{"id":98036,"date":"2024-11-14T07:35:00","date_gmt":"2024-11-14T10:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=98036"},"modified":"2025-01-02T12:02:18","modified_gmt":"2025-01-02T15:02:18","slug":"um-dispositivo-pedagogico-antirracista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/um-dispositivo-pedagogico-antirracista\/","title":{"rendered":"Um dispositivo pedag\u00f3gico antirracista"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | Ricardo Lubisco e Tatiana Engel Gerhardt relatam o processo de produ\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio <em>Eu, n\u00f3s&#8230; Elas Quilombolas<\/em>, rodado na comunidade quilombola de Morro Alto<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Por Ricardo Lubisco e Tatiana Engel Gerhardt<br>*Arte: Paulo Corr\u00eaa. <\/em>Instala\u00e7\u00e3o Terragrita<em>. T\u00e9cnica mista.<\/em><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2022, em meio \u00e0 crise sanit\u00e1ria de covid-19, tive a oportunidade de participar de um grupo de pesquisa que construiu um document\u00e1rio em longa-metragem sobre a vacina\u00e7\u00e3o contra covid-19 na comunidade quilombola de Morro Alto (RS). Esse document\u00e1rio foi a base para o meu relato de experi\u00eancia e a constru\u00e7\u00e3o do meu Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso do Bacharelado em Sa\u00fade Coletiva, realizado no semestre letivo de 2023\/2.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ideia de realizar o document\u00e1rio <em>Eu, n\u00f3s&#8230; Elas Quilombolas<\/em> surge da conjun\u00e7\u00e3o de pelo menos duas situa\u00e7\u00f5es: estarmos vivenciando a maior crise sanit\u00e1ria, econ\u00f4mica e pol\u00edtica do Brasil, que nos desencadeou o compromisso e a responsabilidade \u00e9tico-pol\u00edtica de registrar esse momento, muito motivado pela integra\u00e7\u00e3o da minha orientadora, Tatiana Engel Gerhardt, e de Jaqueline Oliveira Soares, membros da equipe no GT \u201cRacismo e Sa\u00fade\u201d, da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Sa\u00fade Coletiva (ABRASCO), pelo acompanhamento feito pela Coordena\u00e7\u00e3o Nacional de Articula\u00e7\u00e3o das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), importante exemplo de movimento social organizado no enfrentamento \u00e0 pandemia, ao racismo e \u00e0 necropol\u00edtica. Ao mesmo tempo, por um projeto de pesquisa em andamento que foca nas adversidades no territ\u00f3rio rural e no cuidado \u00e0 sa\u00fade, no qual, a partir de uma bolsa de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, estava se refletindo sobre o processo de vacina\u00e7\u00e3o contra covid-19, particularmente nas popula\u00e7\u00f5es quilombolas. A escolha da comunidade quilombola de Morro Alto, presente entre os munic\u00edpios de Maquin\u00e9 e Os\u00f3rio, se deu por ser um dos maiores quilombos do Rio Grande do Sul, ainda n\u00e3o titulado, ilustrativo das situa\u00e7\u00f5es envolvendo as dificuldades de reconhecimento da identidade quilombola para a vacina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Partiu-se, ent\u00e3o, para a problematiza\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o, buscando refletir sobre a naturaliza\u00e7\u00e3o da pandemia e, sobretudo, sobre a gravidade da falta de respostas adequadas, o que estava resultando na morte de popula\u00e7\u00f5es vulnerabilizadas em um pa\u00eds t\u00e3o desigual e injusto, e a sua n\u00e3o gest\u00e3o e toda a sua complexidade. Nessa problematiza\u00e7\u00e3o, foi visto que a falta de informa\u00e7\u00f5es e dados, naquele momento da pandemia, levou as pr\u00f3prias comunidades quilombolas a se responsabilizarem pelo mapeamento tanto do n\u00famero de casos confirmados e suspeitos em seus territ\u00f3rios quanto da pr\u00f3pria identifica\u00e7\u00e3o de quem seriam as pessoas a serem vacinadas pela lista de prioridades do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Um passo importante no reconhecimento identit\u00e1rio dessa popula\u00e7\u00e3o, mas que tamb\u00e9m revelou quest\u00f5es estruturais que prejudicaram