O que fazer na Educação Física dos Anos Iniciais?

Se você é professor de Educação Física certamente já ouviu comentários como: “É muito fácil dar aula de Educação Física: basta entregar a bola para as crianças jogarem ou deixar que brinquem livremente”; ou quem sabe, “Educação Física nem é aula, é recreação”, etc. Os próprios PCN’s salientam que, muitas vezes, a Educação Física é tratada de forma “marginal” nas escolas, pois dificilmente é incluída nos momentos de planejamento, discussão e avaliação do trabalho coletivo dos professores.

Apesar disso, os professores dessa disciplina são os que, em geral, conhecem profundamente e têm uma maior proximidade com os alunos, podendo tornar-se uma referência para eles e para o corpo docente em assuntos de diferentes ordens. Isso porque as aulas de Educação Física propiciam o desenvolvimento de aspectos afetivos, sociais, éticos e de sexualidade e seria importante que se desenvolvesse de forma integrada com as demais disciplinas e projetos escolares, abordando os temas transversais ou outros que fossem considerados pertinentes.

“Destacamos também o reconhecimento das muitas infâncias que circulam nas escolas […]. Sujeitos que precisam ser reconhecidos, visibilizados e respeitados a partir do modo como são escolhidos os conteúdos e as habilidades, objetos focais dos processos de ensinar e aprender na escola”.

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Nessa perspectiva, o livro A Educação Física nos Anos Iniciais traz uma valiosa contribuição no sentido de orientar a prática dos professores apostando nos benefícios de uma intencionalidade pedagógica que permita a legitimidade dessa disciplina na formação das crianças dessa faixa etária. A obra chama a atenção para o olhar às diferentes infâncias existentes nas escolas, dependentes do contexto social, da história de vida e das diversidades culturais das crianças e é dividida em quatro partes: Anos Iniciais, Discussões Atuais, Unidades Temáticas e Para Além da BNCC.

A primeira parte alerta para a reflexão de uma espécie de crise de identidade da área, uma vez que, mesmo sendo um componente curricular obrigatório, a disciplina não precise ser ministrada por um especialista. Em seguida, apresenta um pouco do histórico da disciplina no Brasil inicialmente pautada na técnica e no rendimento, afirmando que, atualmente, as abordagens de cunho psicológico, como a psicomotora e a desenvolvimentista, ainda estão presentes, mas que vem crescendo a preocupação com os aspectos sócio-culturais das crianças. Outra questão abordada é a de que a Educação Física está na área das linguagens, pois as práticas corporais podem ser consideradas textos passíveis de leitura e de produção e devem ser avaliados de forma processual, mediadora e formativa.

Em seguida, a segunda parte do livro enfatiza discussões atuais que envolvem as questões de gênero, de inclusão, de relações étnico-raciais e de educação ambiental. Os textos são pertinentes para que sejam repensadas as práticas em aula ao fomentar um espaço que promova a igualdade de oportunidades prezando pelo respeito às diferenças. Destaca-se a importância da formação continuada dos professores, apontada como um dos motivos para a ausência do atendimento de qualidade para os alunos com deficiência, por exemplo.

 A terceira e a quarta partes do livro contêm as contribuições mais ricas para a prática do professor. A terceira disserta sobre as Unidades Temáticas que compõem a Cultura Corporal do Movimento Humano: brincadeiras e jogos, esportes, ginásticas, danças e lutas. Os capítulos são divididos em considerações gerais e área das linguagens, o trabalho com os anos iniciais e as ilustrações didáticas com diversas sugestões de como conduzir o trabalho a partir de cada um dos elementos.

Por fim, a quarta parte traz ideias inovadoras para o cotidiano das aulas que extrapolam a Base Nacional Comum Curricular. Atividades como o circo, as práticas corporais de aventura, o Yoga e abordagens sobre saúde são apresentadas de forma simples e clara, contando inclusive com exemplos práticos para o desenvolvimento de cada uma das atividades em aula. A unidade colabora para que se pense para além do comum, utilizando os espaços da própria escola, viabilizando a criação de novas possibilidades na mente de quem lê.

É possível concluir que A Educação Física nos anos Iniciais é uma leitura fluída, agradável, atual e, acima de tudo, útil para o cotidiano de professores de Educação Física que procuram qualificar o seu fazer docente. Baseia-se nos documentos que normatizam a prática educacional, auxiliando no agir de forma sistemática, organizada, reflexiva e constante, comprometendo-se com o ato de planejar, de executar e de avaliar. Contribui para que o professor revisite e reajuste a sua própria prática no intuito de assegurar aos alunos a reconstrução dos conhecimentos e a ampliação da consciência sobre seus movimentos, o cuidado de si e dos outros, bem como sobre ser autônomo para se apropriar e utilizar os diferentes elementos da cultura corporal do movimento humano, por meio da reflexão sobre a ação e da criação de jogos, brincadeiras, etc. Assim, caminhamos para assegurar a legitimidade da disciplina de Educação Física para o desenvolvimento integral dos estudantes, em especial, os dos primeiros anos de escolaridade.


Resenha do livro A Educação Física nos anos iniciais, organizado por Denise Grosso da Fonseca e Roseli Belmonte Machado e editado pela Sulina (Porto Alegre, 2019)

Sobre a resenhista:

Natálie Rodrigues é licenciada em Educação Física, especialista em Motricidade Infantil pela Esefid e mestra em Educação pelo PPGEDU/UFRGS. Atualmente, é professora na rede municipal de ensino de Cachoeirinha/RS e doutoranda em Educação em Ciências pelo PPGEC/UFRGS.

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