{"id":93409,"date":"2024-10-03T07:50:00","date_gmt":"2024-10-03T10:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=93409"},"modified":"2024-10-04T09:22:43","modified_gmt":"2024-10-04T12:22:43","slug":"mulheres-reiventam-o-jogo-no-futebol-feminino-mas-modalidade-ainda-enfrenta-estigmas-e-desafios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/mulheres-reiventam-o-jogo-no-futebol-feminino-mas-modalidade-ainda-enfrenta-estigmas-e-desafios\/","title":{"rendered":"Mulheres reinventam o futebol feminino, mas modalidade ainda enfrenta estigmas e desafios"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Esporte | Ap\u00f3s d\u00e9cadas de luta e uma proibi\u00e7\u00e3o que durou mais de 40 anos, diferentes iniciativas pela valoriza\u00e7\u00e3o e equidade abrem portas para as mulheres no futebol <\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Projeto da Esefid da UFRGS pretende ser um espa\u00e7o de acolhimento \u00e0s mulheres no futebol (Foto: Pietro Scopel\/JU<\/em>)<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Caro\/a leitor\/a, inicio esta reportagem pedindo que imagine comigo a seguinte cena: \u00e9 uma tarde de sol, e o Internacional enfrenta o Flamengo em uma partida eletrizante de futebol. Em um momento crucial do jogo, o \u00e1rbitro toma uma decis\u00e3o controversa. Os \u00e2nimos se exaltam, e o que come\u00e7ou com uma discuss\u00e3o sobre uma delibera\u00e7\u00e3o rapidamente se transforma em uma s\u00e9rie de xingamentos. Entre os insultos dirigidos ao \u00e1rbitro, destaca-se uma provoca\u00e7\u00e3o: \u201cPor que voc\u00ea n\u00e3o vai para casa? Aproveita que tem sol e vai lavar roupa\u201d. Estranha-se, talvez, que tal coment\u00e1rio tenha sido feito a um homem?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Imagino que nesse ponto fique claro que causei uma confus\u00e3o sem\u00e2ntica relativa ao g\u00eanero, pois quem apita o jogo \u00e9, na verdade, uma mulher. Afinal, esse insulto n\u00e3o reflete apenas uma indigna\u00e7\u00e3o frente a uma decis\u00e3o tomada em jogo, mas a manifesta\u00e7\u00e3o de um estere\u00f3tipo que transcende o pr\u00f3prio esporte.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria acima foi relatada por uma das mulheres entrevistadas para esta reportagem, e imagino que seja por situa\u00e7\u00f5es como essa, e por entendimentos sociais t\u00e3o incrustados no existir feminino, que fui assiduamente lembrada de algo crucial ao longo do processo de apura\u00e7\u00e3o: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel \u2013 e seria at\u00e9 desonesto \u2013 comparar o futebol feminino ao futebol masculino. Como explica Silvana Goellner, pesquisadora aposentada da Escola de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica, Fisioterapia e Dan\u00e7a (Esefid) da UFRGS e atualmente professora visitante na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), o futebol feminino deve ser entendido em seus pr\u00f3prios termos, \u201cporque \u00e9 outra hist\u00f3ria, \u00e9 outro estudo, \u00e9 outra rela\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3prio futebol\u201d. Ainda que os homens tamb\u00e9m enfrentem desafios no esporte, nenhum est\u00e1 relacionado ao g\u00eanero que possuem, ao contr\u00e1rio das mulheres, que, como relatou a pesquisadora, vivenciaram um per\u00edodo de proibi\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica que durou mais de quarenta anos \u2013 elas s\u00f3 voltaram a competir oficialmente no futebol a partir de 1983.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A proibi\u00e7\u00e3o ocorreu em abril de 1941, a partir do <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/decreto-lei\/1937-1946\/del3199.htm#:~:text=DECRETO%2DLEI%20N%C2%BA%203.199%2C%20DE,desportos%20em%20todo%20o%20pa%C3%ADs.\">Decreto-lei n.