{"id":9873,"date":"2020-08-06T08:31:00","date_gmt":"2020-08-06T11:31:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=9873"},"modified":"2020-08-07T10:05:48","modified_gmt":"2020-08-07T13:05:48","slug":"o-principio-da-responsabilidade-no-mundo-pos-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/o-principio-da-responsabilidade-no-mundo-pos-pandemia\/","title":{"rendered":"O princ\u00edpio da responsabilidade no mundo p\u00f3s-pandemia"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | Thomas Kesselring, professor da Universidade de Berna, faz um balan\u00e7o do percurso da tecnologia, da economia e da ci\u00eancia que nos trouxe ao atual momento de incertezas<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Foto de capa: Fl\u00e1vio Dutra\/JU<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 mais de 40 anos, em <em>O princ\u00edpio da responsabilidade<\/em>,<em> <\/em>o fil\u00f3sofo Hans Jonas formulou o imperativo &#8220;N\u00e3o p\u00f4r em perigo as condi\u00e7\u00f5es para a sobreviv\u00eancia indefinida da humanidade na Terra&#8221;. Jonas escreveu isso com vistas \u00e0 explora\u00e7\u00e3o dos ricos contra os pobres, por um lado, e \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o acelerada da natureza, por outro. J\u00e1 no final dos anos setenta avisou que a emiss\u00e3o excessiva de gases produtores do efeito-estufa (CO2 e metano) conduziria a um aquecimento global que colocaria a humanidade numa situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil. Quatro d\u00e9cadas mais tarde, sabemos que ele tinha raz\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje a humanidade sofre tamb\u00e9m da pandemia do coronav\u00edrus (Covid-19). Este evento levou-nos a ficar inseguros sobre muitas coisas que antes nos pareciam evidentes. J\u00e1 ocorreram v\u00e1rias pandemias na hist\u00f3ria, mas desta vez a propaga\u00e7\u00e3o do v\u00edrus pelo mundo inteiro efetuou-se em poucas semanas devido \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o. A dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus levou ao fechamento das fronteiras, ao cancelamento dos voos, \u00e0 redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica do transporte p\u00fablico, ao fechamento de escolas e universidades, ao isolamento social. Mesmo assim, em muitos pa\u00edses, os servi\u00e7os de sa\u00fade est\u00e3o sobrecarregados e as pessoas pobres n\u00e3o t\u00eam acesso aos mesmos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso n\u00e3o \u00e9 culpa do v\u00edrus, mas sim da decis\u00e3o pol\u00edtica de subordinar os cuidados de sa\u00fade ao dogma neoliberal de que hospitais e postos de sa\u00fade devem render e trazer lucro. Com isso, boa parte da popula\u00e7\u00e3o \u2013 os mais pobres, os velhos, os sem-teto, os refugiados \u2013 foi exclu\u00edda do tratamento. A explos\u00e3o das mortes, particularmente em pa\u00edses onde n\u00e3o h\u00e1 mais hospitais p\u00fablicos de alta qualidade, como nos EUA e na It\u00e1lia, mostra que o dogma neoliberal, dado como certo, provou estar errado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Incr\u00edvel que um v\u00edrus invisivelmente pequeno cause uma crise mundial t\u00e3o grande. A evid\u00eancia de que algo parecido n\u00e3o pode acontecer tamb\u00e9m colapsou. Ainda n\u00e3o sabemos exatamente como o v\u00edrus se comporta, apesar de meses de investiga\u00e7\u00e3o intensa em muitos dos principais laborat\u00f3rios do mundo. O orgulho da ci\u00eancia moderna est\u00e1 quebrado. O v\u00edrus nos chama a despertar. Ele nos lembra que o sucesso da ci\u00eancia e da tecnologia, do nosso sistema econ\u00f4mico, nossos sistemas de sa\u00fade, etc., n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o certo como gostar\u00edamos de acreditar. No entanto, o processo que a pandemia ilustra n\u00e3o \u00e9 