{"id":73030,"date":"2023-11-09T07:40:00","date_gmt":"2023-11-09T10:40:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=73030"},"modified":"2023-11-10T15:07:41","modified_gmt":"2023-11-10T18:07:41","slug":"o-canto-de-bruno-cardoso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/o-canto-de-bruno-cardoso\/","title":{"rendered":"O canto de Bruno Cardoso"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Perfil | Estudante de M\u00fasica relata sua trajet\u00f3ria como um dos poucos alunos negros do curso<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Foto: Marcelo Pires\/JU<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com 12 para 13 anos, Bruno Cardoso iniciou uma trupe de teatro com colegas do grupo de jovens esp\u00edritas que frequentava. Quando foram realizar a montagem de uma pe\u00e7a, tiveram que selecionar uma m\u00fasica. Ele ent\u00e3o cantou um trecho, e todos \u00e0 sua volta paralisaram e perguntaram admirados: \u201cTu canta?\u201d. Ele respondeu que sim. Resolveram por n\u00e3o usar som mec\u00e2nico: Bruno \u00e9 que cantaria em cena. Isso foi h\u00e1 17 anos, e desde l\u00e1 ele vem cantando pela vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bruno diz que sempre foi muito musical, ainda que em sua fam\u00edlia, apesar de apreciarem m\u00fasica, nunca houve algu\u00e9m que fosse m\u00fasico profissional. A paix\u00e3o, no entanto, n\u00e3o o fez tra\u00e7ar um percurso linear direto para o curso de M\u00fasica. Ingressou primeiro na Biologia em 2011. Mas logo j\u00e1 entrou para o coral da UFRGS, em que ficou por seis anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse meio tempo, ainda, passou pela Administra\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que resolveu que era hora de entrar para a M\u00fasica.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEu era apaixonado, mas tinha muito medo do vestibular. Da\u00ed fui seguindo um caminho meio paralelo, estudando e flertando com a m\u00fasica. At\u00e9 que, em 2019, eu disse: &#8220;Ah, vou fazer, vou me jogar, porque eu preciso me sentir pleno naquilo que t\u00f4 fazendo \u2013 n\u00e3o me via de outro jeito\u201d<\/p>\n<cite>Bruno Cardoso<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No universo da m\u00fasica, j\u00e1 teve a experi\u00eancia de cantar na Parada Livre de Porto Alegre de 2018 a 2022. Atualmente canta em bares \u2013 est\u00e1 montando um repert\u00f3rio de samba, pagode e samba rock \u2013 e no grupo de m\u00fasica \u00e0 capela Vocal 5.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A aventura come\u00e7ou pelos bares, muito antes de ingressar na M\u00fasica. Resolveu experimentar para ver como \u00e9 que funcionava e se iria se adaptar. \u201cO primeiro bar onde cantei \u00e9 um lugar muito especial para mim, o Ven\u00ea, na Travessa dos Venezianos. Fui muito bem acolhido, foi uma experi\u00eancia muito legal. Eu tava muito nervoso!\u201d, revela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na sequ\u00eancia, deu um passo adiante e fez uma oficina de preparadores vocais em S\u00e3o Leopoldo. Como gostava muito de cantar e de lecionar \u2013 \u00e0quela altura j\u00e1 dava aula particular de qu\u00edmica, f\u00edsica e matem\u00e1tica \u2013, resolveu que passaria a dar aulas de m\u00fasica, isso antes mesmo de entrar na gradua\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2018, pela primeira vez foi convidado para cantar na Parada Livre. \u201cFoi uma experi\u00eancia maravilhosa. O maior p\u00fablico para que eu j\u00e1 cantei na minha vida. Teve um ano que eu acho que eles registraram 10.000 pessoas. Fazer um show para um p\u00fablico t\u00e3o grande \u00e9 muito bom, \u00e9 uma experi\u00eancia que d\u00e1 um friozinho na barriga.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje \u00e9 professor em uma escola de m\u00fasica de Porto Alegre e faz shows. \u201cT\u00f4 me sentindo muito pleno!\u201d Al\u00e9m disso, cursa a gradua\u00e7\u00e3o, onde participa de um projeto de pesquisa sobre a presen\u00e7a de alunos cotistas no curso de M\u00fasica, com enfoque nos estudantes negros.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG_5368-1-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-73050\" style=\"width:800px\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG_5368-1-1.jpeg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG_5368-1-1-300x200.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG_5368-1-1-175x117.jpeg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG_5368-1-1-768x512.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG_5368-1-1-391x260.jpeg 391w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG_5368-1-1-465x310.jpeg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/IMG_5368-1-1-695x463.jpeg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Felipe Ewald\/JU<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Processo de inclus\u00e3o<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bruno lamenta o fato de n\u00e3o se ver refletido no corpo discente e docente do curso. Em levantamento realizado junto com sua orientadora, a professora Luciana Prass, constatou que, do total de 437 alunos da M\u00fasica, s\u00e3o 23 os que s\u00e3o autodeclarados negros, cerca de 5%.