{"id":77821,"date":"2024-03-07T07:50:00","date_gmt":"2024-03-07T10:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=77821"},"modified":"2024-10-08T10:10:57","modified_gmt":"2024-10-08T13:10:57","slug":"iniciativas-de-difusao-da-ciencia-esbarram-no-distanciamento-que-persiste-entre-saberes-cientificos-e-populares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/iniciativas-de-difusao-da-ciencia-esbarram-no-distanciamento-que-persiste-entre-saberes-cientificos-e-populares\/","title":{"rendered":"Iniciativas de difus\u00e3o da ci\u00eancia esbarram no distanciamento que persiste entre saberes cient\u00edficos e populares"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Populariza\u00e7\u00e3o | As novas tecnologias e os ambientes por elas gerados potencializaram os meios de acesso \u00e0 ci\u00eancia, mas a intera\u00e7\u00e3o, a sensibilidade e a contextualiza\u00e7\u00e3o de conte\u00fados permanecem imperativas para a compreens\u00e3o dos distintos saberes, avaliam pesquisadores<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Foto: Dentro da sala de aula, estudantes t\u00eam acesso \u00e0 ci\u00eancia de forma t\u00e9cnica, mas ainda assim podem trazer conhecimentos <\/em><br><em>aprendidos fora dos ambientes estudantis, como em livros e revistas, para auxiliar no entendimento. (Foto: Marcelo Pires\/JU)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cAos meus 10 anos, quando estudava em col\u00e9gio de freiras, ganhei de meu pai um \u00e1lbum chamado <em>El Porqu\u00e9 de las cosas<\/em>. Ele tinha mais de 200 figurinhas, que abrangiam todas as \u00e1reas das ci\u00eancias. Lembro que aquilo mobilizou as crian\u00e7as do lugar em que eu vivia. Eu era observadora; aquele \u00e1lbum despertou o meu interesse pela leitura, fiquei muito atenta \u00e0s coisas da Sa\u00fade.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa lembran\u00e7a da pesquisadora Elvira Alicia Aparicio Cordero sobre a sua primeira aproxima\u00e7\u00e3o com a ci\u00eancia, em Jauja, sua terra natal no interior do Peru, est\u00e1 longe da realidade de muitas inf\u00e2ncias urbanas atuais, dominadas pelas tecnologias e pelas rela\u00e7\u00f5es virtuais. \u201cA cidade mal tinha telefone fixo e TV. As pessoas se comunicavam via tel\u00e9grafo e r\u00e1dio\u201d, lembra a pesquisadora mais de quatro d\u00e9cadas depois. Em comum com o presente h\u00e1 o convite \u00e0 curiosidade dos jovens como um importante fator para despertar o interesse em descobrir o funcionamento das coisas e a relev\u00e2ncia desse incentivo por meio de iniciativas de populariza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, se nos anos recentes se transformaram aceleradamente os espectros, os meios, o volume e a velocidade de difus\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o \u2013 e com isso as formas de acesso \u00e0 ci\u00eancia \u2013, isso n\u00e3o significa necessariamente que os saberes acad\u00eamicos se popularizaram em ritmo e qualidade equivalentes. Por depender de recursos geridos por interesses que mudam em cada governo, \u00e9 normal que as pol\u00edticas p\u00fablicas para a populariza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, e com elas os programas e projetos nesse setor, avancem em descompasso com as demandas locais.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/A-Descoberta-do-Mundo-Elvira-segunda-da-Esq.-p.-Dir-nos-Anos-80-no-Peru-ainda-estudante-em-um-colegio-de-Freiras-1-1.jpeg\" alt=\"Quatro jovens estudantes aparecem posando para foto, com as m\u00e3os na cintura. Elas est\u00e3o uniformizadas, por\u00e9m com cal\u00e7as de cores diferentes.\" class=\"wp-image-78523\" style=\"width:1000px\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/A-Descoberta-do-Mundo-Elvira-segunda-da-Esq.-p.-Dir-nos-Anos-80-no-Peru-ainda-estudante-em-um-colegio-de-Freiras-1-1.jpeg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/A-Descoberta-do-Mundo-Elvira-segunda-da-Esq.-p.-Dir-nos-Anos-80-no-Peru-ainda-estudante-em-um-colegio-de-Freiras-1-1-300x200.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/A-Descoberta-do-Mundo-Elvira-segunda-da-Esq.-p.-Dir-nos-Anos-80-no-Peru-ainda-estudante-em-um-colegio-de-Freiras-1-1-175x117.jpeg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/A-Descoberta-do-Mundo-Elvira-segunda-da-Esq.-p.-Dir-nos-Anos-80-no-Peru-ainda-estudante-em-um-colegio-de-Freiras-1-1-768x512.