{"id":88565,"date":"2024-08-01T07:50:00","date_gmt":"2024-08-01T10:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=88565"},"modified":"2024-08-13T13:25:58","modified_gmt":"2024-08-13T16:25:58","slug":"perspectivas-cientificas-africanas-resistem-a-desvalorizacao-e-ao-apagamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/perspectivas-cientificas-africanas-resistem-a-desvalorizacao-e-ao-apagamento\/","title":{"rendered":"Perspectivas cient\u00edficas africanas resistem \u00e0 desvaloriza\u00e7\u00e3o e ao apagamento"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Ci\u00eancia | Imposi\u00e7\u00e3o do paradigma euroc\u00eantrico faz com que as cosmovis\u00f5es africanas ainda sejam pouco reconhecidas pelo Ocidente<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Foto: Gustavo Diehl\/JU-Arquivo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Historicamente, a \u00c1frica e seus descendentes foram desvalorizados pelo conhecimento cient\u00edfico, sendo frequentemente retratados como primitivos e sem contribui\u00e7\u00f5es significativas para a humanidade. Essa vis\u00e3o foi perpetuada por perspectivas europeias que se consideravam superiores, resultando na desqualifica\u00e7\u00e3o dos africanos como pensadores e na neglig\u00eancia de sua hist\u00f3ria cient\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ci\u00eancia, em sua ess\u00eancia, \u00e9 um campo vasto e diversificado. Diferentes culturas e perspectivas contribuem para o entendimento do mundo ao nosso redor. O m\u00e9todo cient\u00edfico tradicional, no entanto, tende a fragmentar o conhecimento e priorizar certas formas de saber em detrimento de outras. Diante disso, surge a imperativa discuss\u00e3o sobre a epistemologia end\u00f3gena africana, n\u00e3o apenas como um campo de estudo v\u00e1lido, mas como um pilar fundamental para a emancipa\u00e7\u00e3o cultural e epistemol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A moderna ci\u00eancia ocidental, fruto do imperialismo eurocentrista, foi historicamente impulsionada pelo ac\u00famulo de capital e pol\u00edticas colonialistas. As bases do conhecimento cient\u00edfico atual se d\u00e3o a partir da Modernidade. Por concep\u00e7\u00e3o colonial, deve-se compreender as sociedades formadas pelo colonialismo europeu divididas por dualidades, tais como colonizados e colonizadores, dominados e dominadores, pretos e brancos. Assim, a colonialidade do saber se refere \u00e0 hierarquiza\u00e7\u00e3o e marginaliza\u00e7\u00e3o de certos conhecimentos e epistemologias em rela\u00e7\u00e3o ao conhecimento euroc\u00eantrico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conforme escreveu o antrop\u00f3logo e professor Kabengele Munanga, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), o conceito de situa\u00e7\u00e3o colonial expressa \u201cuma rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre v\u00e1rios atores sociais dentro da col\u00f4nia, sociedade globalizada, dividida em dois campos antagonistas e desiguais: a sociedade colonial e a sociedade colonizada\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir da vis\u00e3o colonialista, outros saberes foram apagados e marginalizados como primitivos. Nos princ\u00edpios do eurocentrismo, as realidades ocidentais s\u00e3o \u201cuniversais\u201d, isto \u00e9, apresentam o racionalismo branco como se fosse o padr\u00e3o para a ci\u00eancia e a condi\u00e7\u00e3o humana. A \u00c1frica, por\u00e9m, possui outras vis\u00f5es de mundo e concep\u00e7\u00f5es de saberes ancestrais que, apesar do apagamento e do historic\u00eddio, sobrevivem h\u00e1 milhares de anos.