{"id":8275,"date":"2020-05-28T10:10:26","date_gmt":"2020-05-28T13:10:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=8275"},"modified":"2020-05-28T14:16:23","modified_gmt":"2020-05-28T17:16:23","slug":"seres-humanos-nao-sao-ilhas-nuccio-ordine","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/seres-humanos-nao-sao-ilhas-nuccio-ordine\/","title":{"rendered":"\u201cSeres humanos n\u00e3o s\u00e3o ilhas\u201d, Nuccio Ordine"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Di\u00e1logo | Professor de Filosofia Luiz Carlos Bombassaro conversa com pensador italiano sobre a situa\u00e7\u00e3o mundial gerada pela pandemia e sobre o quanto a literatura nos oferece elementos para pensar sobre este tempo<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Foto de capa: Fl\u00e1vio Dutra\/JU<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Anunciada por estudiosos e cientistas, vencendo os mais incr\u00e9dulos e at\u00e9 os mais novos negacionistas da era da p\u00f3s-verdade, a pandemia do coronav\u00edrus chegou. Provocou muitas mortes, fechou mercados, cidades e pa\u00edses; alterou completamente a vida no mundo globalizado. Mas essa pandemia n\u00e3o \u00e9 algo completamente novo para a humanidade. N\u00e3o somente os especialistas em microbiologia, virologia e imunologia, mas tamb\u00e9m aqueles que se ocupam com a arte, a hist\u00f3ria, a literatura e a filosofia sabem que pandemias n\u00e3o s\u00e3o raras e que elas j\u00e1 se fizeram presentes muitas vezes entre n\u00f3s.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dessa vez, no entanto, gra\u00e7as aos nossos modos de vida, favorecidos pelos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos \u2013 em especial aqueles vinculados ao transporte \u2013, ela se espalhou pelo mundo com muita rapidez; uma rapidez que provocou uma rea\u00e7\u00e3o imediata de cientistas e governantes para fazer frente ao problema.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentre seus muitos efeitos, a pandemia tamb\u00e9m despertou em todo o mundo a aten\u00e7\u00e3o dos intelectuais. Preocupados em entender esse fen\u00f4meno e seus efeitos, muitos deles t\u00eam discutido em que medida a pandemia tamb\u00e9m tem o poder de transformar a pr\u00f3pria compreens\u00e3o sobre o sentido do humano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da reafirma\u00e7\u00e3o de que ela tornou evidente a presen\u00e7a global de uma vers\u00e3o macabra do estado de exce\u00e7\u00e3o, que permitiria a muitos governos atuar cada vez mais no controle e na restri\u00e7\u00e3o da vida na esfera p\u00fablica, quando n\u00e3o no cancelamento da vida cotidiana na esfera privada, mediante a introdu\u00e7\u00e3o de novos m\u00e9todos e meios de observa\u00e7\u00e3o da vida dos indiv\u00edduos, at\u00e9 a instaura\u00e7\u00e3o de uma nova forma de vida, especialmente nas escolas e nas universidades, onde j\u00e1 se conta com o incremento mais acelerado da aplica\u00e7\u00e3o dos dispositivos de educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia com o uso de plataformas virtuais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Especialmente aqui a quest\u00e3o \u00e9 muito controversa, pois n\u00e3o est\u00e1 claro ainda como ser\u00e3o desenvolvidas as atividades de ensino ap\u00f3s a pandemia. Mas numa perspectiva ainda mais ampliada, tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 claro se a pandemia produzir\u00e1 uma reconfigura\u00e7\u00e3o do nosso modo de viver e de pensar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para falar sobre como a pandemia afeta a nossa vida e o que podemos aprender com essa tr\u00e1gica experi\u00eancia, um pensador interessante \u00e9 Nuccio Ordine, professor de Teoria da Literatura na Universidade da Cal\u00e1bria, doutor honoris causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e um dos intelectuais mais reconhecidos na atualidade, que acaba de publicar seu mais recente livro, \u201cGli uomini non sono isole\u201d (\u201cHomens n\u00e3o s\u00e3o ilhas\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre e ainda sem publica\u00e7\u00e3o no Brasil).