Transtornos da glândula tireoide

Os transtornos da glândula tireoide são mais comuns nos pequenos do que nos grandes animais. Nestes últimos tem maior importância a deficiência nutricional de iodo que pode levar a sinais clínicos compatíveis com hipotireoidismo.

Hipotireoidismo

O hipotireoidismo é uma doença endócrina comum de cães, e rara em gatos, sendo desafiadora no diagnóstico; entretanto, depois de diagnosticada e adequadamente tratada, a doença apresenta um excelente prognóstico. O hipotireoidismo já foi considerada a endocrinopatia mais comum de cães, estimando-se sua prevalência em torno de 0,2 a 0,6% da população de cães. Os cães afetados são de meia-idade a idosos, com idade média de sete anos ao diagnóstico, embora em alguns casos o diagnostico pode ser feito em cães jovens. Alguns estudos evidenciaram maior risco em fêmeas castradas do que em machos, apesar de que, em geral, a ocorrência da doença parece ter distribuições similares entre machos e fêmeas.

O hipotireoidismo pode ser consequência de transtornos primários da tireoide ou secundária por lesão hipotálamo-hipofisária. Em cães adultos com hipotireoidismo espontâneo, a grande maioria dos casos pode ser considerado como primário. O processo é lento e progressivo, levando a total destruição do parênquima glandular ao longo de meses a anos de evolução. No entanto, acredita-se que sinais clínicos de hipotireoidismo só se tornem claros quando 75% do parênquima glandular estiver afuncional. Podem ser diferenciadas duas causas de hipotireoidismo primário: a tireoidite linfocítica e a atrofia idiopática.

A tireoidite linfocítica nos cães é parecida com a doença de Hashimoto nos humanos, estando associada a aspectos genéticos. O processo representa uma alteração autoimune onde ocorre ataque à glândula tireoide e seus componentes, resultando em infiltração linfocítica, macrofágica e plasmocítica no parênquima glandular com consequente substituição dos folículos por tecido conjuntivo fibroso, que parece ser mais comum em certas raças como a Boxer. A dosagem de autoanticorpos anti-tireoglobulina (TgAA) pode auxiliar na identificação de cães com o processo de tireoidite em andamento, porém sem sinais clínicos evidentes.

A atrofia idiopática é de etiologia desconhecida, embora seja conhecido que não está envolvida a secreção de TSH. É responsável por praticamente todos os outros casos de hipotireoidismo primário não causados por tireoidite. Caracteriza-se pela degeneração do tecido glandular, que é substituído por tecido adiposo sem presença de nenhum tipo de infiltrado inflamatório. Muitos autores consideram que a atrofia idiopática de tireoide pode na verdade ser um passo bastante avançado da tireoidite linfocítica, e que no momento da avaliação não haveria mais infiltrados inflamatórios uma vez que o processo autoimune teria ocorrido há muito tempo. Esta hipótese é sustentada pela idade mais jovem com a qual os animais apresentam a tireoidite linfocítica em comparação com cães com atrofia de tireoide.

Outras causas envolvidas no hipotireoidismo primário podem incluir tumores destrutivos, iatrogenia após tratamento de hipertireoidismo felino ou de tumores tireoidianos caninos e defeitos congênitos ou por deficiência de iodo na alimentação (bócio). No hipotireoidismo primário há abundante secreção de TSH num esforço para compensar a falha tireoidiana.

O hipotireoidismo secundário ou central por lesões hipotálamo-hipofisárias é pouco comum. Nestes casos, a reduzida secreção de TSH resulta na falta de estimulação adequada da glândula tireoide sendo observados folículos distendidos cheios de coloide com células foliculares planas, que refletem a degeneração e atrofia do epitélio glandular. Esta forma de apresentação do transtorno representa cerca de 5% dos casos de hipotireoidismo espontâneos. As causas mais comuns de reduzida secreção de TSH seriam associadas a tumores hipofisários, deficiência congênita de TSH, hipofisectomia ou secundário a um hiperadrenocorticismo ou por uso crônico de glicocorticoides. A deficiente produção hipotalâmica de TRH não foi descrita em cães, apesar de bem reconhecida em humanos.

O hipotireoidismo congênito é uma anormalidade rara em medicina veterinária, mas esta apresentação pode estar sendo subestimada uma vez que a maioria dos filhotes afetados nascem mortos ou vivem pouco tempo após o nascimento, não se identificando a causa da morte. O processo patológico envolve processos como hipoplasia, aplasia e disgenesia. Os cães que sobrevivem desenvolvem um quadro típico reconhecido como cretinismo. Os cães têm baixa estatura e apresentam malformações (disgenesia epifisária, atraso na maturação epifisária, macroglossia, macrocefalia, retardo na erupção dos dentes), além de retardo mental. Artrites crônicas são comuns nos animais que sobrevivem em decorrência das malformações ósseas. O cretinismo é muito comum na raça Schnauzer miniatura, sendo conhecida a base genética deste transtorno. Entretanto, muitos cães não apresentam nanismo além do cretinismo.

Os felinos raramente desenvolvem este distúrbio. A ocorrência natural em gatos pode estar associada a um problema congênito (agenesia, disgenesia ou disormoniogênese). A tireoidite linfocítica, de forma semelhante à observada no cão. Contudo, a causa mais comum de hipotireoidismo felino é a iatrogênica, por destruição ou retirada da tireoide após tratamento com iodo radioativo ou cirurgia para hipertireoidismo.