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Saberes end\u00f3genos ancestrais: tudo est\u00e1 interligado<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cH\u00e1 um ponto de vista colonialista de que todos os africanos concordam entre si e t\u00eam a mesma maneira de pensar. A vis\u00e3o colonialista \u00e9 insens\u00edvel \u00e0 pluralidade de opini\u00f5es de uma civiliza\u00e7\u00e3o oral\u201d, <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2024\/03\/19\/world\/africa\/paulin-hountondji-dead.html\">disse<\/a> o fil\u00f3sofo Paulin Hountondji \u00e0 Radio France Internationale em 2022. Natural do Benin, foi uma das figuras mais importantes da hist\u00f3ria da filosofia africana e cr\u00edtico da vis\u00e3o de ci\u00eancia e filosofia sobre e da \u00c1frica. Sua trajet\u00f3ria cr\u00edtica \u00e0 vis\u00e3o de mundo europeia ajudou a transformar a vida intelectual africana. Ele <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2024\/03\/19\/world\/africa\/paulin-hountondji-dead.html\">morreu<\/a> em 2 de fevereiro de 2024, aos 81 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na d\u00e9cada de 80, Hountondji escreveu <em>O antigo e o moderno: a produ\u00e7\u00e3o da \u00c1frica contempor\u00e2nea<\/em>, livro que analisa e compara a ci\u00eancia moderna com os saberes ancestrais africanos e re\u00fane estudos sobre saberes end\u00f3genos. O professor Jos\u00e9 Rivair Macedo, do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da UFRGS e pesquisador de Hist\u00f3ria das Sociedades Africanas Antigas, explica que &#8220;os africanos preferem empregar os termos<em> conhecimentos end\u00f3genos<\/em> ou <em>saberes end\u00f3genos<\/em> para distingui-los e diferenci\u00e1-los do conhecimento cient\u00edfico, pois s\u00e3o saberes adquiridos na rela\u00e7\u00e3o com a natureza e o cosmos&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses saberes end\u00f3genos s\u00e3o obtidos em rituais em que se evidenciam essa rela\u00e7\u00e3o com o meio. Assim, nas sociedades africanas (e tamb\u00e9m amer\u00edndias e ind\u00edgenas), n\u00e3o h\u00e1 o pressuposto da exist\u00eancia de uma separa\u00e7\u00e3o entre o indiv\u00edduo e outros objetos: \u201cTudo est\u00e1 interligado, a energia \u00e9 interligada \u00e0 natureza, ao ser humano e \u00e0quilo que n\u00f3s chamamos de dimens\u00e3o espiritual\u201d, complementa Jos\u00e9 Rivair.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O docente ressalta que a constru\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia como conhecemos \u00e9 produto da cultura ocidental e, por estarmos imersos nela, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil visualizar ou compreender cosmovis\u00f5es n\u00e3o excludentes, que n\u00e3o se encaixam na raz\u00e3o moderna, \u201cindependentemente da nossa cor, porque mesmo a pessoa ocidental de pele preta pensa a partir da cultura branca e dessa ideia de ci\u00eancia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo ele, a palavra-chave do processo cient\u00edfico excludente \u00e9 a laiciza\u00e7\u00e3o, que, somada \u00e0 no\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduo, separa o humano da natureza e da sacralidade em um processo chamado antropocentriza\u00e7\u00e3o, muito bem ilustrado pela figura do Homem Vitruviano de Leonardo Da Vinci. Essa representa\u00e7\u00e3o do ideal Renascentista reflete a mudan\u00e7a do foco medieval em Deus e no divino para o homem como centro do universo, simbolizando tamb\u00e9m o pensamento racional, usando propor\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas para expressar a ordem universal, a import\u00e2ncia do pensamento l\u00f3gico e da compreens\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O homem situado no centro do c\u00edrculo se v\u00ea destacado da natureza. &#8220;Como diz Gaston Bachelard, entre outros epistem\u00f3logos ocidentais, esse processo de separa\u00e7\u00e3o entre sujeito e objeto \u00e9 o que define o m\u00e9todo cient\u00edfico, permitindo que um objeto possa ser analisado, classificado, interpretado a partir de verifica\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na perspectiva cient\u00edfica euroc\u00eantrica, \u00e9 a partir desse procedimento que o conhecimento obt\u00e9m valor. &#8220;S\u00f3 o Ocidente tem o indiv\u00edduo at\u00f4mico como um sujeito pensante e capaz de atuar e interagir com outros e outras realidades, treinado pela raz\u00e3o moderna. As sociedades africanas, ind\u00edgenas e orientais n\u00e3o fizeram isso\u201d, aponta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tal modelo de pensamento foi apresentado ao mundo pelos europeus, principalmente do s\u00e9culo 19 em diante, levando os valores da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e da revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica como processos civilizat\u00f3rios a partir da coloniza\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o quer dizer, todavia, que na \u00c1frica s\u00f3 existam os saberes tradicionais, at\u00e9 porque \u00e9 um continente massivamente colonizado pela Europa e pelo Ocidente. \u201cEles passaram a ter conhecimentos cient\u00edficos ocidentais; os africanos, ent\u00e3o, t\u00eam tanto saberes tradicionais quanto saberes n\u00e3o tradicionais\u201d, acrescenta Rivair.