{"id":70403,"date":"2023-10-05T07:50:00","date_gmt":"2023-10-05T10:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=70403"},"modified":"2023-10-05T12:19:32","modified_gmt":"2023-10-05T15:19:32","slug":"aumento-na-violencia-nas-escolas-aponta-a-necessidade-de-criacao-de-politicas-publicas-de-promocao-da-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/aumento-na-violencia-nas-escolas-aponta-a-necessidade-de-criacao-de-politicas-publicas-de-promocao-da-paz\/","title":{"rendered":"Aumento na viol\u00eancia nas escolas aponta a necessidade de cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas de promo\u00e7\u00e3o da paz"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Educa\u00e7\u00e3o | Ataques recentes em institui\u00e7\u00f5es de ensino promovem o debate sobre as ra\u00edzes do problema e os desafios para proporcionar ambientes de aprendizado saud\u00e1veis<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Foto: Escola do bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre (Cr\u00e9dito: Marcelo Pires\/JU)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia 5 de abril de 2023, quatro crian\u00e7as foram mortas por um homem em uma creche na cidade de Blumenau (SC). O ataque, feito com uma machadinha, ocorreu poucos dias ap\u00f3s um aluno matar uma professora com golpes de faca em uma escola na cidade de S\u00e3o Paulo. A brutalidade desses ataques levantou o debate sobre a viol\u00eancia nas salas de aula do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Incidentes de agress\u00e3o, bullying, confrontos entre alunos, tiroteios e massacres t\u00eam-se multiplicado no Brasil e no mundo. N\u00e3o \u00e9 por acaso que diversas pesquisas apontam o aumento significativo de casos de agress\u00e3o em escolas, despertando a urgente necessidade de cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas e de outras iniciativas para lidar com o fen\u00f4meno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, afinal, o que tem motivado o aumento desses atos? Quais a\u00e7\u00f5es podem ajudar a lidar com a viol\u00eancia escolar? Al\u00e9m disso, as universidades formam professores que estar\u00e3o na linha de frente. \u00c9 poss\u00edvel prepar\u00e1-los para se defender e tamb\u00e9m educar para criar um ecossistema de paz?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Jornal da Universidade ouviu especialistas em Psicologia, Sociologia e Educa\u00e7\u00e3o para buscar respostas a essas quest\u00f5es e apresentar um panorama de poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es que envolvam v\u00e1rias frentes, pois a viol\u00eancia na escola reflete as condi\u00e7\u00f5es violentas da pr\u00f3pria sociedade.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Glamouriza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia em redes sociais e discurso de \u00f3dio<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escola \u00e9 o espa\u00e7o de forma\u00e7\u00e3o intelectual e cidad\u00e3, um lugar que deveria prover prote\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a. O atual cen\u00e1rio brasileiro, entretanto, mostra outra realidade. A viol\u00eancia est\u00e1 presente no ambiente escolar, manifestando-se de diversas formas, algumas vezes brutais. A viol\u00eancia \u00e9 reflexo da vida social, sendo, muitas vezes, uma reprodu\u00e7\u00e3o espelhada do mundo social, baseada em preconceitos contra minorias e conviv\u00eancia t\u00f3xica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um<a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/unicamp\/noticias\/2023\/04\/14\/para-especialista-ameacas-em-escolas-escondem-intencao-de-provocar-panico\"> estudo<\/a> divulgado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) revelou que o Brasil registrou pelo menos 30 ataques a escolas nos \u00faltimos 21 anos. Chama a aten\u00e7\u00e3o, contudo, o aumento significativo e recente de casos. Ao longo da s\u00e9rie, at\u00e9 2021, a m\u00e9dia eram tr\u00eas ataques por ano. Agora o pa\u00eds lida com uma estat\u00edstica de 10 ataques em 2022 e oito at\u00e9 junho de 2023. Houve, portanto, um