{"id":8409,"date":"2020-06-04T08:40:00","date_gmt":"2020-06-04T11:40:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=8409"},"modified":"2020-06-04T12:19:20","modified_gmt":"2020-06-04T15:19:20","slug":"a-urgencia-cognitiva-da-cultura-do-cuidado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/a-urgencia-cognitiva-da-cultura-do-cuidado\/","title":{"rendered":"A urg\u00eancia cognitiva da cultura do cuidado"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Antonio Lafuente | Pesquisador espanhol questiona o lugar exclusivo da cultura cr\u00edtica na pr\u00e1tica cient\u00edfica e fala da cultura do cuidado como forma de se aproximar do objeto de estudo<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Foto: Antonio Lafuente\/Arquivo pessoal<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antonio Lafuente \u00e9 f\u00edsico e pesquisador do Centro de Ci\u00eancias Humanas e Sociais do Conselho Superior de Investiga\u00e7\u00f5es Cient\u00edficas (CSIC) da Espanha na \u00e1rea de estudos da ci\u00eancia. Seu interesse pela rela\u00e7\u00e3o entre tecnologia, patrim\u00f4nio e bens comuns desembocou nos laborat\u00f3rios cidad\u00e3os, na inova\u00e7\u00e3o social e na cultura do prototipado. Sua trajet\u00f3ria de historiador da ci\u00eancia soma-se ao longo trabalho de pesquisa sobre pr\u00e1ticas alternativas de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento (ci\u00eancia amadora, ci\u00eancia cidad\u00e3, comunidades epist\u00eamicas, cozinhas, laborat\u00f3rios de garagem\u2026) e, mais recentemente, \u00e0 pr\u00e1tica de coletivos ativistas que combinam o uso de tecnologias digitais \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o amadora para a inova\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 (novos modos de participa\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica). Um exemplo disso s\u00e3o algumas iniciativas que ele coordena do MediaLab Prado. Em entrevista por chamada de v\u00eddeo, tratamos da cultura da cr\u00edtica e da cultura do cuidado. Segundo ele, ambas t\u00eam a contribuir num momento de extrema complexidade inaugurado com as novidades trazidas pela crise sanit\u00e1ria do coronav\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como define cultura cient\u00edfica e cultura do cuidado?<\/strong><br>N\u00e3o sei se sou capaz de defini-las, mas talvez caracteriz\u00e1-las. Uma pessoa cr\u00edtica \u00e9 algu\u00e9m capaz de ver para al\u00e9m das apar\u00eancias, de ler nas entrelinhas, de n\u00e3o deixar-se levar pela m\u00fasica do discurso. \u00c9 capaz de ver o que outros n\u00e3o veem. \u00c9 um gesto que, de certa forma, revela certa superioridade, uma pessoa que acredita que v\u00ea mais que os outros. Por outro lado, a pessoa que acredita formar parte dessa cultura cr\u00edtica tamb\u00e9m confia muito na dist\u00e2ncia com rela\u00e7\u00e3o ao objeto sobre o qual est\u00e1 falando ou pesquisando. \u00c9 capaz de desnud\u00e1-lo e v\u00ea-lo sem paix\u00f5es. A cultura dos cuidados \u00e9 o contr\u00e1rio: tem a ver com o reconhecimento de nossas vulnerabilidades, est\u00e1 mais vinculada ao tato do que \u00e0 vis\u00e3o, pois destr\u00f3i a dist\u00e2ncia com o objeto ao toc\u00e1-lo. Dissolve a diferen\u00e7a, a dist\u00e2ncia que existe entre &#8216;o que falo&#8217; e &#8216;o eu mesmo&#8217; \u2013 j\u00e1 n\u00e3o somos coisas distintas, passamos a ser coisas que est\u00e3o muito pr\u00f3ximas. A pessoa que vivencia a cultura dos cuidados \u00e9 aquela que sabe escutar, que confia que h\u00e1 uma verdade por tr\u00e1s do ponto de vista divergente. Ela se deixa afetar pelo objeto e confia que na outra maneira de ver as coisas sempre h\u00e1 alguma verdade pela qual vale a pena deixar-se afetar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A cultura cr\u00edtica pode ser associada \u00e0 arrog\u00e2ncia?