{"id":72651,"date":"2023-11-16T07:36:00","date_gmt":"2023-11-16T10:36:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=72651"},"modified":"2023-11-23T07:58:03","modified_gmt":"2023-11-23T10:58:03","slug":"meu-nome-agora-nao-e-ze-pequeno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/meu-nome-agora-nao-e-ze-pequeno\/","title":{"rendered":"Meu nome agora (n\u00e3o) \u00e9 Z\u00e9 Pequeno"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Artigo | O doutorando em Letras Thiago Martins Rodrigues reflete sobre como o personagem do romance e do filme <em>Cidade de Deus<\/em> participa da cria\u00e7\u00e3o de um imagin\u00e1rio sobre homens negros no Brasil<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Por Thiago Martins Rodrigues<br>*Ilustra\u00e7\u00e3o:\u00a0<a href=\"https:\/\/instagram.com\/epistemoxo?igshid=ZWpzNnh1NnZnNWpx\">Maria Eduarda Pacheco Fernandes<\/a>\/<\/em> Programa de Extens\u00e3o Hist\u00f3rias e Pr\u00e1ticas Art\u00edsticas, DAV-IA\/UFRGS<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A l\u00f3gica racista sobre a qual a sociedade brasileira foi constru\u00edda imp\u00f4s aos homens negros um lugar de viol\u00eancia e exclus\u00e3o. Dessa forma, sua inser\u00e7\u00e3o nos diferentes \u00e2mbitos da vida social \u00e9 permeada por uma complexa trama que envolve desumaniza\u00e7\u00e3o, fetichiza\u00e7\u00e3o, marginaliza\u00e7\u00e3o e inconsci\u00eancia daquilo que os atravessa como sujeitos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foram as mulheres negras as primeiras a denunciar o efeito combinado do racismo, do sexismo e da explora\u00e7\u00e3o capitalista, como aponta Angela Davis, e a evidenciar o lugar ambivalente que os homens negros ocupam, como bode expiat\u00f3rio, eleito pela branquitude, das consequ\u00eancias sociais que o racismo e a desigualdade deixam e, ao mesmo tempo, como atores das assimetrias de g\u00eanero.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A possibilidade de dar-se conta desses meandros n\u00e3o est\u00e1 acess\u00edvel a todos. No meu caso, foi na universidade \u2014 por um caminho individual, e n\u00e3o pelo curr\u00edculo do curso \u2014 que tomei contato com o pensamento de intelectuais negras e negros do pa\u00eds que examinaram em profundidade a forma\u00e7\u00e3o da nacionalidade brasileira fundada pelo racismo. Ler e estudar a produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de autoria negra, para al\u00e9m do interesse acad\u00eamico, colocou em perspectiva minha pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o como homem negro. Por essa via, teve in\u00edcio tamb\u00e9m meu contato com a literatura negro-brasileira. N\u00e3o se tratava, desse modo, apenas de um objeto de estudo, mas de ver-se como negro e compreender os sentidos de existir como tal no Brasil, no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, na <a href=\"https:\/\/sul21.com.br\/breaking-newscidadesz_areazero\/2015\/05\/restinga-alem-dos-estereotipos-a-vida-em-uma-das-maiores-periferias-da-capital\/\">Restinga<\/a>, na UFRGS.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A obra que deu corpo a essa reflex\u00e3o foi <em>Cidade de Deus<\/em>, de Paulo Lins. Ao ler o romance do autor carioca, minha primeira impress\u00e3o foi de estranhamento. Um livro de grande envergadura e com uma arguta elabora\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, ambientado em uma favela carioca e com grande destaque para a viol\u00eancia, escrito por um homem negro que sai da pr\u00f3pria comunidade em que se passa a narrativa e chega aos bancos universit\u00e1rios. Os dados que originaram a composi\u00e7\u00e3o foram obtidos com base em estudo etnogr\u00e1fico do qual Lins participou como objeto e como pesquisador. Diante dessas nuances, originou-se uma obra de tens\u00e3o e com diferentes entradas para o leitor, especializado ou n\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A repercuss\u00e3o de <em>Cidade de Deus<\/em>, como se sabe, foi significativa: chegou a outros pa\u00edses, a partir de v\u00e1rias tradu\u00e7\u00f5es, e aos cinemas, com a celebrada adapta\u00e7\u00e3o de 2002. A consequ\u00eancia dessa circula\u00e7\u00e3o, a meu ver, consagrou um determinado lugar para Paulo Lins e sua obra. Especialmente o filme dirigido por Fernando Meirelles e K\u00e1tia Lund estabeleceu alguns par\u00e2metros para a recep\u00e7\u00e3o do livro. Um deles diz respeito \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do emblem\u00e1tico personagem Z\u00e9 Pequeno, que se trata de um odioso produto da desigualdade, do racismo, da viol\u00eancia e da completa aus\u00eancia do Estado est\u00e1 evidente. \u00c9 o resultado do projeto de nacionalidade excludente das classes dominantes. H\u00e1 um substrato que tenta dar contexto \u00e0 gana de poder que depois vai tomar conta do mais sanguin\u00e1rio dos chefes do conjunto habitacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Z\u00e9 Pequeno, nesse caso, tem marcado um \u00edmpeto de vingan\u00e7a. Uma vingan\u00e7a social. A possibilidade de adquirir bens de consumo e a conquista do poder n\u00e3o fez, todavia, que o personagem fosse inserido efetivamente em pr\u00e1ticas sociais outras, que n\u00e3o estivessem ligadas \u00e0 gest\u00e3o violenta das din\u00e2micas da comunidade. O narrador do romance assume, ent\u00e3o, uma postura de repulsa em rela\u00e7\u00e3o ao <em>bicho-solto<\/em>, que condensa a consci\u00eancia hist\u00f3rica de um impasse: o fim de <em>Cidade de Deus <\/em>\u00e9 ag\u00f4nico e aponta para um projeto nacional que n\u00e3o encontra possibilidades de supera\u00e7\u00e3o. A morte de Z\u00e9 Pequeno e a sua substitui\u00e7\u00e3o por um novo grupo d\u00e1 conta de um ciclo que se repetir\u00e1 diante do que os ricos impuseram \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra e pobre.