{"id":75413,"date":"2024-01-11T07:30:00","date_gmt":"2024-01-11T10:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=75413"},"modified":"2024-01-11T08:12:33","modified_gmt":"2024-01-11T11:12:33","slug":"os-direitos-humanos-em-natividade-saldanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/os-direitos-humanos-em-natividade-saldanha\/","title":{"rendered":"Os direitos humanos em Natividade Saldanha\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Lingu\u00edstica, Letras e Artes | Henrique Machemer e Regina Zilbermann analisam, a partir dos princ\u00edpios de liberdade e igualdade, a obra po\u00e9tica do escritor que teve participa\u00e7\u00e3o na Revolu\u00e7\u00e3o Pernambucana e na Confedera\u00e7\u00e3o do Equador<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Por Henrique Machemer e Regina Zilbermann<br>*Foto: Marcelo Pires\/JU<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-accent-background-color has-background has-small-font-size wp-block-paragraph\" style=\"padding-top:var(--wp--preset--spacing--60);padding-right:var(--wp--preset--spacing--80);padding-bottom:var(--wp--preset--spacing--60);padding-left:var(--wp--preset--spacing--80)\">Nesta edi\u00e7\u00e3o, o JU apresenta uma s\u00e9rie de artigos com relatos de pesquisas que receberam men\u00e7\u00e3o honrosa no \u00faltimo Sal\u00e3o de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica (SIC). Dessa forma, destacamos a pluralidade do conhecimento produzido na Universidade e a import\u00e2ncia da forma\u00e7\u00e3o de jovens pesquisadores para o desenvolvimento e a qualifica\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia brasileira. Clique <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/tag\/sic-2023\/\">aqui <\/a>para acessar todos os artigos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jos\u00e9 da Natividade Saldanha (1796-1830) foi um poeta pernambucano e afro-brasileiro atuante no come\u00e7o do s\u00e9culo XIX, filho ileg\u00edtimo de um homem branco e uma mulher negra. O autor, de estilo entre o neocl\u00e1ssico e o rom\u00e2ntico, figura na maioria das hist\u00f3rias da literatura brasileira mais consultadas, mas \u00e9 mencionado muitas vezes apenas de passagem ou classificado como literariamente desimportante. Nossa pesquisa, realizada no Instituto de Letras da UFRGS sob orienta\u00e7\u00e3o de Regina Zilberman como parte do projeto \u201cLiteratura e Direitos Humanos\u201d, n\u00e3o buscou necessariamente promover uma reavalia\u00e7\u00e3o dos m\u00e9ritos liter\u00e1rios do autor. Antes, foi nossa principal inten\u00e7\u00e3o estudar sua obra por meio da lente dos direitos humanos e buscar o que nessa produ\u00e7\u00e3o se relaciona a esses t\u00f3picos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para isso, realizamos a leitura da poesia do autor \u2013 g\u00eanero, dentre aqueles que Natividade Saldanha praticou, que optamos por privilegiar \u2013 atentos aos poss\u00edveis pontos de contato entre esta e os princ\u00edpios de liberdade e igualdade, como formulados na Revolu\u00e7\u00e3o Francesa em 1789 e na <em>Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos do Homem e do Cidad\u00e3o<\/em>, no mesmo ano. A essa leitura se somou um estudo da fortuna cr\u00edtica dispon\u00edvel a respeito do autor, por acreditarmos que a obra de Natividade Saldanha, para ser bem dimensionada, deve ser, antes de tudo, situada em sua biografia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo antes do envolvimento com a Confedera\u00e7\u00e3o do Equador, a preocupa\u00e7\u00e3o com os direitos humanos j\u00e1 exercia influ\u00eancia na vida do poeta. Em 1817, Saldanha esteve engajado com a revolta republicana que ficaria conhecida como <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/independencia-200\/2022\/05\/o-que-foi-a-revolucao-pernambucana.shtml\">Revolu\u00e7\u00e3o Pernambucana<\/a>, cujo fracasso impeliu a primeira sa\u00edda do Brasil por parte do autor. Ele partiu para Portugal, onde estudou direito em Coimbra, retornando a Pernambuco apenas em 1823. Exerceu durante a maior parte do ano seguinte a profiss\u00e3o de advogado, com algum sucesso, segundo indicam os seus bi\u00f3grafos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1824, teve lugar o evento que ocuparia o centro da vida de Natividade Saldanha: a <a href=\"https:\/\/educacao.uol.com.br\/disciplinas\/historia-brasil\/confederacao-do-equador-movimento-extrapolou-a-simples-conspiracao.htm\">Confedera\u00e7\u00e3o