<\/strong>&nbsp;<br>N\u00e3o diria que a cultura cr\u00edtica seja arrogante, mas algo associado \u00e0 ideia de que uma pessoa cr\u00edtica sabe mais, est\u00e1 mais preparada, como um estatuto de superioridade, de algu\u00e9m capaz de se colocar acima das coisas. Eu n\u00e3o sei se necessariamente tem a ver com arrog\u00e2ncia, entretanto, em termos gerais, est\u00e1 associada a uma falta de compaix\u00e3o com o objeto que contempla. Com frequ\u00eancia, uma pessoa cr\u00edtica tem pouca compaix\u00e3o, \u00e9 dura e por vezes cruel. \u00c9 uma pessoa que n\u00e3o se importa com as consequ\u00eancias de suas ideias e que, talvez, n\u00e3o escuta suficientemente.&nbsp; Tudo isso se aproxima muito da no\u00e7\u00e3o de arrog\u00e2ncia, mas eu n\u00e3o afirmaria de forma t\u00e3o clara. Pode ser que haja pessoas cr\u00edticas que, por vezes, sejam compassivas, por vezes cuidadosas, mas \u00e9 dif\u00edcil se ver a combina\u00e7\u00e3o.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Qual o protagonismo da cultura dos cuidados?<\/strong><br>Na \u00e9poca do coronav\u00edrus, temos visto que \u00e9 f\u00e1cil prescindimos de muita gente. Por outro lado, nos damos contas da extrema necessidade que temos das pessoas cujas tarefas est\u00e3o associadas aos cuidados. Percebemos a import\u00e2ncia das pessoas que recolhem o lixo, das pessoas encarregadas do reabastecimento, das enfermeiras, dos pequenos mercados de bairro. Todos s\u00e3o personagens insignificantes no mundo dos grandes atores, das figuras populares, importantes. Temos nos dado conta de que esses indiv\u00edduos socialmente sustentam o mundo de uma maneira invis\u00edvel. Mas como tratei no <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/elogio-a-potencia-cognitiva-dos-cuidados\/\">artigo publicado no Outras Palavras<\/a>, existe potencial cognitivo na tarefa de cuidar. Cuidar n\u00e3o \u00e9 somente encarregar-se dos problemas de outras pessoas, de outras situa\u00e7\u00f5es. \u00c9 tamb\u00e9m inaugurar uma rela\u00e7\u00e3o com essas pessoas ou com esses objetos de natureza completamente nova. E essa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de aproxima\u00e7\u00e3o, de estabelecer uma nova maneira de rela\u00e7\u00f5es que gera tamb\u00e9m um conhecimento distinto, a proposta de outros problemas e, portanto, de encontrar outras solu\u00e7\u00f5es. Nesse sentido, h\u00e1 na cultura dos cuidados uma forma de construir um mundo de outra maneira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A experi\u00eancia deste momento provoca essa reflex\u00e3o?<\/strong><br>Com a emerg\u00eancia da pandemia, h\u00e1 muitas coisas que podemos conhecer n\u00e3o tanto porque tenhamos tecnologias avan\u00e7adas, matem\u00e1ticas sofisticadas ou laborat\u00f3rios maravilhosos. Estamos enfrentando um problema sobre o qual n\u00e3o sab\u00edamos nada, e para conhec\u00ea-lo temos que aprender a escutar os pacientes de outra maneira. Nesse contexto, rapidamente a cultura dos cuidados foi colocada no centro da urg\u00eancia da necessidade de conhecer, de conhecer de outra maneira, de conhecer outro tipo de problema. Nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 a cultura dos cuidados versus a cultura da cr\u00edtica. Ambas precisam estabelecer entre elas um novo pacto, uma nova alian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>S\u00e3o saberes que se completam e apontam rumos para resolver situa\u00e7\u00f5es-limite da vida humana?<\/strong><br>\u00c9 justamente isso. Em situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia extrema, quando as infraestruturas fracassam, quando as ferramentas que hav\u00edamos desenhado para situa\u00e7\u00f5es \u2013 digamos \u2013 de normalidade j\u00e1 n\u00e3o funcionam, ent\u00e3o temos que explorar outras habilidades, temos que inovar \u2013 para usar uma palavra da moda \u2013 em outras dire\u00e7\u00f5es e de uma forma barata, que seja acess\u00edvel a qualquer um, de forma colaborativa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quando voc\u00ea destaca que o resultado de uma pesquisa n\u00e3o pode ser atribu\u00eddo a um \u00fanico \u201cc\u00e9rebro\u201d, mas a um conjunto de pesquisadores que colaboraram para uma conclus\u00e3o, est\u00e1 descrevendo uma cultura que leva ao isolamento, que n\u00e3o reconhece a import\u00e2ncia do coletivo? E que repercuss\u00f5es sociais isso tem?