{"id":90316,"date":"2024-08-22T07:40:00","date_gmt":"2024-08-22T10:40:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=90316"},"modified":"2024-09-25T11:32:46","modified_gmt":"2024-09-25T14:32:46","slug":"jeferson-tenorio-o-que-fica-sao-essas-historias-que-ainda-nao-foram-contadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/jeferson-tenorio-o-que-fica-sao-essas-historias-que-ainda-nao-foram-contadas\/","title":{"rendered":"Jeferson Ten\u00f3rio: &#8220;O que fica s\u00e3o essas hist\u00f3rias que ainda n\u00e3o foram contadas&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Entrevista | Autor de <em>O Avesso da Pele<\/em> reflete sobre paternidade, doc\u00eancia e forma\u00e7\u00e3o de leitores e defende que a reden\u00e7\u00e3o da narrativa est\u00e1 nas constru\u00e7\u00f5es de afeto<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Foto: Carlos Macedo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Eu j\u00e1 n\u00e3o romantizo mais essa rela\u00e7\u00e3o, mas sinto falta da sala de aula.&#8221; Para Jeferson Ten\u00f3rio, foi a experi\u00eancia como professor que o tornou escritor. Partindo de elementos autobiogr\u00e1ficos, o autor comp\u00f5e uma narrativa que foge dos estere\u00f3tipos ao se debru\u00e7ar sobre educa\u00e7\u00e3o, paternidade, rela\u00e7\u00f5es amorosas e racismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Se voc\u00ea caminhar na rua nesse bairro aqui, por exemplo, voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea pessoas negras.&#8221; Nascido no Rio de Janeiro, a viv\u00eancia no Rio Grande do Sul foi o que moldou a constru\u00e7\u00e3o do romance. Em um livro com menos de 200 p\u00e1ginas, Ten\u00f3rio consegue aprofundar tem\u00e1ticas universais sob a perspectiva de um corpo negro em um estado composto majoritariamente por pessoas brancas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em entrevista ao JU para o <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/leituras-obrigatorias-2\/\">Especial Leituras Obrigat\u00f3rias Vestibular 2025<\/a>, o autor de <em>O Avesso da Pele<\/em> conta sobre seu processo criativo e reflete sobre os rumos que o livro tomou.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Na ep\u00edgrafe de <em>O Avesso da Pele<\/em>, \u00e9 feita uma refer\u00eancia a Hamlet que antecipa a pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o da narrativa: um filho se compreendendo a partir da morte do pai. Essa refer\u00eancia era clara para ti no momento da escritura do livro?<\/strong><br>A ideia da aus\u00eancia j\u00e1 era uma ideia que eu tinha para <em>O Avesso da Pele<\/em>. Durante a escrita, eu ainda n\u00e3o sabia que o personagem iria morrer. Eu sabia que ele ia sofrer abordagens policiais, mas eu n\u00e3o sabia que ele ia acabar morrendo em fun\u00e7\u00e3o de uma abordagem. Ao longo da escrita, fui percebendo que faria muito mais sentido se essa aus\u00eancia acabasse virando um luto. A ep\u00edgrafe veio depois, quando eu j\u00e1 tinha escrito o livro. E a\u00ed pensando nessa ideia de um pai fantasma, esse pai que conversa com o filho de uma outra forma, e <em>O Avesso da Pele <\/em>\u00e9 de certo modo uma carta ao pai, n\u00e9? Ele \u00e9 uma carta afetiva. Uma carta de declara\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m da viv\u00eancia desse filho com o pai. Ent\u00e3o acho que essa ideia assim do luto foi surgindo de acordo com a escrita.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O professor \u00e9 descrito como algu\u00e9m que fala de Shakespeare e Ogum da mesma maneira, com refer\u00eancia a Oliveira Silveira. Como o papel do professor \u00e9 visto para a consci\u00eancia de si mesmo e do mundo?