Hipoglicemia

A hipoglicemia configura-se quando a concentração de glicose plasmática atinge menos de 60 mg/dL (monogástricos) ou menos de 40 mg/dL (ruminantes). A causa principal da hipoglicemia está na ausência de reservas (jejum prolongado), no gasto exagerado de glicose por tecidos periféricos (lactação, gestação, hiperinsulinismo, sepse) ou pobre capacidade metabólica do fígado, como ocorre em animais recém-nascidos, nos quais a gliconeogênese hepática só é possível a partir do quinto dia de vida (tempo necessário para que as mitocôndrias assumam totalmente suas funções oxidativas) ou em casos de insuficiência ou lesão hepática de diversas origens.

A desnutrição e a ausência de reservas é a causa de hipoglicemia mais frequente em animais de produção, seja por dificuldades ambientais ou por efeitos diretos do manejo. Em animais monogástricos a causa mais comum de hipoglicemia está associada à falha no funcionamento hepático por causas tóxicas ou infecciosas. Em situação de jejum prolongado em ruminantes, a produção ruminal de ácidos graxos voláteis (AGV) para, não havendo mais fermentação bacteriana e os protozoários desaparecem por ausência de substrato. Sem AGV não há precursores de glicose, o que diminui a secreção de insulina e ativa o glucagon para liberar glicogênio hepático e ativar a lipólise e o catabolismo muscular.

A gliconeogênese também está comprometida na deficiência dos chamados hormônios diabetogênicos ou hiperglicemiantes (cortisol, GH, glucagon, adrenalina) como no hipoadrenocorticismo. Hipoglicemia iatrogênica pode ser observada em tratamento inadequado da diabetes mellitus (dose de insulina em excesso). A idade e a condição geral do paciente auxiliam bastante na investigação da causa da hipoglicemia. Animais idosos tendem a apresentar hipoglicemia em insulinomas ou hipoadrenocorticismo. Na primeira, uma secreção exagerada e autônoma de insulina por um tumor mantém a glicemia persistentemente baixa, enquanto na segunda, a deficiência de glicocorticoides inibe a gliconeogênese, e o paciente fica hipoglicêmico no jejum. Contudo, outras doenças podem provocar hipoglicemia em animais idosos, como doenças hepáticas, condições debilitantes ou sepse. Na sepse, demonstrou-se que ocorre um reajuste do glicostato hipotalâmico, muitas vezes acertando a faixa que seria ideal para valores baixos, mantendo o paciente hipoglicêmico. Contudo quadros sépticos tendem a causar resistência à insulina, o que aumentaria a glicose no plasma. Este aumento da glicemia é destinado às células inflamatórias que estão plenamente ativas enfrentando os agressores, e desta forma também podem predispor a hipoglicemia durante a sepse.

Animais muito jovens, podem apresentar hipoglicemia se mantidos em jejum prolongado, uma vez que eles ainda não apresentam uma gliconeogênese eficiente. Isto é particularmente importante em filhotes de gatos, que podem tornar-se hipoglicêmicos, hipotensos e com hipotermia frente a desnutrição ou em leitões recém-nascidos que não ingerem colostro. Nestes casos o estupor pode aparecer como sinal inicial de hipoglicemia. Contudo, verminoses severas, desnutrição crônica, doenças hepáticas hereditárias, sepse, ou alterações vasculares (shunts porto-sistêmicos) também são causas comuns de hipoglicemia em animais jovens. Pacientes diabéticos sob terapia com insulina ou hipoglicemiantes orais podem experimentar sinais de hipoglicemia caso não esteja adequado o tratamento. A severidade da manifestação de hipoglicemia será decorrente da intensidade e tempo de duração da crise hipoglicêmica. Outras causas de hipoglicemia são as seguintes: policitemia severa, hipoglicemia em cães de caça y de raças toy, intoxicação por propanolol, hipopituitarismo, neoplasia extrapancreática, enfermidades cardíacas, intoxicação por salicilatos, uremia e uso de drogas hipoglicemiantes orais.

 Alguns fatores relacionados com a coleta da amostra ou com o método de dosagem podem causar falsas alterações na glicemia. Se a amostra de sangue ficar muito tempo sem separar o plasma/soro, e não for usado anticoagulante inibidor da glicólise (fluoreto de sódio) a concentração de glicose pode cair a uma taxa aproximada de 10 mg/dL/hora. Amostras hemolisadas podem ser causa de falso aumento de glicose. Os métodos de dosagem de glicose mediante tiras de química seca (glicometria portátil) costumam dar valores mais baixos que aqueles dosados por métodos de química úmida.