{"id":75733,"date":"2024-01-25T08:31:00","date_gmt":"2024-01-25T11:31:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=75733"},"modified":"2024-01-25T09:42:53","modified_gmt":"2024-01-25T12:42:53","slug":"criancas-e-adolescentes-trabalham-nao-queremos-formar-mamiferos-de-luxo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/criancas-e-adolescentes-trabalham-nao-queremos-formar-mamiferos-de-luxo\/","title":{"rendered":"Crian\u00e7as e adolescentes trabalham, n\u00e3o queremos formar mam\u00edferos de luxo"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | Laura Souza Fonseca, professora da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, e os estudantes Sabrina dos Santos, Mariana Quevedo de Ara\u00fajo e Luccas de S\u00e1 Soares defendem o envolvimento do p\u00fablico infantojuvenil em atividades laborais que respeitem suas capacidades e tenham um sentido formativo<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Por Laura Souza Fonseca, Sabrina dos Santos, Mariana Quevedo de Ara\u00fajo e Luccas de S\u00e1 Soares<br>*<em>Ilustra\u00e7\u00e3o<\/em>:<\/em> <em><a href=\"http:\/\/www.instagram.com\/lilianmaus\">Lilian Maus<\/a><\/em>\/<em>Programa de Extens\u00e3o Hist\u00f3rias e Pr\u00e1ticas Art\u00edsticas, DAV-IA\/UFRGS<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como grupo acad\u00eamico, fazemos o embate te\u00f3rico-metodol\u00f3gico em torno de consignas que circunscrevam a idade \u00e0 inf\u00e2ncia e perspectivam erradicar o trabalho. Nessa escrita,&nbsp; refletimos sobre uma frase recorrente em campanhas de combate ao trabalho infantojuvenil: \u201cCrian\u00e7a n\u00e3o trabalha, crian\u00e7a d\u00e1 trabalho\u201d. N\u00e3o temos d\u00favidas de que cuidar d\u00e1 trabalho, no entanto, entendemos que crian\u00e7as e adolescentes devem trabalhar, sim, de acordo com suas possibilidades e sem infringir suas necessidades. N\u00e3o ao trabalho explorado, sim \u00e0s formas de partilha e de trabalho na perspectiva formativa. &nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde o materialismo hist\u00f3rico dial\u00e9tico, acreditamos que o trabalho se constitui um processo entre a humanidade e a natureza, quando a primeira atua mediando, controlando e regulando sua rela\u00e7\u00e3o com a segunda. Processo que, a um s\u00f3 tempo, tem duas faces, uma permanente e outra que se modifica nos diferentes modos de produ\u00e7\u00e3o &#8211; falamos de ontologia e hist\u00f3ria. Ontologicamente, o trabalho se forma na exist\u00eancia, produzindo condicionantes \u00e9tico-pol\u00edticos de um ser humano que se movimenta para um ser social. Historicamente, o trabalho foi escraviza\u00e7\u00e3o, servid\u00e3o e hoje assume o car\u00e1ter assalariado; neste, somos for\u00e7a de trabalho com valor de troca nas rela\u00e7\u00f5es capitalistas de produ\u00e7\u00e3o. Assalariamento esgar\u00e7ado pela superexplora\u00e7\u00e3o e o aprofundamento das opress\u00f5es.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Retomamos, como s\u00edntese, as duas cr\u00edticas iniciais e avan\u00e7amos sob o eixo da dupla face do trabalho: a defesa do trabalho infantojuvenil como princ\u00edpio formativo, tendo como mote o trabalho dom\u00e9stico familiar, e a forma ajuda que, em nossa experi\u00eancia e na revis\u00e3o bibliogr\u00e1fica realizada, se esconda a explora\u00e7\u00e3o em uma suposta colabora\u00e7\u00e3o. O esfor\u00e7o realizado justifica-se porque a precis\u00e3o conceitual \u00e9 uma necessidade para avaliar pol\u00edticas p\u00fablicas de Estado e parcerias p\u00fablico-privadas como pol\u00edticas de governo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Historicamente, o trabalho dom\u00e9stico foi delegado \u00e0s mulheres: cozinha, cuidado da prole, limpeza e organiza\u00e7\u00e3o da casa. Atividades estas que tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o pensadas como trabalho, e as mulheres neste papel n\u00e3o s\u00e3o consideradas trabalhadoras, cumprem sua \u201cobriga\u00e7\u00e3o\u201d ou seu papel de g\u00eanero na sociedade patriarcal. Isso naturaliza a dupla jornada feminina que, para al\u00e9m do trabalho formal, arca com o trabalho dom\u00e9stico; e, em casas onde n\u00e3o h\u00e1 a mulher-negra-empregada-dom\u00e9stica, o que a m\u00e3e n\u00e3o d\u00e1 conta, sobra para as filhas, constituindo o trabalho dom\u00e9stico infantojuvenil, mesmo quando nomeado &#8216;ajuda&#8217;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, as rela\u00e7\u00f5es de classe, ra\u00e7a&nbsp;e g\u00eanero sempre estiveram demarcadas: empregadas dom\u00e9sticas s\u00e3o, predominantes, mulheres negras e pertencentes a uma fra\u00e7\u00e3o mais precarizada da classe trabalhadora e que, n\u00e3o raro, ingressam nesse tipo de trabalho ainda na adolesc\u00eancia. Quando falamos em ra\u00e7a, torna-se ainda mais doloroso pensar \u201cQual o lugar esperado para as mulheres negras ocuparem?\u201d. Enquanto as empregadas brancas, por exemplo, poderiam ser governantas, as negras deveriam ficar sempre em fun\u00e7\u00f5es onde n\u00e3o fossem vistas. Na reflex\u00e3o de Gonzalez (1983):&nbsp;&#8220;Se a gente articular divis\u00e3o racial e sexual de trabalho fica at\u00e9 simples. Por que ser\u00e1 que ela s\u00f3 desempenha atividades que n\u00e3o implicam &#8216;lidar com o p\u00fablico&#8217;? Ou seja, em atividades em que n\u00e3o pode ser vista? Por que os an\u00fancios de emprego falam tanto em &#8216;boa apar\u00eancia&#8217;? Por que ser\u00e1 que, nas casas das madames, ela s\u00f3 pode ser cozinheira, arrumadeira ou faxineira, e raramente copeira? Por que \u00e9 &#8216;natural&#8217; que ela seja a servente nas escolas, supermercados, hospitais, etc. e tal?