<\/strong><br>O [professor] Oliveira \u00e9 uma homenagem que eu fiz ao poeta Oliveira Silveira. \u00c9 um poeta com quem n\u00e3o convivi, n\u00e3o tive proximidade, mas acabei tendo proximidade com a poesia dele, com a personalidade dele. Eu achei que era uma figura negra importante e que merecia essa rever\u00eancia, essa homenagem. E a\u00ed eu coloco ele como esse professor que faz justamente essa equival\u00eancia da literatura ocidental, que seria o Shakespeare, com as culturas de matriz africana, que seria o Ogum. E era isso que eu queria tentar discutir. No livro tem v\u00e1rios professores. Preferi colocar professores como protagonistas nessa hist\u00f3ria para que a gente possa pensar no trabalho do professor para al\u00e9m do que a gente conhece. Tentar levar o leitor para dentro da sala de aula e mostrar para ele o dia a dia desse professor. O quanto a precariedade do ensino atinge os professores diretamente. Ent\u00e3o foi uma tentativa de mostrar esse lado de dentro, mais subjetivo e existencial. Eu defendo que um professor, quando escolhe ser professor, n\u00e3o escolhe s\u00f3 pela profiss\u00e3o, ele escolhe porque se apaixona por aquela profiss\u00e3o e porque acredita de fato que ele pode promover mudan\u00e7as. Isso \u00e9 uma escolha existencial, n\u00e9? Ent\u00e3o foi isso que tentei colocar nesse personagem.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ainda sobre essas homenagens: o livro \u00e9 dedicado ao teu filho. Li em uma reportagem de quase 10 anos contigo que a melhor coisa que um pai pode deixar a um filho s\u00e3o boas lembran\u00e7as. A ideia de escrever o livro veio um pouco disso, de deixar pro teu filho algumas coisas do teu pensamento sobre o mundo?<\/strong><br>Acho que essa rela\u00e7\u00e3o com a paternidade foi bastante importante para eu construir esse personagem e esse livro. Eu queria uma hist\u00f3ria que falasse sobre pais e filhos, mas n\u00e3o queria uma representa\u00e7\u00e3o paterna que fosse estereotipada, aquele pai agressivo, aquele pai causador de traumas. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o queria aquele pai perfeito, amoroso. Ent\u00e3o tentei buscar o meio termo. E o Pedro, quando vai narrando a vida do pai, na verdade, n\u00e3o est\u00e1 narrando a vida do pai. Ele est\u00e1 narrando o pai sob a perspectiva dele. Inventa um pai que est\u00e1 na mem\u00f3ria dele, que \u00e9 um pouco o que a gente faz depois de adulto e olha para a inf\u00e2ncia, e olha como era a rela\u00e7\u00e3o com os pais. A gente meio que vai inventando e vai criando mem\u00f3rias que confundem o que de fato aconteceu com aquilo que voc\u00ea gostaria que acontecesse. \u00c0s vezes, voc\u00ea superdimensiona uma situa\u00e7\u00e3o ou pega uma situa\u00e7\u00e3o que \u00e9 grave e tenta diminuir. \u00c9 toda uma elabora\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria. Acho que <em>O Avesso da Pele<\/em> tem a ver com essa constru\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria afetiva, e acho que tem ali um elogio a essa rela\u00e7\u00e3o paterna.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Di\u00e1rios foram escritos na tua adolesc\u00eancia. Isso \u00e9 uma pr\u00e1tica que te acompanha ainda hoje? O quanto isso foi importante para a tua escrita ficcional e para o pr\u00f3prio <em>O Avesso da Pele<\/em>, que \u00e9 constru\u00eddo \u00e0 base de mem\u00f3rias?