{"id":72641,"date":"2023-11-16T07:31:00","date_gmt":"2023-11-16T10:31:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=72641"},"modified":"2023-11-23T07:59:56","modified_gmt":"2023-11-23T10:59:56","slug":"quais-existencias-movem-a-geografia-que-ensinamos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/quais-existencias-movem-a-geografia-que-ensinamos\/","title":{"rendered":"Quais exist\u00eancias movem a Geografia que ensinamos?"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Artigo | Bruno Xavier Silveira, doutorando em Geografia, reflete sobre experi\u00eancias escolares e como isso se relaciona com as formas como jovens populares vivem e elaboram as suas espacialidades<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Por Bruno Xavier Silveira<br>*Ilustra\u00e7\u00e3o:&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.instagram.com\/oldalaska\">Katherine Avila<\/a>\/<\/em> Programa de Extens\u00e3o Hist\u00f3rias e Pr\u00e1ticas Art\u00edsticas, DAV-IA\/UFRGS<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste ano de 2023, ingressei no doutorado em Geografia, a fim de investigar as rela\u00e7\u00f5es entre juventude, cidade, quest\u00f5es raciais e escola. Sou professor na Escola Municipal de Ensino Fundamental Nossa Senhora de F\u00e1tima, no Bairro Bom Jesus, em Porto Alegre, onde, junto com os estudantes, criamos um projeto de educa\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais chamado QuilomBonja e dialogamos sobre territ\u00f3rio, identidades, cidade e juventudes. A iniciativa faz ensino com pesquisa no bairro. Desde o retorno ao trabalho presencial, em meio \u00e0 pandemia, a quantidade de jovens que observo no bairro, principalmente jovens negros, tem me causado questionamentos por sua presen\u00e7a no territ\u00f3rio e progressiva aus\u00eancia nas salas de aula.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tal quest\u00e3o ecoa nestas linhas como s\u00edntese provis\u00f3ria que busca entender experi\u00eancias e apropria\u00e7\u00f5es que os jovens fazem no espa\u00e7o urbano, a fim de compreender as pr\u00e1ticas de espa\u00e7o desses jovens e como as representam. Parto da espacialidade para implicar a ci\u00eancia geogr\u00e1fica com o engajamento na pesquisa com as juventudes. Meu olhar se d\u00e1 em di\u00e1logo com a Educa\u00e7\u00e3o das Rela\u00e7\u00f5es \u00c9tnico-Raciais (Erer), problematizando a intera\u00e7\u00e3o dos diferentes cidad\u00e3os com seus pertencimentos \u00e9tnico-raciais no espa\u00e7o urbano, para que se eduquem quanto \u00e0 pluralidade \u00e9tnico-racial do direito \u00e0 cidade e \u00e0 sociabilidade. Observando as espacialidades dos jovens em Porto Alegre, precisamos entender que essa \u00e9 a capital em que a desigualdade entre negros e brancos \u00e9 a mais acentuada do pa\u00eds, condi\u00e7\u00e3o que interfere na sociabilidade dos jovens e em suas formas de se apropriarem do espa\u00e7o e representarem a cidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tratadas a sociabilidade como necess\u00e1ria \u00e0 condi\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 das juventudes, entendo que, ao pesquisar suas pr\u00e1ticas espaciais, conforme Dori. Massey, \u00e9 que se pode conectar as possibilidades de um acontecer solid\u00e1rio, a constitui\u00e7\u00e3o das identidades e o suporte humano do fazer pol\u00edtico, vistos como instrumentos de cidadania dos jovens. Na esteira dessas reflex\u00f5es, pretendo realizar uma pesquisa que visibilize as exist\u00eancias das juventudes em Porto Alegre, sobretudo dos jovens da Bonja. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dialogo com N\u00e9cio Turra-Neto, que denomina como n\u00e3o hegem\u00f4nicos os jovens pobres, negros, perif\u00e9ricos e da comunidade lgbtqiapn+, por se tratarem de jovens que, na sua trajet\u00f3ria, n\u00e3o se tornaram centrais na constru\u00e7\u00e3o das juventudes. Foram postos \u00e0 margem social, geogr\u00e1fica e epistemol\u00f3gica da produ\u00e7\u00e3o do conhecimento. Optei por referenci\u00e1-los como jovens populares, tendo em vista como seus corpos s\u00e3o historicamente marcados em suas experi\u00eancias de espa\u00e7o e socializa\u00e7\u00e3o. E em se tratando dos jovens negros, a margem se d\u00e1 como destitui\u00e7\u00e3o do estatuto ontol\u00f3gico de sua humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o tamb\u00e9m esses jovens os sujeitos ocupantes dos bancos das escolas p\u00fablicas, quando n\u00e3o delas expulsos, explorados por um sistema de ensino neoliberal e \u201cdesconfiados\u201d pelas pol\u00edticas p\u00fablicas, gerando o desafio de pens\u00e1-los pela \u00f3tica da Erer, pois \u201cdesde dentro\u201d possuem uma concretude que n\u00e3o se deixa imobilizar por concep\u00e7\u00f5es liberais colonizadas. Da\u00ed que trago o \u201cpopular\u201d para qualificar essas juventudes, pois dialogo com Guerreiro Ramos para compreender a atualidade da racialidade inscrita nos seus usos e representa\u00e7\u00f5es de espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para construir essa pesquisa, considero trabalhar com etnogeografia, a partir de Elvis Chirstian Madureira Ramos, por se tratar de um m\u00e9todo que faz o pesquisador se aproximar do grupo pesquisado para conhecer suas pr\u00e1ticas, os saberes-fazeres cotidianos, as rela\u00e7\u00f5es com o meio e suas representa\u00e7\u00f5es. