{"id":69650,"date":"2023-09-28T07:50:00","date_gmt":"2023-09-28T10:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=69650"},"modified":"2024-08-14T09:08:59","modified_gmt":"2024-08-14T12:08:59","slug":"acesso-virtual-a-acervos-situados-em-paises-do-norte-favorece-o-desenvolvimento-de-pesquisas-sobre-o-antigo-oriente-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/acesso-virtual-a-acervos-situados-em-paises-do-norte-favorece-o-desenvolvimento-de-pesquisas-sobre-o-antigo-oriente-no-brasil\/","title":{"rendered":"Acesso virtual a acervos situados em pa\u00edses do norte favorece o desenvolvimento de pesquisas sobre o Antigo Oriente no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Contemporaneidade | Pesquisadores refletem sobre a relev\u00e2ncia de buscar em fontes da antiguidade oriental problem\u00e1ticas que fomentem o debate sobre quest\u00f5es contempor\u00e2neas, especialmente quando isso \u00e9 realizado a partir do sul global<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Foto: Escrita em papiro com parte do &#8216;Livro dos Mortos&#8217;, antigo texto <\/em><br><em>eg\u00edpcio usado no in\u00edcio do Imp\u00e9rio Novo (<a href=\"https:\/\/www.worldhistory.org\/image\/722\/book-of-the-dead-papyrus\/\">Cr\u00e9dito: Mark Cartwright<\/a>)<\/em><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\"><em>\u201cDispuseram morte e vida,<\/em><br><em>Da morte n\u00e3o revelaram o dia\u201d<\/em><\/pre>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:12px\"><em>\u2013 Ele que o abismo viu: Epopeia de Gilg\u00e1mesh<\/em><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O poema que conta o mito de Gilg\u00e1mesh \u00e9 o mais antigo registro liter\u00e1rio conhecido at\u00e9 o momento. Acredita-se que foi escrito por volta de 2000 AEC \u2013 isto \u00e9, \u201c<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Era_Comum#:~:text=Era%20Comum%20%C3%A9%20o%20per%C3%ADodo,traduzido%20como%20a%20Era%20Crist%C3%A3.\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Antes da Era Comum<\/a>\u201d \u2013 em tabuinhas de argila, que foram descobertas entre 1872 EC e 2014 EC. O material que antecede Homero e os textos b\u00edblicos narra uma s\u00e9rie de eventos e cren\u00e7as que acompanham a humanidade at\u00e9 o presente, como a cria\u00e7\u00e3o do homem a partir do barro, a exist\u00eancia de um grande dil\u00favio e mesmo o luto pela morte de um amigo muito pr\u00f3ximo. Morte essa que abala inclusive um deus-her\u00f3i como Gilg\u00e1mesh, que, ao perder seu companheiro, se d\u00e1 conta da efemeridade do mundo e de si pr\u00f3prio. E chora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar da dist\u00e2ncia temporal e mesmo geogr\u00e1fica, essas personagens e mitologias ressoam com a vida contempor\u00e2nea e suas experi\u00eancias humanas. Gilg\u00e1mesh e as pessoas que escreveram sobre ele passaram pelo luto em 2000 AEC, na Sum\u00e9ria, no Antigo Oriente. E assim foi desde ent\u00e3o. Hoje em dia, mais de quatro mil\u00eanios depois, do outro lado do Atl\u00e2ntico, pessoas passam por experi\u00eancias similares \u00e0s do deus-her\u00f3i.&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"772\" height=\"957\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Tablete-5-da-Epopeia-de-Gilgamesh-final.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-70911\" style=\"width:600px;height:undefinedpx\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Tablete-5-da-Epopeia-de-Gilgamesh-final.jpg 772w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Tablete-5-da-Epopeia-de-Gilgamesh-final-242x300.jpg 242w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Tablete-5-da-Epopeia-de-Gilgamesh-final-94x117.jpg 94w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Tablete-5-da-Epopeia-de-Gilgamesh-final-768x952.