e dificultaram o processo de vacina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Imersos nessa realidade e atentos \u00e0 problem\u00e1tica da invisibilidade que marcou os processos de tomada de decis\u00e3o (ou de falta de tomadas de decis\u00e3o), o grupo de pesquisa foi buscar na produ\u00e7\u00e3o audiovisual, para al\u00e9m do registro desse contexto, a possibilidade do desenvolvimento de um dispositivo pedag\u00f3gico capaz de abordar a aus\u00eancia do Estado, a necropol\u00edtica, o racismo estrutural e institucional, o privil\u00e9gio e o direito que afetam as popula\u00e7\u00f5es quilombolas e todas as demais popula\u00e7\u00f5es invisibilizadas e vulnerabilizadas. O objetivo, ent\u00e3o, dessa produ\u00e7\u00e3o audiovisual, foi registar e documentar, mas fundamentalmente dar visibilidade a essas quest\u00f5es, tendo a vacina\u00e7\u00e3o contra covid-19 como ilustra\u00e7\u00e3o desses processos que buscaram explorar e analisar os enfrentamentos das adversidades, vulnerabilidades, desigualdades e iniquidades que foram pautadas no racismo estrutural \u00e0s quais essa popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 submetida historicamente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com essas premissas postas, se buscou constituir uma equipe de trabalho que pudesse produzir esse document\u00e1rio. Inspirados e ao mesmo tempo desafiados pelos usos da imagem na pesquisa cient\u00edfica, associando ci\u00eancia e arte, raz\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o, e produzindo um caminho metodol\u00f3gico a partir do m\u00e9todo de produ\u00e7\u00e3o audiovisual, foi-se entrela\u00e7ando tamb\u00e9m a refer\u00eancia est\u00e9tica de algumas linhas de capta\u00e7\u00e3o das imagens a partir de Eduardo Coutinho, com refer\u00eancias te\u00f3ricas da sociologia da imagem, da antropologia e imagem, para que se pudesse construir essa produ\u00e7\u00e3o audiovisual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na \u00e9poca da pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o, em janeiro de 2022, ainda est\u00e1vamos em distanciamento social. As nossas reuni\u00f5es e os primeiros encontros, naquele momento, ainda para nos conhecermos enquanto equipe e entendermos melhor o projeto e seus objetivos, foram a dist\u00e2ncia. Dessa mesma maneira foram feitas a constru\u00e7\u00e3o e passagem do roteiro. Fizemos esse processo com as mulheres quilombolas tamb\u00e9m, apresentando todo o projeto remotamente para ver se elas aceitariam, se achavam importante e como poderiam contribuir (inclusive para o roteiro). Fomos apresentando as ideias, e elas foram sugerindo quest\u00f5es, assim como com as profissionais de sa\u00fade e com as gestoras em sa\u00fade dos \u00e2mbitos regional e local.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ideia de envolver um leque de atores que pudesse falar sobre a mesma situa\u00e7\u00e3o, de perspectivas distintas, foi muito importante naquele momento. No in\u00edcio das discuss\u00f5es, fal\u00e1vamos muito sobre \u201cas listas\u201d e \u201cos bra\u00e7os\u201d. Foi o ponto de partida dessa hist\u00f3ria, a partir do que t\u00ednhamos conhecimento do que essas mulheres haviam feito: uma lista com os nomes de pessoas quilombolas aptas a receberem as doses de vacina e que tinham se responsabilizado pela constru\u00e7\u00e3o dessa lista. Mas, a partir disso, houve uma problematiza\u00e7\u00e3o de pessoas que j\u00e1 n\u00e3o moravam no quilombo, que precisavam sair para trabalhar em outras cidades\/estados e que, por conta disso, tinham perdido esse direito \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o na comunidade de Morro Alto. Essa era a principal quest\u00e3o que eu e a Tatiana discutimos nas primeiras conversas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir disso, foram se desencadeando v\u00e1rias quest\u00f5es, como \u201co que era ser quilombola\u201d e como, justamente, os pontos de vista s\u00e3o distintos em rela\u00e7\u00e3o a isso, a depender do lugar que as pessoas estavam ocupando naquele momento.