{"id":73272,"date":"2023-11-30T07:30:00","date_gmt":"2023-11-30T10:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=73272"},"modified":"2023-11-30T07:58:33","modified_gmt":"2023-11-30T10:58:33","slug":"artel-uma-sociedade-feminista-de-tradutoras-russas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/artel-uma-sociedade-feminista-de-tradutoras-russas\/","title":{"rendered":"Artel, uma sociedade feminista de tradutoras russas"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Artigo | Ana Let\u00edcia Prado de Campos, mestranda em Letras, apresenta a hist\u00f3ria do projeto editorial que contribuiu para a transforma\u00e7\u00e3o do lugar das mulheres na sociedade russa no s\u00e9culo XIX<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Por Ana Let\u00edcia Prado de Campos<br>*Ilustra\u00e7\u00e3o: <a href=\"http:\/\/www.instagram.com\/dantara.art\">Dantara Stamado Ordov\u00e1s<\/a>\/ Programa de Extens\u00e3o Hist\u00f3rias e Pr\u00e1ticas Art\u00edsticas, DAV-IA\/UFRGS<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No imp\u00e9rio russo, no s\u00e9culo XIX, quando as mulheres come\u00e7avam a lutar por equidade de g\u00eanero, um trio pertencente \u00e0 aristocracia se uniu para reivindicar os direitos das mulheres. Nadi\u00eajda Vass\u00edlievna St\u00e1ssova, Mar\u00eda Vass\u00edlievna Tr\u00fabnikova e Anna P\u00e1vlovna Filoss\u00f3fova foram as precursoras na mobiliza\u00e7\u00e3o feminista na R\u00fassia. Ficaram conhecidas como o Triunvirato de mulheres na R\u00fassia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1863, elas fundaram a Sociedade de Tradutoras, que resultou na cria\u00e7\u00e3o da Artel Editora de Mulheres. A editora surgiu com a inten\u00e7\u00e3o de proporcionar \u00e0s mulheres alcan\u00e7arem sua emancipa\u00e7\u00e3o. Filoss\u00f3fova tinha muita influ\u00eancia no seu meio social, mas apesar de suas conex\u00f5es n\u00e3o foi poss\u00edvel registrar a Artel. A recusa ocorreu devido \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o ser constitu\u00edda apenas por mulheres. Ent\u00e3o o grupo decidiu iniciar as atividades mesmo sem a permiss\u00e3o, e em 1863 j\u00e1 estavam atuando. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os objetivos da Artel eram duplos: melhorar o status das mulheres, proporcionando-lhes trabalho intelectual, renda e prest\u00edgio; e influenciar a sociedade e seus valores por meio da leitura de obras estrangeiras. A Artel foi a primeira e \u00fanica editora de tradu\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o feminina na hist\u00f3ria russa, criada com a inten\u00e7\u00e3o de dar a elas a oportunidade de viverem de seu pr\u00f3prio trabalho intelectual, t\u00e9cnico e manual.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No ano de abertura, cerca de&nbsp;36 mulheres participaram da Artel. Nos anos seguintes, o n\u00famero de integrantes praticamente dobrou. Em 1865, j\u00e1 era de 63 participantes. Mulheres de todas as classes sociais eram aceitas na editora; elas tinham os mesmos interesses e compartilhavam os mesmos valores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Sociedade de Tradutoras desafiou as normas da \u00e9poca. A Artel, assim, dedicada \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o de livros, criou um espa\u00e7o para que as mulheres se afirmassem intelectual e politicamente. A organiza\u00e7\u00e3o priorizava o trabalho \u00e0s mais vulner\u00e1veis economicamente. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para manter a qualidade dos trabalhos, foram criados comit\u00eas e \u00f3rg\u00e3os coletivos que avaliavam as tradu\u00e7\u00f5es e a produ\u00e7\u00e3o manual dos livros. Desse modo, a estrutura da Artel contribuiu para o desenvolvimento da unidade, da solidariedade e da assist\u00eancia m\u00fatua entre as integrantes.&nbsp;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Maria Tr\u00fabnikova foi a editora-chefe, contadora e contato com as demais tradutoras. A Artel publicou livros infantis, literatura, ci\u00eancias naturais, fic\u00e7\u00e3o e livros que abordavam as quest\u00f5es feministas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todo o processo editorial &#8211; da encaderna\u00e7\u00e3o ao trabalho ilustrativo, da tradu\u00e7\u00e3o \u00e0 edi\u00e7\u00e3o &#8211; era realizado por mulheres. Muitas das integrantes da editora eram ativistas, envolvidas em movimentos sociais e pol\u00edticos que lutavam pela emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres e pelo direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Nesse ambiente, a ideologia do movimento e um novo tipo de solidariedade, definida pelo g\u00eanero, come\u00e7ou a tomar forma.\u00a0<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"437\" height=\"263\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/mulhere-tipografas.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-74614\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/mulhere-tipografas.jpg 437w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/mulhere-tipografas-300x181.