<\/strong><br>Aqui est\u00e3o os meus caderninhos; tenho alguns deles. Uns at\u00e9 da minha adolesc\u00eancia. Eu devo ter uns 20 cadernos espalhados por a\u00ed. \u00c9 uma pr\u00e1tica que eu ainda tenho. Hoje nem tanto. Adotei quando tinha uns 12, 13 anos e me acompanhou a vida toda. E esses di\u00e1rios foram importantes porque, como fui um leitor tardio \u2013 comecei a ler fic\u00e7\u00e3o aos 24 anos \u2013, o meu jeito de imaginar, de inventar, de fabular \u00e9 escrevendo di\u00e1rios. Ent\u00e3o, para o exerc\u00edcio da escrita, para o exerc\u00edcio da imagina\u00e7\u00e3o, da fantasia, os di\u00e1rios foram muito importantes n\u00e3o porque eram s\u00f3 coisas que aconteciam comigo, mas eram tamb\u00e9m observa\u00e7\u00f5es que eu fazia de alguma coisa que eu via na rua, de alguma coisa que me chamava a aten\u00e7\u00e3o, uma frase de algu\u00e9m da fam\u00edlia. Era um modo de conversar comigo mesmo. A\u00ed, conforme o tempo foi mudando, os di\u00e1rios acabaram ocupando um outro espa\u00e7o: o da prepara\u00e7\u00e3o de aula, de reflex\u00e3o te\u00f3rica. E hoje em dia utilizo mais para fazer anota\u00e7\u00f5es dos livros. O romance agora que eu acabei de terminar tem tr\u00eas di\u00e1rios de reflex\u00f5es sobre o que eu estava fazendo, para tentar entender de maneira mais clara.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/1500-BX-edit_cor_retrato_jeferson_tenorio_companhia_das_letras_junho_2020_fotos_carlos_o_avesso_da_pele_macedo-34-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-92730\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/1500-BX-edit_cor_retrato_jeferson_tenorio_companhia_das_letras_junho_2020_fotos_carlos_o_avesso_da_pele_macedo-34-1.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/1500-BX-edit_cor_retrato_jeferson_tenorio_companhia_das_letras_junho_2020_fotos_carlos_o_avesso_da_pele_macedo-34-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/1500-BX-edit_cor_retrato_jeferson_tenorio_companhia_das_letras_junho_2020_fotos_carlos_o_avesso_da_pele_macedo-34-1-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/1500-BX-edit_cor_retrato_jeferson_tenorio_companhia_das_letras_junho_2020_fotos_carlos_o_avesso_da_pele_macedo-34-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/1500-BX-edit_cor_retrato_jeferson_tenorio_companhia_das_letras_junho_2020_fotos_carlos_o_avesso_da_pele_macedo-34-1-391x260.jpg 391w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/1500-BX-edit_cor_retrato_jeferson_tenorio_companhia_das_letras_junho_2020_fotos_carlos_o_avesso_da_pele_macedo-34-1-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/1500-BX-edit_cor_retrato_jeferson_tenorio_companhia_das_letras_junho_2020_fotos_carlos_o_avesso_da_pele_macedo-34-1-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Carlos Macedo<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A rela\u00e7\u00e3o com a cidade \u00e9 muito importante tamb\u00e9m na narrativa. Conta mais sobre a tua vinda do Rio de Janeiro, tendo passado quase toda uma vida em Porto Alegre. <\/strong><br>A cidade do Rio de Janeiro, onde eu nasci e morei at\u00e9 os 13 anos de idade, foi muito cruel com a nossa fam\u00edlia. \u00c9 uma cidade muito pouco acolhedora quando voc\u00ea n\u00e3o tem recursos. E a vinda para o Rio Grande do Sul, a chegada aqui, tamb\u00e9m foi muito traum\u00e1tica. A gente chegou no inverno, temperaturas que a gente n\u00e3o tinha sentido ainda e n\u00e3o t\u00ednhamos lugar pra morar. Foram em torno de quatro anos sem ter um lugar fixo. Quando a gente conseguiu estabelecer um lugar, eu j\u00e1 estava perto dos 18 anos e comecei a sair sozinho. \u00c9 a\u00ed que come\u00e7am as abordagens policiais. Enquanto estava nesse ambiente dom\u00e9stico, eu ainda n\u00e3o era visto como um perigo para a sociedade. Acho que se eu n\u00e3o tivesse vindo