anos, o Conselho Federal de Medicina (CFM), a partir da <a href=\"https:\/\/portal.cfm.org.br\/images\/PDF\/resoluocfm%202013.2013.pdf\">Resolu\u00e7\u00e3o CFM n.\u00ba 2.013\/13<\/a>, assegura de maneira clara e definitiva que casais homoafetivos utilizem as t\u00e9cnicas de reprodu\u00e7\u00e3o assistida, bem como a cess\u00e3o tempor\u00e1ria do \u00fatero de forma restrita \u2014 quando uma mulher, a partir de determinadas regras, cede seu \u00fatero para a gesta\u00e7\u00e3o de um embri\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A trajet\u00f3ria do advogado Manoel Cardoso e do empreendedor Marcelo Alcazar teve in\u00edcio h\u00e1 17 anos, quando come\u00e7aram o relacionamento. Com o passar do tempo, o casal passou a desenvolver o desejo de ter um filho fruto da rela\u00e7\u00e3o. Num primeiro momento, a ado\u00e7\u00e3o parecia ser a \u00fanica forma de viabiliza\u00e7\u00e3o, o que os levou a buscar orienta\u00e7\u00f5es sobre como iniciar o processo. No entanto, com a chegada da pandemia, os procedimentos precisaram ser pausados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2021, em uma conversa entre familiares, a irm\u00e3 de Marcelo, Fl\u00e1via Alcazar, declarou ser candidata a gestar um beb\u00ea, indicando a possibilidade de ceder seu \u00fatero para que os dois tivessem um filho. O casal pouco sabia a respeito de t\u00e9cnicas de reprodu\u00e7\u00e3o assistida para casais homoafetivos masculinos. \u201cN\u00f3s acabamos abra\u00e7ando a ideia. Estudamos, conversamos e fomos atr\u00e1s de informa\u00e7\u00f5es. Enfim, demos in\u00edcio a isso\u201d, relembra Manoel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com a ginecologista Marta Hentschke, doutora em Reprodu\u00e7\u00e3o Humana e professora na Escola de Medicina da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio Grande do Sul, os primeiros passos para um casal homoafetivo que deseja ter um filho biol\u00f3gico incluem procurar atendimento em uma cl\u00ednica de reprodu\u00e7\u00e3o assistida, marcar uma consulta com um especialista em reprodu\u00e7\u00e3o humana e explanar o desejo. De acordo com a m\u00e9dica, o avan\u00e7o nas tecnologias abriu muitas possibilidades tanto para casais quanto para pessoas solteiras que desejam ter filhos. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA fertiliza\u00e7\u00e3o in vitro, que \u00e9 justamente a uni\u00e3o de um gameta masculino com um feminino em laborat\u00f3rio, permite que tenhamos a uni\u00e3o desses gametas n\u00e3o necessariamente apenas para um casal h\u00e9tero\u201d<\/p>\n<cite>Marta Hentschke<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto \u00e9, a fertiliza\u00e7\u00e3o in vitro, tamb\u00e9m conhecida como FIV, envolve a combina\u00e7\u00e3o de um \u00f3vulo e um espermatozoide em laborat\u00f3rio com o objetivo de formar embri\u00f5es que ser\u00e3o cultivados, selecionados e transferidos para um \u00fatero. No caso de casais masculinos, os parceiros escolhem quem dos dois ir\u00e1 oferecer os espermatozoides. Os \u00f3vulos s\u00e3o obtidos por doa\u00e7\u00e3o obrigatoriamente an\u00f4nima por meio de um banco. Al\u00e9m disso, \u00e9 necess\u00e1ria a coopera\u00e7\u00e3o de uma terceira pessoa, uma mulher disposta a ceder o \u00fatero temporariamente apenas para a gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, o Conselho Federal de Medicina permite que a cedente do \u00fatero seja da fam\u00edlia de um dos parceiros em at\u00e9 quarto grau. M\u00e3e, av\u00f3, irm\u00e3, tia ou prima, portanto, podem gestar. \u201cQualquer caso que saia do estabelecido pelo Conselho pode ser tratado de forma particular e ser julgado por uma c\u00e2mara t\u00e9cnica\u201d, adiciona a m\u00e9dica Hentschke. As regras vigentes n\u00e3o permitem qualquer tipo de envolvimento lucrativo e comercial. Dessa forma, contratar uma \u201cbarriga de aluguel\u201d em territ\u00f3rio brasileiro \u00e9 expressamente proibido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fl\u00e1via j\u00e1 tinha passado pela gesta\u00e7\u00e3o de seus dois filhos e se disponibilizou a gestar o beb\u00ea para o irm\u00e3o e seu marido. O casal, ent\u00e3o, selecionou um \u00f3vulo de uma doadora an\u00f4nima e optou por recolher material gen\u00e9tico de ambos, mas decidiram n\u00e3o saber qual seria fecundado. A partir da uni\u00e3o dos gametas em laborat\u00f3rio, dois embri\u00f5es foram transferidos \u00e0 irm\u00e3 de Marcelo. \u201cDeu tudo certo. Quando vimos, eram as duas meninas. Ou seja, os \u00f3vulos implantados vingaram. Elas estavam ali, firmes e fortes.