O hipotireoidismo por falta de iodo pode ocorrer por falta de suplementação deste mineral no sal em regiões com solo carente de iodo. A falta de iodo impede a produção dos hormônios tireoidianos, mas não de tireoglobulina. Por efeito feedback negativo, ocorre aumento da produção de TSH pela hipófise, induzindo a produção de elevadas quantidades de tireoglobulina, aumentando o tamanho da glândula. Este aumento de tamanho da tireoide (bócio) pode causar dificuldade respiratória e da deglutição, assim como estase sanguínea ao comprimir as veias jugulares. Algumas substâncias conhecidas como bociogênicos, alteram a síntese, liberação ou ação dos hormônios tireoidianos. Entre eles estão os tiocianetos, produzidos no rúmen pela digestão de plantas com glicosídeos cianogênicos (trevo branco, gergelim, soja), a goitrina, presente nas plantas crucíferas do gênero Brassica (repolho, couve, brócolis) e a mimosina, aminoácido presente na leguminosa Leucaena leucocephala. O excesso de iodo por excesso de ingestão de algas secas ou de intoxicações com desinfetantes que contém iodo na sua composição, causa bócio porque interfere na biossíntese dos hormônios tireoidianos.

Existem ainda falhas enzimáticas, como distúrbios na T4-deiodase, que podem ser de origem genética, observadas em humanos, em ovinos (principalmente nas raças Corriedale, Merino, Romney Marsh e Dorset Horn), em caprinos (da raça Saanen) e em bovinos da raça Afrikander. O problema parece ter origem em um gene autossômico recessivo.

Hipertireoidismo

O hipertireoidismo é uma das doenças endócrinas mais comuns dos felinos, sendo rara sua ocorrência na espécie canina. A desordem é caracterizada como uma doença multissistêmica crônica por concentração elevada de HT na circulação. A primeira descrição desta doença em felinos foi realizada em 1979, e desde então cada vez torna-se mais comum nas rotinas clínicas. No entanto, apesar da etiologia ser por hiperplasia adenomatosa da tireoide, a maior incidência da doença poderia estar sendo causada por exposição a fatores de risco ambientais ou a um crescimento da população felina associado ao maior cuidado dos proprietários e maior conhecimento da doença pelos clínicos. Atualmente a prevalência de hipertireoidismo em gatos varia de 0,5% até 12% em populações acima dos dez anos.

O hipertireoidismo está associado com hiperplasia multinodular, adenomas ou adenocarcinomas derivados das células foliculares que provocam níveis de HT muito elevados no sangue, podendo chegar até 500 ng/mL de T4 e 10 ng/mL de T3 (referência em felinos: 15-30 e 0,3-0,9 ng/mL, respectivamente). A grande maioria dos felinos afetados pelo transtorno (65-70%) apresenta uma hiperplasia adenomatosa bilateral, ao passo que a hiperplasia unilateral é observada em cerca de 30% dos casos. A ocorrência de carcinomas tireoidianos é rara, respondendo por apenas 2% do total de casos de hipertireoidismo. No entanto, tecido adenomatoso e carcinoma podem ser identificados na mesma glândula e o conceito atual defende que o processo é progressivo, começando com hiperplasia adenomatosa, passando para o adenoma e depois para o carcinoma. A estimulação prolongada da glândula endócrina e suas células secretoras predispõe a tumores por clones de células, que crescem mais rapidamente que o resto e são mais suscetíveis à transformação neoplásica. A tireoide atinge um tamanho duas ou três vezes superior ao normal, com hiperplasia das células foliculares e aumento na velocidade de secreção de 5 a 15 vezes.

Diversos estudos epidemiológicos retrospectivos tentaram evidenciar fatores de risco ao desenvolvimento de hipertireoidismo felino. O fator mais importante identificado foi o uso de ração comercial em lata como fonte exclusiva ou principal de alimentação, especialmente as rações a base de peixe, fígado e miúdos de aves, as quais apresentariam maiores concentrações de iodo. Também foram implicados como fatores de risco, o forro plástico nas latas e as latas de abertura fácil, onde há muito bisfenol, um conhecido disruptor endócrino. Outros fatores bociogênicos também já foram implicados, como elevada ingestão de selênio (importante na regulação da tireoide), isoflavonas de soja e outras isoflavonas como genisteína e daidzen, constituintes comuns em dietas enlatadas. O exato papel destas substâncias ainda não é bem compreendido. Os polifenilbrominados, compostos de combate a incêndio, presentes na poeira ambiental causada por estofados e tecidos são outro poluente global conhecido por estar associado ao hipertireoidismo em gatos e humanos.

As concentrações de TSH circulantes ficam inferiores ao normal, podendo mesmo ser nulas. Existem substâncias semelhantes ao TSH, anticorpos de imunoglobulina, que se ligam aos mesmos receptores de membrana que fixam o TSH. Estas substâncias induzem a ativação contínua do cAMP e ao hipertireoidismo. Estes anticorpos se desenvolvem em função da autoimunidade contra o tecido tireoidiano, conhecida como doença de Graves em humanos, o que não foi documentado em gatos.

A ocorrência da doença afeta felinos com mais de dez anos de idade, apesar de haver relatos em gatos jovens. A média de idade é de doze anos. Não há uma predisposição racial ao desenvolvimento da doença, apesar de gatos de raças Siamês e Himalaio terem sido identificados com menor predisposição ao transtorno. Estudos epidemiológicos revelam não haver predisposição sexual.