{"id":9884,"date":"2020-08-06T13:45:37","date_gmt":"2020-08-06T16:45:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=9884"},"modified":"2022-05-10T13:54:53","modified_gmt":"2022-05-10T16:54:53","slug":"periferia-como-demarcacao-existencial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/periferia-como-demarcacao-existencial\/","title":{"rendered":"Periferia como demarca\u00e7\u00e3o existencial"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Entrevista | O escritor Jos\u00e9 Falero traz em sua obra a complexidade do cotidiano perif\u00e9rico em uma narrativa que ele define autobiogr\u00e1fica e que extrapola a delimita\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO tipo de coisa que acontece nas \u00e1reas nobres de Porto Alegre n\u00e3o importa muito, mas importa bastante; j\u00e1 o tipo de coisa que acontece em lugares como a Vila Sapo importa bastante, mas n\u00e3o importa muito\u201d, diz Jos\u00e9 Falero, autor do livro <em>Vila Sapo<\/em>, lan\u00e7ado em 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Faz tempo que dona Rita Helena apoia o filho em todos os seus projetos. Foi ela quem comprou um cavaquinho quando ele embestou em aprender a tocar o instrumento. Jos\u00e9 Carlos da Silva Junior diz que a veia art\u00edstica herdou da m\u00e3e, que acabou desistindo de seus desenhos pra sustentar a fam\u00edlia. Eles moram na Lomba do Pinheiro, regi\u00e3o leste de Porto Alegre, onde convivem n\u00facleos densamente povoados e \u00e1reas verdes de preserva\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica. Atualmente a regi\u00e3o \u00e9 formada por mais de 30 vilas. Da liberdade de correr por esse espa\u00e7o durante toda a inf\u00e2ncia ao autoconfinamento para imergir na pesquisa solit\u00e1ria e autodidata sobre gram\u00e1tica, literatura, que resultaram em um monte de pap\u00e9is escritos e jogados no lixo, at\u00e9 que surgisse o primeiro conto digno de ser guardado, \u00e9 que aparece no cen\u00e1rio da literatura ga\u00facha no ano passado um contundente jovem escritor com seu primeiro livro: <em>Vila Sapo<\/em>, uma colet\u00e2nea de seis narrativas. Ele tamb\u00e9m participou da publica\u00e7\u00e3o <em>\u00c0 margem da sanidade <\/em>(J. Vellucy, 2018) e <em>Ancestralidades: Escritores Negros <\/em>(Venas Abiertas, 2019) e est\u00e1 terminando seu primeiro romance. Desde o m\u00eas de junho do ano passado \u00e9 cronista na revista <em>Par\u00eantese<\/em> e neste semestre ser\u00e1 um dos professores na disciplina <em>Encontro de Saberes, <\/em>ligada ao Curso de M\u00fasica da UFRGS, aberta aos alunos de gradua\u00e7\u00e3o. Assim que concluir o curso do EJA no Col\u00e9gio de Aplica\u00e7\u00e3o, Jos\u00e9 quer graduar-se em Letras e dar aula na Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica \u2013 prop\u00f3sito que se evidencia em sua entrevista ao JU.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O que tu achas de como e do que tem sido escrito a respeito de ti como escritor e de tua obra?<\/strong><br>Fico muito honrado e acho legal as pessoas gostarem, mas o texto tem tido impacto nas pessoas dependendo da origem social. N\u00e3o quero parecer mal-agradecido pelas pessoas que escrevem bem a meu respeito por a\u00ed, mas eu gosto muito mais quando as pessoas daqui de onde eu moro gostam do que eu fa\u00e7o. Bah, da\u00ed \u00e9 foda! Teve uma vez um cara que nunca tinha lido um livro, ele \u00e9 casado com uma mo\u00e7a que l\u00ea muito, e ela passou a vida toda tentando fazer esse cara ler. Da\u00ed um dia ela comprou meu livro e disse \u201cOh, \u00e9 um cara daqui, contando hist\u00f3rias daqui, talvez te interesse!