<\/strong><br>Tem reflexos pol\u00edticos e econ\u00f4micos tamb\u00e9m. A ideia de criatividade est\u00e1 associada \u00e0 ideia de originalidade, e a ideia de originalidade \u00e0 ideia de propriedade. Assim, h\u00e1 toda uma pervers\u00e3o gigante do trabalho. S\u00f3 vemos a originalidade, mas na realidade o que estamos produzindo \u00e9 a propriedade. E isso faz com que todos trabalhem em competi\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o em colabora\u00e7\u00e3o. Da\u00ed o bullying se tornou uma pr\u00e1tica cultural perfeitamente institucionalizada e naturalizada na academia. Temos tanta dificuldade de reconhecer a natureza coletiva, social, p\u00fablica do conhecimento, mas nos parece muito normal pensar o conhecimento como uma tarefa de c\u00e9rebros privilegiados que se elevam sobre a m\u00e9dia e s\u00e3o capazes de oferecer coisas que s\u00f3 est\u00e3o ao alcance deles.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Essa competi\u00e7\u00e3o intelectual pode ter consequ\u00eancias subjetivas?<\/strong><br>Exato, e n\u00e3o somente entre os estudantes. H\u00e1 muitos casos documentados e conhecidos na ci\u00eancia brit\u00e2nica de pessoas que perderam a subven\u00e7\u00e3o do laborat\u00f3rio porque n\u00e3o teriam alcan\u00e7ado produtividade suficiente e decidiram tirar a pr\u00f3pria vida. A vida consagrada \u00e0 ci\u00eancia \u00e9 uma vida que praticamente s\u00f3 se dedica a investigar o tempo todo, com jornadas enormes. De alguma maneira, a ci\u00eancia tamb\u00e9m \u00e9 o grande laborat\u00f3rio neoliberal, que est\u00e1 sempre posto em movimento. \u00c9 formado por gente que trabalha 14 horas di\u00e1rias, que s\u00f3 faz isso, que aceitou a competi\u00e7\u00e3o como um regulamento normal, como se da\u00ed nascesse a riqueza das novas ideais. E isso produz um estresse gigantesco, pois defende a ideia de que a evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 algo que deve ser permanente, rigoroso, e que se n\u00e3o se cumprirem os objetivos podem cancelar o contrato e demitir. Aceitamos isso na academia de forma muito pouco cr\u00edtica, como se f\u00f4ssemos trabalhadores sem direitos. Sequer nos vemos como trabalhadores, mas como um tipo de gente especial. Mas n\u00f3s, os acad\u00eamicos, n\u00e3o chamamos isso de bullying. Por isso comecei a desconfiar da cultura cr\u00edtica, n\u00e3o total e exclusivamente, mas passei a perceber que ela \u00e9 uma maneira bastante destrutiva de nos relacionarmos uns com os outros, pois demonstramos as capacidades, de alguma maneira, diminuindo as qualidades e capacidades da outra pessoa. De alguma forma, h\u00e1 algo de perverso, doente e patol\u00f3gico na cultura cr\u00edtica. Por isso, muitos estamos pensando que o estudo da cultura cr\u00edtica necessita de uma revis\u00e3o, necessita de uma cr\u00edtica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antonio Lafuente | Pesquisador espanhol questiona o lugar exclusivo da cultura cr\u00edtica na pr\u00e1tica cient\u00edfica e fala da cultura do cuidado como forma de se aproximar do objeto de estudo *Foto: Antonio Lafuente\/Arquivo pessoal Antonio Lafuente \u00e9 f\u00edsico e pesquisador do Centro de Ci\u00eancias Humanas e Sociais do Conselho Superior<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/a-urgencia-cognitiva-da-cultura-do-cuidado\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":8410,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[604],"tags":[920,102,335,699,701,918,919],"ppma_author":[2972],"class_list":["entry","author-jacira-cabral","post-8409","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-entrevistas","tag-academia","tag-ciencia","tag-conhecimento","tag-coronavirus","tag-covid-19","tag-cultura-critica","tag-cultura-do-cuidado"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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