completamente novo. Vale a pena perguntar como surgiu esse sistema de certezas que, como nos ensina a pandemia, come\u00e7ou a enferrujar. Talvez nem tudo que est\u00e1 enferrujando hoje seja de fato inv\u00e1lido. Pode ser que a nega\u00e7\u00e3o de certas conquistas civilizat\u00f3rias tamb\u00e9m esteja sendo corro\u00edda. Se esse for o caso, a corros\u00e3o \u00e9, para usar um termo hegeliano, a nega\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o que nos levar\u00e1 a um est\u00e1gio mais alto de compreens\u00e3o. Ent\u00e3o, como \u00e9 que o Ocidente ganhou poder e que sintomas indicam o seu decl\u00ednio?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A base essencial para a r\u00e1pida ascens\u00e3o da Europa e da Am\u00e9rica do Norte desde o s\u00e9culo XVIII foi a &#8220;trindade&#8221; ci\u00eancia, tecnologia e economia capitalista. O <em>princ\u00edpio da responsabilidade<\/em> que Jonas nos recomenda t\u00e3o decisivamente refere-se a tudo isso. Mediante a combina\u00e7\u00e3o da matem\u00e1tica e da experimenta\u00e7\u00e3o, criou-se, no s\u00e9culo XVII, a f\u00edsica moderna e mais tarde a qu\u00edmica. O sucesso das ci\u00eancias naturais levou \u00e0 matematiza\u00e7\u00e3o de outras \u00e1reas, especialmente da economia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O homem moderno \u00e9 entusiasta n\u00e3o s\u00f3 de dominar e subjugar a natureza, mas tamb\u00e9m de descrever os processos de crescimento, inclusive do crescimento da economia, em linguagem matem\u00e1tica. Ele aprendeu a representar o mundo em n\u00fameros, a traduzir todos os tipos de bens e servi\u00e7os em valores monet\u00e1rios, que por sua vez se expressam em n\u00fameros. Todos os poss\u00edveis processos de crescimento e aumento s\u00e3o ilustrados com cifras. O <em>sempre mais<\/em>, <em>sempre maior<\/em> e <em>sempre mais poderoso<\/em> tornou-se um fetiche. Atualmente, o jogo dos mercados financeiros influencia a atividade econ\u00f4mica no mundo inteiro.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Paralelamente \u00e0 ascens\u00e3o das ci\u00eancias naturais e da economia de mercado, ganhou corpo a democracia moderna. A ideia b\u00e1sica da democracia \u00e9 que n\u00e3o apenas alguns decidam, mas, sim, que todos os afetados devam ser envolvidos num processo de decis\u00e3o. A democracia implica que os direitos b\u00e1sicos elementares (direitos humanos) s\u00e3o igualmente garantidos para todos os cidad\u00e3os. \u00c9 por isso que n\u00f3s pagamos impostos&#8230; Cada vez mais pa\u00edses assumiram estruturas estatais democr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Democracia e igualdade dentro do pa\u00eds, esse era o lema; mas a igualdade n\u00e3o foi concretizada em parte alguma. E, do lado de fora, o colonialismo, a explora\u00e7\u00e3o e a destrui\u00e7\u00e3o da natureza continuam sendo praticados at\u00e9 hoje. Isso vai t\u00e3o longe que leva L\u00e9once Ndikumana e James K. Boyce a conclu\u00edrem que, na realidade, os pa\u00edses africanos s\u00e3o credores dos pa\u00edses ricos, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Esse t\u00f3pico Hans Jonas discute detalhadamente ao explicar o princ\u00edpio da responsabilidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A covid-19 n\u00e3o \u00e9 o primeiro fen\u00f4meno a criar incerteza, mas ela talvez entrar\u00e1 na hist\u00f3ria como a &#8220;marca registrada&#8221; da era da grande incerteza. Pois n\u00e3o \u00e9 apenas a democracia ocidental, mas tamb\u00e9m a &#8220;trindade&#8221; tecnologia, economia e ci\u00eancia que hoje em dia mostra rachaduras. A tecnologia tornou as pessoas mais fortes e autoconfiantes, mas tamb\u00e9m criou uma s\u00e9rie de novos riscos, anteriormente desconhecidos. Com as <em>bombas at\u00f4micas<\/em> de que hoje dispomos, a humanidade poderia extinguir-se, teoricamente, v\u00e1rias vezes! Mesmo assim continuamos a investir em armas nucleares e no aperfei\u00e7oamento de armas qu\u00edmicas e biol\u00f3gicas. Os arsenais b\u00e9licos est\u00e3o crescendo num ritmo alarmante.