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Voc\u00ea que mora na It\u00e1lia, como est\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 covid-19?<\/strong><br>Embora o pico j\u00e1 tenha passado, a It\u00e1lia (como outros pa\u00edses europeus, penso na Espanha e na Fran\u00e7a) vive uma crise sanit\u00e1ria e econ\u00f4mica sem precedentes. O Norte (a parte mais produtiva do nosso pa\u00eds) pagou um pre\u00e7o elevado em termos de vidas humanas (desapareceu toda uma gera\u00e7\u00e3o de pessoas idosas e doentes atingidos por outras patologias) e de produ\u00e7\u00e3o industrial (muitas empresas foram obrigadas a liberar ou a demitir seus funcion\u00e1rios!).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O distanciamento social adotado por alguns pa\u00edses como forma de reduzir o impacto da pandemia n\u00e3o tem sido uma unanimidade. Muitos pa\u00edses simplesmente n\u00e3o o adotaram alegando que essa medida afeta nossa liberdade. Quais as suas considera\u00e7\u00f5es sobre o distanciamento social?&nbsp;<\/strong><br>Estamos todos reclusos em nossas casas, neste momento, para enfrentar a situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia criada pelo coronav\u00edrus. Mas por que estamos renunciando \u00e0 nossa liberdade de ir e vir e aos nossos afetos?&nbsp; Qual \u00e9 o objetivo disso tudo? Por que nos pedem isso? Sobretudo para salvar vidas humanas, para salvar as vidas de uma gera\u00e7\u00e3o que est\u00e1 desaparecendo. \u00c9 a gera\u00e7\u00e3o dos nossos av\u00f3s, a gera\u00e7\u00e3o das pessoas mais idosas, que s\u00e3o as v\u00edtimas preferidas pela doen\u00e7a. E tamb\u00e9m para defender os mais fr\u00e1geis, aqueles que j\u00e1 est\u00e3o doentes e que s\u00e3o atingidos com mais facilidade pelo coronav\u00edrus. E, ent\u00e3o, neste momento talvez seja bom refletir sobre o que o isso pode nos ensinar e o que podemos aprender nesses momentos dif\u00edceis. Tenho em mente uma cena terr\u00edvel, dram\u00e1tica, que todos vimos na televis\u00e3o: centenas de caix\u00f5es no norte da It\u00e1lia e em outros pa\u00edses do mundo, especialmente no Brasil e na Am\u00e9rica Latina, onde os mortos s\u00e3o enterrados em grandes valas comuns, quando n\u00e3o s\u00e3o abandonados pelas estradas, corpos de pessoas pobres, com as quais ningu\u00e9m se preocupa. Vimos essas imagens de pessoas mortas no isolamento, sem o calor humano de um filho, de um neto, de uma esposa ou de um marido. Ent\u00e3o, por essas pessoas devemos fazer esse sacrif\u00edcio, n\u00e3o somente por n\u00f3s mesmos, mas especialmente pelos outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Epidemias t\u00eam sido uma inc\u00f4moda presen\u00e7a na hist\u00f3ria da humanidade. Antes do advento da ci\u00eancia moderna, as pestes e as desgra\u00e7as relatadas pelos historiadores e especialmente pela literatura tamb\u00e9m produziram um forte apelo simb\u00f3lico. O que essas narrativas nos ensinaram?<\/strong><br>Exatamente nesses dias estava relendo o segundo livro da <em>Eneida<\/em> de Virg\u00edlio. Um texto bel\u00edssimo. Muito atual. Isso para compreender que a literatura, como faz tempo venho dizendo aos meus estudantes, n\u00e3o se estuda para passar num exame ou para conquistar um diploma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Estuda-se literatura porque ela nos ensina, sobretudo, a compreender o mundo no qual vivemos.