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensar as quest\u00f5es raciais me move ao entendimento de que todos os seres humanos possuem o mesmo valor ontol\u00f3gico, por isso construir junto com os sujeitos um caminho dial\u00f3gico na apreens\u00e3o das diversidades dos jovens, gerando contrastes e generaliza\u00e7\u00f5es dos percursos individuais e da experi\u00eancia coletiva comum parece uma atitude \u00e9tica.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesta ocasi\u00e3o, reflito com a professora Petronilha Beatriz Gon\u00e7alves e Silva, que nos orienta sobre o fazer pesquisa em rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais enquanto um ato de exig\u00eancia ao engajamento \u00e9tico. A pr\u00e1tica de pesquisa com as juventudes populares pode revelar uma esp\u00e9cie de forja, pois no momento em que esses grupos t\u00eam sido fruto de estigmas e estere\u00f3tipos coloniais que abreviam suas vidas, forjar na escuta atenta e na participa\u00e7\u00e3o das pessoas significa elaborar um processo de pesquisa ontol\u00f3gico e popular, j\u00e1 que a produ\u00e7\u00e3o do conhecimento n\u00e3o precisa reproduzir perspectivas que se alimentem da l\u00f3gica sujeito-objeto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por meio da espacialidade, as an\u00e1lises geogr\u00e1ficas s\u00e3o enriquecidas e podem desvendar a natureza da condi\u00e7\u00e3o dos sujeitos na cidade e, por consequ\u00eancia, a posi\u00e7\u00e3o que indiv\u00edduos e grupos ocupam na sociedade. Simultaneamente, pesquisar em Erer oferece uma perspectiva que permite enxergar a cidade a partir de novos arranjos e sociabilidades que se combinam na multiplicidade de trajet\u00f3rias produzidas pelos jovens. Uma vez que a dimens\u00e3o espacial dos fen\u00f4menos \u00e9 condi\u00e7\u00e3o do geogr\u00e1fico: (a) consider\u00e1-la na educa\u00e7\u00e3o escolar atualiza nosso projeto com as juventudes; e (b) entender o conjunto das experi\u00eancias espaciais dos jovens populares nos diz sobre a cidade que vivemos, por isso importa a exist\u00eancia dos jovens do bairro Bom Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por ora, essas s\u00e3o ideias iniciais sobre uma investiga\u00e7\u00e3o ainda a ser realizada. Elas nascem a partir de minha pr\u00e1tica no Projeto QuilomBonja, ilustrada pelo estudante-pesquisador Ygor Felisberto, ao dizer \u201cpensei um jovem igual a mim, com um mundo para conquistar e cheio de sonhos para realizar\u201d. A mensagem que fica, interpela: \u201c<em>O que pode o jovem popular?<\/em>\u201d Para mim, primeiramente, precisamos garantir sua exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"585\" height=\"800\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/111-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-73699\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/111-1.png 585w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/111-1-219x300.png 219w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/111-1-86x117.png 86w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/111-1-402x550.png 402w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/111-1-366x500.png 366w\" sizes=\"(max-width: 585px) 100vw, 585px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ilustra\u00e7\u00e3o de Ygor Felisberto que reflete sobre as possibilidades e os sonhos do jovem<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#f5f5f5f5\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/8863258338567321\">Bruno Xavier Silveira<\/a>&nbsp;\u00e9 professor de Geografia na Rede de Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica da Prefeitura Municipal de Porto Alegre e doutorando no PPG em Geografia (UFRGS).<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-black-color has-text-color wp-block-paragraph\" style=\"font-size:12px\"><em>&#8220;As manifesta\u00e7\u00f5es expressas neste ve\u00edculo n\u00e3o representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" 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