{"id":92770,"date":"2024-09-12T07:50:00","date_gmt":"2024-09-12T10:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=92770"},"modified":"2024-09-12T08:46:31","modified_gmt":"2024-09-12T11:46:31","slug":"crise-climatica-aponta-necessidade-de-mudancas-na-producao-e-no-consumo-de-alimentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/crise-climatica-aponta-necessidade-de-mudancas-na-producao-e-no-consumo-de-alimentos\/","title":{"rendered":"Crise clim\u00e1tica aponta necessidade de mudan\u00e7as na produ\u00e7\u00e3o e no consumo de alimentos"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Sociobiodiversidade | Iniciativas e movimentos buscam auxiliar na constru\u00e7\u00e3o de um sistema alimentar que respeite diferentes culturas e modos de vida e promova acesso a uma alimenta\u00e7\u00e3o mais saud\u00e1vel e sustent\u00e1vel<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Foto: Slow Food Brasil<\/em><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A rela\u00e7\u00e3o das pessoas com os alimentos vai al\u00e9m do simples ato de comer: ela reflete um complexo sistema de intera\u00e7\u00f5es sociais, culturais, econ\u00f4micas e ambientais. Em um mundo onde a produ\u00e7\u00e3o de alimentos processados se tornou a norma, a desconex\u00e3o entre o consumidor e a origem dos alimentos se intensifica, trazendo \u00e0 tona quest\u00f5es cruciais sobre sa\u00fade, sustentabilidade e sociobiodiversidade. Especialistas em agronomia, sociologia rural, antropologia alimentar e integrantes do movimento Slow Food Brasil destacam a necessidade de valorizar a biodiversidade local e promover uma alimenta\u00e7\u00e3o mais consciente e saud\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cada refei\u00e7\u00e3o que fazemos n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de nutri\u00e7\u00e3o, mas a express\u00e3o de valores que podem impactar a sociedade e o planeta. Ao optar por alimentos locais e sustent\u00e1veis, podemos estimular a sa\u00fade individual, apoiar pequenos agricultores, ajudar a preservar os ecossistemas naturais e evitar a degrada\u00e7\u00e3o ambiental. Essa perspectiva \u00e9 amplamente discutida por especialistas e ativistas, que argumentam que a alimenta\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel deve ser vista como uma forma de resist\u00eancia e de sobreviv\u00eancia futura diante da crise clim\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos movimentos que coloca esse assunto em pauta \u00e9 o Slow Food, criado em 1986, na It\u00e1lia. Com o lema \u201cAlimento Bom, Limpo e Justo para Todos\u201d, o movimento tem o objetivo de romper com a padroniza\u00e7\u00e3o dos alimentos e promover a valoriza\u00e7\u00e3o da boa comida, o prazer \u00e0 mesa e um ritmo de vida mais lento, oposto \u00e0 cultura acelerada, saboreando cada refei\u00e7\u00e3o de forma consciente e significativa. A iniciativa ganhou for\u00e7a e, em 1989, tornou-se internacional, contando atualmente com mais de 100 mil membros em cerca de 150 pa\u00edses, incluindo o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O <a href=\"https:\/\/slowfoodbrasil.org.br\/movimento\/\">Slow Food Brasil<\/a> atua com foco em quest\u00f5es espec\u00edficas do cen\u00e1rio nacional. Atualmente, est\u00e1 envolvido na gest\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o de tr\u00eas projetos no pa\u00eds. Um deles, em parceria com o governo do Cear\u00e1, trabalha na educa\u00e7\u00e3o patrimonial da cultura alimentar com o olhar sobre o territ\u00f3rio, considerando seus aspectos f\u00edsicos, de biodiversidade e das pessoas e suas culturas. Esse projeto tamb\u00e9m inclui a forma\u00e7\u00e3o em comunica\u00e7\u00e3o popular, com o objetivo de promover a autonomia de comunidades ind\u00edgenas e quilombolas e grupos de jovens agricultores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A filosofia do movimento Slow Food dialoga com o contexto de cada territ\u00f3rio. \u201cAs comunidades tradicionais, os povos origin\u00e1rios, ainda s\u00e3o os agrupamentos que mant\u00eam essas rela\u00e7\u00f5es em diversos n\u00edveis, de uma forma mais pr\u00f3xima entre a lida di\u00e1ria com a agricultura e a natureza, com o jeito