\u201d. Um dia eu sa\u00ed e passei por esse cara, e ele me apertou a m\u00e3o e disse: \u201cBah, peguei teu livro e n\u00e3o conseguia mais para de ler\u201d. Isso pra mim tem valor, sabe? Outro dia, eu fui dar uma caminhada pela vila e passei por uma invas\u00e3o. Eu sabia que tavam invadindo, mas n\u00e3o imaginava que tava t\u00e3o grande (na Vila Sapo). Da\u00ed veio o cara que era respons\u00e1vel pela invas\u00e3o, a gente entrou num dos barracos. A gente tava trocando uma ideia quando vejo meu livro ali&#8230; Uma menina que tinha comprado. Eu quase chorei. Isso a\u00ed pra mim \u00e9 que tem valor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Muitos professores t\u00eam usado teu livro em escolas. Imagino que j\u00e1 tenhas sido convidado para ir a alguma dessas escolas. O que mais ouviste dos estudantes nessas ocasi\u00f5es?<\/strong>&nbsp;<br>Quando eu estava indo pras escolas, tinha uma coisa que me encantava muito, mas eu n\u00e3o conseguia exatamente nomear. S\u00f3 fui aprender a nomear isso um pouco depois. Tenho ido a muito col\u00e9gio de periferia; as crian\u00e7as s\u00e3o parecidas comigo quando eu ia pra aula. \u00c9 crian\u00e7a que a princ\u00edpio n\u00e3o tem uma conex\u00e3o t\u00e3o grande com a literatura. Eu me lembro quando era pi\u00e1 tamb\u00e9m, quando tava no col\u00e9gio e chamavam algu\u00e9m pra falar alguma coisa, e eu n\u00e3o tava nem a\u00ed. E at\u00e9 hoje acontece esse comportamento, n\u00e3o h\u00e1 respeito por esses valores. Eu acredito que isso aconte\u00e7a porque a literatura no Brasil \u00e9 elitista pra caralho. Os livros n\u00e3o falam, n\u00e3o tem as preocupa\u00e7\u00f5es que tu tem, n\u00e3o andam por ambientes da cidade que tu anda. Nada ali reflete o que \u00e9 a realidade pra ti. O exemplo que eu sempre costumo dar: \u201cAh, o cara t\u00e1 triste e viajou pra Paris\u201d. Nossa! Isso \u00e9 surreal. Pra mim passa por isso o fato de o brasileiro n\u00e3o ler tanto. Ent\u00e3o eu chegava \u00e0s escolas e era uma gritaria. Da\u00ed eu come\u00e7ava a trocar uma ideia com eles e j\u00e1 ganhava na g\u00edria deles. Ent\u00e3o eu come\u00e7ava a ler e ficava todo mundo quieto, de uma forma que eu nunca tinha visto nos col\u00e9gios de periferia. Os pi\u00e1s gostavam de ouvir, t\u00e1 ligado? Eu tenho pra mim que isso \u00e9 por causa do texto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Talvez eu seja presun\u00e7oso, mas acho que eles conseguem perceber que as hist\u00f3rias deles tamb\u00e9m s\u00e3o dignas de ser contadas. Essa hist\u00f3ria \u00e9 parecida com a do meu primo, a do meu pai, da minha m\u00e3e, dos meus tios, e isso \u00e9 digno de estar num livro. N\u00e3o precisa ter um carro, ser um cara que \u00e9 um grande empres\u00e1rio. N\u00e3o, minha hist\u00f3ria \u00e9 digna de ser contada; meu perrengue com o \u00f4nibus \u00e9 digno de ser contado; as minhas preocupa\u00e7\u00f5es financeiras s\u00e3o dignas de ser contadas. E o efeito disso nessa galera \u00e9 uma coisa fant\u00e1stica.<\/p><cite>Jos\u00e9 Falero<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O que \u00e9 periferia? Como interpretas essa palavra, periferia do qu\u00ea?