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na adapta\u00e7\u00e3o para o cinema, o personagem ganha outros contornos, acredito. A interpreta\u00e7\u00e3o poderosa de Leandro Firmino foi conduzida para construir um personagem que, apesar de sanguin\u00e1rio e impetuoso, \u00e9 ris\u00edvel. Isso n\u00e3o serve para humaniz\u00e1-lo ou apaziguar sua crueldade. Com isso, n\u00e3o estou tentando sugerir que Z\u00e9 Pequeno seja menos infame. No entanto, os tra\u00e7os, as a\u00e7\u00f5es, as escolhas d\u00e3o conta de um homem que age \u00e0 toa. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como resultado, Z\u00e9 Pequeno fica fixado n\u00e3o como o produto do racismo e da desigualdade que \u00e9, mas como uma figura grotesca. Sua perman\u00eancia no rol de personagens marcantes do cinema nacional atravessa as d\u00e9cadas sem que, no entanto, se pese a imagem de homem negro que circula a partir da\u00ed. Que outro homem negro figura nesse grupo, com a mesma intensidade, capaz de fazer um contraponto a Z\u00e9 Pequeno? Ainda \u00e9 preciso verificar.&nbsp;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O filme fixou uma imagem de Z\u00e9 Pequeno que ainda n\u00e3o se desfez, apesar dos avan\u00e7os que tivemos desde 2002 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 figura da personagem negra nas artes em geral. Essa imagem ainda \u00e9 a do homem negro que &#8211; nem her\u00f3i, nem vil\u00e3o &#8211; \u00e9 apenas motivo de riso. Para a forma\u00e7\u00e3o intelectual de homens negros que, como eu, tomam contato com uma s\u00e9rie de atravessamentos quando chegam \u00e0 universidade, lidar com marcas como essa gera mais um lugar de d\u00favida. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se pensamos de maneira um pouco mais complexa, n\u00e3o somos Z\u00e9 Pequeno e ao mesmo tempo somos, porque essa imagem, do homem negro ris\u00edvel, nos acompanha a todo tempo. E essas narrativas seguem produzindo configura\u00e7\u00f5es acerca do que \u00e9 ser homem e do que \u00e9 ser homem negro.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#f5f5f5f5\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/2757628492345963\">Thiago Martins Rodrigues<\/a> \u00e9 doutorando no PPG em Letras, membro da Comiss\u00e3o de Apoio e Acompanhamento de A\u00e7\u00f5es Afirmativas do PPG Letras e professor da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\" style=\"font-size:10px\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<div class=\"wp-block-group is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-4fc3f8e1 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Refer\u00eancias:&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">CUTI, Luiz Silva. <strong>Literatura Negro-Brasileira<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Selo Negro, 2010<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">DAVIS, Angela. <strong>Mulheres, ra\u00e7a e classe<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de Heci Regina Candiani. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2016.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">LINS, Paulo. <strong>Cidade de Deus<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1997.&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-black-color has-text-color wp-block-paragraph\" style=\"font-size:12px\"><em>&#8220;As manifesta\u00e7\u00f5es expressas neste ve\u00edculo n\u00e3o representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/chamada\/\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"300\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Rodape-Posts.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-68386\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Rodape-Posts.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Rodape-Posts-300x60.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Rodape-Posts-175x35.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Rodape-Posts-768x154.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Rodape-Posts-465x93.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Rodape-Posts-695x139.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo | O doutorando em Letras Thiago Martins Rodrigues reflete sobre como o personagem do romance e do filme Cidade de Deus participa da cria\u00e7\u00e3o de um imagin\u00e1rio sobre homens negros no Brasil<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/meu-nome-agora-nao-e-ze-pequeno\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":73405,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[53],"tags":[5031,291,5108,5034,1676,1438,286,2126,5032],"ppma_author":[2938],"class_list":["entry","author-gerente","has-excerpt","post-72651","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-artigo","tag-cidade-de-deus","tag-cinema","tag-especial-novembro-negro-2023","tag-homem-negro","tag-negritude","tag-preconceito","tag-racismo","tag-romance","tag-ze-pequeno"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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