de manejar os alimentos&#8221;, explica Ligia Meneguello, bi\u00f3loga e coordenadora de Conte\u00fados e Programas do Slow Food Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atualmente, uma das principais iniciativas da associa\u00e7\u00e3o junto aos povos origin\u00e1rios \u00e9 vinculada ao Programa Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar (<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/fnde\/pt-br\/acesso-a-informacao\/acoes-e-programas\/programas\/pnae\">PNAE<\/a>) na regi\u00e3o Norte, a fim de escoar a produ\u00e7\u00e3o para as escolas. Segundo Ligia, a ideia \u00e9 construir caminhos para facilitar o acesso burocr\u00e1tico, organizar documenta\u00e7\u00f5es e fazer treinamentos para que essas comunidades possam acessar pol\u00edticas governamentais, a fim de oferecer alimentos que elas produzem. \u00c9 comum que escolas de zonas rurais recebam alimentos enlatados de outros lugares, desalinhados com a cultura local.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO acesso atrav\u00e9s do fornecimento da alimenta\u00e7\u00e3o escolar pela pr\u00f3pria comunidade acaba sendo um caminho n\u00e3o s\u00f3 de gera\u00e7\u00e3o de renda local, mas tamb\u00e9m de manuten\u00e7\u00e3o da cultura, fechando o ciclo em que essa comunidade pode produzir seu alimento e fornecer para escola, e as crian\u00e7as continuam comendo esse alimento que eles produzem, que suas fam\u00edlias produzem localmente\u201d<\/p>\n<cite>Ligia Meneguello<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cTrazer os territ\u00f3rios\u201d \u00e9 um trabalho de patrim\u00f4nio alimentar. No Cear\u00e1, o movimento comp\u00f5e o olhar sobre o territ\u00f3rio com a conflu\u00eancia entre diversos aspectos, como o f\u00edsico, o biodiverso, as pessoas e suas culturas ali colocadas. O projeto \u00e9 uma parceria com o governo estadual e tamb\u00e9m trabalha forma\u00e7\u00e3o em comunica\u00e7\u00e3o popular. \u201c\u00c9 uma das frentes de educa\u00e7\u00e3o trazer a comunica\u00e7\u00e3o como um caminho importante para autonomia destas comunidades\u201d, acrescenta a coordenadora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra frente de trabalho do Slow Food Brasil s\u00e3o projetos em parceria com o Governo do Estado de S\u00e3o Paulo, como a feira de troca de sementes e mudas tradicionais das comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, em colabora\u00e7\u00e3o com o Instituto de Solidariedade Para Programas de Alimenta\u00e7\u00e3o (<a href=\"https:\/\/isacontraafome.com.br\">ISA<\/a>). Esses projetos visam fortalecer o sistema agr\u00edcola tradicional quilombola e promover a autonomia das comunidades. Al\u00e9m disso, o movimento participa da defesa de direitos humanos na alimenta\u00e7\u00e3o, soberania alimentar e biodiversidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEnquanto movimento, estamos sempre focados nos sistemas alimentares que a gente chama de bom, limpo e justo, ou seja, sustent\u00e1veis. O sistema produtivo do jeito que est\u00e1 hoje tem uma import\u00e2ncia muito grande para a crise clim\u00e1tica que estamos vivendo. Acreditamos que os princ\u00edpios da agroecologia, de uma agricultura alinhada com as esta\u00e7\u00f5es e os fluxos ecol\u00f3gicos, respeitando a cultura e o territ\u00f3rio, t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de ser muito produtiva\u201d, afirma Ligia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meneguello cita como exemplo a situa\u00e7\u00e3o que o Rio Grande do Sul enfrentou durante a enchente de maio de 2024, quando as estradas ficaram interditadas e algumas cidades, sem condi\u00e7\u00f5es de receber alimentos, incluindo Porto Alegre. Segundo ela, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que poderia ter sido evitada atrav\u00e9s do consumo da agricultura hiperlocal, sem a depend\u00eancia dos grandes fornecedores de alimentos; nossa pr\u00f3pria educa\u00e7\u00e3o alimentar poderia ser diferente e menos dependente, ao consumir produtos sazonais, em vez de exigir o fornecimento de tudo ao longo do ano todo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cS\u00e3o as comunidades que sabem manejar a terra e praticam uma agricultura