para c\u00e1, se n\u00e3o tivesse vivido tudo que vivi nesses 35 anos que morei aqui, eu n\u00e3o teria escrito <em>O Avesso da Pele<\/em> como ele \u00e9. Talvez nem o teria escrito. Eu acho que tem a\u00ed uma situa\u00e7\u00e3o bem particular: um corpo negro em lugar que a gente sabe que \u00e9 majoritariamente de pessoas brancas. Se voc\u00ea caminhar na rua nesse bairro aqui, por exemplo, voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea pessoas negras. E ao mesmo tempo eu quis construir um personagem que fosse um leitor, fosse um professor, fosse algu\u00e9m que pensasse sobre as coisas, tamb\u00e9m para tentar fugir desse estere\u00f3tipo da pessoa negra que n\u00e3o tem instru\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o acho que ter vindo para c\u00e1, para o Rio Grande do Sul, foi important\u00edssimo para eu conseguir construir esse personagem.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Indo no caminho oposto ao que se ancoram as censuras que o livro vem sofrendo, qual a import\u00e2ncia de o p\u00fablico jovem ter contato com os debates que a narrativa traz?<\/strong><br>Acho que isso tem acontecido em determinados lugares, essa tentativa de silenciamento de algumas pautas, como o racismo, a viol\u00eancia policial, todo tipo de opress\u00e3o. E a gente tem percebido nos \u00faltimos anos um recrudescimento tamb\u00e9m desse discurso conservador, desse discurso ultraconservador direitista, que n\u00e3o quer discutir determinadas pautas. E a retirada de livros da escola \u00e9 de uma viol\u00eancia imensa, porque \u00e9 justamente nesse espa\u00e7o que voc\u00ea tem a possibilidade de estimular a cidadania dos alunos, estimular a consci\u00eancia racial, a consci\u00eancia social. \u00c9 um momento em que voc\u00ea est\u00e1 formando pessoas, est\u00e1 formando leitores. Ent\u00e3o causa bastante preocupa\u00e7\u00e3o que voc\u00ea tenha um movimento como esse de censura justamente no espa\u00e7o que \u00e9 para refletir sobre isso.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E comparando esses movimentos, ao mesmo momento que est\u00e1 passando por essa tentativa de censura, o livro \u00e9 colocado como leitura obrigat\u00f3ria em universidades. O que isso representa pra ti?<\/strong><br>Acho que \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o importante. A hist\u00f3ria da censura no Brasil n\u00e3o \u00e9 recente. Ela tem uma caminhada hist\u00f3rica. Desde o Estado Novo, com o Get\u00falio Vargas, a gente j\u00e1 tinha livros que foram censurados, queimados, inclusive, em pra\u00e7a p\u00fablica. Depois na d\u00e9cada de 1970 tamb\u00e9m houve uma nova onda de censura. No in\u00edcio dos anos 2000, o com\u00e9rcio tamb\u00e9m viu uma s\u00e9rie de censuras. Se a gente for fazer um levantamento, e j\u00e1 tem gente pesquisando sobre livros que foram censurados no Brasil, tem muita coisa. O que aconteceu com <em>O Avesso da Pele <\/em>me parece ser um ponto importante porque houve um outro tipo de rea\u00e7\u00e3o. Foi uma rea\u00e7\u00e3o coletiva. Houve tamb\u00e9m o aux\u00edlio das redes sociais, que deram uma amplid\u00e3o para essa rea\u00e7\u00e3o. E, al\u00e9m disso, h\u00e1 uma rea\u00e7\u00e3o institucional que acho importante. Uma rea\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, no caso da universidade federal, colocando <em>O Avesso da Pele <\/em>como leitura obrigat\u00f3ria. Foi uma resposta muito contundente, r\u00e1pida e certeira. E n\u00e3o s\u00f3 no sentido de ser leitura obrigat\u00f3ria, mas tamb\u00e9m de dizer \u00e0 sociedade a import\u00e2ncia do tema, de se discutir o racismo estrutural, de se discutir a educa\u00e7\u00e3o no Brasil. Acho, ent\u00e3o, que todo mundo sai ganhando quando a gente tem uma rea\u00e7\u00e3o como essa.