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEu acho muito triste, muito solit\u00e1rio, porque n\u00e3o \u00e9 abordado como deveria ser o estudo da cultura afro-brasileira e dos povos origin\u00e1rios na gradua\u00e7\u00e3o hoje. \u00c9 uma trajet\u00f3ria solit\u00e1ria, a gente acaba tendo que se apoiar nos nossos familiares, porque a Universidade n\u00e3o acolhe t\u00e3o bem as pessoas negras\u201d<\/p>\n<cite>Bruno Cardoso<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estudante ressalta que acessar o curso de M\u00fasica \u00e9 muito dif\u00edcil por conta da prova espec\u00edfica, que espera um alto conhecimento pr\u00e9vio dos alunos. \u201cNo entanto, o ensino de m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 uma coisa universal; j\u00e1 come\u00e7a por a\u00ed, n\u00e3o \u00e9 uma coisa p\u00fablica e acess\u00edvel.\u201d Por isso, s\u00e3o muito importantes os projetos sociais, como a Orquestra Villa-Lobos \u2013 com a qual j\u00e1 cantou no espet\u00e1culo <em>\u00c1frica<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No curr\u00edculo do curso, ele cita a falta de inclus\u00e3o da cultura afro-brasileira e ind\u00edgena. \u201cPor exemplo: eu fiz cadeiras de hist\u00f3ria da m\u00fasica e vi s\u00f3 o que aconteceu na Europa. Parece que a m\u00fasica s\u00f3 ocorria na Europa, no resto dos continentes nada.\u201d Ademais, o campo vocal na m\u00fasica popular n\u00e3o recebe muita aten\u00e7\u00e3o nas aulas. Em geral, o foco est\u00e1 no canto erudito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201c\u00c0s vezes eu dou uma desanimada, mas a\u00ed me lembro de quantas bandeiras levanto comigo, por ser uma pessoa preta, por ser uma pessoa gorda, por ser uma pessoa LGBT. Podia ter dado tudo errado, mas deu certo! Eu sempre digo, de onde eu vim, eu e meus quatro irm\u00e3os, a gente dividia uma cama de casal. Hoje, minha irm\u00e3 \u00e9 mestra em Geografia, meu irm\u00e3o \u00e9 engenheiro de produ\u00e7\u00e3o, meu irm\u00e3o mais novo t\u00e1 fazendo Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e a minha irm\u00e3, Processos Gerenciais\u201d<\/p>\n<cite>Bruno Cardoso<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Natural de Canoas, Bruno diz que n\u00e3o encontrava muitas escolas com educa\u00e7\u00e3o adequada \u2013 \u201conde n\u00e3o faltassem professores\u201d \u2013 na sua regi\u00e3o. Ent\u00e3o, no ensino m\u00e9dio foi estudar no centro da cidade. \u201c\u00c0s vezes n\u00e3o tinha grana para a passagem. Eu ia a p\u00e9, duas horas de caminhada para chegar no col\u00e9gio\u201d, recorda. Junto, levava um lanche: \u201cSempre lembro do p\u00e3ozinho amassadinho na mochila\u201d. Quando foi fazer o pr\u00e9-vestibular, era maior a correria: vinha para Porto Alegre \u00e0 noite, onde frequentou o CEUE e tamb\u00e9m um curso do programa de oportunidades de desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto n\u00e3o acaba a gradua\u00e7\u00e3o \u2013 est\u00e1 entre o sexto e o s\u00e9timo semestre \u2013, trabalha de tarde numa escola de m\u00fasica e, \u00e0 noite, em um abrigo com acolhimento de menores, onde ingressou h\u00e1 cinco anos, numa \u00e9poca em que estava desempregado. &#8220;S\u00e3o hist\u00f3rias muito dif\u00edceis, muito cru\u00e9is, de abusos e viol\u00eancias extremas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na escola, o p\u00fablico \u00e9 de pessoas com alto poder aquisitivo. \u201cQuando fui fazer entrevista pra ser admitido, o coordenador perguntou: \u2018Como que \u00e9 pra ti trabalhar com crian\u00e7as que t\u00eam alto poder aquisitivo e ao mesmo tempo com aqueles que n\u00e3o t\u00eam nada?\u2019. Eu disse: \u2018Olha, para mim, crian\u00e7a \u00e9 crian\u00e7a, independentemente do lugar. Eles v\u00e3o precisar das mesmas coisas: educa\u00e7\u00e3o, aten\u00e7\u00e3o e disciplina&#8217;.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre as experi\u00eancias que j\u00e1 viveu no trabalho, recorda de um aluno que foi atender a domic\u00edlio pela escola. \u201cEle come\u00e7ou a xingar a bab\u00e1 dele. A\u00ed eu disse: \u2018Me desculpa, espera a\u00ed, n\u00e3o \u00e9 o meu trabalho, n\u00e3o faz parte, mas eu n\u00e3o vou te ver xingar a tua bab\u00e1 na minha frente e deixar assim!\u2019.&#8221; &#8220;At\u00e9 porque&#8221;, complementa, &#8220;a minha m\u00e3e trabalhou muito tempo como bab\u00e1. Isso me doeu.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No abrigo, atua como educador social, acompanhando as rotinas di\u00e1rias: ajuda a fazer tema, ministra medica\u00e7\u00e3o e mant\u00e9m a disciplina da casa. \u201cNo in\u00edcio, era muito dif\u00edcil, porque eu acabava ficando muito mal com todas as hist\u00f3rias de maus-tratos, mas com o tempo a gente vai aprendendo a separar. Claro, a gente gosta muito, tem afeto, mas a\u00ed a gente v\u00ea que n\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel nem para eles nem para n\u00f3s ficar levando essas coisas para casa\u201d, conclui.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Perfil | Estudante de M\u00fasica relata sua trajet\u00f3ria como um dos poucos alunos negros do curso<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/o-canto-de-bruno-cardoso\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":181,"featured_media":73047,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[124],"tags":[4911,61,280,2006,274,2498,515,938,5057],"ppma_author":[2943],"class_list":["entry","author-felipeewald","has-excerpt","post-73030","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-perfil","tag-acoes-afirmativas-2","tag-cotistas","tag-cultura-afro-brasileira","tag-curriculo","tag-instituto-de-artes","tag-musica-3","tag-musica-popular","tag-negros","tag-vocal"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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