\u00ba 3.199<\/a>, e foi imposta a partir de cr\u00edticas que alegavam que o futebol era inadequado para mulheres por quest\u00f5es tanto fisiol\u00f3gicas quanto morais. Assim, o decreto estabeleceu que &#8220;\u00e0s mulheres n\u00e3o se permitir\u00e1 a pr\u00e1tica de desportos incompat\u00edveis com as condi\u00e7\u00f5es de sua natureza&#8221;, sendo o Conselho Nacional de Desportos (CND) designado a regulamentar essa restri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi s\u00f3 depois de 41 anos de esfor\u00e7os para superar a barreira imposta pela proibi\u00e7\u00e3o, com diversas tentativas e resist\u00eancias ao longo do caminho, que as mulheres finalmente conseguiram retomar a pr\u00e1tica oficial do futebol no Brasil na transi\u00e7\u00e3o da d\u00e9cada de 1970 para a de 1980. No entanto, apesar da revoga\u00e7\u00e3o da proibi\u00e7\u00e3o legal, os valores e discursos que limitavam a participa\u00e7\u00e3o feminina no esporte n\u00e3o desapareceram; o debate persiste por d\u00e9cadas, ainda deixando suas marcas na trajet\u00f3ria do futebol feminino.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Silvana conta que sua jornada pesquisando futebol feminino come\u00e7ou exatamente por um olhar cr\u00edtico sobre a forma como o esporte era retratado \u2013 ou, mais precisamente, como era invisibilizado \u2013 quando praticado por mulheres. &#8220;O Brasil se autorrepresenta como o pa\u00eds do futebol, mas \u00e9 o pa\u00eds do futebol masculino. Pouco se conhecia sobre a hist\u00f3ria das mulheres no futebol&#8221;, explica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde 2013, ela mergulhou profundamente na pesquisa sobre o tema, estabelecendo contato com jogadoras pioneiras e se envolvendo ativamente em sua valoriza\u00e7\u00e3o. Mais que pesquisadora, Silvana coloca-se como ativista do futebol feminino, o que fica evidente, considerando todo esfor\u00e7o que tem dedicado \u00e0 causa. Seu trabalho n\u00e3o se limitou ao \u00e2mbito acad\u00eamico: ela desempenhou um papel fundamental na curadoria de exposi\u00e7\u00f5es sobre futebol feminino no Museu do Futebol e participou de grupos de trabalho na Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Futebol (CBF). O resultado de tamanha familiaridade com esse meio foi &#8220;uma s\u00e9rie de mais de 80 entrevistas, muitas com a gera\u00e7\u00e3o pioneira, ap\u00f3s a proibi\u00e7\u00e3o do futebol feminino no Brasil&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi a partir dessas entrevistas que Silvana, junto de Juliana Cabral, lan\u00e7ou dois livros que detalham a hist\u00f3ria de algumas dessas mulheres dentro e fora de campo. Uma das primeiras medalhistas ol\u00edmpicas e capit\u00e3 da sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol em 2004, Juliana trouxe uma perspectiva \u00fanica \u00e0s obras. &#8220;Trabalhar com a Juliana foi uma experi\u00eancia transformadora. Escrevemos os livros a quatro m\u00e3os, e isso nos permitiu uma conex\u00e3o mais profunda com as hist\u00f3rias das jogadoras&#8221;, diz Silvana. A abordagem colaborativa e a escrita conjunta n\u00e3o apenas enriqueceram o conte\u00fado, mas tamb\u00e9m proporcionaram mais autenticidade ao relato das viv\u00eancias das jogadoras. Cada cap\u00edtulo das obras apresenta a hist\u00f3ria de uma atleta distinta, mas, apesar de serem trajet\u00f3rias individuais, todas compartilham tra\u00e7os comuns de supera\u00e7\u00e3o, coragem e paix\u00e3o pelo futebol.