que n\u00e3o precisa de muitos insumos, alinhada com os fluxos naturais, que v\u00e3o continuar produzindo comida no mundo. Quando o neg\u00f3cio apertar, n\u00e3o \u00e9 a agricultura de precis\u00e3o, esta que p\u00f5e o cerrado abaixo e precisa de montes de insumos para produzir um pouquinho de soja, n\u00e3o \u00e9 esse modelo que vai alimentar as pessoas\u201d<\/p>\n<cite>Ligia Meneguello<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 por isso que a \u201ceduca\u00e7\u00e3o do gosto\u201d \u00e9 uma das frentes principais de atua\u00e7\u00e3o do movimento no Brasil, muito articulado em torno de oficinas, em geral realizadas em escolas de ensino fundamental ou feiras. Algumas dessas iniciativas resultaram no livro <a href=\"https:\/\/slowfoodbrasil.org.br\/2021\/07\/caracol-de-praticas-educativas\/\">Caracol de Pr\u00e1ticas Educativas<\/a>, um apanhado de oficinas com fam\u00edlias, crian\u00e7as e idosos que possibilita visualizar esse lugar de forma\u00e7\u00e3o sobre como se comportar diante do alimento e o papel de cada pessoa sobre os sistemas alimentares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caracol \u00e9 o s\u00edmbolo do movimento Slow Food porque representa a resist\u00eancia contra a velocidade e superficialidade da alimenta\u00e7\u00e3o moderna. Implica desacelerar e valorizar a comida de maneira consciente e sustent\u00e1vel, resgatando tradi\u00e7\u00f5es alimentares e o respeito ao que a natureza pode oferecer, em um relacionamento mais profundo e significativo entre refei\u00e7\u00e3o e ambiente. \u201cNunca foi sobre comer devagar, mas sobre o que \u00e9 a cadeia produtiva, sobre o local de onde vem o alimento, sobre valores culturais e respeito aos processos, sobre o conv\u00edvio \u00e0 mesa, o conversar&#8221;, destaca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Ligia, esse processo de reflex\u00e3o est\u00e1 no in\u00edcio, pois o caminho \u00e9 longo. Ela acredita que, se antes a ind\u00fastria era sin\u00f4nimo de modernidade, hoje h\u00e1 mais abertura para as pessoas pensarem a alimenta\u00e7\u00e3o em termos pol\u00edticos. &#8220;Mas o ponto de virada ainda \u00e9 conscientizar as pessoas a comprarem alimentos bons ao inv\u00e9s do que est\u00e1 facilmente dispon\u00edvel. Isso ainda \u00e9 uma grande dificuldade.\u201d<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Slow-Food-BR-Alimentacao-02-Credito-Slow-Food-Brasil-1024x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-93839\" style=\"width:840px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Slow-Food-BR-Alimentacao-02-Credito-Slow-Food-Brasil-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Slow-Food-BR-Alimentacao-02-Credito-Slow-Food-Brasil-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Slow-Food-BR-Alimentacao-02-Credito-Slow-Food-Brasil-117x117.jpg 117w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Slow-Food-BR-Alimentacao-02-Credito-Slow-Food-Brasil-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Slow-Food-BR-Alimentacao-02-Credito-Slow-Food-Brasil-500x500.jpg 500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Slow-Food-BR-Alimentacao-02-Credito-Slow-Food-Brasil-465x465.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Slow-Food-BR-Alimentacao-02-Credito-Slow-Food-Brasil.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Queijo produzido artesanalmente (Foto: Slow Food Brasil)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">A import\u00e2ncia dos pequenos atos<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem trouxe o Slow Food para a Serra ga\u00facha foi Ivane F\u00e1vero, ex-secret\u00e1ria de Turismo de Garibaldi (RS) e mestre em Turismo pela Universidade de Caxias do Sul (UCS). Criado em 2015, o Conv\u00edvio Slow Food Primeira Col\u00f4nia (hoje chamado de Guardi\u00f5es do Sabor Primeira Col\u00f4nia Italiana) foi refer\u00eancia tanto para o movimento no Brasil quanto para o internacional com suas atividades educacionais e eventos. Al\u00e9m disso, deu origem a atra\u00e7\u00f5es tur\u00edsticas e gastron\u00f4micas na regi\u00e3o, como a Via Org\u00e2nica e o <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/garibaldigastro\">Garibaldi Gastr\u00f4<\/a>, e