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Tablete-5-da-Epopeia-de-Gilgamesh-final-444x550.jpg 444w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Tablete-5-da-Epopeia-de-Gilgamesh-final-403x500.jpg 403w\" sizes=\"(max-width: 772px) 100vw, 772px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Tablete V da Epopeia de Gilgamesh, poema \u00e9pico da Mesopot\u00e2mia reconhecido como uma das primeiras obras da literatura mundial (Imagem: <a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/w\/index.php?curid=39285850\">Osama Shukir Muhammed Amin FRCP &#8211; Glasg<\/a>)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">O olhar contempor\u00e2neo<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra experi\u00eancia comum entre a contemporaneidade e o Antigo Oriente \u00e9 a viv\u00eancia pol\u00edtica. O <a href=\"http:\/\/www.historia.seed.pr.gov.br\/arquivos\/File\/fontes%20historicas\/codigo_hamurabi.pdf\">c\u00f3digo de Hamurabi<\/a> \u00e9 uma das leituras do mundo mesopot\u00e2mico que mais emociona Katia Pozzer, assiri\u00f3loga e coordenadora do Laborat\u00f3rio de Estudos da Antiguidade Oriental (<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leao.ufrgs\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">LEAO<\/a>) na UFRGS. Katia \u00e9 professora dos cursos de Hist\u00f3ria da Arte e de Hist\u00f3ria e do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria. No ep\u00edlogo do c\u00f3digo de Hamurabi, ela comenta, o rei em quest\u00e3o faz um discurso pol\u00edtico de grande beleza. Isso a leva sempre a brincar: \u201cQuero votar no Hamurabi!\u201d. Evidente que, no \u00e2mbito da pesquisa, s\u00e3o analisadas as nuances ideol\u00f3gicas do discurso. Assim como hoje s\u00e3o analisadas as nuances dos discursos contempor\u00e2neos, os quais seguem com um prop\u00f3sito muito similar ao de Hamurabi: cativar, assustar, provocar alguma rea\u00e7\u00e3o popular.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas assimila\u00e7\u00f5es ajudam a pensar um olhar contempor\u00e2neo acerca dos estudos do Antigo Oriente Pr\u00f3ximo. Katia Pozzer coordena tamb\u00e9m o projeto de pesquisa G\u00eanero, Representa\u00e7\u00e3o e Simbolismo na Arte Mesopot\u00e2mica, por meio do qual indaga fontes pret\u00e9ritas, como as representa\u00e7\u00f5es dos corpos em selos cil\u00edndricos, a partir de ideias e problemas contempor\u00e2neos. &#8220;Discutir representa\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e sexualidade, que \u00e9 um tema contempor\u00e2neo, que aflige e interpela as pessoas, que \u00e9 importante e faz parte da luta contra o preconceito &#8211; \u00e9 poss\u00edvel fazer isso tamb\u00e9m interpelando esses documentos antigos. Talvez uma contribui\u00e7\u00e3o que a gente possa fazer seja justamente quebrar com uma ideia de naturalidade do preconceito. De que as coisas sempre foram assim, ent\u00e3o devem permanecer assim&#8221;, comenta a professora.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cQuando tu prop\u00f5e quest\u00f5es que s\u00e3o contempor\u00e2neas, \u00e9 leg\u00edtimo tu indagar fontes antigas. Tu t\u00e1 conectado com o mundo em que vive, n\u00e3o \u00e9 diletantismo, tu n\u00e3o est\u00e1 estudando algo no passado s\u00f3 porque quer saber mais sobre, e sim porque essas quest\u00f5es t\u00eam a ver com a nossa vida hoje. Com a minha, com a tua, com o mundo em que a gente vive\u201d<\/p>\n<cite>&#8211; Katia Pozzer<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Leandro Ranieri integra o Laborat\u00f3rio do Antigo Oriente Pr\u00f3ximo (LAOP), na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), e pesquisa hist\u00f3ria do corpo, dos gestos e dos sentidos corporais na antiguidade. Quando questionado se existe alguma caracter\u00edstica que diferencia a leitura da Antiguidade Oriental feita no Brasil daquela feita no polo hegem\u00f4nico (Norte Global), Leandro responde: &#8220;\u00c0s vezes a gente presta aten\u00e7\u00e3o a determinadas coisas que outros pesquisadores n\u00e3o prestam. Acho que o caso mais emblem\u00e1tico \u00e9 o da imagem da mulher. H\u00e1 mulheres nas cenas dos relevos palacianos, mas qual \u00e9 o papel delas? O que est\u00e3o fazendo ali? Esse lugar da mulher nas fontes \u00e9 algo que foi durante muito tempo negligenciado&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pesquisador ainda comenta que n\u00e3o apenas a cultura desses pa\u00edses, mas tamb\u00e9m a forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica na academia s\u00e3o diferentes.