aumento de 20% no n\u00famero de ataques \u00e0s escolas no per\u00edodo de 2022 a junho de 2023. Em todos os casos, alunos e professores estavam entre as v\u00edtimas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O extremismo, o discurso de \u00f3dio e a dissemina\u00e7\u00e3o dessas manifesta\u00e7\u00f5es em redes sociais s\u00e3o apontados pelos especialistas ouvidos pela reportagem como os fatores mais frequentes na ocorr\u00eancia de ataques violentos a escolas brasileiras. Para Silvana Corbellini, professora adjunta da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o (FACED) da UFRGS, a agress\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um problema isolado do ambiente escolar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA onda de viol\u00eancia n\u00e3o diz respeito somente \u00e0s escolas; \u00e9, sim, um reflexo da sociedade como um todo. Nesses \u00faltimos anos, houve um aumento acentuado de grupos que disseminam a cultura do \u00f3dio, que tem conquistado muitos jovens, inclusive pela influ\u00eancia das m\u00eddias digitais nas quais eles se encontram imersos\u201d, esclarece.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse cen\u00e1rio, Corbellini explica que vieram \u00e0 tona o racismo, a homofobia, o nazismo, entre outras atitudes de intoler\u00e2ncia e perversidade que, de certa forma, julg\u00e1vamos superadas: \u201cOs movimentos extremistas procuram anular as diferen\u00e7as. A cultura do \u00f3dio que vem sendo cultuada por governantes de extrema direita \u00e9 um vetor que contribui para o aumento da viol\u00eancia em todo o mundo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1, entretanto, outros fatores sociais cr\u00f4nicos que tamb\u00e9m fertilizam as ra\u00edzes da viol\u00eancia escolar. Segundo a psic\u00f3loga, \u00e9 preciso considerar quest\u00f5es como a diferen\u00e7a de classes, a pobreza extrema, as drogas e a falta de condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas das institui\u00e7\u00f5es escolares de realizarem um acolhimento e de cuidarem de crian\u00e7as e jovens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cultura patriarcal e a misoginia integram o caldo de preconceitos da sociedade brasileira e contribuem para que a viol\u00eancia externada na escola seja produto do meio social. Essa \u00e9 a opini\u00e3o da doutora em Sociologia e professora do Departamento de Sociologia da UFRGS Rochele Fachinetto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cTemos diversas pesquisas que apontam a dissemina\u00e7\u00e3o de discursos de grupos de extrema direita em apologia \u00e0 supremacia branca, \u00e0 misoginia. N\u00e3o \u00e0 toa, boa parte das v\u00edtimas s\u00e3o mulheres. As agress\u00f5es se d\u00e3o por meio da web, das redes sociais, dos games, em geral ferramentas que ampliam conceitos masculinistas\u201d, aponta Fachinetto, que tamb\u00e9m \u00e9 pesquisadora do Grupo de Pesquisa Viol\u00eancia e Cidadania (UFRGS\/CNPq).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir de uma hist\u00f3ria marcada pelo patriarcado e pela escravid\u00e3o, as pessoas s\u00e3o vistas como inferiores pelo olhar do outro, que se imagina superior. E quem \u00e9 inferiorizado, em geral, \u201cbaixa a cabe\u00e7a\u201d e se cala. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO sil\u00eancio \u00e9 uma viol\u00eancia simb\u00f3lica. Conflitos em sil\u00eancio, aqueles que a gente faz de conta que n\u00e3o existem, se tornam impl\u00edcitos e naturalizados. Isso pode faz\u00ea-los aflorar. A masculinidade hegem\u00f4nica, associada ao discurso de extremismo, \u00e9 um barril de p\u00f3lvora\u201d<\/p>\n<cite>Rochele Fachinetto<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A espetaculariza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia pela m\u00eddia \u00e9 outro vetor que, para a soci\u00f3loga, precisa ser discutido, pois \u00e9 um elemento agravante, que alimenta e, o que \u00e9 pior, glamouriza tais pr\u00e1ticas. \u201cNa Nova Zel\u00e2ndia, por exemplo, n\u00e3o se divulga nada sobre esses incidentes\u201d, afirma