{"id":68222,"date":"2023-10-26T07:50:00","date_gmt":"2023-10-26T10:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=68222"},"modified":"2023-10-26T07:58:18","modified_gmt":"2023-10-26T10:58:18","slug":"escolas-indigenas-colocam-os-povos-originarios-como-agentes-de-sua-propria-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/escolas-indigenas-colocam-os-povos-originarios-como-agentes-de-sua-propria-educacao\/","title":{"rendered":"Escolas ind\u00edgenas colocam os povos origin\u00e1rios como agentes de sua pr\u00f3pria educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Cidadania | Direito garantido na Constitui\u00e7\u00e3o, a educa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena leva em conta os saberes tradicionais e a cultura de cada comunidade <\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Foto: Crian\u00e7as estudam em escola ind\u00edgena localizada no munic\u00edpio de Redentora, na Terra Ind\u00edgena Guarita, <\/em><br><em>no noroeste ga\u00facho (Cr\u00e9dito: Fl\u00e1vio Dutra\/Arquivo JU \u2013 3 de setembro 2012)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em um lugar quase ao fim da cidade, onde Porto Alegre se confunde com Viam\u00e3o, uma placa do Governo Federal indica: Reserva Ind\u00edgena. V\u00ea-se um galp\u00e3o grande de madeira, com grafismos nas paredes e crian\u00e7as correndo por toda a parte. Desde pr\u00e9-adolescentes at\u00e9 os pequenos, conversam em mais de um idioma \u2013 al\u00e9m do portugu\u00eas, aqui e ali est\u00e1 presente o kaingang. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentro do galp\u00e3o, quadros negros nas paredes. Na frente de cada um deles est\u00e3o as cadeiras verdes, caracter\u00edsticas de escolas p\u00fablicas. Afinal, \u00e9 disso que se trata o espa\u00e7o: uma escola. Mas essa tem suas particularidades: est\u00e1 dentro de uma aldeia ind\u00edgena e todos os seus alunos e parte dos professores s\u00e3o kaingang. \u00c9 a Escola Estadual Ind\u00edgena Fag Nhin.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em pouco tempo os alunos voltam para o galp\u00e3o, se sentam nas cadeiras e os professores come\u00e7am suas aulas. As mat\u00e9rias, que s\u00e3o ministradas em portugu\u00eas, envolvem desde matem\u00e1tica at\u00e9 o idioma kaingang e a disciplina de Valores Culturais. Graduanda em Artes Visuais pela UFRGS, Vera Kaninka \u00e9 quem ministra as disciplinas que, segundo ela, \u201ctrabalham as nossas origens, as nossas marcas, o artesanato, as vestimentas, os alimentos, as ervas medicinais, e tamb\u00e9m as nossas cren\u00e7as e a religi\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas nem sempre \u00e9 assim. A pr\u00f3pria hist\u00f3ria de Vera ajuda a entender como funciona a educa\u00e7\u00e3o formal para muitos ind\u00edgenas. Ela conta que, na aldeia em que cresceu, localizada \u201cbem no interior, no meio do nada\u201d, a escola s\u00f3 fornecia at\u00e9 a terceira s\u00e9rie \u2013 para terminar os estudos, teve de ir para uma institui\u00e7\u00e3o fora da aldeia. Esse processo de sa\u00edda da comunidade ainda \u00e9 parte da vida estudantil dos kaingang. A Escola Fag Nhin conta com o Ensino Fundamental completo, mas o Ensino M\u00e9dio precisa ser feito em outra institui\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, alguns pais preferem matricular seus filhos em escolas n\u00e3o ind\u00edgenas desde o in\u00edcio, mesmo tendo uma dispon\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A educa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, que leva em conta os saberes tradicionais e a cultura de cada povo, \u00e9 um direito garantido na Constitui\u00e7\u00e3o e legislado em 2002. Por conta da diversidade que existe entre os muitos povos, as escolas e sua implementa\u00e7\u00e3o nas aldeias t\u00eam suas particularidades. La\u00e9rcio Gomes, estudante de Hist\u00f3ria na UFRGS, teve uma experi\u00eancia diferente como mby\u00e1-guarani \u2013 realizou toda a sua forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica dentro de aldeias desde o Ensino Fundamental at\u00e9 o M\u00e9dio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre os guarani, o portugu\u00eas \u00e9 inserido apenas aos cinco anos de idade, quando entram na escola. Isso reflete as singularidades dos povos: nas aldeias Mby\u00e1-Guarani a conversa do dia a dia \u00e9 na pr\u00f3pria l\u00edngua, enquanto entre os Kaingang o portugu\u00eas \u00e9 predominante, e o idioma nativo fica restrito ao ambiente familiar dentro das casas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O idioma \u00e9 uma das dificuldades dos professores n\u00e3o ind\u00edgenas nas aldeias. Para contornar essa situa\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso \u201cdesenvolver di\u00e1logos por meio de desenhos, representa\u00e7\u00f5es corporais e express\u00e3o corporal para alunos que n\u00e3o falam portugu\u00eas\u201d, como diz a professora Karen Tauceda, do C\u00e2mpus Litoral Norte (CLN) da UFRGS. O curso de Licenciatura em Educa\u00e7\u00e3o no Campo, desenvolvido no CLN, aborda outras perspectivas pedag\u00f3gicas na sala de aula de aldeias Mby\u00e1-Guarani. Os professores utilizam formas de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o alfab\u00e9ticas, usando a natureza ao redor e a cultura dos pr\u00f3prios alunos para ensinar. Para Karen, o resultado \u00e9 positivo, com alunos mais interessados e engajados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A forma como o ensino se insere nas diferentes sociedades dialoga com a vis\u00e3o de cada povo sobre educa\u00e7\u00e3o. La\u00e9rcio conta sobre o seu povo: \u201cA gente tem que partir do princ\u00edpio da filosofia da educa\u00e7\u00e3o: a filosofia Guarani parte de um princ\u00edpio que a educa\u00e7\u00e3o se deve ao todo, ao coletivo. A educa\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a envolve todo o coletivo da comunidade. