{"id":67835,"date":"2023-08-08T07:50:00","date_gmt":"2023-08-08T10:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=67835"},"modified":"2023-09-25T14:31:13","modified_gmt":"2023-09-25T17:31:13","slug":"o-sotaque-proprio-do-samba-enredo-no-rio-grande-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/o-sotaque-proprio-do-samba-enredo-no-rio-grande-do-sul\/","title":{"rendered":"O sotaque pr\u00f3prio do samba-enredo no Rio Grande do Sul"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Cultura | Al\u00e9m de apresentar caracter\u00edsticas comuns aos sambas-enredos do sudeste, em especial do Rio de Janeiro, o subg\u00eanero produzido no RS carrega uma heran\u00e7a hist\u00f3rica e secular de lutas e resist\u00eancia<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Foto: Instala\u00e7\u00e3o feita por Julia Hauser para a exposi\u00e7\u00e3o &#8220;Lupi: pode entrar que a casa \u00e9 tua&#8221;, que esteve em cartaz at\u00e9 o final de julho no Farol Santander, em Porto Alegre; <\/em><br><em>o trabalho \u00e9 inspirado em uma fotografia com data de 1945, e mostra uma noitada na Ilhota, na capital (Foto: Fl\u00e1vio Dutra\/JU)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando se pensa em samba, em especial no g\u00eanero de samba-enredo, nos desfiles das escolas, nas fantasias, nos carros aleg\u00f3ricos e nas suas complexidades e em toda aquela gente desfilando no samb\u00f3dromo, a cidade do Rio de Janeiro quase sempre vem como a primeira lembran\u00e7a. \u00c0s vezes a \u00fanica. Mesmo o restante do estado do Rio tem seus outros carnavais, de outras cidades, ofuscados pelo da metr\u00f3pole; acabam n\u00e3o recebendo a mesma aten\u00e7\u00e3o e n\u00e3o sendo conhecidos por habitantes de regi\u00f5es mais distantes. Menos conhecido ainda para o p\u00fablico geral quem sabe seja o carnaval no Rio Grande do Sul.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">A musicalidade do samba-enredo no Rio Grande do Sul<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alexsandra Amaral \u00e9 mestra de bateria e vive em Porto Alegre. Quando questionada acerca da constru\u00e7\u00e3o da musicalidade junto \u00e0 escola de samba,&nbsp;sua resposta lembra que a heran\u00e7a diasp\u00f3rica est\u00e1 presente em peso tamb\u00e9m no sul do Brasil, em especial no estado do Rio Grande do Sul: \u201cGeralmente eu trabalho com ritmos afro-ga\u00fachos, afro-brasileiros\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa heran\u00e7a na musicalidade pode ser percebida, por exemplo, no <a href=\"http:\/\/portal.iphan.gov.br\/pagina\/detalhes\/995\/\">sopapo<\/a>, instrumento de percuss\u00e3o ga\u00facho considerado patrim\u00f4nio imaterial do estado. A percussionista ainda comenta que, por um tempo, o sopapo como floreio do samba-enredo havia perdido espa\u00e7o em algumas escolas na capital ga\u00facha \u2013 provavelmente fruto da \u201ccarioquiza\u00e7\u00e3o\u201d do Carnaval brasileiro \u2013, mas que agora est\u00e1 retomando sua presen\u00e7a com muita for\u00e7a: \u201cNas minhas baterias, eu sempre quis ter o sopapo; \u00e9 pe\u00e7a fundamental dentro da nossa cultura ga\u00facha, \u00e9 o que prevalece e nos diferencia das baterias do Rio de Janeiro\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alexsandra acrescenta que o investimento nos desfiles e no Carnaval \u00e9 outro diferencial entre a capital dos cariocas e a dos ga\u00fachos, que o Carnaval em Porto Alegre atua como resist\u00eancia e, apesar de n\u00e3o possuir um investimento t\u00e3o significativo como o do Rio de Janeiro, \u201co n\u00edvel de bateria dos profissionais que est\u00e3o aqui \u00e9 de muita compet\u00eancia\u201d, e muitos desses acabam inclusive circulando pelos desfiles de S\u00e3o Paulo e da Cidade Maravilhosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Professora do departamento de M\u00fasica da UFRGS, Luciana Prass amplia a ideia de diferen\u00e7as na musicalidade para al\u00e9m da regi\u00e3o ao comentar que \u201ccada escola de samba tem as suas diferen\u00e7as&#8221;.&nbsp; O mestre comp\u00f5e a identidade do samba-enredo com os arranjos criados a partir de suas concep\u00e7\u00f5es, por exemplo. No fim, isso acaba por abra\u00e7ar fatores regionais, que influenciam as produ\u00e7\u00f5es, sejam elas coletivas ou individuais.