Hipocalcemia puerperal

No caso da febre do leite dos bovinos, sendo um transtorno de apresentação aguda, não existe teste sanguíneo que possa prever a ocorrência. Entretanto, mediante o perfil metabólico podem ser detectados fatores predisponentes e avaliado o prognóstico do transtorno. Entre os fatores predisponentes à febre do leite, os desequilíbrios minerais incluem deficiência de magnésio e desequilíbrio da relação cálcio/fósforo (Ca/P). A deficiência de magnésio é a mais importante causa predisponente para a febre do leite. Dietas deficientes em magnésio causam inibição da mobilização de cálcio por efeito direto sobre o metabolismo dos ossos, interferindo com a ação do PTH, com a absorção intestinal de cálcio e estimulando a secreção de calcitonina. A maioria das vezes, a hipomagnesemia não se apresenta clinicamente, mas de forma subclínica atacando as vacas logo após o parto. A incidência de hipomagnesemia aumenta nas épocas em que o pasto é fertilizado com potássio, pois esse mineral inibe a disponibilidade de magnésio no animal. Também, nas épocas de produção de pastagem ou forragem de má qualidade como no inverno, os níveis de magnésio caem perigosamente. O valor de magnésio sanguíneo de segurança é de 2,0 mg/dL.

O desequilíbrio da relação Ca/P se refere ao aumento dessa relação, seja por deficiência de fósforo ou por excesso de cálcio. Uma relação Ca/P maior de 3,8 pode provocar: (a) inibição da secreção de PTH, provocando falha na mobilização de cálcio dos ossos e na absorção de cálcio no intestino; e (b) aumento da secreção de calcitonina, hormônio que causa diminuição da concentração de cálcio sanguíneo por estimular o ingresso de cálcio nas reservas ósseas. Assim, o efeito sobre o metabolismo de uma relação Ca/P alta é a diminuição da mobilização das reservas de cálcio e o aumento da predisposição a sofrer febre do leite no momento em que a demanda de cálcio aumenta, como é o caso do início da lactação. O nível crítico de cálcio sanguíneo é de 6,5 mg/dL. Considera-se que este nível é incompatível com a motilidade normal do trato gastrointestinal, o que pode exacerbar a hipocalcemia ou até causar outros problemas metabólicos. Quando o teor de cálcio sanguíneo é menor de 5,0 mg/dL, os sinais clínicos da febre do leite aparecem.

Sabendo que o dano muscular é o principal responsável da falta de recuperação na febre do leite e o principal fator que causa a síndrome da vaca caída, podem ser determinados no plasma os níveis de atividade das enzimas musculares, principalmente a creatina quinase (CK) e a AST. Altos níveis enzimáticos revelam extenso dano muscular com poucas probabilidades de recuperação. A proporção de recuperação das vacas com febre do leite mediante o tratamento clássico de uma única injeção intravenosa de borogliconato de cálcio é da ordem de 65%. A recuperação das demais vai depender da resposta metabólica e, principalmente, do dano muscular.

Dietas consideradas alcalinas, isto é, com excesso de cátions (Na+, K+) predispõem a hipocalcemia. Dietas ricas em fósforo (> 80 g/dia) também têm o mesmo efeito. Isto acontece porque a alta concentração de fósforo sanguíneo inibe a enzima 1α-hidroxilase, diminuindo a produção de vitamina D3 ativa e, portanto, diminuindo a absorção de cálcio intestinal.

Em ovinos, a hipocalcemia pode acontecer também no início da lactação ou nas últimas semanas de gestação. Nesses casos, ocorre diminuição do cálcio sanguíneo para menos de 6,0 mg/dL e aumentos da atividade sérica das enzimas AST, CK e lactato desidrogenase (LDH). A hipocalcemia puerperal também pode ocorrer em cabras leiteiras, mas diferentemente das vacas, nas quais o problema se apresenta nos primeiros dias após o parto, nas cabras pode ocorrer até várias semanas após o parto. A calcemia observada nas cabras afetadas é de menos de 4,0 mg/dL.