a especialista. Ou seja, \u00e9 como dar fama ao agressor, encorajando outros a fazerem o mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A din\u00e2mica da viol\u00eancia nas escolas brasileiras e o seu impacto no ambiente de ensino est\u00e3o, portanto, interligados entre escola, comunidade e no discurso, seja ele de \u00f3dio ou do sil\u00eancio. Como explica a psic\u00f3loga Luciane Corte Real, mestra em Psicologia do Desenvolvimento pela UFRGS e professora da FACED, muitas vezes o tipo de comunidade em que a escola est\u00e1 inserida pode influenciar diretamente nos n\u00edveis de viol\u00eancia nas institui\u00e7\u00f5es de ensino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA gest\u00e3o escolar desempenha um papel crucial. Cito como exemplo uma escola de Porto Alegre situada em bairro com alta incid\u00eancia de ocorr\u00eancias policiais e que enfrentava invas\u00f5es e conflitos frequentes dos alunos. No entanto, quando houve uma mudan\u00e7a na gest\u00e3o escolar e um esfor\u00e7o conjunto com a comunidade, os incidentes de roubo e agress\u00e3o diminu\u00edram significativamente\u201d, descreve.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para ela, que \u00e9 membro do N\u00facleo de Estudos em Educa\u00e7\u00e3o na Cultura Digital, as m\u00eddias sociais tamb\u00e9m desempenham papel importante nesse contexto: \u201cA no\u00e7\u00e3o de comunidade n\u00e3o se restringe somente ao ambiente f\u00edsico. As intera\u00e7\u00f5es online tamb\u00e9m influenciam as din\u00e2micas de viol\u00eancia na escola\u201d. Nesse sentido, \u00e9 imperativo haver uma media\u00e7\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o conflituosa pela gest\u00e3o escolar para gerar um ambiente acolhedor (e, sobretudo, amoroso) de diferen\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Como a viol\u00eancia afeta os professores<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim como no slogan \u201cgentileza gera gentileza\u201d, viol\u00eancia gera viol\u00eancia. Corte Real explica que \u00e9 poss\u00edvel transformar a viol\u00eancia em algo bom a partir da abordagem aberta do problema. \u201cA viol\u00eancia tamb\u00e9m gera medo; alunos e professores com medo n\u00e3o estudam ou trabalham bem. O medo paralisa.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do ponto de vista psicol\u00f3gico, a professora ressalta um aumento alarmante nos n\u00edveis de viol\u00eancia tanto globalmente quanto no Brasil. Esses atos violentos se manifestam no ambiente escolar, afetando alunos, professores e a equipe diretiva.&nbsp;Para combater essa tend\u00eancia, \u00e9 fundamental que o tema seja discutido, refletido e abordado de forma expl\u00edcita. Ou seja, \u201ca comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial, pois transformar pensamentos em palavras pode reduzir a ocorr\u00eancia de atos violentos no ambiente escolar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A viol\u00eancia nas escolas tem se mostrado um vetor de piora na sa\u00fade mental dos educadores. De acordo com Corbellini, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 preocupante.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cOs professores revelam temor em ir \u00e0s escolas por n\u00e3o se sentirem protegidos, o que causa diversos sintomas, como crises de ansiedade, p\u00e2nico e depress\u00e3o. A escola era considerada um local seguro para a maioria das pessoas; nesses \u00faltimos anos, inclusive com a lei armamentista, os casos de viol\u00eancia extrema mostraram a fragilidade desses espa\u00e7os e, consequentemente, isso atinge a todos os que o habitam\u201d<\/p>\n<cite>Silvana Corbellini<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o mal-estar docente perpassa os chamados muros das escolas. Sobrecarga de trabalho, baixa remunera\u00e7\u00e3o, desvaloriza\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o, falta de recursos para o desenvolvimento de atividades, entre outros fatores, agravam cada vez mais o sofrimento mental dos professores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia nas escolas afetam, portanto, n\u00e3o apenas o dia a dia dos docentes como tamb\u00e9m a sua sa\u00fade, j\u00e1 que eles se colocam, cada vez mais, diante de situa\u00e7\u00f5es imprevis\u00edveis, como ataques com armas. Esses profissionais enfrentam um dilema: como educar e se proteger? Al\u00e9m disso, como lidar com a press\u00e3o psicol\u00f3gica e o estresse?