tamb\u00e9m agregou diversos produtores de vinhos da regi\u00e3o. O Conv\u00edvio tamb\u00e9m resgatou receitas origin\u00e1rias da coloniza\u00e7\u00e3o italiana que haviam se perdido no tempo e produtos que n\u00e3o eram valorizados, como o <a href=\"https:\/\/youtu.be\/ILUtrUOLtUw\">lim\u00e3o-cravo<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cTemos a tend\u00eancia de consumir sempre os mesmos alimentos, repetir as mesmas receitas e limitamos o nosso paladar. Essa cultura alimentar levou \u00e0 depend\u00eancia de toda a grande ind\u00fastria do alimento. O resultado \u00e9 a diminui\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, obesidade, diabetes, etc. Por isso, um dos projetos que fizemos foi a Educa\u00e7\u00e3o para o Gosto nas escolas, para ensinar as crian\u00e7as. Se a gente n\u00e3o as educar desde cedo, ser\u00e1 muito dif\u00edcil se libertar depois desse v\u00edcio de paladar por produtos industrializados. Mas isso passa tamb\u00e9m por toda uma consci\u00eancia da sociedade\u201d, afirma a turism\u00f3loga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando se fala de um <a href=\"https:\/\/slowfoodbrasil.org.br\/2007\/07\/manifesto-bom-limpo-e-justo\/\">alimento justo<\/a>, a primeira ideia que ocorre \u00e9 sobre o valor do produto. Afinal, o alimento org\u00e2nico tem o pre\u00e7o maior. Ivane mostra outro ponto de vista: \u201cDepende da perspectiva, porque voc\u00ea vai economizar em sa\u00fade ao longo da vida; ent\u00e3o, ele acaba sendo barato. A conscientiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m leva a trabalhar o zero desperd\u00edcio, o aproveitamento total do alimento\u201d. Na filosofia do Slow Food, \u201cjusti\u00e7a\u201d leva em considera\u00e7\u00e3o toda a cadeia produtiva; a \u201climpeza\u201d, o fato de ser livre de agrot\u00f3xicos e t\u00e9cnicas de cultivo prejudiciais; a \u201cbondade\u201d se refere \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o da natureza intr\u00ednseca do alimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa escolha (do que \u00e9 bom, limpo e justo) \u00e9 um ato civilizat\u00f3rio e pol\u00edtico, tal qual se v\u00ea nas a\u00e7\u00f5es contra outros sistemas de produ\u00e7\u00e3o e consumo, como o boicote a marcas. \u201cAs pessoas se rebelam e protestam quando descobrem que um produto emprega m\u00e3o de obra infantil ou escrava, mas consomem centenas de outros que t\u00eam a mesma l\u00f3gica. \u00c9 uma batalha dif\u00edcil\u201d, aponta Ivane. O Slow Food trabalha tamb\u00e9m o conceito \u201cAlimento Quil\u00f4metro Zero\u201d, que promove a ideia de se consumir quase tudo dentro de um raio de 1 km para evitar a polui\u00e7\u00e3o do transporte de alimentos por CO<sub>2<\/sub>. A\u00e7\u00f5es que partem da iniciativa micro para o macro, nas palavras da gestora de Turismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cNo mundo que estamos vivendo, do aquecimento global, podemos contribuir para diminuir a polui\u00e7\u00e3o no transporte de alimentos. Se queremos um mundo melhor, podemos come\u00e7ar pelo nosso lugar. N\u00e3o adianta querer salvar o mundo das guerras mundiais que est\u00e3o acontecendo. Mas se voc\u00ea comprar toda semana um produto org\u00e2nico de pequenos produtores, poder\u00e1 mudar a vida dessa pessoa ou fam\u00edlia que, por sua vez, poder\u00e1 seguir vivendo na terra, sem precisar vend\u00ea-la para condom\u00ednios residenciais de luxo que transformam o local e a paisagem. No final, \u00e9 toda uma cadeia de influ\u00eancias para o bem ou para o mal.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">A for\u00e7a \u201cinvis\u00edvel\u201d das mulheres na agricultura familiar<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2023, o Brasil atingiu a posi\u00e7\u00e3o de maior exportador de alimentos industrializados do planeta, com aumento de 11,4% na quantidade vendida para 190 pa\u00edses, segundo a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira da Ind\u00fastria de Alimentos (<a href=\"https:\/\/www.abia.org.br\/vsn\/temp\/RelatorioAnual2024_digital.pdf\">ABIA<\/a>). Do total produzido, 73% \u00e9 consumido internamente e 23%, exportado, principalmente suco de laranja e a\u00e7\u00facar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O acesso aos alimentos, contudo, ainda \u00e9 um problema neste que \u00e9 conhecido como o &#8220;celeiro do mundo&#8221;, apesar de avan\u00e7os nos \u00faltimos anos. Dados do<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/secom\/pt-br\/assuntos\/noticias\/2024\/04\/no-primeiro-ano-de-governo-24-4-milhoes-deixam-de-passar-fome-no-brasil#:~:text=No%20Brasil%2C%2024%2C4%20milh%C3%B5es,2023%20(4%2C1%25).