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 aqui, parece que o mundo ainda \u00e9 dividido em &#8220;Ocidente e \u00c1frica&#8221;, pretos e brancos. M\u00e1rcio Luis da Silva Paim, mestre em Estudos \u00c9tnicos e Africanos pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), prefere remontar \u00e0 antiguidade geogr\u00e1fica das popula\u00e7\u00f5es melanod\u00e9rmicas e \u00e0 sua dispers\u00e3o da \u00c1frica para o Oriente M\u00e9dio<strong> <\/strong>como ponto de partida para se entenderem as contribui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas dessas sociedades. Ele assinala que a abordagem da hist\u00f3ria dos povos africanos no Brasil \u00e9 estreitamente associada ao per\u00edodo da escraviza\u00e7\u00e3o, quando, na verdade, dever\u00edamos recuar 7 milh\u00f5es de anos, quando se d\u00e1 a origem e a evolu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie humana na \u00c1frica.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;O que isso representa? \u00c9 a dist\u00e2ncia que a gente est\u00e1 da compreens\u00e3o da hist\u00f3ria da \u00c1frica, s\u00f3 para se ter uma no\u00e7\u00e3o do abismo que temos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 contribui\u00e7\u00e3o do continente africano\u201d<\/p>\n<cite>M\u00e1rcio Luis da Silva Paim<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conforme Paim, que \u00e9 doutorando do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da UFRGS, a primeira dispers\u00e3o populacional na \u00c1frica ocorre entre 2,5 milh\u00f5es e 1 milh\u00e3o de anos atr\u00e1s; a segunda, por volta de 300 mil anos, j\u00e1 na era do <em>Homo sapiens sapiens<\/em>. Para ele, o pr\u00f3prio conceito de di\u00e1spora precisa ser repensado, j\u00e1 que houve outros momentos de sa\u00edda de pessoas do continente africano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Se voc\u00ea pegar o conceito de di\u00e1spora no dicion\u00e1rio, vai perceber que significa dispers\u00e3o, espalhamento. \u00c9 imposs\u00edvel compreender a import\u00e2ncia da contribui\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do continente africano sem tomar a evolu\u00e7\u00e3o humana na \u00c1frica como ponto de partida. Um dos motivos principais da incompreens\u00e3o de seu legado cient\u00edfico se d\u00e1 justamente por conta dessa abordagem colonial\u201d, destaca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir dessas movimenta\u00e7\u00f5es, a esp\u00e9cie humana passa a ocupar v\u00e1rios espa\u00e7os no continente africano, o que dar\u00e1 origem \u00e0s civiliza\u00e7\u00f5es melanod\u00e9rmicas no per\u00edodo que vai&nbsp;entre 5 mil e 1.500 anos antes da era comum. \u201cOs conceitos de negro e branco s\u00e3o muito recentes. A alta antiguidade \u00e9 absolutamente melanod\u00e9rmica. Suas popula\u00e7\u00f5es s\u00e3o de pele escura, segundo a gen\u00e9tica e a biologia molecular. Antes disso, n\u00e3o havia popula\u00e7\u00f5es leucod\u00e9rmicas, ou seja, despigmentadas. Por isso, prefiro falar de contribui\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de popula\u00e7\u00f5es melanod\u00e9rmicas,\u201d, explica Paim, ressaltando que \u00e9 preciso ter uma vis\u00e3o mais ampla, j\u00e1 que as popula\u00e7\u00f5es partem da \u00c1frica para ocupar outros continentes e cada uma delas se adaptar\u00e1 \u00e0 geografia e construir\u00e1 seu conhecimento.<strong> <\/strong>\u201cN\u00e3o d\u00e1 para restringir a contribui\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da \u00c1frica ao continente africano.