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em primeiro lugar, diz Corbellini, os ambientes educacionais precisam ter uma equipe que possa ajudar os professores, com psic\u00f3logos, orientadores educacionais e supervisores. Se os alunos vivenciam um ambiente hostil em casa, podem transferir esse comportamento para a escola. E isso nem sempre est\u00e1 s\u00f3 ligado \u00e0 pobreza. \u201cH\u00e1 alunos que tratam os professores como empregados. Estes escutam os alunos dizerem que lhes pagam\u201d, e, logo, t\u00eam de aguentar abusos, ou podem ser demitidos.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">\u00c9 preciso discutir sobre viol\u00eancia tamb\u00e9m nas universidades<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 complexa, mas falar sobre o problema rompe a bolha de sil\u00eancios. \u201cPelo lado psicol\u00f3gico, estamos vendo um aumento muito grande na viol\u00eancia no mundo e no Brasil. Esses atos se refletem na escola, entre os alunos, os professores e a equipe diretiva. Para que isso possa diminuir no ambiente escolar, deve ser tematizado, refletido, conversado \u2013 o que \u00e9 colocado em palavras diminui os atos\u201d, afirma Fachinetto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A FACED tem trabalhado justamente para preparar melhor os profissionais de educa\u00e7\u00e3o para o enfrentamento de ambientes hostis em salas de aula. Um exemplo \u00e9 o curso de especializa\u00e7\u00e3o em Orienta\u00e7\u00e3o Educacional, em que uma das disciplinas versa sobre pr\u00e1ticas restaurativas no ambiente escolar. Assim, preparam-se os alunos para lidar com diversos aspectos de viol\u00eancia e levar \u00e0s salas de aula a cultura de paz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Corbellini segue seu ponto de vista no caminho de capacitar para a paz: \u201cA escola, a sala de aula, precisa ir al\u00e9m dos conte\u00fados curriculares. \u00c9 preciso pensar em uma educa\u00e7\u00e3o de afetos, na constru\u00e7\u00e3o de uma cultura de paz, na cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o, no pensamento cient\u00edfico como propulsor de novas respostas. Hoje temos instrumentos, como a busca ativa, os trabalhos com as diversidades, a <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/praticas-restaurativas-avancam-no-judiciario-e-buscam-superar-a-formula-culpa-lei-e-prisao-ao-infrator\/\">justi\u00e7a restaurativa<\/a>, os c\u00edrculos de paz, as rodas de conversa, que est\u00e3o sendo levados para dentro das escolas com o objetivo de contribuir para essa mudan\u00e7a\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conforme explica a especialista, os problemas s\u00e3o tematizados em diversas disciplinas, nos relatos de experi\u00eancia nos est\u00e1gios, com palestrantes, etc. &#8220;Atuamos a partir das realidades que v\u00e3o surgindo. Por exemplo, as viol\u00eancias que surgiram na pandemia, no p\u00f3s-pandemia, na realidade que est\u00e1 ocorrendo nas escolas. Trabalhamos com a diversidade, a inclus\u00e3o de aceitar o diferente. A FACED tenta instrumentalizar seus discentes para que entendam e atuem ativamente nesse sentido. Mas n\u00e3o podemos garantir tudo, porque o mundo est\u00e1 sempre mudando, e os tipos de viol\u00eancias tamb\u00e9m.