\"> governo federal<\/a> indicam que o n\u00famero de pessoas enfrentando inseguran\u00e7a alimentar e nutricional grave no Brasil caiu de 33,1 milh\u00f5es em 2022 (15,5% da popula\u00e7\u00e3o) para 8,7 milh\u00f5es em 2023 (4,1%), representando uma redu\u00e7\u00e3o de 11,4%. Embora a conscientiza\u00e7\u00e3o sobre a import\u00e2ncia de uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel e a compra de alimentos nutritivos estejam em ascens\u00e3o, as transforma\u00e7\u00f5es de h\u00e1bitos alimentares envolvem diversos aspectos que levam tempo para se consolidar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a engenheira agr\u00f4noma e professora do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Desenvolvimento Rural (<a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/pgdr\/\">PGDR<\/a>) da UFRGS Fl\u00e1via Char\u00e3o-Marques, a quest\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o traz diversos dilemas e interfaces. &#8220;Se a nossa agricultura \u00e9 capaz de produzir muito, por outro lado h\u00e1 pessoas em inseguran\u00e7a alimentar e nutricional, al\u00e9m da epidemia de obesidade. Hoje, h\u00e1 a amplia\u00e7\u00e3o de certos mercados que exigem produtos sem res\u00edduos de agrot\u00f3xicos e em condi\u00e7\u00f5es que mant\u00eam a sua qualidade. Algumas pessoas, por\u00e9m,  v\u00e3o comer saud\u00e1vel, enquanto outras v\u00e3o comer o que sobrar&#8221;, reflete.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O tema da alimenta\u00e7\u00e3o abarca tamb\u00e9m assuntos de sociobiodiversidade e antropologia, envolvendo territorialidade e cultura, como a produ\u00e7\u00e3o de quilombolas, passando ainda por estudos de g\u00eanero dentro do contexto rural.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O PGDR, por exemplo, trabalhou com comunidades quilombolas em Goi\u00e1s e no Par\u00e1 em 2023, al\u00e9m de uma horta comunit\u00e1ria no Quilombo dos Alpes, que fica em \u00e1rea urbana de Porto Alegre. \u201cUma das coisas que percebemos \u00e9 que a produ\u00e7\u00e3o, quando voltada ao autoconsumo, \u00e9 muito associada \u00e0 a\u00e7\u00e3o das mulheres tanto em lares urbanos quanto rurais. Elas s\u00e3o respons\u00e1veis pelo abastecimento, pelo cuidado da fam\u00edlia, da sa\u00fade e pelo meio ambiente, com a pr\u00f3pria forma de produ\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Fizemos v\u00e1rias pesquisas ao redor de Pelotas e na regi\u00e3o do Taquari. Quando chegamos nos lugares para falar sobre comida, em geral ficamos na cozinha e a conversa acaba sendo com as mulheres\u201d<\/p>\n<cite>Fl\u00e1via Char\u00e3o-Marques<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A for\u00e7a do feminino na produ\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m espelha os desafios da mulher na sociedade, como a sobrecarga de trabalho, comum entre as mulheres rurais: \u201cElas atuam na produ\u00e7\u00e3o, nas atividades da casa, em cozinhar,&nbsp;cultivar a sua horta e o seu pomar para autoconsumo, o cultivar. \u00c9 um trabalho muitas vezes invis\u00edvel\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Diversificar e produzir alimentos regionais<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo do tempo, especialmente no s\u00e9culo XX, nossos h\u00e1bitos alimentares mudaram devido \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o, urbaniza\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o de complexos agroindustriais. A alimenta\u00e7\u00e3o passou a ser tratada como uma mercadoria, sujeita \u00e0s din\u00e2micas do mercado global, como os pre\u00e7os das commodities. Isso resultou em uma diminui\u00e7\u00e3o da autonomia nas nossas escolhas alimentares, com op\u00e7\u00f5es cada vez