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com Paim, ampliar essa vis\u00e3o requer ir al\u00e9m inclusive do Egito, pois, a partir das dispers\u00f5es, h\u00e1 popula\u00e7\u00f5es melanod\u00e9rmicas em locais como a Turquia, Laos, Camboja, Vietn\u00e3, Mal\u00e1sia, Tail\u00e2ndia, Jap\u00e3o, China e tamb\u00e9m na Europa ib\u00e9rica, como Portugal e Espanha \u2014 ou seja, o mundo todo era ocupado por melanod\u00e9rmicos que haviam deixado a \u00c1frica, o ber\u00e7o da humanidade. O processo de despigmenta\u00e7\u00e3o s\u00f3 come\u00e7aria por volta de 6.500 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora <a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/cientistas-desafiam-tese-da-%C3%A1frica-como-ber%C3%A7o-da-humanidade\/a-66667441\">pesquisas<\/a> recentes contestem a \u00c1frica como o l\u00f3cus da humanidade, a teoria ainda \u00e9 amplamente aceita no meio cient\u00edfico. \u201c\u00c9 dali que parte o processo de hominiza\u00e7\u00e3o, o <em>Homo erectus<\/em>, tendo a \u00c1frica participa\u00e7\u00e3o comprovada no processo de humaniza\u00e7\u00e3o daqueles conhecimentos que s\u00e3o b\u00e1sicos da humanidade, a rela\u00e7\u00e3o com a natureza, com o corpo, as sensa\u00e7\u00f5es, todos surgiram l\u00e1\u201d, argumenta Rivair.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Cosmologia africana: c\u00e9u e Terra como biblioteca de narrativas<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00c1frica \u00e9 um continente com 54 pa\u00edses com uma infinidade de regi\u00f5es, culturas e l\u00ednguas. S\u00f3 Angola tem cerca de <a href=\"https:\/\/revista.abralin.org\/index.php\/abralin\/article\/view\/507\">20 l\u00ednguas<\/a> de origem africana, em sua maioria de tronco bantu. No entanto, o processo colonial explorou, saqueou, escravizou e distorceu o imagin\u00e1rio e a hist\u00f3ria do continente. Esse processo, conhecido como <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/epistemicidio-e-o-apagamento-estrutural-do-conhecimento-africano\/\">epistemic\u00eddio<\/a>, visava destruir o conhecimento e a cultura africanas para manter sua subordina\u00e7\u00e3o. A \u00c1frica foi e ainda \u00e9 retratada pelo Ocidente como primitiva, de forma a apagar suas contribui\u00e7\u00f5es para o conhecimento cient\u00edfico e refor\u00e7ar estere\u00f3tipos de primitivismo e exalta\u00e7\u00e3o do ex\u00f3tico, tal qual se v\u00ea nos filmes de Hollywood.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fato \u00e9 que a domina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, pol\u00edtica e cultural do Ocidente se traduziu na constru\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica entre conhecimentos e perspectivas epistemol\u00f3gicas, sendo a vis\u00e3o do <em>usurpador<\/em> a predominante. \u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falar de uma cultura africana como se houvesse um bloco homog\u00eaneo. As experi\u00eancias s\u00e3o m\u00faltiplas e h\u00e1 outras no\u00e7\u00f5es de espa\u00e7o e tempo que precisam ser contextualizadas, discutidas e trazidas como conhecimento v\u00e1lido para as nossas forma\u00e7\u00f5es desde as idades tenras\u201d, defende o astrof\u00edsico Alan Alves Brito, doutor em Ci\u00eancias pela USP. Professor no Instituto de F\u00edsica da UFRGS, Alan desenvolve atividades de pesquisa no N\u00facleo de Estudos Afro-brasileiros, Ind\u00edgenas e Africanos da universidade, trabalhando principalmente com culturas dos povos Yorub\u00e1, Congo-Angola (banto), Fon, Dogon, Akan e do Egito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo ele, as rela\u00e7\u00f5es C\u00e9u-Terra entre os povos africanos citados acima fazem parte da pr\u00f3pria din\u00e2mica da vida: \u201cC\u00e9u e Terra s\u00e3o dualidade e n\u00e3o encarados como binarizadas e excludentes. Por isso, falamos em cosmopercep\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o somente cosmovis\u00e3o, exatamente porque essas perspectivas cosmol\u00f3gicas outras levam em conta todos os sentidos, e n\u00e3o somente a \u2018vis\u00e3o\u2019 ocidental&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A oralidade tamb\u00e9m \u00e9 parte importante no processo. &#8220;O C\u00e9u e a Terra s\u00e3o uma biblioteca e um arquivo de narrativas, mem\u00f3rias e tradi\u00e7\u00f5es orais