\u201d<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA escola, a sala de aula precisa ir al\u00e9m dos conte\u00fados curriculares. \u00c9 preciso pensarmos em uma educa\u00e7\u00e3o de afetos, na constru\u00e7\u00e3o de uma cultura de paz, na cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o&#8221;<\/p>\n<cite>Silvana Corbellini<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com a soci\u00f3loga, a atual forma\u00e7\u00e3o de professores da FACED busca trabalhar essas tem\u00e1ticas sob a \u00f3tica tanto da psicologia como da filosofia e da sociologia, a fim de ampliar os debates para al\u00e9m da pedagogia. A ideia \u00e9 aumentar a compreens\u00e3o do papel dos professores e das escolas frente ao quadro n\u00e3o somente da viol\u00eancia espec\u00edfica que atinge essas institui\u00e7\u00f5es, mas como a cultura do \u00f3dio vem se alastrando na sociedade como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA proposta de se trabalhar a cultura de paz vem ganhando terreno como uma das formas de minimizar as viol\u00eancias. Al\u00e9m disso, a proposi\u00e7\u00e3o de cursos que auxiliem os jovens e a sociedade como um todo no discernimento de fatos e <em>fakes<\/em> tamb\u00e9m \u00e9 um dos caminhos que estamos seguindo na FACED. Por exemplo, temos um curso online e gratuito para toda a comunidade sobre o tema \u2018<a href=\"https:\/\/lumina.ufrgs.br\/course\/view.php?id=281\">Educa\u00e7\u00e3o contra Fake News<\/a>\u2019 na nossa plataforma L\u00famina\u201d, aponta Corbellini.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todas as especialistas ouvidas pela reportagem s\u00e3o un\u00e2nimes:  j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel olhar a viol\u00eancia como uma quest\u00e3o individual. \u00c9 urgente procurar reconhecer a responsabilidade de cada um nesse contexto. Isso passa pela forma\u00e7\u00e3o, pela constru\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os de fala e por outros instrumentos para que os novos professores j\u00e1 entrem nas salas de aula trabalhando o di\u00e1logo, as diversidades, e deixar para tr\u00e1s a cultura da competi\u00e7\u00e3o e do autoritarismo. \u00c9 o momento de se adotarem novas formas de ser e estar, de ensinar e aprender.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fachinetto fortalece esse argumento e vai al\u00e9m: \u201cA preven\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 papel do professor apenas, mas da sociedade. A chave \u00e9 prevenir com articula\u00e7\u00f5es da comunidade, da m\u00eddia, de governos, criando uma rede de governan\u00e7a. \u00c9 urgente criar espa\u00e7os de escuta dentro e fora das escolas para decifrar esses conflitos. Cabe ao Estado e aos pais acompanharem as redes de dissemina\u00e7\u00e3o de \u00f3dio. O governo precisa monitorar essas redes que pregam o aniquilamento do diferente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para al\u00e9m das escolas, Corbellini enfatiza que \u00e9 preciso que as gest\u00f5es, as coordena\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas comecem a ter um outro olhar sobre a institui\u00e7\u00e3o escolar de forma integral, \u201cmelhorando rela\u00e7\u00f5es, minimizando conflitos, construindo pontes com a sociedade e com governos na busca de respostas. Da mesma forma, \u00e9 preciso que a Universidade ocupe um lugar nessa constru\u00e7\u00e3o, trabalhando de forma coletiva e cooperativa com as escolas, com as gest\u00f5es, atrav\u00e9s de seus alicerces de pesquisa, ensino e extens\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">A viol\u00eancia tamb\u00e9m \u00e9 fruto de injusti\u00e7as e problemas do sistema social<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 aqui discutimos quest\u00f5es relacionadas \u00e0 viol\u00eancia no sistema educacional, mas \u00e9 crucial compreender que o problema abrange um contexto mais amplo, no \u00e2mbito das condi\u00e7\u00f5es sociais que se deterioram \u00e0 medida que o capitalismo evolui para o hipercapitalismo \u2013 um sistema que exige esfor\u00e7os incessantes sem necessariamente envolver a dignidade humana. N\u00e3o \u00e9 por acaso que termos como &#8216;batalha&#8217; e &#8216;guerra&#8217; s\u00e3o frequentemente usados para descrever as condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho atuais. Em uma guerra, \u00e9 preciso ser hostil. Como as especialistas citadas j\u00e1 destacaram, a viol\u00eancia tende a gerar mais viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa realidade \u00e9 f\u00e9rtil para proliferar uma mir\u00edade