&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Importa analisar essas rela\u00e7\u00f5es impostas sobre os corpos de crian\u00e7as e adolescentes que, antes de se pensar na inser\u00e7\u00e3o precoce ou desprotegida no mundo do trabalho, deveriam ter suas vidas preservadas e o direito a brincar e estudar garantidos \u2013 sua autoestima fortalecida. Ressaltamos o quanto o trabalho infantojuvenil dom\u00e9stico continua naturalizado e consequentemente invisibilizado. Naturalizado no sentido de que, desde muito tempo os cuidados com a casa eram deixados a cargo das mulheres, portanto \u00e9 \u201cnatural\u201d que as gera\u00e7\u00f5es seguintes sigam o mesmo caminho, n\u00e3o importa se \u00e9 uma menina de 10 anos \u201cajudando\u201d em casa quando faz todo o servi\u00e7o dom\u00e9stico sozinha, ou se est\u00e1 trabalhando na casa de terceiros. E \u00e9 invisibilizado quando \u00e9 visto como algo natural, dessa forma n\u00e3o chama a aten\u00e7\u00e3o da sociedade e sendo invis\u00edvel aos olhos do outro, torna dif\u00edcil a fiscaliza\u00e7\u00e3o e a percep\u00e7\u00e3o de trabalho explorado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, n\u00e3o pretendemos erradicar o trabalho, mas, sim, o car\u00e1ter alienante\/explorat\u00f3rio que assume na sociedade cindida em classes, o que passa, necessariamente, pela supera\u00e7\u00e3o dessa sociedade. Defendemos que crian\u00e7as e adolescentes devam trabalhar, respeitando suas capacidades, em um sentido formativo. Todes devem aprender a arrumar sua cama, seu quarto, lavar sua lou\u00e7a e suas roupas \u00edntimas, e manter limpo e organizado o ambiente onde vivem, e isso vale para a casa, o abrigo, a escola, a pra\u00e7a, a rua&#8230;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A precariza\u00e7\u00e3o generalizada das condi\u00e7\u00f5es de subsist\u00eancia da classe trabalhadora produzida por agendas de superexplora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho e espolia\u00e7\u00e3o de direitos, pelo aumento do custo de vida, imp\u00f5e, por uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia das fam\u00edlias, que crian\u00e7as e adolescentes vendam sua for\u00e7a de trabalho. Sem garantir condi\u00e7\u00f5es dignas laborais, o adulto provedor vem sofrendo esbulho, tendo de passar o dia fora de casa, a sua prole assume as tarefas \u201cdo lar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 indispens\u00e1vel educarmos nossas crian\u00e7as e adolescentes \u2212 independentemente de classe social \u2212 pelo trabalho. De certo n\u00e3o se trata de colocar crian\u00e7as e adolescentes a faxinar casas, escolas e abrigos, mas por que n\u00e3o guardar brinquedos\/materiais? Colocar o lixo produzido na lixeira? Levar a lou\u00e7a usada para a pia quando ainda n\u00e3o consegue lavar a lou\u00e7a! Ou seguiremos formando seres que n\u00e3o veem problema em viver da explora\u00e7\u00e3o de outros seres. Para n\u00f3s, crian\u00e7as e adolescentes trabalham: com Gramsci, n\u00e3o queremos formar mam\u00edferos de luxo.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-accent-background-color has-background wp-block-paragraph\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/4833904551127248\">Laura Souza Fonseca<\/a> \u00e9 professora titular da \u00e1rea de Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos (EJA) na Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o.<br><a href=\"https:\/\/lattes.cnpq.br\/7776112887128755\">Sabrina dos Santos<\/a> \u00e9 graduanda em Hist\u00f3ria e bolsista de pesquisa.<br><a href=\"https:\/\/lattes.cnpq.br\/4588513242440776\">Mariana Quevedo de Ara\u00fajo<\/a> \u00e9 graduanda em Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica e bolsista de extens\u00e3o.<br><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/5641507192344050\">Luccas de S\u00e1 Soares<\/a> \u00e9 graduando em Hist\u00f3ria e bolsista de extens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-black-color has-text-color wp-block-paragraph\" style=\"font-size:12px\"><em>&#8220;As manifesta\u00e7\u00f5es expressas neste ve\u00edculo n\u00e3o representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo | Laura Souza Fonseca, professora da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, e os estudantes Sabrina dos Santos, Mariana Quevedo de Ara\u00fajo e Luccas de S\u00e1 Soares defendem o envolvimento do p\u00fablico infantojuvenil em atividades laborais que respeitem suas capacidades e tenham um sentido formativo<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/criancas-e-adolescentes-trabalham-nao-queremos-formar-mamiferos-de-luxo\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":76999,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[53],"tags":[2767,5236,278,5238,196,5235],"ppma_author":[2938],"class_list":["entry","author-gerente","has-excerpt","post-75733","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-artigo","tag-adolescentes","tag-classes","tag-educacao","tag-materialismo-historico","tag-trabalho","tag-trabalho-infantojuvenil"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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