{"id":68721,"date":"2023-09-21T07:50:00","date_gmt":"2023-09-21T10:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=68721"},"modified":"2023-09-21T08:53:58","modified_gmt":"2023-09-21T11:53:58","slug":"como-o-combate-a-masculinidade-toxica-pode-se-inserir-no-ambiente-escolar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/como-o-combate-a-masculinidade-toxica-pode-se-inserir-no-ambiente-escolar\/","title":{"rendered":"Como o combate \u00e0 masculinidade t\u00f3xica pode se inserir no ambiente escolar?"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Comportamento | Em meio \u00e0 crescente de conte\u00fados mis\u00f3ginos radicalizados na internet, escolas buscam maneiras de abordar a situa\u00e7\u00e3o entre os alunos<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*<a href=\"https:\/\/www.freepik.com\">Designed by jcomp &#8211; Freepik.com<\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Poucos cliques no TikTok ou no YouTube j\u00e1 denunciam a gravidade do problema. No topo dos resultados de buscas por termos como red pill, alfa e sigma, v\u00eddeos de influenciadores digitais do <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/podcast\/o-assunto\/noticia\/2023\/03\/03\/redpill-incel-mgtow-entenda-o-que-acontece-em-grupos-masculinos-que-pregam-odio-as-mulheres.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">nicho masculinista<\/a> ostentam milhares de curtidas e compartilham uma tem\u00e1tica que revela um padr\u00e3o preocupante: comunidades on-line de homens que se apoiam na misoginia radicalizada para disseminar ideais de comportamento masculino ancorados em virilidade, viol\u00eancia e \u00f3dio ao feminino. Assuntos que antes se escondiam nos por\u00f5es da internet, limitados a f\u00f3runs de acesso restrito e salas privadas, hoje angariam milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es nas principais redes sociais e t\u00eam uma legi\u00e3o de seguidores. No olho desse furac\u00e3o ideol\u00f3gico est\u00e3o as escolas: com o acesso cada vez mais irrestrito \u00e0 internet por crian\u00e7as e adolescentes e a ampla dissemina\u00e7\u00e3o desse tipo de conte\u00fado, impedir que o ambiente escolar se torne terra f\u00e9rtil para a propaga\u00e7\u00e3o desses ideais entre meninos em idade de forma\u00e7\u00e3o tornou-se uma preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a pesquisadora Michele Prado, autora do livro <em>Redpill &#8211; radicaliza\u00e7\u00e3o e extremismo<\/em>, evitar que esses ideais atinjam garotos em idade escolar com acesso n\u00e3o monitorado \u00e0 internet \u00e9 uma tarefa quase imposs\u00edvel. \u201cAntes o conte\u00fado extremista ficava muito restrito a determinados blogs e sites, mas hoje est\u00e1 totalmente disseminado no debate p\u00fablico\u201d, explica. Al\u00e9m disso, a necessidade de adequa\u00e7\u00e3o e de pertencimento a um grupo, sentimentos que permeiam a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia, tornam meninos nessa faixa et\u00e1ria mais suscet\u00edveis de serem atra\u00eddos e cooptados pela ideologia masculinista radicalizada. \u201cCrian\u00e7as e adolescentes muitas vezes ainda n\u00e3o t\u00eam uma base te\u00f3rica que lhes sustente e permita resili\u00eancia perante determinados conte\u00fados extremistas\u201d, alerta a pesquisadora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As consequ\u00eancias do aumento exponencial da produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fados extremistas e seu consumo por crian\u00e7as e adolescentes se traduzem em dados alarmantes. Segundo <a href=\"https:\/\/soudapaz.org\/noticias\/ataques-em-escolas-casos-com-uso-de-armas-de-fogo-foram-tres-vezes-mais-letais-que-os-com-armas-brancas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">relat\u00f3rio<\/a> do Instituto Sou da Paz, de 2002 a 2018, o Brasil registrou sete ataques violentos a escolas. Apenas entre 2019 e maio de 2023 foram 17. Muitos dos autores dos ataques <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/sp\/sao-paulo\/noticia\/2023\/03\/28\/mae-de-autor-de-ataque-em-escola-de-sp-diz-que-sabia-de-conversas-do-filho-com-tematica-de-massacres-em-redes-sociais.