de desajustes e \u00f3dios, como explica Melissa Pimenta, professora do departamento de Sociologia da UFRGS e vice-coordenadora do Grupo de Pesquisa Viol\u00eancia e Cidadania (GPVC). \u201cA deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es sociais de exist\u00eancia e de uma vida digna certamente v\u00e3o se refletir tamb\u00e9m na viol\u00eancia escolar. \u00c9 preciso considerar que fatores sociais como o desemprego, a falta de renda, a viol\u00eancia dom\u00e9stica, a viol\u00eancia sexual, a falta de perspectivas e alternativas de melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida se refletem em problemas sociais graves, como o alcoolismo e a viol\u00eancia interpessoal, inclusive entre pessoas da mesma fam\u00edlia.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para ela, a falta de amparo do Estado, por meio de pol\u00edticas sociais de distribui\u00e7\u00e3o de renda e assist\u00eancia social, agrava os problemas existentes. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cAcredito que o aumento da viol\u00eancia escolar em diferentes pa\u00edses est\u00e1 diretamente ligado a esses fatores sociais, acentuados pela precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, pelo aumento do desemprego, da pobreza e do adoecimento f\u00edsico e mental\u201d<\/p>\n<cite>Melissa Pimenta<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Programas de conscientiza\u00e7\u00e3o e media\u00e7\u00e3o de conflitos podem reduzir a viol\u00eancia nas escolas, mas tais iniciativas, por si s\u00f3s, n\u00e3o combatem as ra\u00edzes do ambiente social hostil. Segundo a professora, os programas podem ser eficazes se servirem para construir uma problematiza\u00e7\u00e3o verdadeira de como esse fen\u00f4meno \u00e9 enraizado e naturalizado em nosso contexto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Deixar toda a responsabilidade nas costas da sociedade civil, contudo, n\u00e3o funciona. Pimenta ressalta que as iniciativas e medidas isoladas s\u00e3o paliativas e precisam abranger a participa\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico. \u201cDemandam pol\u00edticas p\u00fablicas organizadas e setorizadas, com o apoio e financiamento nos \u00e2mbitos municipal, estadual e federal, para que ocorram de forma regular e continuada, e tenham um alcance mais amplo.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A participa\u00e7\u00e3o do Estado n\u00e3o termina nesse ponto. Para a professora, as medidas devem incluir \u201co debate p\u00fablico amplo sobre a regula\u00e7\u00e3o das redes sociais, no sentido de coibir a dissemina\u00e7\u00e3o e a propaga\u00e7\u00e3o de conte\u00fados que incitem a pr\u00e1tica de crimes ou que fa\u00e7am apologia ao sexismo, \u00e0 misoginia, ao nazismo e ao fascismo\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A sociedade e o poder p\u00fablico tamb\u00e9m devem discutir sobre a proibi\u00e7\u00e3o de programas de televis\u00e3o policialescos, \u201cnos quais os apresentadores acompanham a\u00e7\u00f5es policiais e ocorr\u00eancias criminais. Isso atua como uma caixa de resson\u00e2ncia dos medos da popula\u00e7\u00e3o e contribui para ampliar a sensa\u00e7\u00e3o da inseguran\u00e7a em minorias, ao passo que mostram como solu\u00e7\u00e3o generalizada medidas repressivas e punitivistas de enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia\u201d. Como estamos todos vendo, o caminho para a paz n\u00e3o \u00e9 por a\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Dados sobre a viol\u00eancia nas escolas no Brasil<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo dados do <a href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/anuario-2023.pdf\">Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/a>, um em cada tr\u00eas ataques violentos \u00e0s escolas brasileiras ocorreu em 2023. Os dados revelam que, de 2002 a 2022, pelo menos 16 ocorr\u00eancias dessa natureza foram registradas em todo o pa\u00eds. S\u00f3 2023 j\u00e1 soma sete casos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Anu\u00e1rio adverte que o problema n\u00e3o