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/A-Descoberta-do-Mundo-Elvira-segunda-da-Esq.-p.-Dir-nos-Anos-80-no-Peru-ainda-estudante-em-um-colegio-de-Freiras-1-1-391x260.jpeg 391w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/A-Descoberta-do-Mundo-Elvira-segunda-da-Esq.-p.-Dir-nos-Anos-80-no-Peru-ainda-estudante-em-um-colegio-de-Freiras-1-1-465x310.jpeg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/A-Descoberta-do-Mundo-Elvira-segunda-da-Esq.-p.-Dir-nos-Anos-80-no-Peru-ainda-estudante-em-um-colegio-de-Freiras-1-1-695x463.jpeg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">A Descoberta do Mundo: Elvira Cordero (segunda da esquerda para a direita) nos anos 1980, no Peru, ainda estudante em um col\u00e9gio de freiras. (Foto: Acervo pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cAs escolas p\u00fablicas brasileiras, sobretudo nos projetos diferenciados de educa\u00e7\u00e3o, como escolas quilombolas e ind\u00edgenas, atravessam de forma geral problemas estruturais no que tange ao acesso a computadores, internet e cultura digital\u201d, repara o professor do Instituto de F\u00edsica Alan Alves Brito, um entusiasta no trabalho de levar o saber acad\u00eamico para al\u00e9m dos muros da universidade. \u201cH\u00e1 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o fundamental de forma\u00e7\u00e3o inicial e continuada de professores para o letramento computacional e digital\u201d, complementa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O acesso \u00e0s tecnologias \u2013 e a forma\u00e7\u00e3o docente para utiliz\u00e1-las \u2013, todavia, \u00e9 apenas um entre muitos outros aspectos que cercam o desafio da populariza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia. O ambiente da escola, o engessamento dos curr\u00edculos, as abordagens e os usos limitados dos livros did\u00e1ticos, os mitos e preconceitos na ci\u00eancia, a desqualifica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de algumas \u00e1reas em detrimento de outras, enfim, um amplo espectro de condi\u00e7\u00f5es se apresenta ainda ao professor \u2013 tanto como obst\u00e1culos quanto como oportunidades \u2013 na empreitada de traduzir os diferentes saberes em aprendizado interessante, envolvente e prazeroso. No \u00e2mbito da Universidade, a extens\u00e3o \u00e9 uma dessas dimens\u00f5es poss\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Acessos e Interesses<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A trajet\u00f3ria de Elvira \u00e9, nesse sentido, tamb\u00e9m um exemplo de supera\u00e7\u00e3o de tais contradi\u00e7\u00f5es. Hoje naturalizada brasileira e p\u00f3s-doutora em Fisiologia pela UFRGS, a pesquisadora atua no Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema \u00danico de Sa\u00fade Hospital Moinhos de Vento (PROADI-SUS &#8211; HMV). Antes disso, por\u00e9m, seu percurso acad\u00eamico envolveu um trabalho marcante com comunidades escolares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2017, Elvira colaborou com sua ent\u00e3o ex-colega de p\u00f3s-doc, a professora Cristina Campos Carraro, na concep\u00e7\u00e3o do projeto \u201cFisiologia na Escola, Ci\u00eancia no Cotidiano\u201d. A iniciativa leva professores e alunos de gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da \u00e1rea da sa\u00fade para palestrar em escolas da capital e da regi\u00e3o metropolitana. S\u00e3o abordados temas como gravidez, doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis, sa\u00fade mental, vacinas, drogas, cuidados com o corpo, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cPor haver atendido alunos dos col\u00e9gios p\u00fablicos e ver de perto essa realidade, esse projeto contribuiu para o meu crescimento educacional, profissional e social. Al\u00e9m disso, me ajudou tamb\u00e9m no aprendizado sobre a import\u00e2ncia de cuidar e saber como funciona o organismo como um todo\u201d<\/p>\n<cite>Elvira Alicia Aparicio Cordero<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vinculado ao Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Fisiologia da UFRGS, o projeto foi interrompido em 2019, sendo retomado em 2022 com a coordena\u00e7\u00e3o de Cristina, j\u00e1 como professora adjunta da Universidade, atualmente lotada no Laborat\u00f3rio de Fisiologia Cardiovascular. Com uma equipe de tr\u00eas professores, seis alunos daquele programa e um bolsista de inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 