que foram subjugadas, subalternizadas e inferiorizadas por um jeito particular de pensar-sentir o Universo por parte de pessoas (de regi\u00f5es da Europa e dos grupos que dela se originam) que se colocam em posi\u00e7\u00e3o privilegiada de descrever, interpretar e dominar a natureza\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse ponto de vista, as rela\u00e7\u00f5es C\u00e9u\/Terra vivenciadas e praticadas por povos africanos contribuem para mostrar que o pr\u00f3prio conceito de ci\u00eancia \u00e9 din\u00e2mico e muda com o tempo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cAl\u00e9m disso, nos recorda que o C\u00e9u (e a Terra) formam um cont\u00ednuo e, nesse sentido, humanos e n\u00e3o humanos est\u00e3o conectados com a natureza. Temos, assim, cosmoperspectivas totalmente distintas \u00e0 mesa, de forma que essas outras rela\u00e7\u00f5es C\u00e9u-Terra s\u00e3o fundamentais para tensionar quest\u00f5es hist\u00f3ricas, filos\u00f3ficas, epistemol\u00f3gicas e ontol\u00f3gicas do que \u00e9 ci\u00eancia, tecnologia, espa\u00e7o, tempo, desenvolvimento, inova\u00e7\u00e3o e como criamos conhecimento\u201d<\/p>\n<cite>Alan Alves Brito<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dado que tudo na cosmovis\u00e3o africana est\u00e1 interligado, \u00e9 dif\u00edcil explicar a ci\u00eancia da \u00c1frica conforme o padr\u00e3o ocidental, positivista, racional, ex\u00f3geno e bin\u00e1rio, o que contribui para o seu apagamento ou, no m\u00ednimo, para o seu n\u00e3o reconhecimento pelas epistemologias e ontologias europeias. \u201cN\u00e3o utilizo o termo astronomia para me referir \u00e0 rela\u00e7\u00e3o dos povos africanos ancestrais, porque \u00e9 euroc\u00eantrico. Hoje existe uma astronomia se desenvolvendo na \u00c1frica que tem uma perspectiva europeia. Tenho muitas ressalvas, porque l\u00e1, agora, os astrof\u00edsicos nos observat\u00f3rios s\u00e3o em sua maioria brancos. Por isso tamb\u00e9m \u00e9 complicado responder sobre \u2018as descobertas cient\u00edficas\u2019, pois o pr\u00f3prio conceito de astronomia surge no s\u00e9culo 17, ent\u00e3o prefiro usar o termo \u2018C\u00e9u-Terra\u2019\u201d, ressalva.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas isso n\u00e3o quer dizer que cientistas e pensadores africanos n\u00e3o tenham tentado se adaptar, por assim dizer, a esse padr\u00e3o, uma quest\u00e3o que at\u00e9 hoje rende discuss\u00f5es filos\u00f3ficas. De qualquer forma, \u201cmais recentemente, muitos pa\u00edses do continente africano t\u00eam iniciado atividades de pesquisa em astronomia e ci\u00eancia espacial, come\u00e7ando com o desenvolvimento institucional e de capacidade humana, a pesquisa cient\u00edfica e o trabalho em rede. H\u00e1 projetos de astrof\u00edsica na faixa (do espectro eletromagn\u00e9tico) do \u00f3ptico, do r\u00e1dio e de altas energias, al\u00e9m de constru\u00e7\u00e3o de sat\u00e9lites\u201d, anuncia Brito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele tamb\u00e9m lembra que h\u00e1 uma discuss\u00e3o hist\u00f3rica (com suas controv\u00e9rsias) sobre como os povos <a href=\"https:\/\/www.geledes.org.br\/a-filosofia-dogon-e-a-origem-do-mundo\/\">Dogon<\/a> j\u00e1 desenvolviam seus pr\u00f3prios modelos cosmol\u00f3gicos, calend\u00e1rios e explica\u00e7\u00f5es do mundo; possu\u00edam conhecimentos sobre estrelas brilhantes, associando-as aos seus festejos, e tamb\u00e9m sobre a estrutura da Via L\u00e1ctea; conhecimentos sobre corpos do sistema solar, as luas de J\u00fapiter e os an\u00e9is de Saturno muito antes de Galileu.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Muniz Sodr\u00e9: As tr\u00eas singularidades da cosmovis\u00e3o africana<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob o ponto de vista do soci\u00f3logo Muniz Sodr\u00e9, professor em\u00e9rito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), n\u00e3o existe um \u201csaber africano\u201d: \u201cA palavra sabedoria me parece preconceituosa. Voc\u00ea diria \u2018a sabedoria\u2019 europeia ou a americana? \u00c9 a mesma coisa para \u00c1frica. Por outro lado, n\u00e3o existe tamb\u00e9m uma unidade como \u2018o saber africano\u2019\u201d<strong>. <\/strong>Para Sodr\u00e9, h\u00e1 cosmovis\u00f5es africanas radicalmente diferentes das europeias, embora haja pontos que se tocam com a cosmovis\u00e3o oriental.