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre as hist\u00f3rias contadas no livro, a autora destaca a da jogadora Sor\u00f3, apelido de Solange Bastos, ex-sele\u00e7\u00e3o brasileira. Sua trajet\u00f3ria foi marcada por desafios pessoais significativos, incluindo fome e moradia prec\u00e1ria. &#8220;A hist\u00f3ria da Sor\u00f3 \u00e9 particularmente emocionante. N\u00e3o s\u00f3 a hist\u00f3ria exatamente, mas o jeito como ela chorou quando mostramos o que t\u00ednhamos escrito no livro sobre sua vida. Ela fala que foi um grande processo de cura ler a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Ela se deu conta do quanto foi importante&#8221;, relembra Silvana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 compreens\u00edvel que essas mulheres, pioneiras no futebol, n\u00e3o se deem conta do imenso valor que suas trajet\u00f3rias representam. Afinal, suas habilidades foram invisibilizadas socialmente por toda uma vida. \u00c9 o reflexo de uma cultura que condiciona as mulheres a um lugar pr\u00e9-estabelecido; esse cen\u00e1rio n\u00e3o apenas limita nossos direitos a explorar outras \u00e1reas, mas tamb\u00e9m impede que recebamos o devido reconhecimento quando o fazemos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse funcionamento social \u00e9 expresso nos desafios que Silvana e sua equipe enfrentaram na busca por delinear a hist\u00f3ria do futebol feminino. A falta de registros oficiais, inclusive na m\u00eddia tradicional, e a aus\u00eancia de documenta\u00e7\u00e3o na Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Futebol (CBF) exigiram uma abordagem minuciosa para recuperar a mem\u00f3ria dessas pioneiras. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Constru\u00edmos um mapa das jogadoras da sele\u00e7\u00e3o brasileira a partir de informa\u00e7\u00f5es fragmentadas e s\u00famulas de jogos. Foi um trabalho \u00e1rduo, mas essencial para preservar essa hist\u00f3ria&#8221;<\/p>\n<cite>Silvana Goellner<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Um novo cap\u00edtulo para as mulheres no esporte<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho de Silvana n\u00e3o evidencia apenas figuras do passado, mas as precursoras de um legado que continua a inspirar e a transformar o cen\u00e1rio esportivo atual. Outra iniciativa que busca ampliar o espa\u00e7o das mulheres no esporte \u00e9 o projeto de extens\u00e3o Futsal Feminista, que ocorre na Esefid h\u00e1 mais de dois anos. Nas tardes de ter\u00e7a e quinta, por meio da iniciativa muitas mulheres &#8220;entram em campo&#8221; \u2013 neste caso, quadra \u2013 pela primeira vez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O projeto permite que mulheres conhe\u00e7am a varia\u00e7\u00e3o de um esporte que, ainda que t\u00e3o famoso no pa\u00eds, nunca lhes foi apresentado como uma possibilidade. Muitas das participantes, at\u00e9 entrarem no projeto, nunca haviam jogado bola.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A iniciativa surgiu da necessidade de Martina Burch, doutoranda em Ci\u00eancias do Movimento Humano pela UFRGS, de colocar em pr\u00e1tica seu projeto de tese, que trata da &#8220;constitui\u00e7\u00e3o de uma treinadora de futsal\u201d \u2013 no caso, a pr\u00f3pria pesquisadora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O projeto de pesquisa de Martina tem como proposta metodol\u00f3gica a autoetnografia, m\u00e9todo em que a experi\u00eancia pessoal da autora dita o andamento do trabalho. Ao se mudar de Pelotas para Porto Alegre, Martina n\u00e3o encontrou um espa\u00e7o para atuar como treinadora e colocar seu projeto de pesquisa em pr\u00e1tica. Essa lacuna se transformou em uma oportunidade. \u201cEu precisava de um local para atuar, e meu orientador, que j\u00e1 tinha um projeto de esportes na Esefid, sugeriu a cria\u00e7\u00e3o de um projeto de futsal\u201d, revela a doutoranda. O projeto come\u00e7ou com a proposta de atender exclusivamente alunas da UFRGS, mas logo expandiu para incluir servidoras da universidade e p\u00fablico externo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Martina conta que tem uma conex\u00e3o pessoal profunda com o futsal. \u201cEu j\u00e1 jogava desde crian\u00e7a e tinha experi\u00eancia como atleta amadora. O futsal era o esporte com o qual eu tinha mais familiaridade, o que facilitou a minha atua\u00e7\u00e3o como treinadora\u201d, afirma. A modalidade, com suas regras distintas do futebol de campo, como a aus\u00eancia de impedimentos e o n\u00famero menor de jogadoras, oferece um ambiente mais acess\u00edvel e adapt\u00e1vel para iniciantes.<strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa acessibilidade ao esporte tamb\u00e9m aparece no nome do projeto, \u201cFutsal Feminista\u201d, que n\u00e3o foi escolhido por acaso.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEu j\u00e1 estudava feminismos antes de entrar no doutorado. Quando meu orientador perguntou qual seria o nome do projeto, o termo \u2018feminista\u2019 surgiu naturalmente como uma forma de refletir sobre a presen\u00e7a de uma treinadora mulher e o espa\u00e7o dedicado exclusivamente \u00e0s mulheres\u201d<\/p>\n<cite>Martina Burch<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Coordenada pelos professores Guy Ginciene e Carine Collet, a a\u00e7\u00e3o conta com uma equipe de treinadoras, al\u00e9m de Martina. Uma das t\u00e9cnicas \u00e9 Amanda Borges, que iniciou sua trajet\u00f3ria no projeto como aluna e, ap\u00f3s ser selecionada para uma bolsa de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, passou a auxiliar nas aulas e na organiza\u00e7\u00e3o do projeto. Com o tempo, mais confiante para liderar as atividades, Amanda assumiu o papel de treinadora, dividindo as aulas com Martina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em uma trajet\u00f3ria semelhante, Let\u00edcia Freitas come\u00e7ou na primeira temporada da a\u00e7\u00e3o como aluna, passando a integrar, tempos depois, a comiss\u00e3o t\u00e9cnica, no papel de auxiliar nas aulas e na montagem da quadra. Recentemente, passou a conduzir a atividade de aquecimento. Apesar do nervosismo, Let\u00edcia recebeu apoio e incentivo das colegas, destacando essa experi\u00eancia como fundamental no desenvolvimento de suas habilidades de comunica\u00e7\u00e3o em aula.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com mais de dois anos de atividades, o projeto tem atra\u00eddo mulheres com idades entre 17 e 64 anos. \u201cObservamos um crescimento no interesse de mulheres mais velhas, influenciadas por participantes anteriores\u201d, aponta Martina. Isso demonstra que o impacto do projeto vai al\u00e9m do aspecto t\u00e9cnico, pois proporciona um espa\u00e7o acolhedor. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jogadora iniciante e integrante do Futsal Feminista, Alessandra de Lima comenta que a iniciativa \u00e9 um espa\u00e7o em que ela pode praticar o esporte sem julgamentos. \u201cMinhas primeiras lembran\u00e7as com o futebol e o futsal remetem ao per\u00edodo escolar, onde raramente participava das partidas porque as meninas costumavam ficar sentadas e os meninos n\u00e3o eram convidativos, jogava mais com meu irm\u00e3o em casa\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cristiane Mendon\u00e7a, outra participante, revela algo semelhante. Ela nunca havia jogado futebol antes, pois foi direcionada a outros esportes na inf\u00e2ncia. \u201cSempre me foi dito que futebol era para meninos\u201d, lembra. Ao ser incentivada por uma conhecida, inicialmente hesitou devido \u00e0 falta de experi\u00eancia, mas decidiu se juntar ao projeto.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cFoi uma \u00f3tima decis\u00e3o. As treinadoras t\u00eam muita paci\u00eancia para explicar o b\u00e1sico para pessoas que, como eu, n\u00e3o tiveram contato anterior com o futebol. Depois, \u00e9 entusiasmante ver a minha evolu\u00e7\u00e3o e a das outras atletas. No projeto, vibramos por cada conquista individual e coletiva\u201d<\/p>\n<cite>Cristiane Mendon\u00e7a<\/cite><\/blockquote>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Futebol-Esefid-Por-Pietro-Scopel.