O suplemento cultural como rede de relações: os intelectuais no Caderno de Sábado do jornal Correio do Povo (Porto Alegre, 1967-1981)

Os intelectuais são agentes sociais que – amparados no capital cultural e no poder a ele associado, no domínio da escrita e na circulação pública de suas ideias – ocupam uma posição de destaque no contexto social. Criadores e mediadores culturais, ou organizadores da cultura, constituem um campo que, marcado por lutas por um tipo específico de capital simbólico, apresenta hierarquias definidas de agentes e instituições. O jornalismo cultural, sobretudo por meio dos suplementos, se posiciona como sistema pretensamente perito e modo de conhecimento da realidade que cumpre funções de mediação entre essa elite culta e o público. Especializados e situados na interseção dos campos jornalístico e intelectual, os encartes dedicados à cultura acabam por fazer circular o pensamento desses intelectuais e se constituem, assim, em redes de sociabilidade. Este trabalho, então, parte da seguinte pergunta problematizadora: como o projeto editorial do Caderno de Sábado se configurou como uma rede de relações entre intelectuais de 1967 a 1981? Para tal, operou-se um processo inicial exploratório das 646 edições do suplemento e se chegou à lista dos dez colaboradores mais frequentes no período: o poeta e tradutor Mario Quintana; o funcionário público, professor, crítico literário e historiador Guilhermino Cesar; o crítico musical, livreiro e conferencista Herbert Caro; o professor, jornalista e crítico literário e teatral Antonio Hohlfeldt; o jornalista, poeta e teatrólogo Paulo de Gouvêa; a romancista, cronista e jornalista Clarice Lispector; o engenheiro, historiador e professor Francisco Riopardense de Macedo; o advogado, poeta e crítico literário Paulo Hecker Filho; o funcionário público, crítico literário e historiador Moysés Vellinho; e o jornalista Ney Gastal. A seguir, a fim de detectar indícios que pudessem servir para amparar a reflexão proposta, procedeu-se uma pesquisa de caráter longitudinal e panorâmico. Para tal, realizou-se a Análise de Conteúdo de 3.029 ensaios, artigos, crônicas, contos e poemas assinados por esses nomes. No processo de categorização, os textos foram classificados segundo as temáticas e as referências geográficas e temporais. A partir dos dados coletados no corpus e de pesquisa bibliográfica, foram traçados os itinerários desses indivíduos e se procurou, entre eles, cruzamentos na história da intelectualidade sulina. Chegou-se, então, a uma rede de sociabilidade que estava estruturada ao redor dos dois editores do Caderno de Sábado – P. F. Gastal e Oswaldo Goidanich. O suplemento, naquele momento histórico, se posicionou como um articulador desse sistema de relações; hoje, resta como memória e como registro documental da movimentação cultural e da produção intelectual do período. Vislumbra-se, assim, uma dinâmica de recrutamento baseada em afinidades intelectuais e adesão ao projeto editorial. Percebe-se, também, um movimento de reconhecimento desses sujeitos, por parte da publicação, que se manifesta nas escolhas editoriais e num sistema de homenagens. Ainda, é possível entrever indícios de estratificação baseada no capital simbólico acumulado e na relação desses agentes com os movimentos e agrupamentos de intelectuais, as entidades de congregação e reconhecimento, os circuitos da escrita – sistema literário, mercado editorial e imprensa –, a academia e o Estado. O Caderno de Sábado, ao mesmo tempo que participava da dinâmica de consagração, angariava prestígio para si mesmo e também para o Correio do Povo, naquele momento um jornal de alcance e repercussão nacional.

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Tese de Doutorado

Autor: CARDOSO, Everton Terres

Orientadora: GOLIN, Cida

Ano: 2016

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