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse segundo livro, encontra-se uma cena famosa, que todos j\u00e1 leram, mesmo nas antologias: Troia est\u00e1 em chamas e, em certo momento, En\u00e9as tenta salvar seu pai Anquises, que ele carrega \u00e0s costas, e seu filho pequeno. Nessa cena que Virg\u00edlio nos apresenta, vemos o passado, Anquises, o presente, En\u00e9as, e o futuro, Asc\u00e2nio, filho de En\u00e9as. E aqui encontramos a ideia de um conceito importante da <em>pietas<\/em> romana, ou seja, os deveres que temos para com os nossos pais, para com os nossos genitores. E ao mesmo tempo os deveres que temos para com a comunidade. Ent\u00e3o, neste momento em que estamos vivendo h\u00e1 tamb\u00e9m uma an\u00e1lise que podemos fazer das dificuldades que tivemos at\u00e9 agora e que ningu\u00e9m teve a coragem de denunciar em alta voz. A cena narrada por Virg\u00edlio nos apresenta, portanto, um gesto \u201cfundador\u201d no qual o futuro n\u00e3o pode existir sem o papel essencial do passado, sem o assumir dos deveres morais que temos para com os nossos familiares e a comunidade na qual vivemos. A literatura, a m\u00fasica, a arte, a filosofia, a ci\u00eancia b\u00e1sica nos ensinam faz s\u00e9culos que a nossa vida tem um sentido somente se conseguimos viver para os outros. De resto, a hist\u00f3ria tem mostrado muitas vezes a import\u00e2ncia da cultura para superar momentos dif\u00edceis de crise: n\u00e3o \u00e9 um mero acaso, somente para dar um exemplo, que Israel e Alemanha tenham retomado o di\u00e1logo traumaticamente destro\u00e7ado pelo desastre da Segunda Guerra Mundial exatamente gra\u00e7as \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o cient\u00edfica internacional&#8230;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"992\" height=\"660\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Fl\u00e1vio-Dutra-5994_bx.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8280\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Fl\u00e1vio-Dutra-5994_bx.jpg 992w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Fl\u00e1vio-Dutra-5994_bx-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Fl\u00e1vio-Dutra-5994_bx-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Fl\u00e1vio-Dutra-5994_bx-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Fl\u00e1vio-Dutra-5994_bx-465x309.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Fl\u00e1vio-Dutra-5994_bx-695x462.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 992px) 100vw, 992px\" \/><figcaption>Militante humanista e defensor apaixonado do ensino de autores considerados cl\u00e1ssicos, Nuccio Ordine recebeu, em 12 de abril&nbsp; de 2012, o t\u00edtulo de doutor Honoris Causa pela UFRGS. Depois, em 2016, fez a confer\u00eancia que abriu o per\u00edodo letivo da Universidade naquele ano (Foto: Fl\u00e1vio Dutra\/JU)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Mesmo neste momento de distanciamento social e de uma avalanche de not\u00edcias sobre os problemas e as mortes em raz\u00e3o da covid-19, voc\u00ea acredita que a literatura poderia nos ajudar a manter nossa sa\u00fade ps\u00edquica e mental?<\/strong><br>Em v\u00e1rias entrevistas nessas semanas dram\u00e1ticas, procurei retomar algumas reflex\u00f5es preciosas sobre os efeitos das epidemias contidas nos cl\u00e1ssicos famosos. Se consideramos o <em>Decamer\u00e3o<\/em>, por exemplo, Boccaccio descreve o desastre moral e material de Floren\u00e7a durante a peste de 1348; para fugir do caos, os dez novelistas n\u00e3o somente deixam a cidade, mas se imp\u00f5em uma s\u00e9rie de regras para disciplinar a vida sanit\u00e1ria e liter\u00e1ria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os protagonistas sabem muito bem que, para cuidar do corpo, \u00e9 preciso tamb\u00e9m cuidar do esp\u00edrito. De resto, a pr\u00f3pria