populariza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, esse trabalho j\u00e1 atendeu cerca de 600 alunos das redes p\u00fablica e privada de Porto Alegre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/propesq1\/csce\/\">Programa Ci\u00eancia na Sociedade Ci\u00eancia na Escola<\/a>, nas modalidades BIPOP (Bolsa de Inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 Populariza\u00e7\u00e3o da Ci\u00eancia) e BIENC (Bolsa de Inicia\u00e7\u00e3o ao Ensino de Ci\u00eancias), incentiva projetos de docentes da Universidade que desenvolvem ou tenham interesse em desenvolver a\u00e7\u00f5es nessa \u00e1rea, concedendo bolsas a alunos de gradua\u00e7\u00e3o. A bolsa de ensino se destina \u00e0 atua\u00e7\u00e3o em ambientes escolares; j\u00e1 a de populariza\u00e7\u00e3o \u00e9 voltada a a\u00e7\u00f5es em espa\u00e7os n\u00e3o formais de educa\u00e7\u00e3o (museus, ind\u00fastrias, parques, ONGs, etc.).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cS\u00e3o bolsas dentro da proposta de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, sempre direcionadas ao orientador, mas podem surgir de uma sugest\u00e3o de um aluno da Universidade, mesmo no in\u00edcio de seu curso\u201d, explica Bruna Bertoglio Lorenzoni, t\u00e9cnica da Divis\u00e3o de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica da Pr\u00f3-reitoria de Pesquisa da UFRGS, ela mesmo com doutorado em Educa\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Desafios para construir parcerias<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda que desenvolva atividades peri\u00f3dicas nas redes de ensino, uma das dificuldades para a realiza\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es tem a ver com a pr\u00f3pria identifica\u00e7\u00e3o da demanda. \u201cPoder\u00edamos atender muito mais escolas, mas isso n\u00e3o acontece por causa dessa dificuldade de comunica\u00e7\u00e3o. Eu procuro o n\u00famero de telefone das escolas na internet e ligo. Ent\u00e3o me passam o contato da diretora ou coordenadora, mas muitas vezes \u00e9 dif\u00edcil falar com elas\u201d, explica a professora Cristina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um outro desafio que se coloca no estabelecimento de parcerias entre escolas e projetos cient\u00edficos externos tem a ver com os conte\u00fados das propostas. \u201cMuitos desses projetos n\u00e3o ofertam uma continuidade adequada ao calend\u00e1rio escolar ou ainda n\u00e3o oferecem um tema afinado com a necessidade mais urgente da institui\u00e7\u00e3o. Pode acontecer a partir disso um impedimento, descr\u00e9dito ou ainda a descontinuidade por parte da escola\u201d, observa a pedagoga Vanise Baptista, tamb\u00e9m servidora da UFRGS e autora da disserta\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/117621\">A populariza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia a partir da an\u00e1lise do Programa &#8220;Ci\u00eancia na Sociedade, Ci\u00eancia na Escola&#8221; desenvolvido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em sua pesquisa, Vanise explora a possibilidade de \u201cdivulgar a ci\u00eancia a partir de uma ponte entre a Universidade e outros lugares atrav\u00e9s da difus\u00e3o n\u00e3o formal do conhecimento, acompanhada de uma rede de recursos culturais, cient\u00edficos e educacionais, dando espa\u00e7o de fala a cada grupo social que aderia ao projeto ofertado\u201d, explica. A pesquisa compreende o per\u00edodo entre os anos de 2009 e 2013 da vig\u00eancia daquele programa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob um conceito governamental, a populariza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia tem a ver com o \u201cato de difundir e divulgar a ci\u00eancia para toda sociedade, em meio a tantos desafios sociais, ambientais, econ\u00f4micos e tecnol\u00f3gicos, entre outros\u201d (<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mcti\/pt-br\/acompanhe-o-mcti\/popciencia\">MCTI<\/a>). Essa defini\u00e7\u00e3o \u00e9, no entanto, concebida tamb\u00e9m sob outras perspectivas. Em seu artigo <a href=\"https:\/\/periodicos.ufsc.br\/index.php\/fisica\/article\/view\/1546\/5617\">Populariza\u00e7\u00e3o da Ci\u00eancia: uma revis\u00e3o conceitual<\/a>, os professores Marcelo Gomes Germano (UEPB) e Wojciech Andrzej Kulesza (UFPB) destacam, por exemplo, esse conceito sob as dimens\u00f5es da educa\u00e7\u00e3o popular, da transposi\u00e7\u00e3o de ideias