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Marcamos a data, juntamos a equipe e partimos para Os\u00f3rio. A equipe ficou alocada em duas resid\u00eancias: uma para o n\u00facleo acad\u00eamico e outra para o n\u00facleo t\u00e9cnico, o que acabou sendo uma \u00f3tima escolha, pois sempre ap\u00f3s os dias de grava\u00e7\u00e3o nos reun\u00edamos e discut\u00edamos sobre o dia de filmagens, o trabalho realizado e o planejamento para os dias seguintes. E a equipe do roteiro, da mesma forma, discutia como lan\u00e7ar quest\u00f5es ou at\u00e9 mesmo quest\u00f5es que n\u00e3o estavam previstas e poderiam ser realizadas. A ideia era de um roteiro semiestruturado, ou um guia de entrevistas: deixar as quest\u00f5es surgirem ao longo das entrevistas. Isso segue um pouco a ideia do que acontece nos filmes etnogr\u00e1ficos, na pr\u00f3pria pesquisa etnogr\u00e1fica, que \u00e9 essa fluidez do processo. Porque estamos trabalhando em inter-rela\u00e7\u00e3o com as pessoas. Dar essa flexibilidade ao roteiro foi essencial. Ele foi se construindo e se reconstruindo nesses quatro dias de grava\u00e7\u00e3o, que foram bastante extensos em n\u00famero de horas de trabalho, pois inici\u00e1vamos \u00e0s 8h e finaliz\u00e1vamos \u00e0s 20h.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A realidade dessa produ\u00e7\u00e3o nos moldou enquanto indiv\u00edduos, enquanto pessoas que est\u00e1vamos l\u00e1, com uma ideia preconcebida. Fomos vivenciando em um per\u00edodo de quatro dias e desenvolvendo essa viv\u00eancia nas singularidades das filmagens. Isso \u00e9 algo muito verdadeiro. Dificilmente conseguir\u00edamos retratar ou registrar aquela realidade se part\u00edssemos de um roteiro r\u00edgido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fomos nos adaptando enquanto equipe ao ambiente e ao que se colocava para n\u00f3s e, principalmente, ao que as pessoas estavam nos oferecendo. Foi isso que captamos, \u00e9 isso que est\u00e1 registrado. Foram mais de 20 horas de grava\u00e7\u00e3o para 1h18 de document\u00e1rio. Ent\u00e3o muitas falas foram deixadas de fora, claro, depois de muita discuss\u00e3o entre a equipe na p\u00f3s-produ\u00e7\u00e3o, mas precis\u00e1vamos cortar para montar um document\u00e1rio coerente e com os momentos mais preciosos daquela experi\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com mais de 20 horas de grava\u00e7\u00e3o, precis\u00e1vamos, ent\u00e3o, passar para essa etapa de p\u00f3s-produ\u00e7\u00e3o, na qual precisar\u00edamos pensar em trabalhar todas as tomadas produzidas, em termos de imagem e de \u00e1udio, mas sobretudo iniciar a montagem. Fizemos algumas reuni\u00f5es com a equipe completa para entendermos onde quer\u00edamos chegar, depois de j\u00e1 ter vivenciado essa experi\u00eancia e o que a gente poderia construir a partir disso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na mesa de montagem do filme, me vejo desafiado com esse montante de falas, porque t\u00ednhamos inicialmente o tema central da vacina\u00e7\u00e3o na comunidade quilombola, mas, durante a grava\u00e7\u00e3o, surgiram todas essas outras quest\u00f5es que foram trazidas por essas mulheres at\u00e9 n\u00f3s e que n\u00e3o poderiam ficar de fora. Ent\u00e3o, o desafio era: como que a gente vai construir um curta-metragem com 20 horas de grava\u00e7\u00e3o? Como vamos colocar todas essas falas em no m\u00e1ximo 29 minutos? Todas essas falas, toda a import\u00e2ncia dessas quest\u00f5es que elas nos trouxeram e ainda contextualizar a vacina\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante esse processo, conforme eu fui colocando os arquivos no editor de v\u00eddeo e tentando fazer uma montagem linear do que tinha acontecido, para que fosse poss\u00edvel visualizar o que t\u00ednhamos de material, foi ficando cada vez mais n\u00edtido que seria imposs\u00edvel fazer um curta-metragem. Quer dizer, poss\u00edvel seria, s\u00f3 que ainda assim hoje eu teria escolhido n\u00e3o fazer. Porque muita coisa teria que ser cortada, e muita coisa importante, que mexe com a gente, com quem est\u00e1 