Glicose

Entre vários metabólitos usados como combustível para a oxidação respiratória, a glicose é considerada o mais importante, sendo vital para funções, tais como o metabolismo do cérebro e na lactação. O nível de glicose sanguínea pode indicar falhas na homeostase, como ocorre em doenças tais como as cetoses. Na digestão dos ruminantes, praticamente nenhuma glicose proveniente do trato alimentar entra na corrente sanguínea. O fígado é o órgão responsável pela sua síntese a partir de moléculas precursoras na via da gliconeogênese. Assim, nos ruminantes o ácido propiônico produz 50% dos requerimentos de glicose, os aminoácidos gliconeogênicos contribuem com 25%, e o ácido láctico com 15%. Outro precursor importante é o glicerol. O nível de glicose tem poucas variações, em função dos mecanismos homeostáticos bastante eficientes do organismo, os quais envolvem o controle endócrino por parte da insulina e do glucagon sobre o glicogênio e dos glicocorticoides sobre a gliconeogênese. Quando o fornecimento energético é inadequado, esses hormônios estimulam a degradação de glicogênio hepático e a síntese de nova glicose no fígado; e quando o balanço energético se torna negativo, estimulam a mobilização de triglicerídeos para fornecer ácidos graxos como fonte de energia e glicerol como precursor de glicose hepática.

A dieta tem pouco efeito sobre a glicemia, em função dos mecanismos homeostáticos, exceto em animais com severa desnutrição. Sob alimentação sem deficiência ou excesso drásticos de energia, o nível de glicose não é bom indicador do nível energético da dieta. Porém, o fato de ser um metabólito vital para as necessidades energéticas do organismo justifica sua inclusão no perfil metabólico. A concentração de glicose pode aumentar no estresse crônico. A diabetes mellitus, mais frequente em monogástricos do que em ruminantes, é caracterizada por quadro de hiperglicemia e glicosúria. A glicemia pode diminuir com a idade. Estados hipoglicêmicos em vacas leiteiras estão associados à cetose e deficiências severas de energia ou, em menor grau, a produções elevadas de leite. O nível de glicose tende a diminuir com produções de leite acima de 30 L/dia. Na lactação, o suprimento de glicose na vaca é importante, especialmente quando alcança o máximo de produção, pois a glândula mamária necessita de glicose para síntese de lactose. Quando ocorre hipoglicemia na lactação (glicemia menor de 35 mg/dL), diminui a produção de leite como forma de compensação e, em casos extremos, pode sobrevir cetose. Nas vacas de alta produção leiteira, os requerimentos energéticos são cobertos pela alimentação adequada e gliconeogênese normal. A primeira deve adaptar-se às necessidades particulares dos ruminantes (a fibra é importante no periparto) e a segunda só é realizada se o fígado estiver funcionando normalmente. Diante de uma falha na alimentação ou na gliconeogênese, ocorre mobilização de triglicerídeos que servem como fonte de energia. A falta de oxalacetato leva ao aumento dos corpos cetônicos e, eventualmente, à cetose. Por outra parte, a excessiva mobilização de lipídeos pode levar a uma infiltração gordurosa no fígado, aumentando a falha hepática e, eventualmente, causando cirrose.

Sob condições de campo, diferentemente das condições experimentais, em ocasiões ocorre hipoglicemia, e seja qual for a causa, ela indica um estado patológico com importantes implicações na saúde e na produção. Em cavalos subalimentados, apresentam-se com frequência hipoglicemia e hiperlipemia. A mobilização de lipídeos nesta espécie pode ser excessiva, podendo causar dano hepático, às vezes fatal. O nível de glicose nos ruminantes tende a ser menor no terço final da gestação do que nos períodos anteriores, isto é, os níveis tendem a diminuir à medida que a gestação avança. Sabe-se que o feto in utero demanda glicose como maior fonte de energia. Entretanto, no momento do parto, a glicemia tem um aumento agudo, devido ao estresse. No período posterior ao parto os níveis caem de novo, especialmente na primeira semana e em vacas de alta produção leiteira.

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