mais limitadas. O n\u00edvel de renda e o acesso a supermercados n\u00e3o melhoram a acessibilidade; tampouco nossa educa\u00e7\u00e3o alimentar, geralmente aprendida na escola, tem promovido escolhas conscientes: o desejo e o conveniente s\u00e3o mais sedutores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/saude\/pt-br\/assuntos\/saude-brasil\/publicacoes-para-promocao-a-saude\/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf\/view\">Guia Alimentar para a Popula\u00e7\u00e3o Brasileira<\/a>, publicado pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, afirma que a autonomia para fazer escolhas alimentares saud\u00e1veis depende de diversos fatores f\u00edsicos, econ\u00f4micos, pol\u00edticos, culturais e sociais. Viver em \u00e1reas com acesso a feiras e mercados que vendem frutas e verduras de qualidade facilita escolhas saud\u00e1veis; j\u00e1 a intensa publicidade de alimentos n\u00e3o saud\u00e1veis dificulta boas escolhas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cNas cidades, as pessoas n\u00e3o necessariamente t\u00eam mais acesso \u00e0 diversidade, a mais um tipo de beterraba, de cenoura ou arroz. Em geral, comemos um ou dois tipos de feij\u00e3o. Como a nossa alimenta\u00e7\u00e3o se tornou uma mercadoria, como um produto do capitalismo, \u00e9 cada vez menos diversificada e saud\u00e1vel. Falta oferta. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o s\u00f3 de acesso, mas de alimentos diversificados e de qualidade&#8221;, diz Daniela Oliveira, docente do C\u00e2mpus Litoral Norte da UFRGS.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do s\u00e9culo XX para c\u00e1, a alimenta\u00e7\u00e3o deixa os lares e as refei\u00e7\u00f5es fora de casa se tornam o padr\u00e3o vigente no ambiente urbano. \u201cO aumento da dist\u00e2ncia entre o local de moradia e o de trabalho e a profissionaliza\u00e7\u00e3o das mulheres refletiram diretamente na mudan\u00e7a dos h\u00e1bitos alimentares&#8221;, atesta a professora do C\u00e2mpus Litoral Norte Jaqueline Haas. &#8220;Com a chegada dos <em>fast-food<\/em>, temos a op\u00e7\u00e3o de uma refei\u00e7\u00e3o completa em 15 segundos, os produtos s\u00e3o os mesmos em toda a parte, ultraprocessados e baseados em ingredientes baratos, como amidos modificados, a\u00e7\u00facares, \u00f3leos e gorduras, extremamente atraentes para o paladar e aos olhos pelos real\u00e7adores de sabor, corantes, ado\u00e7antes\u201d, completa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outras palavras, a partir das necessidades do mercado de trabalho, a alimenta\u00e7\u00e3o se desenraiza e perde sua conex\u00e3o com sua base natural. \u201cA proced\u00eancia geogr\u00e1fica dos alimentos e a cultura alimentar das pessoas deixam de ser importantes. A alimenta\u00e7\u00e3o torna-se produto de consumo de massa, empregando-se modernas t\u00e9cnicas de marketing. Aliado a tudo, ocorre a moderniza\u00e7\u00e3o nos domic\u00edlios, com a larga utiliza\u00e7\u00e3o dos micro-ondas, tornando f\u00e1cil e c\u00f4modo o uso de alimentos congelados\u201d, afirma Jaqueline, que desenvolve estudos na \u00e1rea de sociologia rural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, as escolhas aliment\u00edcias se tornam padronizadas, cercadas pela pouca oferta. Daniela Oliveira cita um exemplo ins\u00f3lito. \u201cA cidade onde moro (Ant\u00f4nio Prado), na Serra Ga\u00facha, \u00e9 produtora de p\u00eassego e outras frutas de caro\u00e7o. Mas \u00e0s vezes \u00e9 mais caro comprar p\u00eassego e ameixa aqui do que nos mercados de Porto Alegre\u201d, compara. Isso ocorre porque a produ\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o segue direto para venda para outras grandes capitais brasileiras.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cVoc\u00ea tem uma regi\u00e3o rica em determinados produtos e, ao mesmo tempo, n\u00e3o h\u00e1 oferta desses mesmos produtos\u201d<\/p>\n<cite>Daniela Oliveira<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a crise clim\u00e1tica, a escassez de \u00e1gua e outros fen\u00f4menos extremos no planeta, a mudan\u00e7a na alimenta\u00e7\u00e3o humana ser\u00e1 impositiva. Na opini\u00e3o de Daniela, seremos for\u00e7ados a voltar a comer aquilo que o ambiente tem condi\u00e7\u00f5es de oferecer. \u201cAcho dif\u00edcil a gente continuar comendo alface, porque \u00e9 uma planta dif\u00edcil de produzir; precisa de \u00e1gua e tem problema com calor; qualquer umidade apodrece a muda. Tamb\u00e9m ser\u00e1 muito dif\u00edcil continuar a comer&nbsp;ma\u00e7\u00e3s no Rio Grande do Sul, pois aquelas temperaturas frias para sua agricultura n\u00e3o existem mais\u201d, prev\u00ea.