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"612\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Arquivo-Pessoal-6792.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-9876\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Arquivo-Pessoal-6792.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Arquivo-Pessoal-6792-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Arquivo-Pessoal-6792-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Arquivo-Pessoal-6792-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Arquivo-Pessoal-6792-465x309.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Arquivo-Pessoal-6792-695x462.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"612\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Arquivo-Pessoal-6811.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-9877\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Arquivo-Pessoal-6811.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Arquivo-Pessoal-6811-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Arquivo-Pessoal-6811-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Arquivo-Pessoal-6811-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Arquivo-Pessoal-6811-465x309.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Arquivo-Pessoal-6811-695x462.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"612\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Arquivo-Pessoal-6758.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-9878\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Arquivo-Pessoal-6758.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Arquivo-Pessoal-6758-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Arquivo-Pessoal-6758-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Arquivo-Pessoal-6758-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Arquivo-Pessoal-6758-465x309.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Arquivo-Pessoal-6758-695x462.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><figcaption>Para Thomas Kesselring, \u201cA covid-19 n\u00e3o \u00e9 o primeiro fen\u00f4meno a criar incerteza, mas ela talvez entrar\u00e1 na hist\u00f3ria como a \u2018marca registrada\u2019 da era da grande incerteza\u201d. Nas imagens, as paredes da Unidade B\u00e1sica de Sa\u00fade Santa Cec\u00edlia, em Porto Alegre, alertam os pacientes de que os riscos s\u00e3o iminentes e que nossas a\u00e7\u00f5es na tentativa de cont\u00ea-los ainda s\u00e3o as medidas mais seguras (Fotos: Fl\u00e1vio Dutra)<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A <em>economia capitalista de mercado<\/em> e a sua globaliza\u00e7\u00e3o, \u00e0 primeira vista, tamb\u00e9m pareciam ser ben\u00e9ficas. Tornaram poss\u00edvel a redu\u00e7\u00e3o da pobreza. Na China e na \u00cdndia, centenas de milh\u00f5es de pessoas escaparam da pobreza. Tamb\u00e9m na Am\u00e9rica Latina e na \u00c1frica, a pobreza absoluta diminuiu proporcionalmente, embora com repetidos reveses. S\u00f3 n\u00e3o diminuiu em termos absolutos devido ao r\u00e1pido crescimento da popula\u00e7\u00e3o. Portanto, apesar de sua promessa, a economia capitalista de mercado n\u00e3o erradicou a pobreza; ao contr\u00e1rio, criou mecanismos que permitem dissociar um grande n\u00famero de pessoas, os pobres, das vantagens da economia de mercado, marginalizando-as e empurrando-as repetidamente para o abismo do qual h\u00e1 d\u00e9cadas tentam sair.