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">propagavam<\/a> conte\u00fados radicalizados e idolatravam outros perpetradores do mesmo tipo de a\u00e7\u00e3o nas redes sociais antes do cometimento dos crimes. Para o professor da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFRGS e coordenador do Grupo de Estudos de Educa\u00e7\u00e3o e Rela\u00e7\u00f5es de G\u00eanero, Fernando Seffner, o v\u00ednculo entre os fatores \u00e9 claro \u2014 e estarrecedor. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cH\u00e1 mecanismos sociais muito fortes envolvidos nisso e, se provid\u00eancias n\u00e3o s\u00e3o tomadas, eles v\u00e3o crescendo, e as coisas extrapolam limites com atos de viol\u00eancia cada vez maiores\u201d<\/p>\n<cite>Fernando Seffner<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Reflexos da radicaliza\u00e7\u00e3o<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do outro lado do dilema do extremismo mis\u00f3gino, as estudantes mulheres e aqueles pertencentes a outras minorias \u2014 sejam elas raciais, religiosas ou relativas \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o sexual e de g\u00eanero \u2014 se tornam as principais v\u00edtimas. \u201cA escola \u00e9 produzida pela cultura que nos forja enquanto sujeitos de g\u00eanero\u201d, explica o professor da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica da UFRGS e coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Rela\u00e7\u00f5es de G\u00eanero, Educa\u00e7\u00e3o e Viol\u00eancia, Andr\u00e9 Luiz dos Santos Silva. Para ele, a escola \u00e9 um espelho da sociedade, e n\u00e3o uma bolha que n\u00e3o se afeta por fatores externos. Isso significa que quaisquer preconceitos e discrimina\u00e7\u00f5es presentes na sociedade tamb\u00e9m se manifestar\u00e3o no ambiente escolar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pr\u00e1ticas intr\u00ednsecas \u00e0 cultura escolar, refor\u00e7adas por figuras de autoridade como professores, coordenadores e diretores, tamb\u00e9m podem ajudar a perpetuar ideais mis\u00f3ginos entre os alunos. Costumes como separar os meninos das meninas nas aulas de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, por exemplo, partem de um pressuposto de fragilidade feminina e superioridade masculina no que diz respeito \u00e0s atividades f\u00edsicas e dificultam que as estudantes meninas desenvolvam suas habilidades esportivas no mesmo ritmo que os meninos, podando suas potencialidades e as privando de oportunidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com Andr\u00e9, o desmantelamento da cultura mis\u00f3gina no ambiente escolar \u00e9 atravessado por muitos fatores importantes, mas o maior deles \u00e9 o entendimento das demandas espec\u00edficas de cada escola pela equipe pedag\u00f3gica. Para que as estrat\u00e9gias adotadas funcionem, \u00e9 imprescind\u00edvel que sejam levadas em conta as diversidades racial, religiosa e de g\u00eanero presentes no ambiente escolar e que as fam\u00edlias dos estudantes sejam inclu\u00eddas no processo. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA gente precisa ver o que vale e o que n\u00e3o vale pra cada um desses espa\u00e7os, e o contato com a comunidade escolar \u00e9 fundamental para escolher as estrat\u00e9gias mais acertadas\u201d<\/p>\n<cite>Andr\u00e9 Luiz dos Santos Silva<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Construindo novas possibilidades<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foram muitos os alunos da professora de sociologia do Col\u00e9gio de Aplica\u00e7\u00e3o, Katiuci Pavei, que se mobilizaram para que os debates acerca das rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero fossem levados para dentro das salas de aula da escola onde cursam o ensino m\u00e9dio na modalidade Ensino de Jovens e Adultos (EJA), mas foi o relato de um estudante em espec\u00edfico que inspirou a educadora a acatar os pedidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEle disse que tinha sido criado pensando que ser homem era uma coisa, mas, conversando sobre o assunto na escola, estava se dando conta de outras possibilidades de viver, agir e pensar de uma forma que respeite mais as mulheres\u201d, conta. A professora ainda ressalta que a demanda de abordar o assunto com mais profundidade partiu de estudantes tanto homens quanto mulheres: os homens, enquanto agentes do sistema que os coloca em uma posi\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gio, e