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A agr\u00f4noma acrescenta que a produ\u00e7\u00e3o de ma\u00e7\u00e3 foi se deslocando para o entorno de Lages (SC), hoje a \u00fanica localidade que produz a fruta no Brasil. Justamente por isso, o produto encareceu. Ou seja, plantar beterrabas, cenouras e alfaces o ano todo para agradar o gosto do mundo inteiro, modificando&nbsp;os agrossistemas para produzir a qualquer custo, \u201cest\u00e1 fadado ao fim\u201d. No entendimento de Daniela, se as pr\u00e1ticas alimentares e de agricultura continuarem como est\u00e3o, \u201cteremos cada vez mais problemas nos sistemas alimentares e pessoas com fome\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro caso parecido \u00e9 o do arroz.&nbsp; A impressionante produ\u00e7\u00e3o dos arrozais da Metade Sul do Rio Grande do Sul, sin\u00f4nimo de paisagem ga\u00facha junto com o gado e subsidiada por pol\u00edticas p\u00fablicas por cerca de 50 anos, agora praticamente acabou. \u201cHoje, esses lugares foram drenados e s\u00e3o voltados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de soja. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que o pre\u00e7o do arroz est\u00e1 t\u00e3o caro. Muitas das \u00e1reas de arroz foram tomadas, como em Os\u00f3rio. Sem d\u00favida, teremos que repensar essas pr\u00e1ticas, focar na necessidade de diversificar e produzir alimentos locais e regionais\u201d, afirma a pesquisadora.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"819\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Slow-Food-BR-Alimentacao-01-Credito-Slow-Food-Brasil-819x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-93843\" style=\"width:600px\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Slow-Food-BR-Alimentacao-01-Credito-Slow-Food-Brasil-819x1024.jpg 819w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Slow-Food-BR-Alimentacao-01-Credito-Slow-Food-Brasil-240x300.jpg 240w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Slow-Food-BR-Alimentacao-01-Credito-Slow-Food-Brasil-94x117.jpg 94w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Slow-Food-BR-Alimentacao-01-Credito-Slow-Food-Brasil-768x960.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Slow-Food-BR-Alimentacao-01-Credito-Slow-Food-Brasil-440x550.jpg 440w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Slow-Food-BR-Alimentacao-01-Credito-Slow-Food-Brasil-400x500.jpg 400w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Slow-Food-BR-Alimentacao-01-Credito-Slow-Food-Brasil.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 819px) 100vw, 819px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica da agricultura familiar (Foto: Slow Food Brasil)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">A transforma\u00e7\u00e3o passa pela educa\u00e7\u00e3o<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como modificar esse cen\u00e1rio que se entrela\u00e7a em diversas camadas da sociedade? No entendimento de Fl\u00e1via Char\u00e3o-Marques, a solu\u00e7\u00e3o passa pela universidade, que pode desempenhar um papel crucial no desenvolvimento de tecnologias adaptativas e na regenera\u00e7\u00e3o de ambientes para garantir a produ\u00e7\u00e3o de alimentos sustent\u00e1veis. A agroecologia, aponta, \u201ctem efic\u00e1cia comprovada em pr\u00e1ticas como a economia de \u00e1gua e o uso de bioinsumos para melhorar o solo e a sa\u00fade das plantas. Al\u00e9m disso, m\u00e9todos como a agrofloresta e a agricultura vertical podem ajudar na prote\u00e7\u00e3o do solo e na reten\u00e7\u00e3o de \u00e1gua\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, as transforma\u00e7\u00f5es requerem mais que avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos e investimentos em educa\u00e7\u00e3o