e da recria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Discursos e Hierarquias<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob outra perspectiva, o professor Alan Alves Brito destaca os estere\u00f3tipos presentes na constru\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico como um fator limitante para a compreens\u00e3o da ci\u00eancia nas escolas. \u201cO discurso da &#8216;autoridade cient\u00edfica&#8217; \u00e9 dominante nas viv\u00eancias cient\u00edficas. H\u00e1 o predom\u00ednio do vi\u00e9s positivista das ci\u00eancias, quase sempre vistas como neutras, objetivas, ate\u00f3ricas e a-hist\u00f3ricas. Eu, particularmente, penso que deve haver um di\u00e1logo entre todas as ci\u00eancias, que precisam estar comprometidas com a democracia no sentido mais profundo da palavra.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 a professora da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o Mar\u00edlia Forgearini Nunes salienta que essa imagem contrastante, que afasta o exerc\u00edcio cient\u00edfico do que se faz na escola, tem a ver com raz\u00f5es diversas, como a falta de infraestrutura, a aus\u00eancia de apoio ao estudo e \u00e0 pesquisa e a perman\u00eancia de uma vis\u00e3o tradicional do que \u00e9 fazer ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA rela\u00e7\u00e3o teoria e pr\u00e1tica assumida sob a ordem da diferen\u00e7a, e n\u00e3o da complementaridade, tamb\u00e9m refor\u00e7a o afastamento de modo geral\u201d, analisa Mar\u00edlia, que \u00e9 docente no Departamento de Ensino e Curr\u00edculo, na \u00e1rea de Did\u00e1tica dos anos iniciais, leitura e escrita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para ela, h\u00e1 espa\u00e7os tradicionais na escola, como a biblioteca escolar e a quadra de esportes, que t\u00eam potencialidades para o desenvolvimento do aprendizado cient\u00edfico e que deveriam ser mais bem explorados. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO exerc\u00edcio cient\u00edfico ainda \u00e9 lido sob a \u00f3tica exclusiva do fazer associado \u00e0s ci\u00eancias naturais, e n\u00e3o do exerc\u00edcio em si, que envolve imagina\u00e7\u00e3o, m\u00e9todo para abordar um problema e a solu\u00e7\u00e3o, processos que podem ser aplicados em qualquer \u00e1rea do conhecimento escolarizado ou da vida\u201d<\/p>\n<cite>Mar\u00edlia Forgearini Nunes<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob uma perspectiva das rela\u00e7\u00f5es entre as disciplinas escolares e a sua visibilidade na abordagem da imagem da ci\u00eancia, Alan destaca outro problema, que \u00e9 o de uma certa hierarquia entre saberes. \u201cAs ci\u00eancias humanas e sociais entram para a hist\u00f3ria da ci\u00eancia como ci\u00eancias menores, o que \u00e9 um absurdo, uma vez que as ci\u00eancias humanas e sociais n\u00e3o apenas t\u00eam os seus construtos te\u00f3ricos, metodol\u00f3gicos e epist\u00eamicos particulares, como s\u00e3o fundamentais para nos ajudar a interpretar e descrever as realidades\u201d, considera.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir desse reconhecimento, o docente valoriza o papel das diversas \u00e1reas no despertar do interesse cient\u00edfico no aprendizado. \u201cH\u00e1, certamente, um projeto pol\u00edtico de poder por tr\u00e1s dessa hierarquiza\u00e7\u00e3o. Eu, particularmente, penso que deve haver di\u00e1logo entre todas as ci\u00eancias, que precisam estar comprometidas com a democracia no sentido mais profundo da palavra\u201d, arremata.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Atividade-sobre-estrelas-e-planetas-com-estudantes-do-Ensino-Fundamental-I-em-Gravatai_RS.-Foto_-Profa-Janice-1-1.jpg\" alt=\"Bra\u00e7os de pelo menos sete jovens estudantes est\u00e3o apontando para quadro de sala de aula, que cont\u00e9m proje\u00e7\u00e3o de constela\u00e7\u00f5es. O rosto dos estudantes n\u00e3o aparece, pois eles est\u00e3o de costas e apenas seus bra\u00e7os est\u00e3o em destaque.\" class=\"wp-image-78524\" style=\"width:1000px\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Atividade-sobre-estrelas-e-planetas-com-estudantes-do-Ensino-Fundamental-I-em-Gravatai_RS.-Foto_-Profa-Janice-1-1.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Atividade-sobre-estrelas-e-planetas-com-estudantes-do-Ensino-Fundamental-I-em-Gravatai_RS.