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O nascimento de Kaila e Laira foi um dia de festa n\u00e3o apenas para os pais, mas tamb\u00e9m para os profissionais do hospital. Segundo relatos, aquela era a primeira vez que o local experienciava a situa\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00f3s acompanhamos as meninas desde a hora em que elas foram implantadas. Elas nasceram, n\u00f3s dois est\u00e1vamos no centro cir\u00fargico com a Fl\u00e1via. N\u00f3s acompanhamos tudo\u201d, conta o casal.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Gesta\u00e7\u00e3o compartilhada<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A educadora f\u00edsica Valessa Silveira e a contadora Jana\u00edna Godoy, atualmente, vivem os primeiros dias da dupla maternidade com a filha Eduarda, a Duda. Ap\u00f3s nove anos de relacionamento, em uma consulta m\u00e9dica, elas compartilharam com a profissional o desejo que tinham de se tornarem m\u00e3es. &#8220;N\u00f3s sempre pensamos em ter uma fam\u00edlia, em ter um filho; no caso de casal homoafetivo, precisa desse planejamento&#8221;, relata Valessa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No caso de casais femininos, h\u00e1 duas op\u00e7\u00f5es de procedimentos, a fertiliza\u00e7\u00e3o in vitro e a insemina\u00e7\u00e3o artificial (intrauterina). Enquanto em uma a forma\u00e7\u00e3o do embri\u00e3o \u00e9 realizada em laborat\u00f3rio, fora do corpo da mulher, na outra envolve a introdu\u00e7\u00e3o de espermatozoides capacitados, pr\u00f3ximo ao per\u00edodo de ovula\u00e7\u00e3o, diretamente no \u00fatero.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As duas optaram por realizar uma pr\u00e1tica comum entre casais femininos, a gesta\u00e7\u00e3o compartilhada: uma oferece o \u00f3vulo e a outra gesta. Assim, Valessa doou sua carga gen\u00e9tica, que foi unida ao gameta de um doador masculino an\u00f4nimo em laborat\u00f3rio e transferida ao \u00fatero de Jana\u00edna. O positivo, contudo, n\u00e3o apareceu na primeira tentativa.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cQuando come\u00e7amos a fazer um processo de fertiliza\u00e7\u00e3o, vamos entendendo duas coisas que s\u00e3o bem importantes: primeiro, que ainda bem que a ci\u00eancia existe e que ela pode auxiliar. A outra coisa \u00e9 que a ci\u00eancia n\u00e3o caminha de modo separado da natureza. A natureza acaba fazendo a parte dela. \u00c9 um processo de v\u00e1rias etapas\u201d<\/p>\n<cite>Valessa Silveira<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao todo, o casal passou por tr\u00eas tentativas at\u00e9 a chegada do resultado aguardado. \u201cDentro das expectativas e da porcentagem, tem mais chance de n\u00e3o dar certo. S\u00e3o tentativas que dependem de como se dar\u00e1 o desenvolvimento. Saber lidar com isso \u00e9 bem complicado, \u00e9 o psicol\u00f3gico\u201d, recorda Jana\u00edna.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;A especialista em reprodu\u00e7\u00e3o humana Marta Hentschke afirma que \u00e9 importante para o casal estudar o tema para conhecer todas as possibilidades e dificuldades. Al\u00e9m disso, ela orienta aos pacientes buscarem acompanhamento psicol\u00f3gico durante o tratamento, diante das expectativas que envolvem o processo. \u201cA maior dificuldade \u00e9 que nada \u00e9 100%. H\u00e1 o medo do negativo, e isso gera uma ansiedade muito grande.\u201d O sentimento est\u00e1 vinculado ao percentual de sucesso, j\u00e1 que as chances de que a FIV resulte em gravidez gira em torno de 30%.