assistindo. S\u00e3o quest\u00f5es que perpassam esse tema inicial da vacina\u00e7\u00e3o contra covid-19 e que desencadearam falas e situa\u00e7\u00f5es que precisavam ser ditas e que tamb\u00e9m se relacionam com um tema central de sa\u00fade coletiva, de sa\u00fade dessa popula\u00e7\u00e3o de uma maneira geral. N\u00e3o era nosso papel, enquanto produtores audiovisuais e enquanto equipe de cientistas, deixar essas quest\u00f5es de fora por uma mera quest\u00e3o de roteiro. Ent\u00e3o, ap\u00f3s algumas reuni\u00f5es, decidimos que far\u00edamos um longa-metragem, em vez de um curta. Este foi um dos momentos mais importantes dessa produ\u00e7\u00e3o toda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse desejo de colocar esse registro no mundo tinha a nossa vontade de que ele tamb\u00e9m pudesse percorrer os caminhos dos festivais de cinema e tamb\u00e9m caminhos fora do pr\u00f3prio campo da sa\u00fade coletiva, da universidade. A densidade do que tinha nas grava\u00e7\u00f5es, entretanto, nos colocou a pensar sobre os objetivos que a gente teria com essa produ\u00e7\u00e3o. Em uma dessas reuni\u00f5es, foi esbo\u00e7ado um roteiro inicial de montagem, para tentar guiar o espectador pela hist\u00f3ria principal, pelo fio que unia todas as hist\u00f3rias, que era a vacina\u00e7\u00e3o, e a partir disso desencadear outras falas, abordar outras quest\u00f5es. E foi nesse sentido que foi feita a montagem do filme. Foi um processo longo de sete meses. Um trabalho de formiguinha, um pouquinho a cada dia, para que se pudesse chegar em uma primeira vers\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em v\u00e1rios momentos das falas das mulheres quilombolas, veio a quest\u00e3o que \u00e9 ilustrada na fala inicial da Catiane: <em>\u201cEu, quilombola, ser vacinada enquanto uma quilombola, fez uma grande diferen\u00e7a<\/em>\u201d. Ent\u00e3o houve todo um momento de visualiza\u00e7\u00e3o de cada uma dessas hist\u00f3rias, individualmente, para que a gente pudesse conseguir pensar como que elas poderiam ocupar um fio narrativo que n\u00e3o fosse a linearidade dos acontecimentos, e veio muito fortemente essa quest\u00e3o do \u201cEu, ser quilombola\u201d, em um primeiro momento. Mas esse \u201ceu\u201d est\u00e1 ligado a uma identidade que \u00e9 coletiva, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o \u201ceu\u201d individualmente. E o pr\u00f3prio processo de vacina\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m representava isso.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o bastava um s\u00f3 individualmente ser vacinado, todos precisariam ser vacinados, porque, afinal de contas, a prote\u00e7\u00e3o \u00e9 coletiva e n\u00e3o individual. Isso foi fazendo sentido pra gente na busca dessa linha narrativa.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse processo de montagem nos demos conta de que essas mulheres quilombolas eram as protagonistas. A hist\u00f3ria inicial que quer\u00edamos contar sobre a vacina\u00e7\u00e3o contra covid-19, de como as gestoras lidaram com isso, como as profissionais de sa\u00fade lidaram e isso, foi ficando um pouco ofuscada por todas essas quest\u00f5es que as mulheres quilombolas nos trouxeram. A quest\u00e3o quilombola emergiu pra gente durante o processo de montagem, porque foi o momento em que paramos para ver e escutar essas falas, as entrevistas. A gente discutiu sobre elas. Assistimos essas 20 horas de filmagem algumas vezes para ent\u00e3o nos darmos conta de que essas mulheres eram as verdadeiras protagonistas. A quest\u00e3o quilombola \u00e9 o protagonismo no filme. E a Tatiana veio com a ideia brilhante do t\u00edtulo \u201cEu, n\u00f3s&#8230; Elas Quilombolas\u201d. O t\u00edtulo era algo que a gente j\u00e1 estava h\u00e1 algum tempo pensando e que primeiro seria \u201cSe n\u00e3o fossem as listas e os bra\u00e7os\u201d, t\u00edtulo totalmente voltado ao processo de vacina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O intuito da montagem era cortar um pouco esses la\u00e7os acad\u00eamicos e tornar essa experi\u00eancia uma produ\u00e7\u00e3o