<\/strong><br>Isso \u00e9 bem complexo. Aqui em Porto Alegre tem alguns exemplos. Tu tem a Vila Planet\u00e1rio, e por que ela \u00e9 periferia se ela est\u00e1 a um passo do Centro, do lado do Pal\u00e1cio da Pol\u00edcia? Faz sentido talvez chamar o Pinheiro (Lomba do Pinheiro), que \u00e9 bem pra c\u00e1, quase fronteira com Viam\u00e3o, ent\u00e3o geograficamente n\u00e3o faz sentido chamar a Planet\u00e1rio de periferia, mas eu chamo. Tem regi\u00f5es nobres da cidade que s\u00e3o afastadas do Centro que chamaria de periferia geograficamente, mas eu n\u00e3o chamo, por qu\u00ea?&nbsp; Porque a periferia n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o geogr\u00e1fica. Tamb\u00e9m tem o fato de tu estar afastado dos centros culturais, das coisas que s\u00e3o consideradas culturais. Bourdieu, por exemplo, e o capital cultural: tu mora na Planet\u00e1rio, ent\u00e3o tu t\u00e1 perto dos centros de cultura, mas acontece que o que \u00e9 \u201ctido\u201d como cultura, os valores que s\u00e3o considerados como tais, que s\u00e3o valores reconhecidamente culturais, n\u00e3o te interessam, n\u00e3o t\u00eam a ver com a tua vida. Ent\u00e3o, desse ponto de vista, tu est\u00e1s afastado da mesma forma. Aquelas coisas que tu considera cultura no teu ambiente: o rap, hip-hop, o funk, a literatura marginal que t\u00e1 surgindo agora e que circula muito nesses meios, o pr\u00f3prio slam, nada disso \u00e9 comprado pela sociedade como cultura. Desse ponto de vista tu t\u00e1 afastado, e da\u00ed tu t\u00e1 afastado do ponto de vista econ\u00f4mico, de uma s\u00e9rie de quest\u00f5es de infraestrutura. A Planet\u00e1rio \u00e9 do lado do Centro, mas os garis n\u00e3o varrem ali. Os garis pagos com o dinheiro p\u00fablico n\u00e3o varrem ali. Perif\u00e9rico nesse sentido: afastado das coisas que s\u00e3o importantes pra vida das pessoas, dessas coisas que garantem dignidade pras pessoas. \u00c9 assim que eu vejo a periferia, como o espa\u00e7o n\u00e3o s\u00f3 geogr\u00e1fico, mas tamb\u00e9m existencial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"612\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-6700.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-9889\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-6700.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-6700-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-6700-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-6700-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-6700-465x309.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-6700-695x462.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><figcaption>Foto: Fl\u00e1vio Dutra\/JU<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quando escrever assumiu um papel importante pra ti?<\/strong><br>Sei l\u00e1 por que, n\u00e3o gosto dessas coisas de dom, n\u00e3o acredito que Deus tenha feito as pessoas com genes: oh, esse vai ser pintor, esse vai ser professor. Alguma coisa na minha viv\u00eancia deve explicar o que vou dizer agora. Eu sou um cara inclinado \u00e0 produ\u00e7\u00e3o das coisas. Eu ficava muito curioso com as m\u00fasicas. Fui estudar m\u00fasica, a\u00ed aprendi a tocar instrumentos. Hoje mesmo eu n\u00e3o consigo ouvir m\u00fasica, ligo o r\u00e1dio, escuto uma, duas, e paro, e tenho que tocar junto. N\u00e3o me satisfa\u00e7o em consumir as coisas, eu preciso produzir, \u00e9 uma necessidade que eu tenho, e isso se reflete em tudo. Eu gostava muito de animes, que s\u00e3o desenhos animados japoneses. A\u00ed aprendi a desenhar, fui estudar como desenhar, e produzia minhas pr\u00f3prias hist\u00f3rias em quadrinho. Tudo com o que eu me