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Outra coisa que chama aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o impacto da inf\u00e2ncia para a constru\u00e7\u00e3o de ambos os personagens e da rela\u00e7\u00e3o entre eles. O que se pode pensar sobre o papel da inf\u00e2ncia para essa constru\u00e7\u00e3o de si e da forma de enxergar o mundo?<\/strong><br>O Pedro, quando vai fazendo essa reconstru\u00e7\u00e3o, ele faz esse direcionamento ao pai. Mas \u00e9 muito dif\u00edcil voc\u00ea falar do pai sem falar da m\u00e3e. E chegar nesse entendimento tamb\u00e9m tem a ver com o que estudei no meu doutorado, que foi a paternidade nas literaturas luso-africanas. Em determinado momento da minha pesquisa, comecei a me dar conta de que eu n\u00e3o poderia continuar falando de paternidade sem falar da maternidade. E foi a\u00ed que comecei a entender um pouco tamb\u00e9m da estrutura do meu romance. Eu precisava mostrar a arqueologia desses personagens, mostrar como esses dois personagens chegam \u00e0 vida adulta \u201ccomo duas pessoas quebradas\u201d. Duas pessoas que foram maltratadas pelo racismo e que chegam em rela\u00e7\u00f5es conjugais muito debilitadas por todos os traumas que sofreram. Mas como um teve uma determinada cria\u00e7\u00e3o e o outro teve outra, embora sejam duas pessoas negras, s\u00e3o pessoas que veem o pr\u00f3prio racismo de maneira diferente. Ent\u00e3o essa pluralidade tamb\u00e9m de entendimento: como \u00e9 que voc\u00ea luta contra o racismo? H\u00e1 v\u00e1rias formas de lutar contra o racismo. E o Pedro, sendo fruto desse casal, vai tentar se aproximar ao m\u00e1ximo daquilo que conseguiu conhecer do pai. E como a morte, a trag\u00e9dia tem a ver com o pai, eu acabei direcionando essa narrativa mais para essa rela\u00e7\u00e3o com o Henrique do que com a pr\u00f3pria m\u00e3e. Mas t\u00e1 ali, n\u00e9? Acho que ele vai se constituindo enquanto filho. Talvez esse seja o arco do her\u00f3i: se constituir como filho para depois se tornar adulto.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Antes da cena da morte, h\u00e1 um momento mais esperan\u00e7oso em meio a uma narrativa que \u00e9 um tanto desesperan\u00e7osa em muitas quest\u00f5es. Mesmo narrando tantas trag\u00e9dias, pode-se dizer que o livro tem um tom otimista?<\/strong><br>Essa foi a grande pergunta quando eu terminei o livro. Foi quando eu me reuni com meu editor e tive uma conversa sincera com ele. Eu disse: esse livro n\u00e3o tem reden\u00e7\u00e3o nenhuma. Ele \u00e9 um livro que n\u00e3o te oferece uma possibilidade de exist\u00eancia. Fiquei muito mal quando entreguei o livro e vi o que eu tinha feito. E o meu editor, o Emilio Fraia, me disse que a reden\u00e7\u00e3o desse professor foram os alunos dele. Foi a profiss\u00e3o dele. \u00c9 isso que torna esperan\u00e7oso. No sentido de que \u00e9 poss\u00edvel fazer bons trabalhos, \u00e9 poss\u00edvel voc\u00ea conseguir alguma coisa positiva, n\u00e9? Aquela grande aula que d\u00e1 sobre Dostoi\u00e9vski, sobre <em>Crime e Castigo<\/em>. Ele se aproximando daquela turma do EJA. Essa \u00e9 a grande reden\u00e7\u00e3o dele. O que acontece \u00e9 que dentro dessa reden\u00e7\u00e3o voc\u00ea tem um sistema racista estrutural que acaba com esse sonho, com essa possibilidade de se realizar como um profissional. Ent\u00e3o ele \u00e9 um livro que tem essas ondas em cima de trag\u00e9dias, alguns respiros de humor e chega nesse auge dessa grande aula que ele d\u00e1, e a\u00ed o leitor percebe: \u00e9 poss\u00edvel, n\u00e9? \u00c9 poss\u00edvel voc\u00ea ter uma escola, voc\u00ea ter leitores. Mas vem o Estado, todo o aparato de um Estado racista e acaba com a vida dessa pessoa.