-Foto_-Profa-Janice-1-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Atividade-sobre-estrelas-e-planetas-com-estudantes-do-Ensino-Fundamental-I-em-Gravatai_RS.-Foto_-Profa-Janice-1-1-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Atividade-sobre-estrelas-e-planetas-com-estudantes-do-Ensino-Fundamental-I-em-Gravatai_RS.-Foto_-Profa-Janice-1-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Atividade-sobre-estrelas-e-planetas-com-estudantes-do-Ensino-Fundamental-I-em-Gravatai_RS.-Foto_-Profa-Janice-1-1-391x260.jpg 391w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Atividade-sobre-estrelas-e-planetas-com-estudantes-do-Ensino-Fundamental-I-em-Gravatai_RS.-Foto_-Profa-Janice-1-1-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Atividade-sobre-estrelas-e-planetas-com-estudantes-do-Ensino-Fundamental-I-em-Gravatai_RS.-Foto_-Profa-Janice-1-1-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Atividade sobre astronomia cultural (constela\u00e7\u00f5es africanas e ind\u00edgenas) com jovens estudantes do ensino fundamental I leva a ci\u00eancia de diferentes formas para dentro da sala de aula. (Foto: Arquivo pessoal da professora Maria Priscilla dos Santos)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Livros, telas e pr\u00e1ticas<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O processo de acelera\u00e7\u00e3o das novas tecnologias enquanto fontes, ao mesmo tempo, de entretenimento, de informa\u00e7\u00e3o e de consumo modifica as rela\u00e7\u00f5es sociais e implica novos padr\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o que afetam diretamente o ambiente escolar. Nele, o livro did\u00e1tico \u00e9 \u00e0s vezes subestimado ou at\u00e9 desconsiderado enquanto recurso de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas para o professor Marcos Roberto de Oliveira, docente do Departamento de Bioqu\u00edmica da UFRGS, os livros s\u00e3o a fonte mais segura de conhecimento para estudantes de qualquer \u00e1rea, ainda que se torne necess\u00e1rio considerar outros meios. \u201cOs livros s\u00e3o o guia inicial da jornada e cumprem muito bem seu papel. No entanto, em minha \u00e1rea, a &#8216;famosa&#8217; Bioqu\u00edmica, sabe-se que n\u00e3o s\u00e3o o bastante devido, especialmente, \u00e0 complexidade dos temas que tratamos ali\u201d, acredita. J\u00e1 o professor Alan ressalta a import\u00e2ncia do livro enquanto alternativa acess\u00edvel e democr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEm muitos casos, o livro did\u00e1tico \u00e9 a \u00fanica possibilidade. Considero, com todas as cr\u00edticas que possamos fazer a ele, que o Programa Nacional do Livro e do Material Did\u00e1tico do Brasil \u00e9 uma pol\u00edtica p\u00fablica exitosa e que deve ser fortalecida\u201d<\/p>\n<cite>Alan Alves Brito<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma outra quest\u00e3o que emerge no desafio da populariza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia \u00e9 a de como interferir construtivamente nesse ambiente de novas m\u00eddias. Para a professora Mar\u00edlia Forgearini, isso n\u00e3o \u00e9 necessariamente um obst\u00e1culo para o exerc\u00edcio cient\u00edfico. \u201cAssim como os diferentes meios de comunica\u00e7\u00e3o desde a escrita j\u00e1 viveram seus momentos de serem considerados empecilhos, agora o celular est\u00e1 nessa posi\u00e7\u00e3o. Mais uma vez somos desafiados a entender como usar essa ferramenta de comunica\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m pode ser importante para a forma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d, acredita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O professor Alan, por sua vez, v\u00ea os ambientes propiciados pelas tecnologias como possibilidades instrumentais para a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica na escola. \u201cAs m\u00eddias sociais e tecnologias digitais t\u00eam ampliado as vozes de pessoas distintas e, nesses processos, mais do que nunca precisaremos aprofundar sobre como os di\u00e1logos entre cientistas e n\u00e3o cientistas poder\u00e3o acontecer, entendendo que os conhecimentos cient\u00edfico e popular se retroalimentam\u201d, repara.