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Finalmente, o capitalismo criou os chamados mercados financeiros, que na verdade n\u00e3o s\u00e3o de todo mercados, mas megam\u00e1quinas que transferem recursos dos pobres para os ricos. \u00c9 uma das causas mais importantes pelas quais os ricos se tornam cada vez mais ricos. A organiza\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica Oxfam calculou imediatamente antes do surto da pandemia de coronav\u00edrus que as 42 pessoas mais ricas do mundo possuem o equivalente ao que possui a metade mais pobre da popula\u00e7\u00e3o mundial (3,7 mil milh\u00f5es de pessoas).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro problema que a economia capitalista refor\u00e7a \u00e9 a cobi\u00e7a insaci\u00e1vel pela extra\u00e7\u00e3o das mat\u00e9rias-primas e a indiferen\u00e7a diante da r\u00e1pida destrui\u00e7\u00e3o da natureza. Como se isso n\u00e3o fosse suficiente, em 2008, os mercados financeiros internacionais sofreram um choque que os teria levado ao colapso se os bancos mais poderosos n\u00e3o os tivessem resgatado com o dinheiro proveniente dos impostos. Agora, 12 anos depois, a instabilidade dos mercados financeiros continua e at\u00e9 acentuou-se ao longo da \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Considerando seus m\u00e9ritos e fracassos, a <em>ci\u00eancia<\/em> ajudou a elevar o n\u00edvel da prosperidade, mas ao mesmo tempo desmitificou muito aquilo em que as gera\u00e7\u00f5es anteriores basearam as suas cren\u00e7as. A pretens\u00e3o da Igreja \u00e0 infalibilidade passou para a ci\u00eancia. Os professores universit\u00e1rios herdaram o prest\u00edgio dos padres, e os laureados com o Pr\u00eamio Nobel, o dos dignit\u00e1rios superiores nas igrejas.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ideia, outrora ancorada religiosamente, de que existe uma verdade inescap\u00e1vel, foi abalada. J\u00e1 h\u00e1 mais de cem anos, Nietzsche previu, com rara clareza, o nihilismo. A ci\u00eancia, entretanto, tornou-se fragmentada. H\u00e1 muito que perdeu sua fama de infalibilidade, tal como aconteceu anteriormente com as autoridades religiosas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m do mais, a atividade cient\u00edfica \u00e9 afetada pelas leis do mercado. Em muitas disciplinas acad\u00eamicas, diferentes escolas competem entre si, lutando pelo prest\u00edgio e, em alguns casos, at\u00e9 guerreando umas com as outras. Que um projeto de investiga\u00e7\u00e3o explore algo essencial sobre a realidade parece menos importante do que a quantidade de publica\u00e7\u00f5es que ele torna poss\u00edvel e com que frequ\u00eancia essas publica\u00e7\u00f5es s\u00e3o lidas. H\u00e1 projetos que medem seu sucesso mais por receber aplausos eletr\u00f4nicos (cliques do tipo &#8220;gosto&#8221;) do que por melhorar a vida das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A era moderna foi seguida pela era p\u00f3s-moderna; a era da ci\u00eancia, pela <em>era p\u00f3s-factual<\/em>. O fil\u00f3sofo americano Harry Frankfurt chamava de &#8220;treta&#8221; (<em>bullshit<\/em>) as declara\u00e7\u00f5es que algu\u00e9m faz sem prestar aten\u00e7\u00e3o sobre a diferen\u00e7a entre <em>verdadeiro<\/em> e <em>falso<\/em>. Com a elei\u00e7\u00e3o de Trump como presidente dos EUA, a &#8220;treta&#8221; tornou-se h\u00e1bito, aprovado pela maioria naquele pa\u00eds. Com a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro ocorreu o mesmo no Brasil. Restringir a liberdade de imprensa \u00e9 outra estrat\u00e9gia que mina a distin\u00e7\u00e3o entre verdadeiro e falso. A desvaloriza\u00e7\u00e3o dessa distin\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m corr\u00f3i a import\u00e2ncia de outras distin\u00e7\u00f5es, como aquela entre <em>justo<\/em> e <em>injusto<\/em> ou entre o que \u00e9 <em>essencial<\/em> e o que n\u00e3o \u00e9 <em>essencial<\/em>. Na pol\u00edtica, cada vez mais est\u00e1 se obscurecendo a distin\u00e7\u00e3o entre <em>transparente<\/em> e <em>intransparente<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pandemia