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E tu acha ent\u00e3o que essa \u201csalva\u00e7\u00e3o\u201d est\u00e1 nas rela\u00e7\u00f5es humanas e nas constru\u00e7\u00f5es de afeto?<\/strong><br>Com certeza. Eu acho que essas rela\u00e7\u00f5es humanas, afetivas s\u00e3o o que vai na verdade estimular o Henrique a continuar dando aula. Ele \u00e9 esse professor que j\u00e1 t\u00e1 h\u00e1 20 anos dando aula e n\u00e3o aguenta mais. E n\u00e3o aguenta mais n\u00e3o necessariamente a sala de aula, mas a estrutura da educa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 muito prec\u00e1ria, que cansa o professor, que \u00e0s vezes tem que dar 40 horas de aula, 60 horas de aula. E ele t\u00e1 cansado dessa estrutura. Mas ali, naquela rela\u00e7\u00e3o com os alunos, de leitura, de troca, ali ele se realiza. Ent\u00e3o acho que s\u00e3o essas rela\u00e7\u00f5es de afeto que fazem com que ele siga no seu trabalho.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>\u00c9 conseguindo mudar a vida dos jovens que ele se sente realizado. Essa \u00e9 a tua perspectiva sobre a pr\u00e1tica docente?<\/strong><br>O Henrique, eu n\u00e3o faria metade das coisas que ele fez no livro. Porque ele \u00e9 um personagem bastante sonhador, quixotesco. Ele acredita muito que os livros podem causar grandes mudan\u00e7as. Ele \u00e9 um professor muito intenso nas coisas que faz. Na minha pr\u00e1tica de ensino, eu entrei com uma grande vontade de mudar as coisas. E, ao passar dos anos, comecei a perceber que voc\u00ea consegue pequenas mudan\u00e7as, mas quando voc\u00ea olha para a estrutura, para o Estado, pro modo como o Estado v\u00ea a educa\u00e7\u00e3o, a\u00ed voc\u00ea percebe que os livros n\u00e3o podem muita coisa, que a literatura n\u00e3o pode muita coisa. Sou um pouco mais c\u00e9tico. J\u00e1 n\u00e3o romantizo mais essa rela\u00e7\u00e3o, mas sinto falta da sala de aula. Dessa troca com os alunos. Costumo dizer que eu s\u00f3 me tornei escritor porque fui professor antes. Acho que <em>O Avesso da Pele<\/em> \u00e9 tamb\u00e9m um tributo aos alunos. Um tributo a todos os meus anos de vida na escola, a todas as trocas que a gente teve. Tem aquela frase que o Henrique diz: &#8220;os alunos foram uma esp\u00e9cie de premia\u00e7\u00e3o&#8221; para ele, mesmo aqueles que nem lembram dele. Todos os alunos que passaram por mim foram importantes para que me tornasse escritor.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como foi ver tudo isso retratado em uma <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/oavessodapele\/\">pe\u00e7a de teatro<\/a> (idealizada pelo coletivo Ocut\u00e1)?<\/strong><br>O texto acabou caindo na m\u00e3o de pessoas geniais. E os atores tamb\u00e9m s\u00e3o geniais. Depois vieram os outros profissionais da m\u00fasica, da dan\u00e7a. Acompanhei os ensaios desde o in\u00edcio, mas cada vez que assistia a um ensaio novo eu tomava um susto. Come\u00e7ou em uma coisa pequena e foi se expandindo. Pra mim foi maravilhoso poder ter visto <em>O Avesso da Pele<\/em> ganhando corpo, ganhando voz e de uma maneira t\u00e3o delicada, ao mesmo tempo impactante e sofisticada. Eles conseguiram popularizar coisas t\u00e3o dif\u00edceis, n\u00e9? Eles colocaram <em>Crime e Castigo<\/em>, deram uma aula sobre Dostoi\u00e9vski e puseram um funk junto. Ent\u00e3o acho que eles conseguiram uma coisa que eu luto muito para fazer na minha produ\u00e7\u00e3o que \u00e9 tentar atrair aquele leitor que talvez nunca tenha lido um livro de literatura. \u00c9 tentar aproximar essas grandes obras, como <em>Crime e Castigo<\/em>, de pessoas que talvez n\u00e3o tenham condi\u00e7\u00f5es de ter acesso a livros como esse. E ali na pe\u00e7a eles conseguiram pegar justamente esse sentimento: vamos falar de Dostoi\u00e9vski, mas a gente tamb\u00e9m vai falar de funk. Achei que foi genial o que eles fizeram.