abertura do <em>Decamer\u00e3o<\/em> (\u201c\u00e9 do humano ter compaix\u00e3o pelos aflitos\u201d) exalta o poder da literatura como <em>farmakon<\/em>, capaz de aliviar as penas, combater o medo e neutralizar a melancolia. Para uma Floren\u00e7a devastada pela peste (onde a desordem demanda o restabelecimento do poder pol\u00edtico e religioso), Boccaccio contrap\u00f5e a brigada alegre que em Fiesole busca reconstruir uma ordem perdida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Em muitos textos cl\u00e1ssicos nos quais se fala de epidemia, retornam frequentemente os mesmos temas: a rea\u00e7\u00e3o irracional, o sentido de impot\u00eancia diante de um inimigo invis\u00edvel, a desagrega\u00e7\u00e3o social, a procura por um contaminador ou de um bode expiat\u00f3rio, a necessidade de recorrer \u00e0 ajuda divina ou aos numerosos charlat\u00e3es que se aproveitam do desespero para vender rem\u00e9dios falsos, a aus\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es humanas, os sofrimentos com as separa\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse sentido, os cl\u00e1ssicos n\u00e3o somente nos mostram o que ocorre nos momentos de crise, mas sua leitura constitui por si s\u00f3 uma resposta \u00e0 tr\u00e1gica situa\u00e7\u00e3o que estamos vivendo. Para al\u00e9m das grandes obras que se referem especificamente \u00e0s doen\u00e7as e \u00e0s epidemias (pensemos, somente para recordar alguns textos famosos, nos eventos narrados no <em>\u00c9dipo rei<\/em>, de S\u00f3focles, na <em>Guerra do Peloponeso<\/em>, de Tuc\u00eddides, no <em>Da Natureza<\/em> de Lucr\u00e9cio, nos <em>Noivos<\/em> de Manzoni ou, para chegar ao s\u00e9culo XX, na <em>Peste<\/em> de Camus), a arte da narrativa tem, no entanto, uma fun\u00e7\u00e3o terap\u00eautica porque nos oferece oportunidade preciosa para nos conhecermos e ao mundo que nos cerca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como vimos, em muitos pa\u00edses a pandemia se alastra mais facilmente porque encontra um ambiente prop\u00edcio para a sua difus\u00e3o: desigualdade social, interesses ideol\u00f3gicos e pol\u00edticos orientados pelos interesses financeiros, por um lado, e a desenfreada escalada da ignor\u00e2ncia, o avan\u00e7o das cren\u00e7as negacionistas e da mentalidade obscurantista que n\u00e3o foi educada ou que simplesmente desconsidera os resultados da investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.&nbsp; Qual o papel da ci\u00eancia e das humanidades em meio a uma crise mundial como a que estamos vivendo neste momento?<\/strong><br>Especialmente numa situa\u00e7\u00e3o (quase surreal) de isolamento em casa, os livros, a m\u00fasica e as obras de arte nos ajudam a cultivar nossa humanidade, a reencontrar a solidariedade perdida, a aproveitar a solid\u00e3o, a saber escutar a eloqu\u00eancia do sil\u00eancio. Exatamente agora que somos obrigados a viver distante dos afetos e dos amigos, estamos descobrindo a import\u00e2ncia vital das rela\u00e7\u00f5es humanas, a condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel da presen\u00e7a do <em>outro<\/em> em nossa exist\u00eancia. Estamos tomando consci\u00eancia do fato de que sozinhos nunca poderemos vencer o v\u00edrus: a pandemia pode ser vencida somente por uma humanidade unida e solid\u00e1ria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 estamos vendo isso no \u00e2mbito da ci\u00eancia: pesquisadores do mundo inteiro est\u00e3o em contato para trocar dados e programas de investiga\u00e7\u00e3o com o objetivo de criar vacinas e f\u00e1rmacos capazes de vencer o inimigo invis\u00edvel. Trata-se de uma solidariedade que se manifesta tamb\u00e9m na ajuda concreta que m\u00e9dicos e profissionais especializados (penso nos cubanos, nos chineses, nos albaneses) est\u00e3o