est\u00e1 unicamente relacionado \u00e0 incid\u00eancia de outras formas de viol\u00eancia nos arredores das escolas, mas tamb\u00e9m \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o prolongada a processos violentos no \u00e2mbito familiar, como neglig\u00eancia e autoritarismo parental, al\u00e9m do conte\u00fado disseminado nas redes sociais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O<em> <\/em>bullying \u00e9 apontado como um dos principais problemas enfrentado nas escolas brasileiras. Na m\u00e9dia nacional, 37,6% dos diretores de escolas apontaram a ocorr\u00eancia de bullying na Avalia\u00e7\u00e3o Nacional do Rendimento Escolar, conhecida como Prova Brasil. O dado, o mais recente dispon\u00edvel, se refere ao calend\u00e1rio escolar de 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Prova Brasil mapeou a percep\u00e7\u00e3o de diretores escolares sobre as situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia nas escolas em que trabalham e sobre as condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a. De acordo com a pesquisa, 35,7% das escolas tamb\u00e9m sinalizaram a presen\u00e7a de bullying em seus espa\u00e7os. Ficam acima da m\u00e9dia nacional unidades como Santa Catarina (55,6%), Distrito Federal (47,4%), S\u00e3o Paulo (47,2%) e Rio Grande do Sul (46,7%).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro dado alarmante diz respeito ao abuso sexual, com seis em cada dez v\u00edtimas sendo crian\u00e7as de 0 a 13 anos em 2022. O Distrito Federal (5,2%) e Santa Catarina (4,8%) registraram o dobro da m\u00e9dia nacional (2,3%) em casos dessa natureza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cS\u00e3o percentuais que confirmam e refor\u00e7am a centralidade do problema e demonstram que a seguran\u00e7a p\u00fablica n\u00e3o pode ser vista apenas sob a \u00f3tica policial\u201d, acrescenta o relat\u00f3rio. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dados recentemente publicados no <a href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/anuario-2023-infografico.pdf\">Anu\u00e1rio Estat\u00edstico do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica de 2023<\/a> apontam o aumento da viol\u00eancia social no pa\u00eds como um todo. Em n\u00fameros absolutos, foram 74.539 epis\u00f3dios de atentado \u00e0 vida nas escolas brasileiras, apontados por diretores at\u00e9 2021, conforme pesquisa do Sistema de Avalia\u00e7\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica (Saeb). Somente no Rio Grande do Sul, contabilizaram-se 4.232 casos. Em S\u00e3o Paulo, foram mais de 10 mil casos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo<a href=\"https:\/\/www.oecd.org\/pisa\/publications\/PISA2018_CN_BRA.pdf\"> levantamento global da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE)<\/a>, divulgado ainda em 2019, o Brasil est\u00e1 entre os \u00edndices mais altos do mundo no ranking de agress\u00f5es a professores. Foram entrevistados 250 mil professores e l\u00edderes escolares de 48 pa\u00edses ou regi\u00f5es. O estudo aponta que 28% dos diretores escolares brasileiros testemunharam situa\u00e7\u00f5es de intimida\u00e7\u00e3o ou bullying entre alunos \u2013 o dobro da m\u00e9dia da OCDE. Tamb\u00e9m conforme o levantamento, semanalmente, 10% das escolas brasileiras registram epis\u00f3dios de intimida\u00e7\u00e3o ou de abuso verbal contra educadores, ao passo que a m\u00e9dia internacional \u00e9 de 3%. Em 2017, 12,05% dos professores disseram ter sido v\u00edtimas de agress\u00f5es verbais ou de intimida\u00e7\u00e3o de alunos pelo menos uma vez por semana. A m\u00e9dia global \u00e9 de 3,4%.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Educa\u00e7\u00e3o | Ataques recentes em institui\u00e7\u00f5es de ensino promovem o debate sobre as ra\u00edzes do problema e os desafios para proporcionar ambientes de aprendizado saud\u00e1veis<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/aumento-na-violencia-nas-escolas-aponta-a-necessidade-de-criacao-de-politicas-publicas-de-promocao-da-paz\/\">Leia 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