as mulheres, enquanto suas principais v\u00edtimas \u2014 todos em busca de maneiras de construir possibilidades que desviem do caminho da masculinidade t\u00f3xica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Katiuci acredita ainda que a discuss\u00e3o sobre os conceitos de masculinidade e as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero na escola n\u00e3o acaba na sala de aula, mas \u00e9 levada a outros patamares e pot\u00eancias por meio da conscientiza\u00e7\u00e3o e da participa\u00e7\u00e3o dos alunos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;\u00c9 importante principalmente para incentivar as masculinidades positivas e colocar em discuss\u00e3o um projeto de desconstru\u00e7\u00e3o das masculinidades que s\u00e3o t\u00f3xicas&#8221;<\/p>\n<cite>Katiuci Pavei<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Contracorrente<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar da aceita\u00e7\u00e3o positiva por parte dos alunos de Katiuci, os debates sobre as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e os direitos femininos em sala de aula, que j\u00e1 est\u00e3o inclusos no curr\u00edculo da equipe do EJA do Col\u00e9gio de Aplica\u00e7\u00e3o e de muitas outras escolas, sofrem com esfor\u00e7os para que o tema n\u00e3o seja abordado no ambiente escolar. De acordo com um <a href=\"https:\/\/www.hrw.org\/pt\/report\/2022\/05\/12\/381942\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">relat\u00f3rio<\/a> da Human Rights Watch, entre 2014 e 2022 foram apresentadas mais de 200 propostas legislativas que visavam proibir a educa\u00e7\u00e3o acerca das rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e sexualidade nas escolas no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cExiste um contexto social de recrudescimento do conservadorismo que tem tentado impedir esse tipo de debate\u201d, afirma Andr\u00e9. Ele ressalta, no entanto, que existe respaldo legal para que o t\u00f3pico seja levantado em sala de aula. A <a href=\"https:\/\/www2.senado.leg.br\/bdsf\/bitstream\/handle\/id\/600653\/LDB_6ed.pdf?sequence=1&amp;isAllowed=y\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o Nacional<\/a> (LDB) garante o ensino de conte\u00fados relativos aos direitos humanos e \u00e0 preven\u00e7\u00e3o de todos os tipos de viol\u00eancia contra a mulher. Al\u00e9m disso, foi aprovada, em 2022, uma <a href=\"https:\/\/www.camara.leg.br\/noticias\/771714-entra-em-vigor-a-lei-que-cria-semana-escolar-de-combate-a-violencia-contra-a-mulher\/\">lei<\/a> que criou a Semana Escolar de Combate \u00e0 Viol\u00eancia contra a Mulher em escolas p\u00fablicas e privadas de todo o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O professor Fernando, contudo, sinaliza que, apesar dos avan\u00e7os positivos no \u00e2mbito legal, a maioria das iniciativas de combate \u00e0s ideologias radicalizadas nas escolas parte de esfor\u00e7os individuais dos professores, e n\u00e3o de pol\u00edticas sociais robustas e eficazes. \u201cA pol\u00edtica p\u00fablica n\u00e3o aporta dinheiro, n\u00e3o d\u00e1 apoio, n\u00e3o se envolve\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nesse cen\u00e1rio conturbado, que mistura esfor\u00e7os de progresso com expressivas investidas na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, que as escolas se equilibram entre os perigos da radicaliza\u00e7\u00e3o mis\u00f3gina e as tentativas de combate e preven\u00e7\u00e3o \u00e0s viol\u00eancias geradas pelo extremismo. Os educadores, nesse meio tempo, seguem enquanto pe\u00e7as fundamentais no embate \u00e0 cultura extremista e na cria\u00e7\u00e3o de novos modos de pensar e agir num mundo que apresenta possibilidades hostis, mas tamb\u00e9m aquelas inovadoras e surpreendentes. \u201cEles fazem coisas muito importantes e que precisam ser ampliadas e incentivadas\u201d, pontua Fernando.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comportamento | Em meio \u00e0 crescente de conte\u00fados mis\u00f3ginos radicalizados na internet, escolas buscam maneiras de abordar a situa\u00e7\u00e3o entre os alunos<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/como-o-combate-a-masculinidade-toxica-pode-se-inserir-no-ambiente-escolar\/\">Leia 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