alimentar, ci\u00eancia e tecnologia. Tamb\u00e9m \u00e9 fundamental apoiar os agricultores que desejem fazer a transi\u00e7\u00e3o para pr\u00e1ticas agroecol\u00f3gicas, garantindo que as ideias se concretizem em a\u00e7\u00f5es efetivas. Em outra ponta, envolve a ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas culin\u00e1rias e de cultivo mais conscientes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas e outras preocupa\u00e7\u00f5es levaram \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/gastronomiacultural\/\">curso de especializa\u00e7\u00e3o em Gastronomia Cultural<\/a> pela Faculdade de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas da UFRGS, em parceria com a Universidade Federal de Ci\u00eancias da Sa\u00fade de Porto Alegre (UFCSPA) e <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/fce\/ufrgs-lanca-curso-de-pos-graduacao-em-gastronomia-cultural\/\">outras institui\u00e7\u00f5es<\/a>. Com o tema \u201cdo campo \u00e0 mesa\u201d, a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o promove reflex\u00f5es sobre a interconex\u00e3o entre gastronomia e agricultura, abordando a rela\u00e7\u00e3o entre pessoas e alimentos, seguran\u00e7a alimentar e nutricional, sociobiodiversidade, cultura, sa\u00fade, bem-estar e desenvolvimento territorial. A iniciativa contempla tamb\u00e9m a cultura alimentar de popula\u00e7\u00f5es e povos tradicionais, como os quilombolas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Professora do departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da UFRGS, Gabriela Coelho explica que o diferencial dessa especializa\u00e7\u00e3o \u00e9 o foco nos alimentos provenientes do ambiente da Mata Atl\u00e2ntica e do Pampa. \u201cA p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o busca formar profissionais com ampla capacidade de atuar sobre as crises atuais por meio da promo\u00e7\u00e3o de sistemas alimentares sustent\u00e1veis, baseados na promo\u00e7\u00e3o da sociobiodiversidade brasileira a partir da gastronomia, do empreendedorismo e da a\u00e7\u00e3o social e p\u00fablica, na promo\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio alimentar, na conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade e do direito humano \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o adequada\u201d, enumera.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante a especializa\u00e7\u00e3o, os alunos poder\u00e3o se aprofundar na rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca entre a diversidade biol\u00f3gica brasileira e culturas que convivem em lugares que, de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o, moldam, manejam paisagens e esp\u00e9cies. A sociobiodiversidade \u00e9 o carro-chefe do curso, por reconhecer o patrim\u00f4nio biol\u00f3gico e cultural e a rela\u00e7\u00e3o entre conhecimentos, pr\u00e1ticas, receitas, utens\u00edlios e t\u00e9cnicas culin\u00e1rias. A culin\u00e1ria dom\u00e9stica, feita em casa todos os dias; as plantas aliment\u00edcias n\u00e3o convencionais; o pescado da pesca artesanal e o conceito de sociobiocotidiano preparam o estudante para atuar em rela\u00e7\u00e3o aos sistemas alimentares sustent\u00e1veis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cHoje a complementa\u00e7\u00e3o da sa\u00fade vem da ind\u00fastria farmac\u00eautica. Os desafios passam pela conscientiza\u00e7\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o como um processo de sa\u00fade e outras distintas dimens\u00f5es, como a comensalidade, a regionalidade, o sentimento de perten\u00e7a e de identidade regional, porque tudo isso vai se perdendo dentro do nosso modo de vida voltado \u00e0 produtividade\u201d, conclui Gabriela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sociobiodiversidade | Diferentes iniciativas e movimentos buscam auxiliar na constru\u00e7\u00e3o de um sistema alimentar que respeite diferentes culturas e modos de vida e promova acesso a uma alimenta\u00e7\u00e3o mais saud\u00e1vel e sustent\u00e1vel<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/crise-climatica-aponta-necessidade-de-mudancas-na-producao-e-no-consumo-de-alimentos\/\">Leia 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