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/mulhere-tipografas-175x105.jpg 175w\" sizes=\"(max-width: 437px) 100vw, 437px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Mulheres tip\u00f3grafas. <br>Fonte: https:\/\/vk.com\/doc5787984_590429968?hash=HrEAlvDWzlzySOZ32Bxz4YDm9zDoXac9IOmzq2GPd4T, p.180<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na R\u00fassia, a Artel teve um papel importante na promo\u00e7\u00e3o da literatura estrangeira. Al\u00e9m disso, durante o per\u00edodo em que esteve ativa, contribuiu significativamente para a dissemina\u00e7\u00e3o das ideias feministas. A import\u00e2ncia que a tradu\u00e7\u00e3o teve na Artel foi crucial para tornar a literatura estrangeira acess\u00edvel e trazer a reflex\u00e3o sobre a posi\u00e7\u00e3o ocupada pelas mulheres \u00e0 \u00e9poca. O papel desempenhado por elas na editora estava diretamente ligado \u00e0s intera\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas, sociais, pol\u00edticas e culturais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de existirem poucos registros sobre a Artel, foi poss\u00edvel encontrar alguns t\u00edtulos traduzidos e publicados pela editora. Em 1863, a cole\u00e7\u00e3o completa dos contos do dinamarqu\u00eas Hans Christian Andersen; em 1864, <em>Hist\u00f3rias dos tempos merov\u00edngios<\/em>, de Augustin Thierry; em 1865, <em>Hist\u00f3ria Natural<\/em>, de Vladimir Wagner, e <em>Um naturalista no rio Amazonas<\/em>, de Henry Bates. Al\u00e9m destas, \u00e9 muito prov\u00e1vel que existam outras obras traduzidas e publicadas, no entanto n\u00e3o foi poss\u00edvel encontrar, devido \u00e0 escassez de material dispon\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Artel perdurou por 16 anos. Em 1879, suas atividades foram oficialmente dissolvidas. Em 1891, Maria Tr\u00fabnikova tentou reabrir a editora, mas, apesar de seus esfor\u00e7os, n\u00e3o obteve sucesso. Infelizmente n\u00e3o existem registros completos das tradutoras e das publica\u00e7\u00f5es da editora, mas \u00e9 poss\u00edvel saber que, durante o tempo em que esteve ativa, proporcionou renda e instru\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres que dela participaram.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Artel possibilitou \u00e0s integrantes, al\u00e9m de rendimento est\u00e1vel, um ambiente que possibilitou o ativismo feminino. Nesse sentido, a organiza\u00e7\u00e3o representou uma das formas de a\u00e7\u00e3o coletiva e uniu as participantes em seus objetivos. Afora isso, colaborou para o desenvolvimento de estrat\u00e9gias, mobiliza\u00e7\u00f5es e participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das mulheres. O desenvolvimento de ideias, opini\u00f5es e interpreta\u00e7\u00f5es sobre o papel da mulher e o trabalho feminino colaborou para fortalecer o pr\u00f3ximo passo que esse coletivo de mulheres realizaria: a conquista do ensino superior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A falta de ensino superior dificultava a sua entrada nos c\u00edrculos intelectuais. Por isso, a ideia de uma organiza\u00e7\u00e3o independente de ensino superior para mulheres e a sua cria\u00e7\u00e3o estiveram intimamente ligadas ao desenrolar da luta pela igualdade e emancipa\u00e7\u00e3o. A partir da Artel, identificaram problemas de g\u00eanero, criaram organiza\u00e7\u00f5es volunt\u00e1rias e lan\u00e7aram as bases de um novo tipo de atividade social e solid\u00e1ria: as atividades das mulheres para as mulheres.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#f5f5f5f5\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/1302052521861440\">Ana Let\u00edcia Prado de Campos<\/a> \u00e9 mestranda em Estudos da Linguagem no PPG em Letras. \u00c9 bacharela em Letras &#8211; Tradutor Portugu\u00eas e Espanhol. \u00c9 coordenadora do grupo de estudos \u201cMulheres russas do s\u00e9culo XIX: em textos e contextos\u201d, do PPG em Letras, e integrante do grupo de pesquisa \u201cSLAV &#8211; N\u00facleo de Estudos em Eslav\u00edstica\u201d, da UFRJ.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-black-color has-text-color wp-block-paragraph\" style=\"font-size:12px\"><em>&#8220;As manifesta\u00e7\u00f5es expressas neste ve\u00edculo n\u00e3o representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo | Ana Let\u00edcia Prado de Campos, mestranda em Letras, apresenta a hist\u00f3ria do projeto editorial que contribuiu para a transforma\u00e7\u00e3o do lugar das mulheres na sociedade russa no s\u00e9culo XIX<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/artel-uma-sociedade-feminista-de-tradutoras-russas\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":74611,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[53],"tags":[5060,5061,599,566,522,4281,273,5062,5063],"ppma_author":[2938],"class_list":["entry","author-gerente","has-excerpt","post-73272","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-artigo","tag-artel-editora-de-mulheres","tag-ativismo-feminista","tag-feminismo","tag-letras","tag-literatura","tag-livro","tag-mulher","tag-mulheres-russas","tag-sociedade-de-tradutoras"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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