oferecendo nas zonas vermelhas da Lombardia e do V\u00eaneto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O neoliberalismo, essa doutrina que est\u00e1 levando cada vez mais ao ego\u00edsmo, nos fez crer que n\u00f3s, seres humanos, somos ilhas. Somos divididos entre n\u00f3s. Cada um deve pensar em seus pr\u00f3prios neg\u00f3cios. Os slogans dos partidos que venceram as elei\u00e7\u00f5es nos \u00faltimos anos nos Estados Unidos, na It\u00e1lia, na Inglaterra, na Fran\u00e7a e em muitos outros pa\u00edses era <em>Prima gli Italiani<\/em>, <em>America first<\/em>, <em>la France d\u2019abord<\/em>, <em>o Brasil acima de tudo<\/em>&#8230; Esses slogans dizem todos a mesma coisa: que n\u00f3s devemos pensar acima de tudo em nossos ego\u00edsmos, que no in\u00edcio s\u00e3o ego\u00edsmos nacionais, mas que depois se tornam ego\u00edsmos pessoais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>A pandemia nos mostra que os seres humanos n\u00e3o s\u00e3o ilhas. Somos vinculados uns aos outros. A humanidade \u00e9 um \u00fanico continente. N\u00e3o venceremos sozinhos o v\u00edrus. O v\u00edrus somente pode ser vencido numa batalha que devemos combater todos unidos, sentindo-nos irm\u00e3os. E esse esp\u00edrito de fraternidade \u00e9 muito importante e n\u00e3o devemos esquec\u00ea-lo quando a pandemia terminar.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas h\u00e1 ainda outra coisa importante que aprendemos. \u00c9 que a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o s\u00e3o os dois grandes pilares da dignidade humana que as pol\u00edticas neoliberais dos \u00faltimos trinta anos quiseram enfraquecer. Por que estamos em dificuldade? Por que estamos vendo tantos mortos? Porque o sistema nacional de sa\u00fade, que era um dos sistemas que figurava entre os melhores do mundo, foi fortemente enfraquecido. Porque a l\u00f3gica era economizar. Economizar na sa\u00fade, economizar na escola e na universidade. Por que considero a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o os dois pilares da dignidade humana? Por que o direito \u00e0 vida \u2013 os hospitais \u2013 e o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o \u2013 as escolas, as universidades \u2013 s\u00e3o fundamentais em nossas vidas. Ent\u00e3o, gostaria de recordar uma bel\u00edssima met\u00e1fora do pr\u00eamio Nobel de economia, Joseph Stiglitz, quando afirma que nesses \u00faltimos trinta anos nos comportamos como o motorista que toma a estrada e, para economizar, n\u00e3o compra o pneu estepe. A certa altura da viagem, um pneu fura, e o que ele vai gastar ent\u00e3o \u00e9 infinitamente mais do que teria gasto se tivesse comprado o estepe. Assim, enfraquecer os sistemas de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o significa enfraquecer o futuro do pa\u00eds. E n\u00e3o \u00e9 por acaso que nos pa\u00edses em que n\u00e3o existe a difus\u00e3o de um sistema p\u00fablico de sa\u00fade haver\u00e1 desastres enormes. E a contradi\u00e7\u00f5es come\u00e7am a aparecer. T\u00ednhamos, portanto, raz\u00e3o sobre pensar a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o como entes p\u00fablicos, porque, repito, s\u00e3o dois pilares da dignidade humana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como voc\u00ea prev\u00ea a sociedade global ap\u00f3s a covid-19?