Cuidados com o diabetes em tempos de pandemia

28 maio, 2020    tags:

A pandemia do novo Coronavírus trouxe inúmeras mudanças na rotina de todos. Desde o início do isolamento social, práticas que antes eram incomuns passaram a ser rotineiras, como maior cuidado com a higiene, trabalho e aulas à distância, atividades de lazer longe da família e dos amigos, entre outras. Além disso, temos vivido um cenário de incertezas em relação à saúde, principalmente daquelas pessoas com doenças crônicas, como o diabetes. Por isso, é essencial que, durante a pandemia, aqueles que se encontram no grupo de risco se informem sobre os cuidados necessários para preservar a sua saúde física e mental.

Na publicação dessa semana reforçaremos e incentivaremos o desenvolvimento e a prática de sete comportamentos para o autocuidado, adaptados do livro “AADE7 TM Self-Care behaviors”, junto com algumas sugestões. Boa leitura!

1.  Alimentação Saudável

Para ter uma alimentação saudável prefira alimentos “In natura”, como os grãos (arroz, milho, feijão…), tubérculos (batata, beterraba, cenoura…), frutas, verduras, legumes, carnes em geral, leite e ovos. Para cozinhar e temperar utilize óleos, sal e açúcar em pequenas quantidades. Evite o consumo de alimentos processados (bolachas e biscoitos, salgadinhos, refrigerantes, sucos artificiais, massa instantânea) pois eles são acrescidos de grandes quantidades de açúcar, sal e gordura.

Coma regularmente, escolha um local tranquilo e seguro, e se possível, faça suas refeições com companhia, pois isso proporciona melhorias na sua qualidade de vida. Seja crítico quanto às informações sobre alimentos nas redes sociais, pois muitos dados sem base científica têm sido publicados! Busque evidência nas fontes das notícias e reportagens.

Para saber mais sobre esse assunto, confira a nossa postagem “Alimentação em tempos de coronavírus” logo abaixo!

2. Exercícios Físicos

Lembre-se de sempre conferir a glicemia capilar antes de iniciar qualquer exercício físico. Se possível, torne esse acompanhamento mais rigoroso durante o dia da prática, principalmente no caso de ter realizado um exercício extenuante ou incomum para você. É muito importante que você tenha por perto uma garrafa de água para se hidratar, e um carboidrato de ação rápida (como 3 sachês de mel, 3 balas ou 150mL de suco de laranja) para o caso de ter uma hipoglicemia!

Caso você saia para caminhar na rua, evite locais com muitas pessoas, como as praças. Respeite os 2 metros de distância, use máscara e procure não tocar em nada. Ao voltar para casa tire os sapatos antes de entrar, higienize-se e troque de roupa. Não esqueça de limpar os pertences que você carregou ao sair, como celular, relógio, óculos.

Para mais informações confira as nossas postagens “Prática de exercícios físicos durante a pandemia por Covid-19” e “Como se proteger do novo coronavírus?”, logo abaixo!

3. Glicemia capilar

Vigiar os valores glicêmicos deve ser uma prática rotineira, uma vez que o diabetes mal controlado pode prejudicar o nosso sistema de defesa, e não queremos isso principalmente em tempos de pandemia. Para manter os valores glicêmicos dentro do alvo por mais tempo é recomendado aumentar a frequência dos testes. Pessoas com diabetes tipo 2 (que utilizam medicação oral e/ou insulina) devem realizar os testes de glicemia capilar antes de todas refeições e pelo menos duas vezes por dia 2 horas após comer. Pessoas com diabetes tipo 1 ou com diabetes gestacional devem realizar o teste antes e 2 horas depois de todas as refeições do dia.

4. Medicações

Durante o período de isolamento social siga usando suas medicações para o diabetes normalmente, como indicadas pelo seu médico. Essa orientação se aplica para todos os remédios que você usa diariamente, seja para problemas cardíacos, renais, metabólicos, entre outros. Lembre-se que nenhum remédio utilizado para o diabetes aumenta o risco de infecção por coronavírus.

Em caso de mal-estar, devido a algum medicamento, procure sempre um profissional da saúde e informe-se sobre efeitos colaterais. Além disso, tenha sempre anotado quais remédios você está usando, incluindo suplementos, produtos naturais e vitaminas.