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Legisla\u00e7\u00e3o e (in)viabilidade no Sistema \u00danico de Sa\u00fade<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Conselho Federal de Medicina tem sido, ao longo dos anos, respons\u00e1vel pela publica\u00e7\u00e3o das normas que regem a pr\u00e1tica da reprodu\u00e7\u00e3o assistida no Brasil. A advogada Luiza Sartori Parise, p\u00f3s-graduanda em Direito de Fam\u00edlia e membro do Servi\u00e7o de Assessoria Jur\u00eddica Universit\u00e1ria (SAJU) da UFRGS, explica que a legisla\u00e7\u00e3o brasileira se silencia diante dos procedimentos e da cess\u00e3o tempor\u00e1ria de \u00fatero, ficando a cargo do CFM estabelecer os mecanismos de regulamenta\u00e7\u00e3o e os par\u00e2metros \u00e9ticos das pr\u00e1ticas, mas sem peso de lei.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 2021, expressamente se previa o acesso \u00e0s t\u00e9cnicas por casais heterossexuais, homoafetivos e por pessoas solteiras. Em raz\u00e3o da resolu\u00e7\u00e3o vigente, a <a href=\"https:\/\/sistemas.cfm.org.br\/normas\/arquivos\/resolucoes\/BR\/2022\/2320_2022.pdf\">n.\u00ba 2.320\/2022<\/a>, generalizou-se, ao se citarem \u201ctodas as pessoas capazes\u201d. Conforme a advogada, a nova indica\u00e7\u00e3o foi dada para fins de n\u00e3o discrimina\u00e7\u00e3o e de igualdade. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atualmente, o CFM estabelece uma s\u00e9rie de regras, como o estabelecimento de idade m\u00e1xima para mulheres e os limites para a realiza\u00e7\u00e3o da cess\u00e3o tempor\u00e1ria de \u00fatero, mesmo que permita exce\u00e7\u00f5es. Parise aponta que o fato de n\u00e3o haver uma normativa na legisla\u00e7\u00e3o brasileira, junto \u00e0s dificuldades impostas pelo Conselho, acabam-se abrindo inseguran\u00e7as jur\u00eddicas. \u201cEm raz\u00e3o, contudo, da aus\u00eancia normativa, incentiva-se a clandestinidade, tendo em vista que a \u2018barriga de aluguel\u2019 ocorre \u00e0 margem da exist\u00eancia de regulamenta\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, principalmente em grupos de Facebook e de WhatsApp, j\u00e1 que mulheres cedem seus \u00fateros de forma onerosa e acabam incorrendo em crimes\u201d, comenta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Constitui\u00e7\u00e3o Federal prop\u00f5e que \u00e9 de livre decis\u00e3o dos casais o planejamento familiar e de compet\u00eancia do Estado a promo\u00e7\u00e3o de recursos educacionais e cient\u00edficos para o exerc\u00edcio desse direito.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO direito \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem car\u00e1ter absoluto, tendo limites para o seu exerc\u00edcio a partir da previs\u00e3o da parentalidade respons\u00e1vel e do melhor interesse da crian\u00e7a\u201d<\/p>\n<cite>Luiza Sartori Parise<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Pol\u00edtica Nacional de Sa\u00fade LGBT descreve que um de seus principais objetivos \u00e9 garantir os direitos sexuais e reprodutivos da popula\u00e7\u00e3o LGBTQIAP+ no \u00e2mbito do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS). O acesso \u00e0s t\u00e9cnicas de reprodu\u00e7\u00e3o assistida no sistema p\u00fablico \u00e9, contudo, restrito a casais heterossexuais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para os casais Marcelo e Manoel e Valessa e Jana\u00edna, o principal desafio foi o planejamento financeiro. Um procedimento como a fertiliza\u00e7\u00e3o in vitro pode custar em torno de 30 mil reais, o que se soma a uma grande chance de n\u00e3o sucesso. Diante da impossibilidade de realiza\u00e7\u00e3o pelo SUS, da n\u00e3o abrang\u00eancia por parte dos planos de sa\u00fade e dos altos custos, muitos casais, principalmente os femininos, recorrem a m\u00e9todos perigosos, como a insemina\u00e7\u00e3o caseira. A pr\u00e1tica envolve a coleta do s\u00eamen de um doador e sua introdu\u00e7\u00e3o imediata em uma mulher com uso de seringa ou outros instrumentos. A pr\u00e1tica \u00e9 normalmente feita entre pessoas leigas e em ambientes dom\u00e9sticos, fora dos servi\u00e7os de sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Dois