<\/strong><br>O capitalismo de rapina conseguiu transformar nosso planeta num imenso mercado global. Mas o livre com\u00e9rcio e o encurtamento das dist\u00e2ncias geogr\u00e1ficas (em menos de vinte e quatro horas um avi\u00e3o pode nos levar de um lado a outro do mundo) t\u00eam infelizmente criado enormes dist\u00e2ncias entre os v\u00e1rios pa\u00edses (a explos\u00e3o dos nacionalismos selvagens e a constru\u00e7\u00e3o de muros e barreiras!) e, sobretudo, entre os seres humanos (a solidariedade, como valor supremo, \u00e9 zombada e pisoteada pela viol\u00eancia dos racismos e do antissemitismo, do \u00f3dio ao outro e ao estrangeiro!). Os pol\u00edticos que hoje tecem o elogio do individualismo desenfreado contradizem etimologicamente a sua fun\u00e7\u00e3o: para os gregos antigos, no plano da vida civil, os <em>idiotai<\/em> eram aqueles que se ocupavam exclusivamente com o seu interesse \u201cprivado\u201d (<em>idios<\/em>), em oposi\u00e7\u00e3o aos interesses da cidade (<em>Polis<\/em>, palavra da qual deriva \u201cpol\u00edtico\u201d).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Permita-me considerar \u201cidiotas\u201d esses pol\u00edticos defensores do mais equivocado ego\u00edsmo e dos nacionalismos ferozes, n\u00e3o somente porque pensam exclusivamente em si, mas tamb\u00e9m porque s\u00e3o ignorantes. Ignoram que os seres humanos n\u00e3o podem viver menosprezando a import\u00e2ncia do outro&#8230;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O que a humanidade pode aprender com este momento hist\u00f3rico? Poderiam os grandes pensadores cl\u00e1ssicos nos ensinar algo, considerando este cen\u00e1rio de crise?<\/strong><br>Na \u00faltima p\u00e1gina de seu famoso romance <em>A peste<\/em>, Camus lembra a seus leitores as coisas essenciais que podem ser aprendidas \u201cem meio aos flagelos\u201d: toma-se consci\u00eancia das injusti\u00e7as infligidas aos fracos (\u201co doutor Rieux decide ent\u00e3o redigir uma narrativa [\u2026] para dar um testemunho em favor dos atingidos pela peste, para deixar ao menos uma recorda\u00e7\u00e3o da injusti\u00e7a e da viol\u00eancia que lhe haviam sido feitas\u201d) e, ao mesmo tempo, descobre-se \u201cque h\u00e1 nos homens mais coisas para admirar que para desprezar\u201d. Mas a doen\u00e7a n\u00e3o desaparece com o fim da epidemia (\u201co bacilo da peste n\u00e3o morre nem desaparece\u201d), porque \u201cpode permanecer por d\u00e9cadas adormecido nos m\u00f3veis e na lavanderia\u201d esperando \u201cpacientemente nas camas, nas cantinas, nas malas, nos len\u00e7os, na papelada\u201d. Camus, em suma, nos convida a n\u00e3o esquecer o que vivemos e compreendemos na dram\u00e1tica experi\u00eancia da pandemia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, nessas semanas, explodiram contradi\u00e7\u00f5es com as quais convivemos h\u00e1 d\u00e9cadas: a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o (os dois pilares da dignidade humana) extremamente afetadas por cortes brutais, o ego\u00edsmo triunfante dos nacionalismos nas campanhas eleitorais em v\u00e1rios continentes, o renascer do racismo e do antissemitismo, o constante aumento da desigualdade (1% da popula\u00e7\u00e3o mundial det\u00e9m 80% da riqueza), os danos das pol\u00edticas industriais fundadas sobre a realoca\u00e7\u00e3o e a entrega do monop\u00f3lio da produ\u00e7\u00e3o exclusivamente a quem est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de oferecer o pre\u00e7o mais baixo (\u00e9 poss\u00edvel que somente a China e a \u00cdndia devam produzir m\u00e1scaras?)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A sociedade do conhecimento, que muitos pensam estar vivendo hoje, n\u00e3o nos oferece somente informa\u00e7\u00f5es factuais confi\u00e1veis. Os modernos meios de comunica\u00e7\u00e3o, em especial as chamadas redes sociais, produzem e propagam uma avassaladora onda de informa\u00e7\u00f5es falsas. Em que medida a realidade virtual afeta as rela\u00e7\u00f5es humanas?