5. Adaptação saudável

Adaptar-se à situação atual pode ser um desafio. Sentimentos como ansiedade, medo, raiva ou tristeza surgem com facilidade e podem impactar no controle do diabetes. O estresse, por exemplo, é um dos responsáveis por alterar a glicemia, mesmo que a pessoa esteja tomando suas medicações regularmente. Encontrar maneiras para lidar com nossas emoções e buscar o equilíbrio é um grande desafio, assim como manter um bom autocuidado. Por mais que estejamos isolados fisicamente, é fundamental termos alguém que se importe conosco para conversar. Sugerimos que você mantenha contato com parentes e amigos por ligações ou troca de mensagens. Manter os laços afetivos contribui para o nosso estado emocional e traz, inclusive, benefícios no controle do diabetes.

Sabemos que lidar com o diabetes nem sempre é uma tarefa fácil, e em momentos de pandemia pode se tornar ainda mais difícil. Portanto esteja alerta a uma eventual desmotivação ou cansaço do tratamento. Este é o momento decisivo de pedir ajuda! Jamais menospreze seus sentimentos. Reconheça qualquer sofrimento, pois esse é o primeiro passo para buscar ajuda! Nesse período de isolamento, há diversos atendimentos onlines com profissionais extremamente qualificados para esta prática. Não hesite em pedir ajuda!

6. Resolução de Problemas

Extremamente importantes, as duas maiores preocupações do diabetes merecem atenção: Hiper e Hipoglicemia.

A Hiperglicemia (níveis altos de glicose no sangue) ocorre quando temos níveis glicêmicos maiores que 100mg/dL em jejum ou maiores que 140mg/dL duas horas após as refeições.

Mudanças na rotina podem contribuir para o aparecimento de episódios hiperglicêmicos. É importante tentar descobrir o que gerou esse episódio para evitar que novos aconteçam. Intensifique a monitorização de sua glicemia capilar. Avalie também os valores junto com uma equipe de saúde para quaisquer ajustes na terapia.

Causas comuns de uma indesejada hiperglicemia:

– Errar na contagem dos carboidratos

  • – Esquecer-se de aplicar a insulina de correção da refeição
  • – Esquecer-se da medicação oral
  • – Ter um padrão alimentar inadequado
  • – Estar no período pré-menstrual
  • – Não praticar exercícios físicos
  • – Estar estressado
  • – Lipodistrofia (insulina injetada muitas vezes no mesmo local, ou agulha reutilizada nas mesmas aplicações podem prejudicar)
  • – Medicações vencidas
  • – Conservação dos medicamentos em local inadequado
  • – Tratamento inadequado da hipoglicemia
  • – Erro no uso da bomba de insulina (avaliar se a cânula está dobrada ou deslocada do tecido subcutâneo, cumpra o período de troca do conjunto de infusão/reservatório)

 

A Hipoglicemia (níveis baixos de glicose no sangue) ocorre quando temos níveis glicêmicos iguais ou abaixo de 70mg/dL. É importante ressaltar que este limite pode ser individualizado para cada pessoa.

Causas comuns de Hipoglicemia:

  • – Erro na contagem dos carboidratos
  • – Erro no cálculo ao corrigir uma hiperglicemia
  • – Pular refeições, ou alterar o horário da alimentação
  • – Exercícios físicos que extenuantes ou fora do padrão habitual
  • – Praticar exercícios físicos sem orientação prévia por profissional
  • – Praticar exercícios físicos sem monitorização da glicemia capilar
  • – Aplicar insulina em um local “virgem”
  • – Consumo de bebidas alcoólicas
  • – Aplicação de doses excessivas de medicamentos

Para corrigir a hipoglicemia recomenda-se o consumo de carboidratos simples (como mel, açúcar), pois eles agem rapidamente elevando a glicemia. Não use alimentos que tenham proteínas ou gorduras (como leite, doce de leite, chocolate, biscoitos ou doces) pois eles impedem a absorção rápida da glicose!