do Equador<\/a>, um movimento republicano que se opunha \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o da Assembleia Constituinte, golpe promovido por D Pedro I em 1823, do qual decorreu no ano seguinte a imposi\u00e7\u00e3o de uma constitui\u00e7\u00e3o absolutista. A Confedera\u00e7\u00e3o do Equador procurou estabelecer um governo alternativo, rebelde e republicano, que Saldanha integrou na posi\u00e7\u00e3o de secret\u00e1rio. O governo tinha planos ambiciosos, dentre eles a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura \u2013 nenhuma dessas ideias p\u00f4de, por\u00e9m, se efetuar. A Confedera\u00e7\u00e3o do Equador foi ainda em 1824 esmagada pelo governo monarquista, e seus articuladores, condenados \u00e0 morte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Natividade Saldanha deixou o Brasil ent\u00e3o uma segunda vez, para um ex\u00edlio do qual jamais retornaria. O poeta esteve, durante mais ou menos um ano, num constante tr\u00e2nsito. Do Brasil, foi para os Estados Unidos; de l\u00e1, para a Fran\u00e7a; da Fran\u00e7a, para a Inglaterra; da Inglaterra, para a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Gr%C3%A3-Col%C3%B4mbia\">Gr\u00e3-Col\u00f4mbia<\/a>, onde permaneceria at\u00e9 o fim da vida. Em cada lugar por que passou, Saldanha encontrou dificuldades: sofreu racismo nos EUA, foi considerado elemento subversivo na Fran\u00e7a e de l\u00e1 deportado (n\u00e3o sem antes ter tido confiscados diversos manuscritos seus, de textos hoje considerados perdidos), conheceu a pobreza na Inglaterra e na Gr\u00e3-Col\u00f4mbia. N\u00e3o deixou, por\u00e9m de escrever, de fazer crescer uma obra que traduz amplamente sua vida de engajamento pol\u00edtico e o duro sofrimento decorrente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na poesia que escreveu j\u00e1 fora do Brasil, podemos encontrar refer\u00eancias ao ex\u00edlio e \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ou mesmo poemas que trazem esses assuntos como motivo principal. Tamb\u00e9m pode ser observada em seu texto a articula\u00e7\u00e3o que o poeta realizava entre republicanismo e antimonarquismo e as ideias de liberdade e igualdade. Em mais de um poema, encontraremos Natividade Saldanha questionando os direitos excessivos dos monarcas partindo do pressuposto de que, uma vez que os homens s\u00e3o iguais, lhes cabem direitos iguais. Essa concep\u00e7\u00e3o vem muitas vezes acompanhada da ideia da morte, que nivelaria todos os homens, demonstrando a igualdade entre eles:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Reis, e Vassalos, Servos, e Senhores<\/em><br><em>Tornam-se em breve tempo \u00e0 cinza pura,<\/em><br><em>Servem de pasto a vermes roedores.<\/em><br><em>Ama o teu Povo: rege-o com ternura<\/em><br><em>Pois s\u00e3o Vassalos, Reis, e Imperadores<\/em><br><em>Iguais no ber\u00e7o, iguais na sepultura.<\/em><\/p>\n<cite>Jos\u00e9 da Natividade Saldanha<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Saldanha escreveu ainda odes em homenagem a personagens hist\u00f3ricos e contempor\u00e2neos pernambucanos, o que oferece igualmente uma oportunidade de estudarmos a ideia de Brasil que fazia o poeta. Dentre as figuras que decide homenagear, encontramos Frei Caneca \u2013 tamb\u00e9m um republicano, uma das principais lideran\u00e7as da Confedera\u00e7\u00e3o do Equador \u2013, Henrique Dias \u2013 um militar negro, considerado um dos her\u00f3is da Insurrei\u00e7\u00e3o Pernambucana (1645-1654) \u2013 e Felipe Camar\u00e3o \u2013 um importante l\u00edder ind\u00edgena, tamb\u00e9m atuante na Insurrei\u00e7\u00e3o Pernambucana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nossa pesquisa buscou mapear inst\u00e2ncias em que o envolvimento do autor com os direitos humanos est\u00e1 patente em suas diversas formas. Esses excertos foram extra\u00eddos e compilados, formando um <em>corpus<\/em> que busca destacar a proximidade dessa poesia com a luta pelos direitos humanos. A partir desse <em>corpus<\/em>, foi produzido um <a href=\"https:\/\/textopoetico.emnuvens.com.br\/rtp\/article\/view\/1022\/621\">artigo<\/a> explicitando a presen\u00e7a do t\u00f3pico na obra de Saldanha. Ao leitor contempor\u00e2neo, talvez pare\u00e7a claro o engajamento do poeta pernambucano com esses temas, mas nem sempre esse envolvimento foi devidamente apreciado ao longo da hist\u00f3ria