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;A gente vai ter tend\u00eancias te\u00f3ricas nas ci\u00eancias humanas que v\u00e3o falar dos estudos p\u00f3s-coloniais, decoloniais &#8211; tudo isso vai impactar a forma de lidar n\u00e3o s\u00f3 com as fontes de cultura material, mas tamb\u00e9m com as fontes escritas&#8221;<\/p>\n<cite>Leandro Ranieri<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Uma nova gera\u00e7\u00e3o<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ana Carolina Stobbe \u00e9 estudante de Licenciatura em Hist\u00f3ria na UFRGS e participa do LEAO. Pr\u00f3xima de concluir a gradua\u00e7\u00e3o, Ana pretende seguir na pesquisa, em especial estudando g\u00eanero na Antiga Mesopot\u00e2mia. Foi em um Sal\u00e3o de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica que ela entrou em contato pela primeira vez com os selos-cilindros da Antiga Mesopot\u00e2mia. Desde ent\u00e3o, teve a certeza de que esse seria um de seus objetos de estudo. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A discente, no entanto, chama a aten\u00e7\u00e3o para a aus\u00eancia de tradu\u00e7\u00e3o para a l\u00edngua portuguesa de importantes bibliografias e a dificuldade de formar mais pesquisadores latino-americanos em fun\u00e7\u00e3o disso. O fato de que a maior parte dos acervos de artefatos do Antigo Oriente Pr\u00f3ximo se concentram no Norte Global tamb\u00e9m impacta na produ\u00e7\u00e3o de uma pesquisa a partir da \u00f3tica do Sul Global: \u201cTemos muitas quest\u00f5es de direitos autorais, por exemplo, se formos publicar um livro e quisermos utilizar imagens dos museus [&#8230;]. Acaba sendo caro viabilizar uma publica\u00e7\u00e3o.&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, segundo Ana, as coisas est\u00e3o mudando para se formarem novos assiri\u00f3logos, por exemplo. \u201cN\u00f3s temos professores que est\u00e3o atuando muito forte aqui no Brasil.\u201d A estudante cita tr\u00eas nomes, dos tr\u00eas \u00fanicos profissionais no Brasil com forma\u00e7\u00e3o em ac\u00e1dio, sendo eles: a pr\u00f3pria professora Katia, que coordena o LEAO; Marcelo Rede e Carlos Gon\u00e7alves, que coordenam o LAOP, na USP.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Tabuinhas de sil\u00edcio transatl\u00e2nticas<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Carlos Gon\u00e7alves observa que uma das principais raz\u00f5es que condicionam o ritmo de pesquisa da Antiguidade Oriental no Brasil, em compara\u00e7\u00e3o com a tradi\u00e7\u00e3o j\u00e1 mais estabelecida no Norte Global, \u00e9 a aus\u00eancia no pa\u00eds de museus de grande porte com grande acervo &#8216;pr\u00f3ximo oriental&#8217;. &#8220;Isso modifica um pouco a maneira de trabalhar com o Antigo Oriente Pr\u00f3ximo. Nossa \u00eanfase nunca vai ser a publica\u00e7\u00e3o de novos textos cuneiformes. Os museus (tanto na Europa quanto nos Estados Unidos) t\u00eam ainda muito material n\u00e3o publicado. \u00c9 operacionalmente mais f\u00e1cil de se publicar um tablete cuneiforme ainda in\u00e9dito nesses lugares do que no Brasil, por uma quest\u00e3o de acesso.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A modernidade, contudo, trouxe consigo os microchips, que acompanham as &#8220;tabuinhas de sil\u00edcio&#8221;, sendo elas computadores ou smartphones. Essa tecnologia ajuda em muito a desenvolver os estudos sobre o Antigo Oriente no Brasil, seja pelo acesso de fontes presentes no acervo de museus situados no Norte Global, como o acervo da Biblioteca Nacional da Fran\u00e7a, seja pela divulga\u00e7\u00e3o de tais estudos em uma linguagem mais acess\u00edvel nas redes sociais, como \u00e9 o caso do <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leao.ufrgs\/\">perfil do LEAO<\/a> no Instagram, que conta com postagens de diversos pesquisadores do tema pelo Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A internet e a linguagem utilizada fazem com que o assunto atinja muito mais gente que possa vir a se interessar pelo estudo do que esses artefatos significam e como atuam sob o olhar contempor\u00e2neo. Nesse ritmo, quem sabe, daqui a um tempo, a palavra &#8220;assiri\u00f3logo&#8221; e sua fun\u00e7\u00e3o sejam t\u00e3o conhecidas por um p\u00fablico mais amplo quanto a parceira helenista.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Contemporaneidade | Pesquisadores refletem sobre a relev\u00e2ncia de buscar em fontes da antiguidade oriental problem\u00e1ticas que fomentem o debate sobre quest\u00f5es contempor\u00e2neas, especialmente quando isso \u00e9 realizado a partir do sul global<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/acesso-virtual-a-acervos-situados-em-paises-do-norte-favorece-o-desenvolvimento-de-pesquisas-sobre-o-antigo-oriente-no-brasil\/\">Leia 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