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em suas palavras, seu livro \u201cPensar Nag\u00f4\u201d foi uma tentativa de abordar o pensamento de terreiro: \u201cBusquei mostrar que ele constr\u00f3i e constitui para mim um modo de pensar n\u00e3o centrado em fil\u00f3sofos individuais, mas no pensamento da comunidade e que vem da \u00c1frica. Essa cosmovis\u00e3o do terreiro tem singularidades que se confrontam com a cosmovis\u00e3o europeia\u201d. Sodr\u00e9 ordena tais especificidades em tr\u00eas categorias: pot\u00eancia, for\u00e7a e alegria, todas a partir da relativiza\u00e7\u00e3o da separa\u00e7\u00e3o sujeito e objeto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA raz\u00e3o epist\u00eamica e cient\u00edfica europeia leva ao com\u00e9rcio, \u00e0 tecnologia, leva \u00e0 separa\u00e7\u00e3o radical entre sujeito e objeto. O sujeito \u00e9 o que conhece o objeto que se faz conhecer; a separa\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria para que se conhe\u00e7a o objeto, que fica teoricamente morto. \u00c9 como o conhecimento matem\u00e1tico, que \u00e9 exato porque os objetos de conhecimento da matem\u00e1tica s\u00e3o idealidades mortas que podem, portanto, se universalizar. Voc\u00ea conhece o objeto quando ele est\u00e1 exatamente inerte, como foi tamb\u00e9m na medicina, que passou a conhecer o corpo a partir de um cad\u00e1ver que se dissecava\u201d, compara.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 o pensamento africano \u00e9 o contr\u00e1rio. \u201cAs coisas da natureza t\u00eam vida, mas o que isso quer dizer? T\u00eam vida porque cont\u00eam uma mesma pot\u00eancia, um poder de realiza\u00e7\u00e3o que, nos terreiros da Bahia, chamamos de ax\u00e9. Tem o ax\u00e9 do sangue, o ax\u00e9 vermelho; o ax\u00e9 das plantas, o ax\u00e9 verde; o ax\u00e9 da terra, porque \u00e9 a riqueza que a terra nos d\u00e1 e, portanto, \u00e9 fonte de pot\u00eancia.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como pot\u00eancia \u00e9 vida, Sodr\u00e9 cita como exemplo as enchentes em Porto Alegre, que demonstram que \u201co rio n\u00e3o suporta o cimento n\u00e3o poroso, n\u00e3o suporta o abafamento, mesmo as represas n\u00e3o s\u00e3o a melhor maneira de conter as \u00e1guas porque \u00e9 por sufoca\u00e7\u00e3o. De maneira que as plantas, as \u00e1guas, os peixes, tudo \u00e9 interligado com o sujeito humano\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A relativiza\u00e7\u00e3o da separa\u00e7\u00e3o \u00e9 o primeiro grande distintivo do pensamento africano. \u201cEsta \u00e9 a quest\u00e3o do Antropoceno, a terra como Gaia, a entidade viva, e que n\u00f3s n\u00e3o estamos separados de nada, mas em rela\u00e7\u00e3o constante com os objetos. \u00c9 a separa\u00e7\u00e3o que traz o desastre clim\u00e1tico e ecol\u00f3gico, as doen\u00e7as. Para o pensamento africano, podemos todos ser diferentes, mas n\u00e3o separados. \u00c9 a ideia do &#8216;ubuntu&#8217;, que \u00e9 tanto substantivo quanto verbo, e eu s\u00f3 <em>sou<\/em> \u00e0 medida que<em> somos<\/em>, ou seja, que estamos na mesma l\u00f3gica de exist\u00eancia.\u201d Essa concep\u00e7\u00e3o, acrescenta o soci\u00f3logo, inclui seres humanos e n\u00e3o humanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A segunda singularidade do pensamento africano \u00e9 a for\u00e7a. Mas n\u00e3o \u00e9 a for\u00e7a f\u00edsica, o <em>Agbara<\/em>. Sodr\u00e9 ilustra: \u201cDigamos que algu\u00e9m me empurra, e eu o empurro de volta. Isso \u00e9 uma contrafor\u00e7a f\u00edsica. Por\u00e9m, na palavra <em>ax\u00e9<\/em> \u00e9 um outro tipo de for\u00e7a, que abrange o simb\u00f3lico, que \u00e9 o poder de realiza\u00e7\u00e3o. Se algu\u00e9m me empurrou, ent\u00e3o n\u00e3o preciso empurrar de volta porque eu n\u00e3o me mexi. Por algum motivo, me fortaleci, diminuindo a for\u00e7a de quem empurrou. \u00c9 um poder, uma capacidade inerente a quem tem\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O poder de realiza\u00e7\u00e3o engloba diversos aspectos. Na compara\u00e7\u00e3o