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De fato, a emerg\u00eancia das plataformas digitais como uma tecnologia acess\u00edvel, barata e abrangente oportunizou a visibilidade dos mais diferentes perfis de produtores e difusores de conte\u00fado \u2013 os chamados Influencers \u2013 que, no seu esteio, tamb\u00e9m abriram novas portas para a populariza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia. A esse respeito, recentemente a f\u00edsica brasileira Larissa Santos, que trabalha na China, foi destaque em uma revista nacional pelo trabalho de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que realiza por meio de seu perfil <a href=\"https:\/\/revistagalileu.globo.com\/sociedade\/noticia\/2023\/04\/fisica-brasileira-que-trabalha-na-china-divulga-ciencia-nas-redes-sociais.ghtml\">Bariog\u00eanese<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Trazendo isso para o debate em tela, o professor Alan considera que as novas m\u00eddias e seus canais exigem do docente um papel mediador na interpreta\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es acessadas nos suportes tecnol\u00f3gicos. \u201cOs professores s\u00e3o fundamentais para ajudar os estudantes a &#8216;lerem&#8217; essas informa\u00e7\u00f5es. O celular \u00e9, ele mesmo, um exemplo de aplica\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel por meio do desenvolvimento da ci\u00eancia, que n\u00e3o est\u00e1 apartada da ind\u00fastria cultural\u201d, considera.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cQuanto mais formas de exposi\u00e7\u00e3o do conhecimento, e quanto mais acess\u00edvel for a linguagem, melhor\u201d<\/p>\n<cite>Marcos Roberto de Oliveira<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Precisamente sobre esse aspecto, o professor Marcos chama a aten\u00e7\u00e3o para o car\u00e1ter consumista da informa\u00e7\u00e3o nesses meios. \u201cFalar em metabolismo virou mais \u2018marketing\u2019 que ci\u00eancia, manuten\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as. \u00c9 importante que os estudantes tenham indica\u00e7\u00f5es de como o conhecimento cient\u00edfico est\u00e1 pr\u00f3ximo, e n\u00e3o distante, como em filmes de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d, recomenda o docente.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-accent-background-color has-background wp-block-paragraph\"><strong>Saiba mais:<\/strong><br><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/propesq1\/csce\/\"><strong>Programa Ci\u00eancia na Sociedade Ci\u00eancia na Escola<\/strong><\/a> \u2013 iniciativa da Pr\u00f3-reitoria de Pesquisa que contempla projetos nas modalidades BIPOP (Bolsa de Inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 Populariza\u00e7\u00e3o da Ci\u00eancia) e BIENC (Bolsa de Inicia\u00e7\u00e3o ao Ensino de Ci\u00eancias)<br><br><strong>Fisiologia na Escola, Ci\u00eancia no Cotidiano<\/strong> \u2013 projeto desenvolvido pelo Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e Fisiologia da UFRGS, que realiza palestras em escolas p\u00fablicas de Porto Alegre. Contato com a professora Cristina Campos Carraro pelo e-mail cristinacamposcarraro@gmail.com<br><br><strong><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/@metabolismoDrdeOliveira\">Canal Metabolismo &#8211; Dr. Marcos Roberto de Oliveira<\/a><\/strong> \u2013 dicas, esclarecimentos e informa\u00e7\u00f5es sobre o metabolismo humano e temas afins<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Populariza\u00e7\u00e3o | As novas tecnologias e os ambientes por elas gerados potencializaram os meios de acesso \u00e0 ci\u00eancia, mas a intera\u00e7\u00e3o, a sensibilidade e a contextualiza\u00e7\u00e3o de conte\u00fados permanecem imperativas para a compreens\u00e3o dos distintos saberes, avaliam pesquisadores<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/iniciativas-de-difusao-da-ciencia-esbarram-no-distanciamento-que-persiste-entre-saberes-cientificos-e-populares\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":218,"featured_media":78525,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[605],"tags":[5386,5385,5383,5384,102,278,301,428,1331,5382,2844],"ppma_author":[4900],"class_list":["entry","author-ronaldobotelho","has-excerpt","post-77821","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-reportagens","tag-bienc","tag-bipop","tag-bolsa-de-iniciacao-a-popularizacao-da-ciencia","tag-bolsa-de-iniciacao-ao-ensino-de-ciencias","tag-ciencia","tag-educacao","tag-escola","tag-extensao","tag-popularizacao-da-ciencia","tag-programa-ciencia-na-sociedade-ciencia-na-escola","tag-propesq"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.8 - 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