envolvo, tudo que eu aprendo, eu preciso produzir. Depois que eu li o primeiro livro inteiro nunca mais parei de ler. Comecei a me ausentar da rua por causa da leitura. Comecei a ter interesse por coisas que meus amigos daqui n\u00e3o tinham. Ent\u00e3o eu n\u00e3o queria saber da conversa que eles tinham \u2013 e t\u00eam at\u00e9 hoje. As conversas que eu queria ter com as pessoas j\u00e1 n\u00e3o encontrava com eles. Comecei a me isolar em casa, ler muito, muito livro did\u00e1tico, livro de literatura, livro de tudo que \u00e9 tipo de coisa: pol\u00edtica, filosofia. E, como eu tava te falando, tudo com o que eu entro em contato tenho uma tend\u00eancia de produzir. Ent\u00e3o comecei a escrever. Eu sabia o que era um texto bom porque lia muito, e eu percebia que meu texto n\u00e3o tava bom, mas tive calma. Como eu j\u00e1 tinha aprendido a tocar cavaquinho, eu tinha consci\u00eancia de que pr\u00e1tica \u00e9 tudo na vida. Escrevia, jogava no lixo. Escrevia, jogava no lixo. Outra coisa que eu pensava \u00e9 que eu tinha que me familiarizar com as ferramentas que se usam pra escrever, ent\u00e3o comecei a estudar muito gram\u00e1tica. Pra cada regrinha da gram\u00e1tica que eu aprendia, eu praticava, ent\u00e3o escrevia uns dez contos pra usar aquela regra. E quando ca\u00eda a ficha, eu ia pra outra regrinha. E assim foi indo at\u00e9 que eu escrevi uma hist\u00f3ria, era o primeiro cap\u00edtulo de literatura especulativa, era uma coisa como <em>Senhor dos An\u00e9is<\/em>, fant\u00e1stica, que era o que eu queria escrever em princ\u00edpio. Ent\u00e3o eu leio e sabe aquele sentimento de j\u00e1 ter lido livros publicados que n\u00e3o eram t\u00e3o bons? Da\u00ed comecei a guardar e comecei a botar f\u00e9 nas coisas que eu fazia. Foi assim que eu desenvolvi o interesse e foi assim tamb\u00e9m que eu fui melhorando.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Tu davas teu texto pra algu\u00e9m ler?<\/strong><br>Eu tentava, n\u00e9. Obrigava a minha m\u00e3e a ler (risos), a minha irm\u00e3 tamb\u00e9m. A minha irm\u00e3 me disse uma coisa que foi fundamental pra eu chegar na escrita que eu t\u00f4. Teoricamente, eu ainda sou um escritor de literatura fant\u00e1stica. Por que eu t\u00f4 dizendo isso? Primeiro a minha irm\u00e3 lia e gostava e dizia: cara, eu gosto do teu texto, mas tu tem que escrever alguma coisa que interesse a mim, \u00e0s pessoas que s\u00e3o parecidas contigo. Ent\u00e3o essa era a primeira coisa que ia me tirar desse lugar. Depois teve umas outras coisas: eu ouvi por a\u00ed que n\u00e3o \u00e9 bom tu come\u00e7ar a escrever j\u00e1 na literatura fant\u00e1stica porque tu tens uma s\u00e9rie de preocupa\u00e7\u00f5es que todo texto liter\u00e1rio tem, toda fic\u00e7\u00e3o tem: o arco dram\u00e1tico, o in\u00edcio, o meio e o fim \u2013 o desenvolvimento da tens\u00e3o das coisas. S\u00f3 que na literatura especulativa tu vais ter uma preocupa\u00e7\u00e3o a mais que \u00e9 pensar as regras daquele universo: as pessoas podem voar? Qual a explica\u00e7\u00e3o tu d\u00e1 pra elas poderem voar? Existe magia? Existem drag\u00f5es? Quais s\u00e3o teus par\u00e2metros pra essa realidade alternativa? E isso \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o extra. Ent\u00e3o passei a escrever hist\u00f3rias do mundo real. At\u00e9 ent\u00e3o eu s\u00f3 escrevia contos pra testar coisas, porque tamb\u00e9m ouvir dizer que n\u00e3o \u00e9 legal come\u00e7ar escrevendo romance. \u00c9 melhor come\u00e7ar a