Teste de tolerância à glicose

O teste de tolerância à glicose (TTG) é um exame laboratorial utilizado para determinar a capacidade de um indivíduo em manter a glicemia em homeostase. Este teste baseia-se em fornecer uma sobrecarga de glicose em um curto espaço de tempo, seja pela via oral (75 ou 100 g) ou endovenosa (0,5 g/kg), quantificando o tempo necessário para que a glicemia retome seus níveis basais estabelecidos em uma coleta que antecede o fornecimento da glicose.  Desta forma é possível estabelecer de forma indireta o desaparecimento (clearance) da glicose do plasma, que é dependente de três processos: (1) resposta secretória de insulina; (2) capacidade da glicose em induzir seu próprio metabolismo, em termos de sua captação pelos tecidos; e (3) capacidade da glicose em inibir a liberação de mais glicose pelo fígado. Em monogástricos, ao ser administrada uma solução de glicose por via oral, os níveis sanguíneos deste glicídeo sofrem alterações que ocorrem de forma trifásica ao longo do tempo: na fase I, a taxa de absorção intestinal de glicose é maior que sua taxa de captação pelas células dos diferentes tecidos. Consequentemente, os níveis glicêmicos se elevam, atingindo um pico em 30 a 60 minutos após a administração da glicose. Nesta fase, a hiperglicemia, assim como o estímulo de hormônios gastrointestinais (gastrina, secretina, colecistoquinina) e do glucagon desencadeiam a liberação de insulina. Na fase II, os níveis glicêmicos começam a diminuir em consequência do aumento da liberação da insulina pelo pâncreas. Nesta fase a taxa de remoção de glicose do sangue é maior que a taxa de absorção intestinal deste glicídeo. Na fase III, os níveis glicêmicos continuam caindo, até atingir uma condição de hipoglicemia temporária, retornando aos seus valores originais em seguida. De maneira geral, quanto maior for a hiperglicemia durante a fase I, maior será a hipoglicemia observada na fase III. No TTG para caninos e felinos é utilizada uma dose de glicose via oral de 4 g/kg de peso do animal, geralmente misturada com carne. Uma primeira amostra de sangue é retirada para análise antes da administração de glicose e uma segunda amostra é retirada e analisada duas horas depois. Para maior exatidão podem ser tomadas três amostras pós-prandiais, com intervalos de uma hora entre elas.

Para determinar a meia-vida da glicose (T1/2), se calcula a diferença dos valores glicêmicos ajustados pelo intervalo de tempo, que irá gerar um coeficiente relativo ao tempo transcorrido para que a glicemia caia pela metade. Com o valor de T1/2 é possível então calcular a taxa de depuração de glicose (k). Os valores normais de T1/2 e de k, em cães, são de 25 ± 8 minutos e 2,76 ± 0,91%/min, respectivamente. Os cães diabéticos têm maiores valores de T1/2 e menores de k. Nos ruminantes, os valores de referência de T1/2 são de 35 minutos e os de k 1,98 %/min.

Em pequenos animais sadios o valor máximo de glicemia (140 mg/dL) é observado em 30 a 60 minutos após a administração de glicose, retornando aos patamares normais em duas ou três horas. Valores de glicemia persistentemente altos após duas horas da administração de glicose podem ser indicativos de DM. Na DMNID também há intolerância à glicose, embora apresentando valores normais ou elevados de insulina. Isto significa que o hormônio está inativo devido a alguns fatores, tais como: deficiência ou bloqueio dos receptores de insulina, redução na sua atividade, devido a causas não estabelecidas ou alterações estruturais em sua molécula. Em ruminantes, o TTG é realizado pela administração endovenosa de uma dose de 0,5 g de glicose/kg, sendo esta solução preparada de maneira estéril na concentração de 50 g/dL. A administração deve ser realizada em menos de 30 segundos, para evitar o risco de diurese osmótica e, assim como em pequenos animais, é necessário estabelecer o nível basal de glicose (glicemia de jejum), antes de injetar a solução (geralmente identificado como coleta −15). Em seguida, são realizadas análises no tempo 0, 15, 30, 45, 60, 90, 120, 150 e 180 minutos. Os resultados são esboçados em um gráfico semilogarítmico onde o eixo y corresponde ao logaritmo da concentração sérica da glicose e o eixo x corresponde ao tempo decorrido desde a administração, em minutos.

Estas análises dos níveis glicêmicos após a administração oral ou intravenosa de glicose constitui a fundamentação da prova de tolerância à glicose existente atualmente tanto para humanos quanto para animais. Em casos de hiperglicemia leve, a utilização destes testes é fundamental no estabelecimento do diagnóstico de uma determinada patologia associada ao metabolismo de glicídeos. A tolerância normal implica que o aumento dos níveis séricos de glicose é pouco elevado e o retorno aos níveis normais ocorre em cerca de duas horas.  Tolerância diminuída ou intolerância, como ocorre em indivíduos diabéticos, é evidenciada pela elevação excessiva de glicose sérica, com retorno demorado aos níveis normais.

Alguns cuidados com os pacientes devem ser destacados, procurando evitar a realização do teste em indivíduos com a saúde comprometida, uma vez que os resultados podem não refletir o real metabolismo da glicose do paciente quando saudável. Deve-se ter uma atenção especial também no cálculo da dose de glicose a ser administrada, pois doses exageradas podem resultar em falsos positivos.