de covid-19 lan\u00e7a luz sobre todos os riscos e incertezas p\u00f3s-modernos. O fato de a ci\u00eancia n\u00e3o poder atender \u00e0s expectativas de milh\u00f5es de pessoas de receber, em breve, acesso a uma vacina infal\u00edvel contra o v\u00edrus, ainda \u00e9 o menor problema. Mais importante \u00e9 que a covid-19 questiona o autoevidente estabelecido e torna-nos conscientes dos limites da ci\u00eancia, da tecnologia e da economia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Finalmente, o v\u00edrus nos lembra que um governo \u00e9 respons\u00e1vel pela sa\u00fade e o bem-estar de sua popula\u00e7\u00e3o \u2013 isto \u00e9, de todos! \u2013 e que, inversamente, prejudica a sociedade se ele trabalha apenas para preservar o seu poder e para enriquecer a sua camarilha. O v\u00edrus mata o maior n\u00famero de v\u00edtimas onde os governos h\u00e1 muito ignoram os riscos da pandemia, menosprezam o perigo e n\u00e3o se importam com a verdade. A covid-19 exorta-nos, portanto, a n\u00e3o desistir da distin\u00e7\u00e3o entre verdadeiro e falso. A pandemia torna todas as pessoas, n\u00e3o importando onde vivem, conscientes de que a vida e a sa\u00fade s\u00e3o mais importantes do que o crescimento do lucro privado ou do produto nacional bruto.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>As decis\u00f5es democr\u00e1ticas devem estar abertas ao discurso. Um pr\u00e9-requisito essencial para tal \u00e9 a transpar\u00eancia. Governos que t\u00eam muito a esconder prejudicam a democracia. Quanto mais centros de poder forem privatizados, maior \u00e9 o perigo de intranspar\u00eancia em torno de decis\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas. A restri\u00e7\u00e3o da liberdade da m\u00eddia tamb\u00e9m reduz a transpar\u00eancia e torna o debate p\u00fablico mais dif\u00edcil.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 agora, a pandemia parece ter encorajado ditaduras, regimes autocr\u00e1ticos e atores globais privados. Tamb\u00e9m a esse respeito, o imperativo da responsabilidade \u00e9 hoje mais importante do que nunca. Por isso, se n\u00e3o seguirmos a recomenda\u00e7\u00e3o urgente de Hans Jonas, ser\u00e1 cada vez mais dif\u00edcil conter esta e outras poss\u00edveis futuras pandemias.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-background has-very-light-gray-background-color wp-block-paragraph\"><strong>Thomas Kesselring<\/strong> \u00e9 professor aposentado do Instituto de Filosofia da Universidade de Berna, Su\u00ed\u00e7a. Na d\u00e9cada de 1990, foi professor visitante no Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da UFRGS, tendo passagem marcante pelo Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o da Universidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo | Thomas Kesselring, professor da Universidade de Berna, faz um balan\u00e7o do percurso da tecnologia, da economia e da ci\u00eancia que nos trouxe ao atual momento de incertezas H\u00e1 mais de 40 anos, em O princ\u00edpio da responsabilidade, o fil\u00f3sofo Hans Jonas formulou o imperativo &#8220;N\u00e3o p\u00f4r em perigo<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/o-principio-da-responsabilidade-no-mundo-pos-pandemia\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9875,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[53],"tags":[102,699,701,586,160,1284,1283,968,707,1282,198,953],"ppma_author":[2938],"class_list":["entry","author-gerente","post-9873","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-artigo","tag-ciencia","tag-coronavirus","tag-covid-19","tag-democracia","tag-economia","tag-falibilidade","tag-hans-jonas","tag-liberdade-de-imprensa","tag-pandemia","tag-principio-da-responsabilidade","tag-tecnologia","tag-transparencia"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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