com a cultura ocidental, o dinheiro ocupa esse lugar de instrumento de poder. \u201cNa l\u00f3gica africana, esse poder infinito \u00e9 para alimentar a fam\u00edlia; ter filhos \u00e9 poder de realiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 ax\u00e9. Essa pot\u00eancia envolve o indiv\u00edduo tanto f\u00edsica quanto financeiramente, moral e tamb\u00e9m libidinal, sexualmente. O poder libidinal na \u00f3tica ocidental \u00e9 dominar o outro. Ent\u00e3o \u00e9 voc\u00ea tem uma diferen\u00e7a entre poder e pot\u00eancia que filosoficamente \u00e9 muito importante\u201d, ressalta o soci\u00f3logo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A terceira distin\u00e7\u00e3o feita por Sodr\u00e9 \u00e9 o relacionamento consagrado com o divino. \u00c9 importante notar, entretanto, que h\u00e1 centenas de mitologias africanas e orientais, incluindo em partes do Egito e Iraque. O importante desse aspecto \u00e9 a integra\u00e7\u00e3o em vez da onipot\u00eancia: embora no culto afro exista uma divindade central (Olodum mar\u00e9, em yorub\u00e1), ele n\u00e3o \u00e9 uma divindade absoluta como o Deus crist\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Ele \u00e9 um regente que centraliza e divide as suas fun\u00e7\u00f5es e os poderes com princ\u00edpios de relacionamento entre a natureza e os humanos. Esses princ\u00edpios s\u00e3o os orix\u00e1s. Oxum, por exemplo, \u00e9 o princ\u00edpio da feminilidade centrada na beleza, na gesta\u00e7\u00e3o, no poder de gerar a vida. Ali\u00e1s, embora o homem seja o parceiro dessa gera\u00e7\u00e3o, nesse sentido a mulher tem mais ax\u00e9 que o homem, porque \u00e9 ela que produz o filho na sua barriga&#8221;, explica. Tal \u00e9 a import\u00e2ncia desse aspecto de pot\u00eancia na filosofia nag\u00f4 que a acumula\u00e7\u00e3o mais importante n\u00e3o \u00e9 de bens, mas, sim, a a\u00e7\u00e3o de ter filhos, pois \u00e9 garantia de amor, cuidado e sobrevida para a m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Finalmente, a \u00faltima<strong> <\/strong>categoria da cosmovis\u00e3o afro \u00e9 a alegria. N\u00e3o \u00e9 a simples manifesta\u00e7\u00e3o de j\u00fabilo nem uma emo\u00e7\u00e3o. Como o soci\u00f3logo escreveu no livro <em>As estrat\u00e9gias sens\u00edveis: afeto, m\u00eddia e pol\u00edtica<\/em>, \u201c\u00e9 a alegria, singular e concreta (e n\u00e3o um abstrato amor universal) que norteia a pr\u00e1tica lit\u00fargica da <em>Arkh\u00e9<\/em> negra. [&#8230;] A alegria \u00e9 sem pecado, sem perd\u00e3o e sem submiss\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para o nag\u00f4 africano, a alegria \u00e9 o mais importante. \u00c9 alegria tanto com Deus quanto com os orix\u00e1s, e se manifesta na dan\u00e7a, na palavra, no canto, nas interpela\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m na sexualidade, nas obriga\u00e7\u00f5es e rituais, na rela\u00e7\u00e3o com a terra, com a natureza e com a comunidade. A liturgia aqui n\u00e3o se trata de religiosidade, mas de vis\u00e3o de mundo, de uma \u00e9tica e de uma filosofia.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Questionar a ci\u00eancia ocidental para reconhecer a epistemologia africana<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante das contribui\u00e7\u00f5es ancestrais dos povos africanos, \u00e9 de se perguntar por que raz\u00e3o seus pensamentos e perspectivas foram e ainda s\u00e3o desconsiderados e desqualificados pela ci\u00eancia. Isso se deve \u00e0 vis\u00e3o ocidental, que s\u00f3 aceita como conhecimento o que pode ser explicado ou provado dentro de um sistema espec\u00edfico, rejeitando qualquer observa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se encaixe nesse crit\u00e9rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ci\u00eancia ocidental, que busca ser universal e se baseia na raz\u00e3o, n\u00e3o reconhece as explica\u00e7\u00f5es de fen\u00f4menos fornecidas por culturas n\u00e3o ocidentais, impedindo o reconhecimento de suas contribui\u00e7\u00f5es para o desenvolvimento humano, conforme escreveu Brito em um <a href=\"https:\/\/rbhciencia.emnuvens.com.br\/revista\/article\/view\/804\">ensaio<\/a> sobre a hist\u00f3ria da ci\u00eancia e a educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica pelas perspectivas amer\u00edndia e <em>amefricana<\/em>, citando o fil\u00f3sofo beninense Paulin Hountondji.