Sobre as mulheres e a inserção no futebol

“Mulheres na área – gênero, diversidade e inserções no futebol” não é um livro comum, traz polêmica e exige reflexão, mas de fácil leitura e de excelente apresentação visual. Estruturado em 11 artigos, que podem ser lidos separadamente, com prefácio do Arlei Damo, apresentação de Silvana Goellner e descrito, já no início, pela organizadora Claudia Samuel Kessler, também autora de um dos artigos, o livro se apresenta como leitura essencial para aqueles que, na academia, procuram compreender os novos olhares sobre o futebol. É também uma provocante leitura para os amantes do futebol e para os curiosos sobre a presença das mulheres no espaço até poucos anos atrás reservado aos homens.

Como está dividido em artigos, facilita a leitura e arrasta o leitor para o título que mais possa ser do seu interesse, desde a história de determinada equipe de futebol de mulheres até uma aprofundada reflexão sociológica. Porém, dois aspectos devem ser considerados na leitura da obra: a presença das mulheres nos campos de futebol e o futebol de mulheres – o que não é apenas um jogo de palavras. Os artigos contemplam desde um diálogo profundo com clássicos, como Eric Dunning e Norbert Elias, passando pela recuperação de trajetórias históricas até a comparação com o futebol de mulheres jogado aqui e  no exterior.

O leitor vai saber a história do futebol de mulheres, do preconceito, da falta de recursos, da persistência e da descoberta de que a modalidade tem uma longa trajetória narrada, por exemplo, pelo olhar do “Foz Cataratas Futebol Clube”, explicando porque muitas mulheres decidem  ir para o exterior onde encontram campo para  praticar  o esporte. O resgate histórico também está presente no artigo “futebol feminino em Curitiba”, que apresenta, a partir de entrevistas, a história do Novo Mundo Futebol Clube. No  “canto das sereias” vem à tona a precariedade  para a prática do futebol de mulheres e a dureza das ‘peneiras’ que reúnem muitas mulheres para participar de uma equipe que  dura em torno de dois anos. É bem provável que o leitor encontre argumentos para compreender as dificuldades do futebol de mulheres no artigo sobre o “ensino do futebol na educação física escolar”, em que se entrevistam docentes de escolas em Porto Alegre, sendo que as concepções de gênero ‘entram em campo’.

O artigo “Belas e feras, nós as masculinizadas” traz uma análise que envolve o discurso jornalístico marcado por palavras muito comuns, como o fato de uma disputa violenta dentro de campo registrar os ‘socos’ – no jogo que envolve homens e ‘tapas’ na partida entre as mulheres.  Em “Mulheres de Preto” sobre as profissionais de arbitragem, o leitor vai saber não apenas sobre a história das mulheres que ousaram e ousam ser autoridade  dentro do gramado mas também sobre os xingamentos que recebem por serem mulheres, ainda que apite estritamente dentro das regras.

O Núcleo das Mulheres Gremistas é o pontapé para o artigo “(Des)construindo identidades”, em que se destaca o ‘lugar’ simbólico da mulher no universo do futebol  – desafiando, por conseguinte, o espaço masculino. Um tema que também ilustra a reflexão de “O gramado como espaço de disputa entre gêneros”, que,  a partir de um olhar sobre  o futebol feminino no interior da Bahia, recorda que a inserção e permanência da mulher no futebol se deve a muita persistência e obstinação.

O “futebol feminino no exterior” aparece no detalhado artigo que compara a realidade do futebol de mulheres no Brasil e nos Estados Unidos. Aponta sugestões para o desenvolvimento da modalidade no Brasil. A obra encerra, apontando para  o começo, com uma interessante recuperação histórica denominada “O início do futebol feminino no Brasil”, apresentando a legislação, campeonatos e equipes sem deixar de denunciar o preconceito existente.

“Mulheres na área” é daqueles livros que pega o leitor pelo título e mantém o interesse em cada artigo. Deve ser lido para refletir, para compreender ou para passar o tempo. Recomendado para maiores e menores, para amantes do futebol e para curiosos. Que não se demore tanto tempo para se fazer novas reflexões sobre o mesmo tema que continua ainda como um campo de preconceito e de pouca visibilidade.

Resenha do livro  Mulheres na área – gênero, diversidade e inserções no futebol , com organização de Claudia Samuel Kessler e publicado pela Editora da UFRGS (Porto Alegre, 2015).

Sobre a resenhista:

Sandra de Deus é jornalista, professora  de Jornalismo Esportivo na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação. Doutora em Comunicação e Informação/UFRGS.

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