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio um espa\u00e7o restrito para aprender coisas ou aprender sobre a cultura ind\u00edgena. A educa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, enfim, \u00e9 do coletivo e principalmente dos anci\u00e3os, das lideran\u00e7as nas rodas de conversa, na viv\u00eancia na pr\u00f3pria comunidade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Import\u00e2ncia das escolas e sua conquista<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As escolas s\u00e3o uma necessidade para as comunidades no momento em que atuam para preservar a cultura e os saberes ind\u00edgenas e para garantir o acesso das crian\u00e7as ind\u00edgenas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o formal, visto que muitas vezes as aldeias est\u00e3o longe dos centros urbanos. Infelizmente nem sempre isso \u00e9 poss\u00edvel. Na Escola Fag Nhin, os alunos s\u00e3o apenas uma parcela das crian\u00e7as da aldeia; muitas outras precisam frequentar escolas fora dali.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O motivo \u00e9 justamente a falta de instala\u00e7\u00f5es apropriadas. O pr\u00e9dio que deveria servir de escola foi danificado em um temporal e tem problemas estruturais. O pr\u00e9dio de tijolos, com salas de aula, p\u00e1tio para as crian\u00e7as brincarem e paredes com pinturas de grafismos, est\u00e1 fechado e passando por reformas. Jo\u00e3o Maur\u00edcio Farias, diretor da escola, conta que as instala\u00e7\u00f5es est\u00e3o fechadas h\u00e1 quase quatro anos. \u201cFoi necess\u00e1ria muita mobiliza\u00e7\u00e3o da comunidade para se conseguir a reforma do pr\u00e9dio \u2013 as lideran\u00e7as foram \u00e0 Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o exigir o investimento.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A luta faz parte do cotidiano dos povos ind\u00edgenas. Apesar de as escolas com ensino bil\u00edngue e respeito aos conhecimentos tradicionais estarem garantidas na Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o Nacional, isso n\u00e3o significa que sua implementa\u00e7\u00e3o seja sempre cumprida. Mestre em Educa\u00e7\u00e3o pela UFRGS, Woie Patt\u00e9, do povo Xokleng, lembra que at\u00e9 o in\u00edcio dos anos 2000 o ensino nas aldeias abrangia apenas at\u00e9 a quarta s\u00e9rie. Foi como consequ\u00eancia das demandas dos povos origin\u00e1rios que se expandiu at\u00e9 o Ensino M\u00e9dio completo \u2013 mesmo assim, n\u00e3o em todas as aldeias.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Seguindo os estudos<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo ao sa\u00edrem para cursar uma educa\u00e7\u00e3o superior fora da aldeia, muitos ind\u00edgenas pretendem usar os conhecimentos adquiridos de volta na comunidade. Woie, que pesquisou as Escolas Ind\u00edgenas em seu mestrado, explica essa vis\u00e3o: \u201cEu trago isso, na minha disserta\u00e7\u00e3o, como ferramenta de luta. Hoje n\u00f3s [ind\u00edgenas] na Universidade fazemos esse mesmo caminho de usar, buscar o conhecimento, buscar a nossa gradua\u00e7\u00e3o e a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o como resultado dessa luta, de usarmos essa ferramenta ao nosso favor\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">La\u00e9rcio conta a fun\u00e7\u00e3o da gradua\u00e7\u00e3o para os guarani: \u201cA gente tem essa no\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m de que a gente vem aqui, a gente se forma, mas tem que levar essa experi\u00eancia e adaptar de acordo com as comunidades, porque, por exemplo, o curso de Hist\u00f3ria \u00e9 totalmente euroc\u00eantrico. Eu digo nesse sentido, adaptar, falar da hist\u00f3ria ind\u00edgena, falar da import\u00e2ncia na forma\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira, e n\u00e3o enfatizar tanto o passado recente da coloniza\u00e7\u00e3o. Trazer os povos ind\u00edgenas aqui como sujeitos hist\u00f3ricos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 vista como forma de se integrar \u00e0 sociedade n\u00e3o ind\u00edgena, mas de se defender dela. Woie coloca a import\u00e2ncia para a autonomia das comunidades: \u201cPrecisamos formar advogado, precisamos formar professor, precisamos formar m\u00e9dico, precisamos de outras \u00e1reas afins ainda para fazer nossas defesas e voltar para a terra ind\u00edgena de novo para fazer uma defesa, um advogado fazer uma defesa de um territ\u00f3rio ind\u00edgena, antrop\u00f3logo para fazer laudo de defesa, m\u00e9dico para atender, professores ind\u00edgenas para ensinar as crian\u00e7as ind\u00edgenas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As escolas e a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o parte de um desejo individual para a conquista de t\u00edtulos, mas de um projeto coletivo, de povos diversos que buscam aprender e absorver o que h\u00e1 de \u00fatil, justamente daqueles que tentaram tomar tudo deles. A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma ferramenta para preservar a sua exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cidadania | Direito garantido na Constitui\u00e7\u00e3o, a educa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena leva em conta os saberes tradicionais e a cultura de cada comunidade <span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/escolas-indigenas-colocam-os-povos-originarios-como-agentes-de-sua-propria-educacao\/\">Leia 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