da literatura brasileira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Destac\u00e1-lo constitui, ent\u00e3o, uma tentativa de lan\u00e7ar um novo olhar a esse aspecto da produ\u00e7\u00e3o de Natividade Saldanha, bem como \u00e0 hist\u00f3ria dos esfor\u00e7os em prol dos direitos humanos dentro de nossa literatura. A luta pelos direitos humanos e contra o racismo existe h\u00e1 muito tempo no Brasil, e recuperar sua hist\u00f3ria \u00e9 recuperar a hist\u00f3ria de seus agentes. Para redescobrir a parte dessa hist\u00f3ria que teve lugar dentro da literatura, para melhor delimitar seus contornos, Natividade Saldanha \u00e9 uma figura \u00e0 qual devemos retornar.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-accent-background-color has-background wp-block-paragraph\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/8511477801440385\">Henrique Machemer<\/a> \u00e9 bacharelando em Letras.<br><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/4665308843785788\">Regina Zilberman<\/a> \u00e9 professora do Instituto de Letras e do PPG em Letras.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cover aligncenter\" style=\"margin-top:0;padding-top:4vw;padding-right:10vw;padding-bottom:4vw;padding-left:10vw;min-height:291px;aspect-ratio:unset;\"><span aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-cover__background has-background-dim-80 has-background-dim\" style=\"background-color:#151515\"><\/span><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1010\" class=\"wp-block-cover__image-background wp-image-75297\" alt=\"Em primeiro plano, pr\u00e9dio do Museu da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, localizado no centro de Porto Alegre. Ele \u00e9 bege, com detalhes coloridos. No fundo, aparece o c\u00e9u azul e tamb\u00e9m o topo do pr\u00e9dio da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o.\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/ensaioufrgs-14-1-1-1.jpg\" style=\"object-position:50% 56%\" data-object-fit=\"cover\" data-object-position=\"50% 56%\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/ensaioufrgs-14-1-1-1.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/ensaioufrgs-14-1-1-1-300x202.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/ensaioufrgs-14-1-1-1-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/ensaioufrgs-14-1-1-1-768x517.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/ensaioufrgs-14-1-1-1-465x313.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/ensaioufrgs-14-1-1-1-695x468.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><div class=\"wp-block-cover__inner-container is-layout-flow wp-block-cover-is-layout-flow\">\n<div class=\"wp-block-group wp-container-content-9cfa9a5a is-vertical is-nowrap is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-694522eb wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p class=\"has-text-align-left has-text-color has-source-serif-pro-font-family wp-block-paragraph\" style=\"color:#d8a557;font-size:33px;font-style:italic;font-weight:900;line-height:0.8;text-transform:none\">Ensaio<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\" style=\"font-size:14px\">As imagens dos artigos desta edi\u00e7\u00e3o comp\u00f5em o ensaio fotogr\u00e1fico Entrelinhas, produzido por Marcelo Pires, estudante de Jornalismo da UFRGS e bolsista de Fotografia do JU. Confira o <a href=\"http:\/\/ufrgs.br\/jornal\/ensaio-entrelinhas\/\">ensaio completo<\/a>.<\/p>\n<\/div>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lingu\u00edstica, Letras e Artes | Henrique Machemer e Regina Zilbermann analisam, a partir dos princ\u00edpios de liberdade e igualdade, a obra po\u00e9tica do escritor que teve participa\u00e7\u00e3o na Revolu\u00e7\u00e3o Pernambucana e na Confedera\u00e7\u00e3o do Equador<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/os-direitos-humanos-em-natividade-saldanha\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":76067,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[53],"tags":[418,5163,522,5162,5161,91,5152],"ppma_author":[2938],"class_list":["entry","author-gerente","has-excerpt","post-75413","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-artigo","tag-direitos-humanos","tag-exilio","tag-literatura","tag-natividade-saldanha","tag-pernambuco","tag-poesia","tag-sic-2023"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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