Classificamos a hipoglicemia em 3 níveis:

  • – Nível 1 (menor ou igual a 70mg/dl): Procure utilizar 15g de carboidrato simples (150ml suco de laranja; 1 colher de sopa de açúcar dissolvida na água; 1 colher de sopa de mel ou 3 sachês de mel; 3 balas macias sem chocolate; 150ml refrigerante comum).
  • – Nível 2 (menor que 54 mg/dl): Procure utilizar 30g de carboidrato simples (2 colheres de sopa de mel ou 6 sachês de mel ou 2 colheres de sopa de açúcar diluídas em água). Aguarde 15 minutos, para então refazer o teste de glicemia. Se continuar com hipoglicemia, repita esta porção!
  • – Nível 3 (episódio sério em que há comprometimento cognitivo): Neste caso severo, não há possibilidade de deglutir alimentos. É importante que Glucagon intramuscular ou subcutâneo seja administrado, com a dose sendo decidida e orientada em conjunto com a equipe de saúde.

Alguns sensores de glicose intersticiais ligados à bomba de insulina mostram alertas, enquanto outros só mostram o resultado com o valor e a tendência. Nesses dois casos ou no caso de você não fazer uso desses aparelhos, faça um teste de glicemia capilar para confirmar o resultado e tome as atitudes com base no resultado, MESMO que você não perceba os sintomas clássicos da hipoglicemia (palidez, suor frio, tremores, irritabilidade). Lembre-se que os sintomas nem sempre irão aparecer quando sua glicose estiver baixa!

7. Redução de Riscos

Além de seguir os 6 passos anteriores, é muito importante incluir ao seu estilo de vida atitudes positivas, como praticar atividades que lhe trazem bem-estar emocional e físico, participar de um programa de educação em diabetes, entre outras. Estarmos informados sobre a nossa saúde é muito importante! Outra forma de reduzir riscos é estar em dia com seus exames laboratoriais, como hemoglobina glicada, colesterol ou fundo de olho. Avalie também se há algum aspecto emocional afetando sua saúde. Situações como mal gerenciamento do diabetes, ganho ou perda de peso, sintomas depressivos ou níveis elevados de hemoglobina glicada podem sugerir que há algum transtorno alimentar se instalando.

Tente ter uma rotina equilibrada, com hábitos alimentares e de sono adequados. Pratique exercícios físicos e mantenha seu tratamento para o diabetes.

Lembre-se também de manter o isolamento social para evitar o contágio da Covid-19. Caso você perceba sinais ou sintomas da doença evite ao máximo contato físico com qualquer pessoa, principalmente idosos e doentes crônicos, coloque uma máscara e busque atendimento médico. Lembre-se também de realizar a vacina da gripe, que lhe protege de outras doenças graves.

Recomendamos a leitura do E-book “Autocuidado e Diabetes em tempos de Covid-19” da Sociedade Brasileira de Diabetes, disponível aqui: Autocuidado_e_Diabetes_em_tempos_de_COVID_19_Ebook_SBD

Boa semana!

Gabriel Luiz Köbe

Giovana Berger de Oliveira

Débora Wilke Franco

Janine Alessi

Gabriela Heiden Teló

REFERÊNCIAS:

AMERICAN DIABETES ASSOCIATION. Diabetes and Coronavirus (COVID-19): Take Everyday Precautions. Disponível em: https://www.diabetes.org/coronavirus-covid-19/take-everyday-precautions-for-coronavirus. Acesso em: 22 mai. 2020.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES. Ebook SBD Autocuidado e Diabetes em tempos de COVID-19. Disponível em: https://www.diabetes.org.br/data/e-book/Autocuidado_e_Diabetes_em_tempos_de_COVID_19_Ebook_SBD.pdf. Acesso em: 20 mai. 2020.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES. Notas de esclarecimentos da Sociedade Brasileira de Diabetes sobre o coronavírus (COVID-19). Disponível em: https://www.diabetes.org.br/covid-19/notas-de-esclarecimentos-da-sociedade-brasileira-de-diabetes-sobre-o-coronavirus-covid-19/. Acesso em: 22 mai. 2020.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENDOCRINOLOGIA E METABOLOGIA. 10 Coisas que Você Precisa Saber Sobre Diabetes. Disponível em: https://www.endocrino.org.br/10-coisas-que-voce-precisa-saber-sobre-diabetes/. Acesso em: 22 mai. 2020.

DIABETES EDUCATOR. AADE7 Self-Care Behaviors. Disponível em: https://www.diabeteseducator.org/living-with-diabetes/aade7-self-care-behaviors. Acesso em: 27 mai. 2020.