audiovisual independente da quest\u00e3o acad\u00eamica. Eu fui trabalhando no processo de montagem com a perspectiva do espectador, da vis\u00e3o. Como seria interessante passar essa hist\u00f3ria para que quem estivesse assistindo entendesse os conceitos da vacina\u00e7\u00e3o que a gente queria passar, de como se deu essa hist\u00f3ria naquela comunidade quilombola, mas tamb\u00e9m trazer todo o tempo a import\u00e2ncia da identidade. Ent\u00e3o o filme \u00e9 todo entrecortado por essas quest\u00f5es do in\u00edcio ao fim: vacina\u00e7\u00e3o e identidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foram sete meses de edi\u00e7\u00e3o, um ano de produ\u00e7\u00e3o total do document\u00e1rio. A montagem do filme, as reuni\u00f5es, a sensibilidade para se chegar a uma ideia final, tudo isso aconteceu junto com muitas outras coisas na nossa vida. Trabalhando em outros projetos, estudos, etc. Ent\u00e3o, durante a p\u00f3s-produ\u00e7\u00e3o, n\u00f3s n\u00e3o nos dedicamos exclusivamente a esse trabalho, e isso tem um impacto no resultado. Me sinto muito orgulhoso do que constru\u00edmos, tem muito carinho e dedica\u00e7\u00e3o envolvidos. S\u00f3 que seria mais bem lapidado se tiv\u00e9ssemos, por exemplo, um financiamento mais robusto, que a academia acreditasse na produ\u00e7\u00e3o audiovisual enquanto ci\u00eancia, que valorizasse a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica atrav\u00e9s da arte. De encontrar a sua legitimidade enquanto uma forma de produ\u00e7\u00e3o que tem uma pot\u00eancia e que n\u00e3o \u00e9 somente uma divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, \u00e9 a pot\u00eancia de produzir uma transforma\u00e7\u00e3o social, muito distinta da produ\u00e7\u00e3o escrita tradicional.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pot\u00eancia do uso das imagens est\u00e1 nisto: provocar transforma\u00e7\u00f5es que dialoguem mais com o imagin\u00e1rio social do que a escrita. H\u00e1 uma escrita nessas imagens. <\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fato de ter escolhido gravar em audiovisual essa experi\u00eancia se deve \u00e0 dificuldade de n\u00e3o se conseguir retratar da mesma forma &#8211; essa escrita visual &#8211; em uma escrita textual. Esse pensar em imagens \u00e9 um exerc\u00edcio que n\u00e3o \u00e9 simples e, portanto, nos exige um deslocamento que \u00e9 tamb\u00e9m epistemol\u00f3gico. E isso n\u00e3o tem menos valia do que pensar textualmente. S\u00e3o formas distintas, mas ambas poss\u00edveis de serem utilizadas na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Essa produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o teria o mesmo impacto se fosse um artigo cient\u00edfico. Se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos imagens, se n\u00e3o olh\u00e1ssemos para aquelas mulheres e n\u00e3o tiv\u00e9ssemos elas olhando para a c\u00e2mera. Se n\u00e3o retrat\u00e1ssemos isso em ilustra\u00e7\u00f5es, com os p\u00e1ssaros voando, se n\u00e3o mostr\u00e1ssemos a figueira, os campos daquela regi\u00e3o. A valoriza\u00e7\u00e3o entra na conjun\u00e7\u00e3o desses elementos que \u00e9 o principal que trago pra esse trabalho de conclus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 um sentimento de al\u00edvio ter conseguido realizar esse trabalho. Tenho muito orgulho de ter feito esse document\u00e1rio, principalmente por todas as quest\u00f5es que ele traz pra n\u00f3s, pra sociedade. Orgulho da reflex\u00e3o que fizemos enquanto equipe em todos os processos, desde a pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o at\u00e9 a p\u00f3s-produ\u00e7\u00e3o, de como lidamos com cada situa\u00e7\u00e3o. Honramos muito a \u00e9tica. Assim que finalizamos um primeiro corte, voltamos \u00e0 comunidade de Morro Alto e fizemos uma sess\u00e3o para apresentar o filme a essas pessoas. Fizemos pipoca, desfrutamos dos la\u00e7os constru\u00eddos durante a produ\u00e7\u00e3o. N\u00f3s quer\u00edamos ver o que elas pensavam e se estavam de acordo com o que est\u00e1vamos mostrando no filme. N\u00f3s quer\u00edamos mostrar