escrever contos, e quando tu tiver bom nos contos, tu passa pro romance. Tudo \u00e9 um processo. Eu n\u00e3o desprezo hoje em dia a literatura especulativa, mas eu sa\u00ed \u201cdali\u201d de escrever o fant\u00e1stico pra fazer esse treinamento, e vim pra essa coisa de escrever sobre o mundo real como forma de treinar coisas que eu achava que tinha que treinar. Nessa literatura mais palp\u00e1vel, digamos assim, eu pensava que ia me cansar e ia voltar pro fant\u00e1stico pra ter mais liberdade de pensar coisas, inventar coisas, me sentir mais livre.&nbsp; S\u00f3 que n\u00e3o. Eu encontrei muitos subs\u00eddios talvez pra minha vida toda, era mais rico do que eu pensava. Mas a fic\u00e7\u00e3o especulativa tamb\u00e9m tem algumas peculiaridades bacanas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>No texto \u201cPasse livre\u201d, escrito no ano passado, o narrador diz que se envergonha de n\u00e3o ter se manifestado quando o cobrador esculachava a senhora que entrou no \u00f4nibus lotado, por medo do que os outros iam pensar de participar do barraco. Esse desconforto \u00e9 teu? De que outras coisas sentes vergonha por ti e pelas pessoas em geral?<\/strong><br>Essa \u00e9 uma cr\u00f4nica que publiquei na <em>Par\u00eantese<\/em>. Elas n\u00e3o s\u00e3o ficcionais, s\u00e3o todas autobiogr\u00e1ficas. Aquilo aconteceu exatamente como eu disse ali. Eu me senti envergonhado mesmo. \u00c9 muito louco isso. Tem umas coisas na vida, n\u00e3o sei se isso acontece contigo, que n\u00e3o basta tu tomar consci\u00eancia pra que tu mude. Tu apenas tomou consci\u00eancia, e isso \u00e9 uma delas. Eu tomei consci\u00eancia disso e eu n\u00e3o consigo me mover pra ser um cara diferente. Se acontecesse de novo aquilo ali n\u00e3o sei se eu n\u00e3o teria coragem de novo. Tamanha \u00e9 a influ\u00eancia desse que eu chamo no texto de \u201cconceito burgu\u00eas de eleg\u00e2ncia\u201d que nos amarra. J\u00e1 participei de esc\u00e2ndalos na minha vida, mas precisa ser uma coisa muito grave e me atingir diretamente pra eu participar, porque evito esse tipo de conflito. Mas eu n\u00e3o devia ter evitado, por exemplo, naquele momento, devia ter feito alguma coisa. Me pergunta o que mais me envergonha? Uma s\u00e9rie de coisas me envergonha. Eu sou um cara que hoje em dia t\u00f4 tendo contato com muitas escolas, eu conhe\u00e7o professores, isso mudou a minha vida por causa do livro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Eu lancei o livro no in\u00edcio do ano passado, antes disso eu n\u00e3o conhecia professor, n\u00e3o conhecia gente da cultura, n\u00e3o conhecia gente debatendo machismo, racismo, homofobia, nada disso. A \u00fanica ferramenta que eu tinha pra pensar o mundo era eu e as conclus\u00f5es que eu tirava das coisas. Antes de eu ter contato com essas coisas e com o pessoal da universidade, professores da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, com galera do teatro, com galera da literatura.&nbsp;<\/p><cite>Jos\u00e9 Falero<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de eu ter contato com essas pessoas todas, com quem eu conversava?