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-94989\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Futebol-Esefid-Por-Pietro-Scopel.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Futebol-Esefid-Por-Pietro-Scopel-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Futebol-Esefid-Por-Pietro-Scopel-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Futebol-Esefid-Por-Pietro-Scopel-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Futebol-Esefid-Por-Pietro-Scopel-391x260.jpg 391w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Futebol-Esefid-Por-Pietro-Scopel-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Futebol-Esefid-Por-Pietro-Scopel-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Unidas pelo futsal, a auxiliar Let\u00edcia Freitas (E) e as treinadoras Martina Burch (C) e Amanda Borges (D) constroem um novo espa\u00e7o de empoderamento e igualdade no esporte (Foto: Pietro Scopel\/JU)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Valoriza\u00e7\u00e3o e respeito crescentes<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEssa medalha de prata \u00e9 um marco que mostra que o futebol de mulheres pode muito\u201d, diz Silvana Goellner, referindo-se \u00e0 medalha de prata recentemente conquistada pela sele\u00e7\u00e3o feminina de futebol nas Olimp\u00edadas de Paris. A edi\u00e7\u00e3o de 2024 dos Jogos Ol\u00edmpicos marcou um ponto de inflex\u00e3o significativo para o futebol feminino, com a CBF oferecendo um apoio institucional robusto pela primeira vez. Silvana destacou a presen\u00e7a do presidente da entidade durante toda a final da competi\u00e7\u00e3o, um gesto que mencionou ser in\u00e9dito e que simboliza um novo n\u00edvel de valoriza\u00e7\u00e3o e respeito pelo futebol feminino. Na ocasi\u00e3o, a CBF tamb\u00e9m financiou a presen\u00e7a de familiares das jogadoras e celebrou a conquista com um grande painel em sua sede, enfatiza Silvana.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pesquisadora destaca tamb\u00e9m como as pol\u00edticas de indu\u00e7\u00e3o&nbsp;foram cruciais para o avan\u00e7o do futebol feminino. Um exemplo \u00e9 a determina\u00e7\u00e3o, em 2019, da Confedera\u00e7\u00e3o Sul-Americana de Futebol (Conmebol) de que todos os clubes que competem nos principais torneios organizados pela entidade (como a Copa Libertadores e a Copa Sul-Americana) estabele\u00e7am e mantenham equipes femininas. \u201cSe n\u00e3o fosse essa pol\u00edtica n\u00f3s n\u00e3o ter\u00edamos Gr\u00eamio, Internacional, Corinthians, Santos, Cuiab\u00e1 [com equipes femininas]. Ent\u00e3o, essa pol\u00edtica de indu\u00e7\u00e3o foi importante. O cen\u00e1rio que a gente v\u00ea hoje resulta disso\u201d, conta Silvana. A decis\u00e3o visava aumentar a visibilidade e a profissionaliza\u00e7\u00e3o do futebol feminino na regi\u00e3o, melhorando a infraestrutura, oferecendo melhores condi\u00e7\u00f5es de treinamento e criando uma base mais s\u00f3lida para o crescimento do esporte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, Silvana faz uma observa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica sobre o estado atual do futebol feminino no Brasil. Para ela, a sele\u00e7\u00e3o brasileira feminina \u00e9 apenas a parte vis\u00edvel de uma estrutura que \u00e9 muito mais complexa e desigual. Silvana apontou que a realidade enfrentada por muitas jogadoras e clubes fora do cen\u00e1rio internacional \u00e9 bem diferente. Muitas equipes ainda lutam com condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, falta de infraestrutura e escassos recursos. A disparidade entre o tratamento dado \u00e0 sele\u00e7\u00e3o e a realidade das competidoras em n\u00edveis inferiores reflete um desequil\u00edbrio persistente no futebol feminino.