a elas que est\u00e1vamos ali n\u00e3o apenas para realizar o nosso trabalho no campo documental, mas que tamb\u00e9m hav\u00edamos nos afetado por essa experi\u00eancia e que isso havia transformado a nossa rela\u00e7\u00e3o e quem \u00e9ramos at\u00e9 aquele momento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O uso das imagens na atua\u00e7\u00e3o de um profissional sanitarista \u00e9 riqu\u00edssimo. Somos um tipo de profissional que \u00e9 formado para analisar as mais diversas quest\u00f5es que envolvem a sa\u00fade, do micro ao macro, e pensar em como podemos fazer para resolver problemas ou para melhorar essas situa\u00e7\u00f5es que estamos estudando. No caso desse document\u00e1rio, tentamos expressar, por meio da escuta e da linguagem visual, subjetividades latentes na constru\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas que comp\u00f5em a comunidade quilombola de Morro Alto (RS) e as pessoas profissionais de sa\u00fade que se relacionam com essa comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A forma art\u00edstica com que resolvemos mostrar essa hist\u00f3ria revelou quest\u00f5es subjetivas que s\u00f3 apareceriam dessa maneira, como as imagens da Figueira capturadas por um drone, a fala engasgada da Dona Edite ao relembrar a sua luta para o fortalecimento da comunidade quilombola pela Associa\u00e7\u00e3o Rosa Marques Os\u00f3rio, a percep\u00e7\u00e3o da jovem Ma\u00edsa ao se compreender parte dessa grande fam\u00edlia quilombola de Morro Alto, as ilustra\u00e7\u00f5es que conectam passado e presente, real e imagin\u00e1rio, e que falam diretamente com o emocional de quem est\u00e1 assistindo \u00e0 obra. S\u00e3o elementos que n\u00e3o teriam o mesmo resultado apenas em um artigo cient\u00edfico (o qual a realiza\u00e7\u00e3o desse document\u00e1rio tamb\u00e9m produziu) ou apenas com a grava\u00e7\u00e3o em \u00e1udio. O \u00e1udio de emo\u00e7\u00e3o da Dona Edite n\u00e3o teria a mesma for\u00e7a do que com a sua imagem emocionada. E a devolutiva dessa constru\u00e7\u00e3o, para a comunidade quilombola de Morro Alto, exemplifica a qualidade do trabalho realizado atrav\u00e9s (tamb\u00e9m) da percep\u00e7\u00e3o de um sanitarista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que antes era desconfian\u00e7a (da comunidade com a equipe) virou confian\u00e7a no momento em que se apagaram as luzes e as primeiras imagens tomaram conta do tel\u00e3o improvisado na parede da Associa\u00e7\u00e3o Rosa Marques Os\u00f3rio. Fomos testemunhas da aten\u00e7\u00e3o, do respeito, das l\u00e1grimas e sorrisos que permearam o rosto de quem estava l\u00e1 vendo a sua hist\u00f3ria sendo contada sem distor\u00e7\u00f5es, sem pequenos interesses disfar\u00e7ados e com muito respeito. Se essa interven\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica foi a Morro Alto (RS) apenas para o registro do processo de vacina\u00e7\u00e3o contra covid-19 dessa comunidade quilombola, saiu de l\u00e1 com o registro de gera\u00e7\u00f5es de pessoas quilombolas que nunca antes haviam sido escutadas e que t\u00eam muito a nos ensinar enquanto profissionais da sa\u00fade, enquanto acad\u00eamicos e enquanto pessoas que tamb\u00e9m vivem em comunidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim como foi pra n\u00f3s, que esse document\u00e1rio possa ser realmente um dispositivo pedag\u00f3gico antirracista.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-accent-background-color has-background wp-block-paragraph\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/3305116836131429\">Ricardo Lubisco<\/a> \u00e9 bacharel em Sa\u00fade Coletiva pela UFRGS e produtor audiovisual.&nbsp;<br><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/4413703146913514\">Tatiana Engel Gerhardt<\/a> \u00e9 professora da UFRGS e atua no bacharelado em Sa\u00fade Coletiva, na P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade Coletiva (PPGCOL) e na P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Desenvolvimento Rural (PGDR).