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O livro \u00e9 um grande compilado de constru\u00e7\u00f5es de mem\u00f3rias. Pelo que tu, Jeferson, gostaria de ser lembrado?<\/strong><br>Eu escolhi fazer da minha vida duas coisas, que foi dar aulas e ser escritor. Mas se eu fosse escolher do que ser lembrado \u00e9 como algu\u00e9m que tentou formar mais leitores, sendo professor ou escritor. Essa foi minha grande luta e continua sendo minha luta cotidiana. Meu filho agora tem 14 anos, ele passa aqui pela estante e j\u00e1 para um pouco mais de tempo. Acho que essa vis\u00e3o do leitor diante da estante \u00e9 quando ele se torna leitor mesmo. \u00c9 quando ele se torna um bibliotec\u00e1rio de si mesmo, um curador de si mesmo. N\u00e3o sou mais eu ou o professor dizendo que ele tem que ler. \u00c9 esse pr\u00f3prio leitor que vai atr\u00e1s do seu livro.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Qual legado seria interessante que ficasse para o p\u00fablico jovem que est\u00e1 tendo contato com o livro?<\/strong><br>O legado que eu gostaria \u00e9 que esse p\u00fablico jovem lesse mais literatura brasileira. Acho que o que fica s\u00e3o essas hist\u00f3rias que ainda n\u00e3o foram contadas. As hist\u00f3rias do Itamar Vieira J\u00fanior, da Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, da Eliana Alves Cruz, da Ana Maria Gon\u00e7alves, Carolina Maria de Jesus. Esses autores que agora est\u00e3o tendo uma repercuss\u00e3o, que est\u00e3o chegando. Acho que <em>O Avesso da Pele <\/em>tamb\u00e9m traz essas hist\u00f3rias que por muito tempo foram silenciadas. Esse \u00e9 o legado. Os jovens podem ler o que quiserem, quanto mais diversidade melhor. Mas n\u00e3o deixem de lado a literatura brasileira e principalmente a literatura escrita por pessoas negras.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-background-color has-background wp-block-paragraph\"><strong>Especial Leituras Obrigat\u00f3rias<\/strong><br>Com o objetivo de ampliar as experi\u00eancias de leitura, o JU produz, desde 2018, uma s\u00e9rie de reportagens em que especialistas destacam aspectos e fazem an\u00e1lises interpretativas das obras indicadas pela Universidade. Acompanha cada texto a cria\u00e7\u00e3o de artistas convidados que dialoga com a obra e a biografia de autoras e autores. Veja as reportagens&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/leituras-obrigatorias\/\">aqui<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>:: Leia mais<\/strong><br><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/leituras-obrigatorias-2\/\">Especial Leituras Obrigat\u00f3rias Vestibular 2025<\/a><br><br><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/se-os-negros-nao-conseguem-avancar-a-sociedade-tambem-nao-avanca-afirma-jeferson-tenorio-um-dos-primeiros-cotistas-formados-pela-ufrgs\/\">Em entrevista ao JU em 2020, Jeferson Ten\u00f3rio, um dos primeiros cotistas formados pela UFRGS falou sobre as manifesta\u00e7\u00f5es anti-racistas pelo mundo e fez um paralelo entre o racismo no Brasil e nos Estados Unidos<\/a><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista | Autor de O Avesso da Pele reflete sobre 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