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As treinadoras do projeto Futsal Feminista tamb\u00e9m apontam a disparidade entre o futebol feminino e masculino na cobertura da m\u00eddia, o que influencia outros fatores, como apoio p\u00fablico, que pode ser avaliado na pouca presen\u00e7a deste nos est\u00e1dios em jogos de mulheres. &#8220;Enquanto o futebol masculino domina quase toda a cobertura, o feminino \u00e9 relegado a uma pequena fra\u00e7\u00e3o, o que influencia a percep\u00e7\u00e3o e o interesse p\u00fablico&#8221;, observa Let\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, os estere\u00f3tipos de g\u00eanero continuam a afetar o futebol feminino de v\u00e1rias maneiras. As jogadoras enfrentam quest\u00f5es relacionadas \u00e0 apar\u00eancia e ao cumprimento de normas de feminilidade que n\u00e3o se aplicam aos jogadores homens. &#8220;Houve um campeonato paulista em que as mulheres n\u00e3o podiam jogar com o cabelo curto, tinham que usar short curto, tinham que ter uma determinada idade para jogar. Ou seja, parece mais uma lista para ser uma modelo do que para jogar futebol&#8221;, exemplifica Martina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Acho que hoje t\u00e1 se tentando mudar um pouco, mas \u00e0s vezes o futebol feminino est\u00e1 muito preso nesse estere\u00f3tipo e at\u00e9 as perguntas que fazem para as jogadoras s\u00e3o muito sobre a quest\u00e3o da fam\u00edlia, de quando v\u00e3o ter filhos. Essas perguntas n\u00e3o fazem a um jogador homem&#8221;, completa a doutoranda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o quest\u00f5es como essas que demonstram como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel comparar o futebol feminino ao masculino, afinal o estigma n\u00e3o est\u00e1 somente no trabalho que \u00e9 feito, mas no g\u00eanero de quem o faz. Neste caso, ao mudar o g\u00eanero, muda-se toda a perspectiva do esporte: o olhar que \u00e9 dado, tanto institucional como p\u00fablico; a receptividade, as cobran\u00e7as e as intera\u00e7\u00f5es que s\u00e3o feitas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Felizmente, olhando o futebol feminino sem compara\u00e7\u00f5es externas, em rela\u00e7\u00e3o h\u00e1 20 anos, h\u00e1 uma evolu\u00e7\u00e3o. O futuro do futebol feminino, segundo Silvana, \u00e9 promissor, a crescente aten\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e a visibilidade das conquistas das atletas s\u00e3o sinais positivos, mas a jornada para uma estrutura s\u00f3lida e um reconhecimento verdadeiramente equitativo continua. A medalha de prata ol\u00edmpica de 2024 n\u00e3o \u00e9 apenas um marco de sucesso, mas um lembrete de que a luta por igualdade no esporte ainda est\u00e1 em curso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A import\u00e2ncia de pol\u00edticas p\u00fablicas de longo prazo e do apoio institucional para garantir que o futebol feminino n\u00e3o apenas alcance, mas supere as barreiras que ainda persistem, \u00e9 uma quest\u00e3o destacada por Silvana. A trajet\u00f3ria das mulheres no esporte vem de uma hist\u00f3ria longa de resist\u00eancia e dedica\u00e7\u00e3o; a luta estabelecida pelas pioneiras do futebol n\u00e3o acabou, e segue sendo o reflexo da luta por justi\u00e7a e igualdade em toda a sociedade.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esporte | Ap\u00f3s d\u00e9cadas de luta e uma proibi\u00e7\u00e3o que durou mais de 40 anos, diferentes iniciativas pela valoriza\u00e7\u00e3o e equidade abrem portas para as mulheres no futebol<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/mulheres-reiventam-o-jogo-no-futebol-feminino-mas-modalidade-ainda-enfrenta-estigmas-e-desafios\/\">Leia 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