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cSempre falo para os alunos que essa ideia de sotaque, como pensamos na l\u00edngua, tamb\u00e9m se expressa nas m\u00fasicas. S\u00e3o caracter\u00edsticas humanas, do encontro das pessoas daqui, o clima\u201d <\/p>\n<cite>Luciana Prass<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Quando o Rio Grande do Sul encontra o Rio de Janeiro<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto \u00e0s composi\u00e7\u00f5es de samba-enredo, a circula\u00e7\u00e3o entre regi\u00f5es \u00e9 o que impera. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cCom essa experi\u00eancia que a gente tem, tu come\u00e7a a ver que n\u00e3o tem diferen\u00e7a (entre regi\u00f5es). O samba \u00e9 universal. Fazer o samba \u00e9 f\u00e1cil, o problema \u00e9 fazer o samba ganhar (na disputa interna da escola). O pessoal que \u00e9 da escola (do Rio de Janeiro) tem muito mais vantagem do que eu, que t\u00f4 em Porto Alegre\u201d, destaca o compositor de samba-enredo Rafael Tubino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Natural da capital sul-rio-grandense, Rafael tem hoje uma equipe em S\u00e3o Paulo e comenta que a presen\u00e7a dessas pessoas nesse outro cen\u00e1rio contribui para as recentes vit\u00f3rias do compositor fora do Rio Grande do Sul. Quanto \u00e0 feitura do samba-enredo, o compositor enfatiza que n\u00e3o existe uma varia\u00e7\u00e3o na compet\u00eancia entre as regi\u00f5es: \u201cHoje, ainda mais com o Whatsapp, o cara que t\u00e1 em Florian\u00f3polis faz o samba que nem o cara que t\u00e1 em Porto Alegre, que faz o mesmo samba do cara que t\u00e1 no Rio de Janeiro, que faz o samba que nem o cara que t\u00e1 em S\u00e3o Paulo\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vinicius Brito, jornalista e compositor, afirma algo semelhante a respeito das diferen\u00e7as entre sambas-enredos compostos na capital ga\u00facha e os de outras regi\u00f5es: \u201cHoje em dia, h\u00e1 muita integra\u00e7\u00e3o entre os autores do Carnaval de Porto Alegre com os autores do Carnaval do Rio. Eu hoje n\u00e3o enxergo uma grande diferen\u00e7a conceitual ou t\u00e9cnica entre a composi\u00e7\u00e3o do samba-enredo do Rio de Janeiro e a composi\u00e7\u00e3o do samba-enredo de Porto Alegre\u201d. Vin\u00edcius ainda comenta que nos anos 1990 as diferen\u00e7as entre os carnavais eram bem mais marcadas, e cita como exemplo a utiliza\u00e7\u00e3o de uma bateria mais pesada e acelerada nos carnavais da capital ga\u00facha.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-2 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Flavio-Dutra-5163.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"665\" data-id=\"68481\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Flavio-Dutra-5163.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-68481\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Flavio-Dutra-5163.jpg 1000w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Flavio-Dutra-5163-300x200.jpg 300w, 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href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/anuario-2022.pdf?v=15\">Anu\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica divulgado em 2022<\/a>, o Rio Grande do Sul foi o Estado com o maior n\u00famero de casos de racismo e o sexto em casos de inj\u00faria racial. J\u00e1 o <a href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/anuario-2023.pdf\">Anu\u00e1rio disponibilizado neste ano<\/a> n\u00e3o conta com tais informa\u00e7\u00f5es, visto que o Estado <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/sp\/sao-paulo\/noticia\/2023\/07\/20\/brasil-tem-alta-de-mais-de-50percent-nos-registros-de-racismo-e-homofobia-em-2022-mostra-anuario-de-seguranca-publica.ghtml\">n\u00e3o respondeu<\/a> ao pedido de disponibiliza\u00e7\u00e3o de dados de racismo. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas informa\u00e7\u00f5es revelam uma regi\u00e3o ainda incapaz de lidar com toda a sua rica diversidade; incapacidade que tamb\u00e9m pode ser percebida na forma como muitos dos habitantes enxergam o Carnaval, como um ato de \u201cvadiagem\u201d e bagun\u00e7a, sem compreender a real tradi\u00e7\u00e3o da festividade, toda a mobiliza\u00e7\u00e3o de uma comunidade e muitas vezes de boa parte da cidade. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O desfile das escolas, embalado pelo samba-enredo, \u00e9 fruto claro da di\u00e1spora africana e resultado de s\u00e9culos de luta e resist\u00eancia. Seja na musicalidade, nos passos de dan\u00e7a, na forma como os temas s\u00e3o abordados, a tradi\u00e7\u00e3o secular \u00e9 percept\u00edvel. Professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Denise Barata fala sobre a heran\u00e7a da di\u00e1spora para al\u00e9m dos temas abordados nos enredos:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA partir do momento em que um grupo de pessoas, negras, entra em uma avenida para desfilar, a gente j\u00e1 t\u00e1 difundindo a mem\u00f3ria da di\u00e1spora. A gente n\u00e3o precisa gritar \u2018viva Zumbi dos Palmares\u2019. Ao entrar na avenida, tocando aqueles instrumentos, com aqueles corpos que dan\u00e7am e n\u00e3o s\u00e3o fixos, com aquelas vozes que s\u00e3o diferentes do <em>Bel Canto<\/em> europeu, a gente j\u00e1 t\u00e1 falando &#8216;Viva Zumbi&#8217;\u201d <\/p>\n<cite>Denise Barata<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Educa\u00e7\u00e3o pelo samba<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os sambas-enredos escolhidos pelas escolas muitas vezes acompanham os ouvintes e espectadores para al\u00e9m da apresenta\u00e7\u00e3o. A linguagem pensada para que todos cantem com facilidade e repetidas vezes, que se acostumem com a can\u00e7\u00e3o e fiquem com ela na cabe\u00e7a, acaba tamb\u00e9m por acessibilizar certos assuntos abordados nos enredos para a popula\u00e7\u00e3o em geral, que pode nunca antes ter tido contato com certos temas e\/ou figuras hist\u00f3ricas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;O samba \u00e9 um instrumento potente de educa\u00e7\u00e3o. De tanto repetir aquilo, de tanto ouvir aquilo, as pessoas absorvem alguma coisa. Passam a entender determinados fen\u00f4menos sociais, naturais, e a conhecer a pr\u00f3pria hist\u00f3ria&#8221;, afirma Vivian Pereira, integrante do grupo de pesquisa independente Quilombo do Samba.&nbsp; O projeto de pesquisa, que tamb\u00e9m grava podcasts e v\u00eddeos, gira em torno da reconstru\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias, dando o protagonismo negro a personalidades que s\u00e3o invisibilizadas, esquecidas ou mesmo conhecidas no mundo do samba e na cultura popular. Tamb\u00e9m integrante do projeto, Guilherme Santos fala sobre sua experi\u00eancia de aprendizagem com os desfiles de Carnaval desde cedo: \u201cMinha refer\u00eancia de pesquisa sobre o Profeta Gentileza foi o samba-enredo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em suma, o samba-enredo que se vive em Porto Alegre e no extremo sul do pa\u00eds carrega consigo caracter\u00edsticas comuns aos sambas-enredos do sudeste, em especial os do Rio de Janeiro. Tamb\u00e9m carrega consigo fatores regionais que se mesclam em harmonia no desfile da escola. Carrega, sobretudo, uma heran\u00e7a hist\u00f3rica e secular de lutas e adapta\u00e7\u00e3o. Enquanto o Carnaval na cidade do Rio de Janeiro tem todos os olhares para si, com investimento e apoio do Estado, na capital do RS o samba-enredo opera tamb\u00e9m como canto de resist\u00eancia \u00e0 marginaliza\u00e7\u00e3o oriunda de diversas autoridades e parte da sociedade civil, mas n\u00e3o somente. O samba-enredo tamb\u00e9m educa, constr\u00f3i fam\u00edlias e enche de afeto e paix\u00e3o os que decidem competir junto a uma escola no Carnaval.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cultura | Al\u00e9m de apresentar caracter\u00edsticas comuns aos sambas-enredos do sudeste, em especial do Rio de Janeiro, o subg\u00eanero produzido no RS carrega uma heran\u00e7a hist\u00f3rica e secular de lutas e resist\u00eancia<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/o-sotaque-proprio-do-samba-enredo-no-rio-grande-do-sul\/\">Leia 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