<\/strong><br>Antoine de Saint-Exup\u00e9ry, de modo prof\u00e9tico, tinha entendido que \u201cluxo verdadeiro somente existe, e \u00e9 aquele das rela\u00e7\u00f5es humanas\u201d. Realmente, nunca como nesses meses de isolamento estamos tomando consci\u00eancia de que as rela\u00e7\u00f5es humanas \u2013 as verdadeiras, n\u00e3o as virtuais \u2013 tornam-se sempre mais um bem de luxo. Com essa crise compreendemos coisas muito importantes sobre as rela\u00e7\u00f5es humanas. Compreendemos, por exemplo, que, embora neste momento as redes sociais sejam fundamentais para manter vivas as rela\u00e7\u00f5es durante o isolamento, ao mesmo tempo, por\u00e9m, n\u00e3o devemos perder de vista o fato de que at\u00e9 ontem esses mesmos dispositivos digitais criaram uma nova forma de rela\u00e7\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o virtual, que na verdade mata a rela\u00e7\u00e3o verdadeira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vou dar um exemplo. Hoje a internet permite que tenhamos por vinte e quatro horas rela\u00e7\u00f5es com os outros. Mas, aten\u00e7\u00e3o: s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es ilus\u00f3rias. Por que s\u00e3o ilus\u00f3rias? S\u00e3o ilus\u00f3rias porque estamos fechados em um quarto e pensamos que estamos entrela\u00e7ando as m\u00e3os com os outros que est\u00e3o a quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, mas n\u00e3o percebemos as rela\u00e7\u00f5es humanas que est\u00e3o pr\u00f3ximas de n\u00f3s.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora podemos medir com efic\u00e1cia a diferen\u00e7a entre emerg\u00eancia e normalidade. Se, na emerg\u00eancia da pandemia, confinados em nossas casas, as videochamadas, facebook, watshapp e outros instrumentos an\u00e1logos se tornam a \u00fanica forma de comunica\u00e7\u00e3o para manter vivos as nossas rela\u00e7\u00f5es em tempos de normalidade, esses mesmos instrumentos podem se revelar perigosas fontes de ilus\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 banal pensar que a amizade num perfil social possa coincidir com um simples clique. Assim como fazer um chat em rede n\u00e3o significa cultivar afetos. Aconteceu-me mais de uma vez, na universidade, ver estudantes \u2013 uma experi\u00eancia que certamente muitos de voc\u00eas j\u00e1 fizeram \u2013 sentados a uma mesa e cada um deles debru\u00e7ados sobre seu <em>smartphone<\/em> a enviar mensagens a uma pessoa distante e n\u00e3o trocar uma palavra entre si.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Quando as rela\u00e7\u00f5es humanas se tornam rela\u00e7\u00f5es virtuais, ent\u00e3o estamos cultivando uma solid\u00e3o terr\u00edvel que nos ilude de podermos cultivar rela\u00e7\u00f5es humanas.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso tamb\u00e9m vale para as aulas virtuais. Penso que neste momento n\u00e3o temos escolha. Somos obrigados a manter vivas as rela\u00e7\u00f5es com os nossos estudantes por meio das li\u00e7\u00f5es virtuais. Mas, aten\u00e7\u00e3o, especialmente em muitas fam\u00edlias pobres, diz-se que no Sul [da It\u00e1lia] em torno de 40% das pessoas menos favorecidas, n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de terem um computador ou uma boa conex\u00e3o com a internet. Portanto, \u00e9 dif\u00edcil que possam trabalhar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que me preocupa, por\u00e9m, \u00e9 que muitos reitores de universidades, muitos professores na rede est\u00e3o dizendo que a educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia \u00e9 o futuro da universidade, que o futuro da escola deve ser a educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia. Bem, isso para mim isso \u00e9 uma loucura total. \u00c9 algo grav\u00edssimo contra o qual devemos lutar. Uma coisa \u00e9 compreender que neste momento os meios digitais podem manter vivas as rela\u00e7\u00f5es. Outra coisa \u00e9 pensar que os meios digitais, fora da emerg\u00eancia, podem ser tornar normalidade. Isso significa matar o ensino.