&nbsp;Com o pessoal da obra onde eu trabalhava na constru\u00e7\u00e3o civil, isso era o meu universo, esse era o meu ambiente. Quero falar da masculinidade t\u00f3xica. Eu acho que isso est\u00e1 em todos os \u00e2mbitos, por mais que se esteja na universidade, onde for, tu vais ter essa coisa da masculinidade t\u00f3xica principalmente quando se re\u00fanem s\u00f3 homens pra conversar, por mais que esses caras sejam desconstruid\u00f5es, que falem do direito da mulher. Quando se re\u00fane s\u00f3 homem \u00e9 foda de aturar. Ent\u00e3o o que acontece, essas pessoas que est\u00e3o afastadas dos debates, a galera do subemprego, os caras da constru\u00e7\u00e3o civil, os caras que t\u00e3o fumando maconha nos becos, est\u00e3o totalmente afastados dessas discuss\u00f5es \u2013 e agora eu fa\u00e7o um par\u00eantese: n\u00e3o \u00e9 culpa deles, isso \u00e9 uma falta de pol\u00edtica p\u00fablica de amplia\u00e7\u00e3o de debate. Acho que o PT fez alguma coisa no sentido de ampliar o acesso \u00e0s universidades, fez um monte de coisa, foi importante, os debates acontecem por causa disso, mas precisava ter ampliado mais de modo a incluir todo mundo. Entre essas pessoas que est\u00e3o afastadas do debate \u2013 a galera da periferia, os caras do subemprego \u2013, a masculinidade t\u00f3xica \u00e9 muito mais evidente, muito mais intensa. E tu me pergunta do que eu mais me envergonho&#8230; Essa \u00e9 uma das coisas que eu me envergonho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quem tu gostarias que te lesse, pra quem tu escreves, se \u00e9 que tens essa preocupa\u00e7\u00e3o?&nbsp;<\/strong><br>Vou ser bastante honesto. J\u00e1 tive preocupa\u00e7\u00f5es assim. J\u00e1 escrevi imaginando como pensa um editor pra tentar convencer esse cara a me publicar. Nessa \u00e9poca eu n\u00e3o tinha publicado nada. J\u00e1 escrevi pensando nas pessoas aqui da minha quebrada, na minha tia, na minha m\u00e3e, nos meus vizinhos. J\u00e1 tive esse pensamento. Indiretamente \u00e9 esse p\u00fablico que eu quero atingir hoje em dia. Mas s\u00f3 que agora eu penso de outra forma. Eu n\u00e3o preciso me alienar disso porque eu fa\u00e7o parte dessa comunidade. Eu quero escrever pra eu ler. Quando escrevo um texto, eu procuro sempre \u2013 isso \u00e9 muito presente no meu pensamento \u2013 que seja uma coisa que, depois quando eu for ler e avaliar, eu veja que \u201cisso aqui n\u00e3o t\u00e1 legal, nisso aqui eu n\u00e3o fui honesto, ou isso aqui eu poderia ter desenvolvido melhor\u201d. Quero que meu olhar fique satisfeito. Essa \u00e9 a minha preocupa\u00e7\u00e3o \u2013 forma, conte\u00fado, as v\u00edrgulas. E eu penso que, quando o meu olhar ficar satisfeito, o olhar dos meus pares vai ficar satisfeito. Isso \u00e9 o legal da literatura, ela s\u00f3 se completa quando o outro l\u00ea.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista | O escritor Jos\u00e9 Falero traz em sua obra a complexidade do cotidiano perif\u00e9rico em uma narrativa que ele define autobiogr\u00e1fica e que extrapola a delimita\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica&nbsp; \u201cO tipo de coisa que acontece nas \u00e1reas nobres de Porto Alegre n\u00e3o importa muito, mas importa bastante; j\u00e1 o tipo de<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/periferia-como-demarcacao-existencial\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":9888,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[604],"tags":[1289,1285,522,1287,1288,1286],"ppma_author":[2972],"class_list":["entry","author-jacira-cabral","post-9884","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-entrevistas","tag-encontro-de-saberes","tag-jose-falero","tag-literatura","tag-literatura-marginal","tag-parentese","tag-periferia"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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