Gostar de ler, por quê?

A meu ver, um dos maiores desafios para um educador é encontrar respostas para os questionamentos: o que interessa aos meus alunos? Como me mantenho próximo e sensível às diversas realidades que habitam uma mesma sala de aula? A formação do leitor jovem suscita interessantes reflexões e proposições acerca dessas questões.

Com o objetivo de oferecer aos professores alternativas para a formação de leitores, Ana Mariza Ribeiro Filipouski e Diana Maria Marchi reúnem em sua obra, além de subsídios pedagógicos, diversas sugestões de projetos de trabalho para as disciplinas de Língua Portuguesa e Literatura, tendo como foco o texto literário e temas de interesse do seu público-alvo: alunos de ensino médio. Sem se limitar à intenção de formar jovens letrados, as autoras visam à formação de leitores críticos, num processo que não só potencializa a inserção desses jovens na sociedade, mas também estimula e capacita sua participação enquanto atores sociais.

“Ao romper com as preocupações da cronologia que costumam organizar os cursos de literatura e comprometer-se com o investimento na qualidade da leitura dos alunos, a partir de temas que façam sentido para os jovens e de textos que promovam desafios, podem ser executadas organizações programáticas mais livres, mais motivadoras, que invistam na relação interativa da leitura e valorizem o leitor”

p.26

No primeiro capítulo, intitulado “A formação do leitor literário”, é frisada a natural indissociabilidade de língua portuguesa e literatura: “[…] a literatura está fundada no fenômeno da língua, vincula-se à descoberta do mundo e das perplexidades que ele pode suscitar em cada ser humano e pode ser limitada por seus constrangimentos ou viabilizada por potenciais expressivos. Por isso, aprender e ensinar língua portuguesa significa também aprender e ensinar literatura” (p. 9).

Assim, a ideia é que, a partir de um assunto ou tema sobre o qual os estudantes se interessam, o texto literário seja o ponto de partida e de chegada do trabalho a eles proposto. Segundo as autoras, o uso do texto literário como objeto de aprendizagem na escola proporciona tanto a conquista de autonomia individual quanto a aproximação entre os jovens, o que colabora para o desenvolvimento da cidadania.

Uma das qualidades do livro de Filipouski e Marchi é a leveza e a fluidez de seu texto, além da organização do conteúdo, que é feita de maneira bastante didática. Ao final do primeiro capítulo, são resumidos alguns procedimentos, previamente explicados, que fazem parte do processo de formação do leitor literário, tais como a abordagem de diferentes habilidades de leitura literária, o planejamento de leituras progressivamente mais complexas, a oferta de leitura individual supervisionada e o estímulo da leitura recreativa por meio de contratos de leitura.

No ensino médio, as diretrizes escolares apontam para uma ampliação do repertório de literatura brasileira, sendo essencial valorizar – não de maneira acrítica – tanto obras clássicas quanto o que é considerado relevante na atualidade. Para Filipouski e Marchi, o estímulo à leitura de textos canônicos enquanto forma de diálogo do passado com o presente pode dar aos jovens um maior sentido na hora de lê-los. Nesse contexto, as autoras destacam a necessidade de uma progressão curricular que valorize a contextualização das leituras e da própria produção (escrita ou oral), dando sempre especial atenção às demandas tanto discentes quanto docentes e se articulando “às condições culturais e históricas que transformam a escola em uma oportunidade social concreta” (p. 27). 

O segundo capítulo apresenta, então, as duas dimensões que estruturam o eixo da progressão curricular – os temas e os gêneros do discurso. Os temas possibilitam o cumprimento do papel formador da escola, por meio da transmissão de conhecimentos socialmente relevantes e de referência. Nos projetos sugeridos na obra, os temas são elencados conforme a inquietação que determinados assuntos despertam nos alunos e a condição de os jovens refletirem sobre si. Já os gêneros dizem respeito aos textos propriamente ditos, “caracterizados por proximidade de conteúdo temático, estilo e construção composicional” (p. 28); podem ser trabalhados por unidade, estimulando-se o contato com diversos autores e a reflexão acerca do gênero dentro de um contexto cotidiano e sociocultural.

Por fim, no terceiro e último capítulo, o foco das autoras passa a abranger, além da leitura, a escrita e a resolução de problemas, respondendo aos dois princípios que regem seu estudo: o direito à fruição e o exercício da cidadania.  São propostas, assim como no capítulo anterior, unidades para cada ano do ensino médio, considerando possíveis demandas e objetivos a serem atingidos com os alunos, porém adicionando também conteúdos gramaticais e problemas que auxiliem a construção de conhecimentos por parte dos alunos de maneira autônoma e crítica.

Resenha do livro A formação do leitor jovem: temas e gêneros da literatura, de Ana Mariza Ribeiro Filipouski e Diana Maria Marchi, publicado pela Edelbra (Erechim, 2011).

Sobre a resenhista:

Natalia Henkin é formada em Produção Audiovisual pela PUCRS e cursa a graduação em Comunicação Social – Jornalismo na UFRGS.

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