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ensino \u00e9 a li\u00e7\u00e3o na sala de aula; a intera\u00e7\u00e3o entre professores e estudantes. Uma rela\u00e7\u00e3o aut\u00eantica necessita de v\u00ednculos vivos, verdadeiros, f\u00edsicos. A depend\u00eancia dos dispositivos favoreceu progressivamente uma proemin\u00eancia do virtual. Isso tamb\u00e9m vale para os que usam as redes sociais que, encerrados em seus quartos, pensam poder estabelecer rela\u00e7\u00f5es por meio de um computador ou de um tablet: por tr\u00e1s de uma permanente conex\u00e3o com os outros, acaba-se por cultivar uma nova forma de solid\u00e3o terr\u00edvel. Seria inimagin\u00e1vel viver sem internet ou sem telefones.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a tecnologia, como um <em>pharmakon<\/em>, pode curar ou intoxicar: depende da dose! No <em>The New York Times<\/em>, Nellie Bowles mostra que nos Estados Unidos o uso dos dispositivos est\u00e1 diminuindo nas fam\u00edlias ricas e aumentando nas m\u00e9dias ou pobres. As elites do Vale do Sil\u00edcio mandam seus filhos para escolas na quais, em lugar da tecnologia, se valorizem as rela\u00e7\u00f5es humanas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Ser\u00e1 que no futuro o luxo da intera\u00e7\u00e3o humana vai ser destinado sempre mais para os filhos dos ricos e o digital-virtual para a forma\u00e7\u00e3o dos menos favorecidos?<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Considerando a situa\u00e7\u00e3o que estamos vivendo, em poucas palavras, que mensagem voc\u00ea deixaria \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es?<\/strong><br>Vamos nos tornar melhores somente se n\u00e3o esquecermos os limites de um neoliberalismo de rapina que, em nome da maximiza\u00e7\u00e3o dos lucros, tem anulado progressivamente a responsabilidade social das empresas, a solidariedade entre as na\u00e7\u00f5es e a fraternidade entre os seres humanos. O mito do mercado capaz de regular tudo se esfacelou diante do ataque de um v\u00edrus invis\u00edvel que colocou de joelhos a economia mundial. A literatura e a cultura nos ajudam a valorizar como um tesouro aquilo que aprendemos nesses meses dram\u00e1ticos. Num romance de Milan Kundera, o autor diz: \u201cA luta do homem contra o poder \u00e9 a luta da mem\u00f3ria contra o esquecimento\u201d. Se realmente pensamos que podemos nos tornar melhores ap\u00f3s a experi\u00eancia, somente o poderemos ser se n\u00e3o nos esquecermos disso. Eis um convite para manter viva a mem\u00f3ria, para n\u00e3o cancelar a nossa humanidade. Esquecer, portanto, significa deixar tudo como antes. Ou pior que antes.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-background has-very-light-gray-background-color wp-block-paragraph\"><strong>Luiz Carlos Bombassaro<\/strong> \u00e9 Professor de Filosofia da UFRGS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Di\u00e1logo | Professor de Filosofia Luiz Carlos Bombassaro conversa com pensador italiano sobre a situa\u00e7\u00e3o mundial gerada pela pandemia e sobre o quanto a literatura nos oferece elementos para pensar sobre este tempo Anunciada por estudiosos e cientistas, vencendo os mais incr\u00e9dulos e at\u00e9 os mais novos negacionistas da era<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/seres-humanos-nao-sao-ilhas-nuccio-ordine\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8279,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[604],"tags":[901,724,522,902,707],"ppma_author":[2938],"class_list":["entry","author-gerente","post-8275","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-entrevistas","tag-crise-mundial","tag-humanidade","tag-literatura","tag-nucio-ordine","tag-pandemia"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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