<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<div id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-a2946a77\" class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns alignfull has-2-columns has-desktop-oneTwo-layout has-tablet-collapsedRows-layout has-mobile-collapsedRows-layout has-vertical-center ticss-a2946a77 animated fadeIn delay-100ms slower\"><div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-overlay\"><\/div><div class=\"innerblocks-wrap\">\n<div id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column-bbddf55b\" class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column\"><div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"896\" height=\"899\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Terragrita.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-99001\" style=\"width:396px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Terragrita.jpg 896w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Terragrita-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Terragrita-117x117.jpg 117w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Terragrita-768x771.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 896px) 100vw, 896px\" \/><\/figure>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<div id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column-92b2db05\" class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column\">\n<p id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-heading-82f63cc5\" class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-heading wp-block-themeisle-blocks-advanced-heading-82f63cc5\"><strong>Especial novembro negro 2024<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-heading-8f1f2647\" class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-heading wp-block-themeisle-blocks-advanced-heading-8f1f2647\">Ensaio | Paulo Corr\u00eaa<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left has-white-color has-text-color wp-block-paragraph\">Todo ano o JU convida artistas negros para comporem visualmente a edi\u00e7\u00e3o alusiva ao Dia da Consci\u00eancia Negra. Cada texto \u00e9 acompanhado por uma obra do artista e o conjunto pode ser acessado na p\u00e1gina especial do Ensaio.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button has-custom-font-size is-style-primary is-style-fill\" style=\"font-size:13px\"><a class=\"wp-block-button__link has-white-color has-text-color has-background has-link-color wp-element-button\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/ensaio-paulo-correa\/\" style=\"border-radius:100px;background-color:#5e3612\">Confira<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left has-white-color has-text-color has-link-color wp-elements-1 wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\">Paulo Corr\u00eaa. <em>Instala\u00e7\u00e3o Terragrita<\/em>. T\u00e9cnica mista.<br><\/p>\n<\/div>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo | Ricardo Lubisco e Tatiana Engel Gerhardt relatam o processo de produ\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio Eu, n\u00f3s&#8230; Elas Quilombolas, rodado na comunidade quilombola de Morro Alto<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/um-dispositivo-pedagogico-antirracista\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":99000,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[53],"tags":[3322,2227,6601,6598,6718,6595,6596,1635,6597],"ppma_author":[2938],"class_list":["entry","author-gerente","has-excerpt","post-98036","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-artigo","tag-antirracista","tag-documentario","tag-eu-nos-elas-quilombolas","tag-morro-alto","tag-novembro-negro-2024","tag-populacao-quilombola","tag-ricardo-lubisco","tag-saude-coletiva","tag-tatiana-engel-gerhardt"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Um dispositivo pedag\u00f3gico antirracista - Jornal da Universidade<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Artigo | Ricardo Lubisco e Tatiana Engel Gerhardt relatam o processo de produ\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio Eu, n\u00f3s... 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