pais e duas m\u00e3es<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os nomes de Manoel e Marcelo est\u00e3o descritos na certid\u00e3o de nascimento de Laira e Kaila, assim como os de Jana\u00edna e Valessa est\u00e3o na de Eduarda. A lei assegura a casais homoafetivos o direito de obter o registro civil de filhos gerados a partir de t\u00e9cnicas de reprodu\u00e7\u00e3o assistida, diante da comprova\u00e7\u00e3o do procedimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No contexto da gesta\u00e7\u00e3o por substitui\u00e7\u00e3o, a pessoa cedente do \u00fatero n\u00e3o integra o registro nem ter\u00e1 qualquer rela\u00e7\u00e3o de parentesco civil com a crian\u00e7a gerada. No caso de Manoel e Marcelo, Fl\u00e1via, como irm\u00e3 de Marcelo, \u00e9 a tia das meninas. \u201cEla sempre se colocou nessa posi\u00e7\u00e3o de tia. Ela sempre falou \u2018Eu n\u00e3o sou a m\u00e3e, eu sou a tia. Eles s\u00e3o os pais\u2019. Ela tem um carinho muito grande pelas beb\u00eas\u201d, comenta Manoel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com a m\u00e9dica psicanalista e doutora em Antropologia Social pela UFRGS Elizabeth Zambrano, as novas tecnologias prop\u00f5em um rompimento das estruturas tradicionais diante das possibilidades que se oferecem aos casais LGBTQIAP+. Ao longo do tempo, a compreens\u00e3o e a defini\u00e7\u00e3o de fam\u00edlia mudaram, reconhecendo diferentes formas de relacionamento e configura\u00e7\u00f5es, deixando de ser uma entidade estabelecida apenas pelo instituto do casamento, assim como deixou de se restringir ao n\u00facleo pai-m\u00e3e-filhos. O foco s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es intersubjetivas, nas quais h\u00e1 diversos conceitos e formata\u00e7\u00f5es com base no princ\u00edpio do afeto.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA crian\u00e7a precisa de cuidados. Ent\u00e3o, se tiver pessoas que se responsabilizam pelo cuidado, que v\u00e3o amar e v\u00e3o cuidar daquela crian\u00e7a, n\u00e3o importa se s\u00e3o pessoas do mesmo sexo ou de sexos diferentes. As fun\u00e7\u00f5es de cuidado, de prote\u00e7\u00e3o, de passagem de valores, essas s\u00e3o as fun\u00e7\u00f5es parentais. Elas n\u00e3o t\u00eam essa divis\u00e3o entre fun\u00e7\u00e3o materna ou fun\u00e7\u00e3o paterna. Elas n\u00e3o est\u00e3o ligadas \u00e0 anatomia de cada parceiro\u201d<\/p>\n<cite>Elizabeth Zambrano<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O importante, portanto, \u00e9 nutrir um ambiente amoroso e respeitoso, no qual a crian\u00e7a possa crescer e se desenvolver de maneira saud\u00e1vel e feliz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cNa nossa fam\u00edlia, somos duas m\u00e3es e estamos vivendo a maternidade. Ela \u00e9 compartilhada, \u00e9 somada\u201d, afirma Valessa. Ela e Jana\u00edna s\u00e3o o primeiro casal l\u00e9sbico do seu n\u00facleo social a terem um filho a partir de fertiliza\u00e7\u00e3o in vitro. Com o nascimento de Duda, ambas deram in\u00edcio a uma nova fase em suas vidas, na qual buscam oferecer um apoio m\u00fatuo constante, dividindo as preocupa\u00e7\u00f5es e celebrando as conquistas. Valessa, inclusive, apesar de n\u00e3o ter gestado a menina, optou por tomar horm\u00f4nios para que tamb\u00e9m pudesse amamentar e compartilhar essa experi\u00eancia com a esposa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Manoel e Marcelo criaram um di\u00e1rio para as filhas nas redes sociais com o objetivo de, no futuro, terem registros das diferentes fases vividas pelas g\u00eameas e da dupla paternidade vivida por eles. \u201c\u00c9 um di\u00e1rio de vida para contar a hist\u00f3ria delas quando forem maiores. \u00c9 tamb\u00e9m uma forma de materializar esse sonho\u201d, conclui.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Direitos reprodutivos | Com o avan\u00e7o na \u00e1rea de Reprodu\u00e7\u00e3o Humana, h\u00e1 uma d\u00e9cada o Conselho Federal de Medicina (CFM) estabelece regulamenta\u00e7\u00f5es que viabilizam que casais homoafetivos tenham filhos por 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