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cTrazer a presen\u00e7a da contribui\u00e7\u00e3o africana para a humanidade implica o reconhecimento de uma anterioridade africana, de uma presen\u00e7a estruturante da \u00c1frica nas tradi\u00e7\u00f5es culturais humanas como um todo que depois se irradiou para outras partes&#8221;, salienta Jos\u00e9 Rivair. &#8220;\u00c9 evidente que nessas outras partes do mundo houve adapta\u00e7\u00f5es, mas toda a quest\u00e3o das tecnologias, todos esses elementos que a gente chama de processo de evolu\u00e7\u00e3o humana aconteceram na \u00c1frica. N\u00e3o quero dizer com isso que sejam africanas, mas aconteceram l\u00e1\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante do longo processo de coloniza\u00e7\u00e3o, uma das estrat\u00e9gias para super\u00e1-lo \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o, instrumento necess\u00e1rio para discutir, refletir e procurar solu\u00e7\u00f5es para transformar. Alan destaca que a forma como ensinamos e divulgamos as ci\u00eancias, principalmente as ci\u00eancias f\u00edsicas, e as escolhas que s\u00e3o feitas (te\u00f3ricas, metodol\u00f3gicas e epistemol\u00f3gicas), n\u00e3o s\u00e3o neutras. &#8220;Historicamente, no Brasil, elas t\u00eam deixado de lado as contribui\u00e7\u00f5es de povos que s\u00e3o parte importante para a nossa constru\u00e7\u00e3o como pa\u00eds, como povos ind\u00edgenas e negros. Nesse sentido, o racismo epist\u00eamico (e a injusti\u00e7a atrelada a ele), o apagamento e o silenciamento de outras formas de ser, saber, conhecer e fazer, s\u00e3o evidentes, fomentados por institui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, escolares e de promo\u00e7\u00e3o da cultura cient\u00edfica em todos os n\u00edveis\u201d, completa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na perspectiva africana de mundo, n\u00e3o h\u00e1 sujeito e objeto separados como h\u00e1 no saber sistematizado filos\u00f3fico do mundo ocidental: ao contr\u00e1rio, sua vis\u00e3o \u00e9 inclusiva, comunit\u00e1ria, rica em significados e contribui\u00e7\u00f5es que fizeram o continente africano desempenhar um papel essencial na ci\u00eancia global. Sua <em>episteme<\/em> evidencia que as ci\u00eancias, os seres humanos, n\u00e3o humanos e inclusive o terreno do m\u00e1gico s\u00e3o parte de um todo complexo e interligado ao mundo, ou melhor, o mundo est\u00e1 contido no ser humano \u2014 como escreveu Sodr\u00e9 em <em>Pensar Nag\u00f4 <\/em>\u2014, e todo o seu <em>pluriverso<\/em> \u00e9 parte integrante da filosofia africana.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\" \/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Leia tamb\u00e9m:<\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed aligncenter is-type-wp-embed is-provider-ufrgs-jornal-da-universidade wp-block-embed-ufrgs-jornal-da-universidade\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"i23mmp9dWi\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/continente-africano-foi-precursor-da-ideia-de-educacao-superior-mas-europa-leva-referencia-por-instituir-seu-modelo-ao-mundo\/\">Continente africano foi precursor da ideia de educa\u00e7\u00e3o superior, mas Europa leva refer\u00eancia por instituir seu modelo ao mundo\u00a0 \u00a0<\/a><\/blockquote><iframe class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; visibility: hidden;\" title=\"&#8220;Continente africano foi precursor da ideia de educa\u00e7\u00e3o superior, mas Europa leva refer\u00eancia por instituir seu modelo ao mundo\u00a0 \u00a0&#8221; &#8212; Jornal da Universidade\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/continente-africano-foi-precursor-da-ideia-de-educacao-superior-mas-europa-leva-referencia-por-instituir-seu-modelo-ao-mundo\/embed\/#?secret=oF3tVKc61H#?secret=i23mmp9dWi\" data-secret=\"i23mmp9dWi\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed aligncenter is-type-wp-embed is-provider-ufrgs-jornal-da-universidade 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